Informação Alternativa

Portugal

04/11/2005

 

A proposta de Orçamento para 2006 do governo determina o aumento dos impostos e o agravamento da injustiça fiscal

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

O governo tem continuamente afirmado que a proposta de orçamento para 2006 não determinará aumento de impostos. Mas isso não é verdade, como se prova neste estudo utilizando dados constantes da própria proposta.

 

Efectivamente, em 2006, os portugueses vão ter de pagar mais 2.056 milhões de euros (412,2 milhões contos) do que em 2005. De acordo com os dados que constam do Relatório da Proposta do Orçamento para 2006, o aumento do IVA de 19% para 21% determinou um aumento de receitas, em 2005, de 250 milhões de euros, mas, em 2006, o governo prevê que atinja 650 milhões de euros, ou seja, mais 160%.

 

Em 2006, a injustiça fiscal vai aumentar ainda mais. E isto porque em cada 100 euros de receitas fiscais cobradas pelo Estado em 2002, 58,2 euros eram receitas provenientes de Impostos Indirectos; mas, em 2006, o governo prevê que, em cada 100 euros de receitas fiscais que cobrará, 62,6 euros são receitas provenientes de Impostos Indirectos. Assim, entre 2002 e 2006, o peso dos Impostos Indirectos nas receitas fiscais totais do Estado aumentará 4,4 pontos percentuais, pois passará de 58,2% para 62,6% das receitas fiscais totais. E, como se sabe, os Impostos Indirectos (ex. IVA) são mais injustos do que os Impostos Directos, porque os primeiros não têm em conta a dimensão do rendimento de cada contribuinte, como acontece com os segundos. Um contribuinte com um rendimento igual ao salário mínimo nacional quando compra produtos de 1ª necessidade (pão, leite, etc.) paga os mesmos euros de imposto indirecto (neste caso, IVA) que paga um contribuinte com um rendimento mensal igual a 10 salários mínimos quando compra os mesmos produtos.

 

O governo pretende aumentar os valores dos escalões do IRS em apenas 2,3%, com a justificação de que a inflação aumentará 2,3% em 2006. Em 2004 e em 2005, os escalões do IRS foram aumentados apenas em 2%, mas a inflação aumentou, no primeiro daqueles anos, 2,5% e, em 2005, já vai nos 2,2%. Assim, os trabalhadores que tiverem em 2006 um aumento salarial superior a 2,3% correm o risco de subir de escalão e uma parcela do seu rendimento ser sujeita a uma taxa de IRS mais elevada.

 

Em 2005, a dedução específica que vigora para os reformados é de 8.283 euros. Em 2006, o governo pretende não só não actualizá-la, mas reduzi-la para 7.500 euros, ou seja, diminuí-la em 783 euros. Isto significa que todos os reformados que recebam uma pensão superior a 535 euros por mês terão de pagar, em 2006, mais IRS do que pagaram em 2005, mesmo que não tenham qualquer aumento nas suas pensões. E isto porque existirá uma parte do seu rendimento que antes estava isento de IRS – 783 euros – que passará a estar sujeito a imposto, e por isso cada reformado terá de pagar IRS referente a ele. Assim, para estes reformados, mesmo que as suas pensões não aumentem, o imposto que terão de pagar aumentará. Estima-se que esta medida do governo atinja mais de 800.000 reformados. E o governo ainda diz que não há aumento de impostos.

 

Enquanto toma estas medidas, o governo pediu uma autorização legislativa para conceder mais benefícios fiscais aos fundos de investimento e introduziu novamente os PPR’s em que governo prevê que determine, só em relação à matéria tributável de 2006, uma perda de receitas fiscais que avalia em 85 milhões de euros.

 

Uma das teclas mais matraqueadas pelo governo na sua campanha mediática para convencer os portugueses da bondade da sua proposta de orçamento que apresentou, é que ela não contém aumentos de impostos nem determinará um aumento da carga fiscal em 2006. Isso não corresponde à verdade, como provaremos neste estudo utilizando dados da própria Proposta de Orçamento de Estado para 2006.

 

AUMENTO DA CARGA FISCAL EM 2006

 

Os dados do quadro seguinte mostram que o valor dos impostos pagos pelos portugueses vai aumentar em 2006.

 

 

QUADRO I – Valor total dos impostos pagos pelos portugueses em 2005 e em 2006

DESIGNAÇÃO

IMPOSTOS

2005

2006

AUMENTO DOS IMPOSTOS

Estimativa – Milhões €

Orçamento – Milhões €

Em Milhões euros

Em percentagem

IRS

7.750,0

8.287,0

537,0

6,9%

IRC

3.660,0

3.830,0

170,0

4,6%

Outros

141,0

25,0

-116,0

-82,3%

IMPOSTOS DIRECTOS

11.551,0

12.142,0

591,0

5,1%

ISP

3.040,0

3.285,0

245,0

8,1%

IVA

11.600,0

12.585,0

985,0

8,5%

IA

1.160,0

1.200,0

40,0

3,4%

IT

1.215,0

1.325,0

110,0

9,1%

Selo e Estampilhas

1.465,0

1.525,0

60,0

4,1%

Outros

335,0

360,0

25,0

7,5%

IMPOSTOS INDIRECTOS

18.815,0

20.280,0

1.465,0

7,8%

TOTAL

30.366,00

32.422,00

2.056,0

6,8%

FONTE: 2005 e 2006: Relatórios OE2005 p.51 e OE2006 p.81

 

Em 2006, os portugueses vão ter de pagar mais 2.056 milhões de euros (412,2 milhões contos) do que em 2005. E a parcela mais importante não resulta do combate à fraude e evasão fiscal, como o governo pretende fazer crer. De acordo com os dados fornecidos pelo próprio governo, apenas 363 milhões de euros daquele aumento de 2.056 milhões de euros (portanto, somente 17,6%) resultarão eventualmente do combate à fraude e evasão fiscal.

 

Por outro lado, se a análise for feita por tipo de impostos, conclui-se que são os impostos que mais atingem os trabalhadores os que mais sobem.

 

Assim, a nível de Impostos Directos, o IRS, que é pago quase exclusivamente pelos trabalhadores (87% da matéria colectável declarada é de trabalho dependente e dos pensionistas) aumentará em 537 milhões de euros (+6,9%), enquanto o IRC , que incide sobre as empresas, crescerá apenas em 170 milhões de euros (+4,6%).

 

A nível de Impostos Indirectos, que são impostos por natureza injustos, pois não têm em conta o rendimento auferido por cada português, o que mais sobe é o IVA, que é pago também fundamentalmente pelos trabalhadores, o qual aumentará, entre 2005 e em 2006, em 985 milhões de euros (+8,5%). Por outro lado, de acordo com os dados que constam do Relatório da Proposta do Orçamento para 2006, o aumento do IVA de 19% para 21% determinou um aumento de receitas, em 2005, de 250 milhões de euros, mas em 2006 o governo prevê que atinja 650 milhões de euros, ou seja, mais 160%. E isto porque em 2005 os portugueses tiveram de suportar esse aumento menos de 6 meses, pois ele só entrou em vigor no 2º semestre, enquanto em 2006 terão de pagar esse aumento durante todo o ano.

 

O AGRAVAMENTO DA INJUSTIÇA FISCAL EM PORTUGAL EM 2006

 

Outro aspecto grave da proposta de orçamento do governo, é que ela aumenta ainda mais a já grave injustiça fiscal existente, como mostram os dados do quadro seguinte.

 

QUADRO II –Evolução do peso dos Impostos Directos e dos Impostos Indirectos em Portugal

DESIGNAÇÃO

IMPOSTOS

2002

Estimativa

Milhões €

2003

Estimativa

Milhões €

2004

Estimativa

Milhões €

2005

Estimativa

Milhões €

2006

Orçamento

Milhões €

PERCENTAGEM DO TOTAL

2002

2003

2004

2.005 €

2006 (O)

IRS

7.413,9

7.110,0

7.535,0

7.750,0

8.287,0

26,4%

25,9%

26,3%

25,5%

25,6%

IRC

4.203,7

3.464,0

3.637,0

3.660,0

3.830,0

15,0%

12,6%

12,7%

12,1%

11,8%

Outros

99,5

101,0

28,0

141,0

25,0

0,4%

0,4%

0,1%

0,5%

0,1%

I.DIRECTOS

11.717,1

10.675,0

11.200,0

11.551,0

12.142,0

41,8%

38,9%

39,1%

38,0%

37,4%

ISP

2.700,0

3.074,0

3.102,0

3.040,0

3.285,0

9,6%

11,2%

10,8%

10,0%

10,1%

IVA

9.813,5

9.812,0

10.388,0

11.600,0

12.585,0

35,0%

35,8%

36,3%

38,2%

38,8%

IA

1.211,0

971,5

1.115,0

1.160,0

1.200,0

4,3%

3,5%

3,9%

3,8%

3,7%

IT

1.117,3

1.240,0

1.145,0

1.215,0

1.325,0

4,0%

4,5%

4,0%

4,0%

4,1%

Selo e Estampilhas

1.192,3

1.337,6

1.430,0

1.465,0

1.525,0

4,3%

4,9%

5,0%

4,8%

4,7%

Outros

286,4

323,5

260,0

335,0

360,0

1,0%

1,2%

0,9%

1,1%

1,1%

I.INDIRECTOS

16.320,5

16.758,6

17.440,0

18.815,0

20.280,0

58,2%

61,1%

60,9%

62,0%

62,6%

TOTAL

28.037,60

27.433,60

28.640,00

30.366,00

32.422,00

100,0%

100,0%

100,0%

100,0%

100,0%

FONTE: 2002: Relatório OE2003, p.51; 2003: Relatório OE2004, p.60; 2004 e 2005: Relatórios OE2005 p.51 e OE2006 p.81

 

Os Impostos Indirectos são impostos mais injustos do que os Impostos Directos. E isto porque os primeiros – os Indirectos – não atendem ao rendimento de cada contribuinte. Por exemplo, quando um português que recebe apenas um salário mínimo compra qualquer bem de 1ª necessidade (leite, açúcar, pão, etc.), paga a mesma quantia de imposto que outro português, com um rendimento superior a 10 salários mínimos, paga quando adquire os produtos. Pelo contrário, os Impostos Directos são mais justos, porque quanto maior é o rendimento auferido pelo contribuinte maior é a taxa a pagar.

 

Como mostram os dados do quadro anterior, as receitas dos impostos que aumentarão mais em 2006 serão precisamente as dos Impostos Indirectos, ou seja, os impostos mais injustos. Efectivamente, em cada 100 euros de receitas fiscais cobradas pelo Estado, em 2002, 58,2 euros eram receitas provenientes de Impostos Indirectos; em 2004, eram já 60,9 euros; em 2005, 62 euros; mas, em 2006, o governo prevê que em cada 100 euros de receitas fiscais que cobrará 62,6 euros são receitas provenientes de Impostos Indirectos. Entre 2002 e 2006, o peso dos Impostos Indirectos nas receitas fiscais totais do Estado aumentará 4,4 pontos percentuais, pois passará de 58,2% para 62,6% das receitas fiscais totais do Estado.

 

ACTUALIZAÇÃO INSUFICIENTE DOS ESCALÕES DO IRS EM 2006 DETERMINA AUMENTO DE IMPOSTOS PARA OS TRABALHADORES

 

Outra medida contida na Proposta de Lei do Orçamento para 2006 que atingirá fortemente os trabalhadores é o aumento insuficiente do valor dos escalões do IRS, o que determinará que muitos trabalhadores tenham de pagar em 2006 taxas superiores de IRS em relação a uma parcela do seu rendimento. E isto porque se tiverem um aumento salarial, esse facto poderá determinar que passem para o escalão superior de taxa de imposto.

 

O quadro seguinte mostra o aumento do valor dos escalões do IRS constante da Proposta de Lei de Orçamento para 2006 do governo.

 

QUADRO III – Valores dos escalões e taxas de IRS em 2005 e 2006

2005

Proposta de OE 2006

Aumento percentual

dos valores dos Escalões

Entre 2005 e 2006

Valores dos Escalões

Euros

Taxas

Valores dos Escalões

Euros

Taxas

Normal

Média

Normal

Média

até

4.351

10,5

10,5

até

4.451

10,5

10,5

2,3%

4.351

6.581

13

11,3471

4.451

6.732

13

11,3471

2,3%

6.581

16.317

23,5

18,5985

6.732

16.692

23,5

18,5986

2,3%

16.317

37.528

34

27,3035

16.692

38.391

34

27,3037

2,3%

37.528