Informação Alternativa

Portugal

23/10/2005

 

A verdade e a mentira sobre as despesas da

administração pública em Portugal e na União Europeia

 

Eugénio Rosa

 

Um dos argumentos mais utilizados quer pelo governo quer pelo pensamento económico único, de cariz neoliberal, que domina os media é precisamente que o “peso” das despesas da Administração Pública em Portugal é muito superior à média comunitária, o que seria a causa de todos os problemas que enfrenta o País, nomeadamente a grave crise económica e social em que se debate. Com base neste argumento, o governo e as forças que o apoiam desencadearam um ataque gigantesco contra os trabalhadores da Administração Pública, considerando os seus direitos como privilégios, que têm de ser liquidados.

 

É evidente que este ataque contra os trabalhadores da Administração Publica é apenas a primeira fase de um ataque mais global a todos os trabalhadores portugueses, do sector público e privado, nomeadamente às funções sociais do Estado, ou seja, à saúde, à educação e à segurança social, já que todas as forças que atacam neste momento os trabalhadores da Administração Pública consideram que o Estado gasta demasiado com a saúde, com a educação e a segurança social de todos os portugueses. Por esta razão é necessário, dizem eles, reduzir as transferências do Estado para todas estas áreas, piorando a qualidade dos serviços prestados à população, e transferindo para esta uma parte dos custos, através do aumento das taxas e dos preços que paga. Com tal objectivo, muitos deles defendem abertamente a alteração da Constituição da República que obriga o Estado a financiar o Serviço Nacional de Saúde, a Educação e uma Segurança Social universal que abranja todos os portugueses.

 

O “PESO” DAS DESPESAS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA EM PORTUGAL CONTINUA A SER INFERIOR À MÉDIA COMUNITÁRIA

 

O Eurostat, que é o serviço oficial de Estatística da União Europeia, acabou de publicar despesas da Administração Pública referentes ao período que vai de 1993 a 2004, que constam do quadro seguinte.

 

QUADRO I DESPESAS TOTAIS COM A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA – Percentagem do PIB

 

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

 

ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS – % do PIB

UE (25 países)

:

:

:

:

:

:

:

46.1

47.1

47.6

48.3

47.7

UE (15 países)

:

:

53.3 (s)

50.9

49.2

48.2

47.7

46.1

47.2

47.6

48.4

47.8

Zona euro

:

:

54.1 (s)

51.5

50.0

49.2

48.7

46.9

48.2

48.5

49.0

48.2

Zona euro (12 países)

:

:

54.0 (s)

51.4

50.0

49.2

48.8

47.0

48.2

48.5

49.0

48.2

Portugal

47.8

46.0

43.4

44.1

43.0

42.3

43.7

43.7

44.8

44.7

46.2

46.5

FONTE: Eurostat

 

Como mostram os dados publicados recentemente pelo Eurostat, as despesas da Administração Publica em Portugal, medida em percentagem do PIB, que é o indicador mais utilizado nas comparações internacionais, continuam a estar abaixo da média comunitária. Por exemplo em 2004, em Portugal as despesas de toda a Administração Pública corresponderam a 46,5% do PIB (Produto Interno Bruto, ou seja, da riqueza criada em cada ano no País), enquanto a média comunitária se situava, como também mostram os dados do quadro, entre 47,7% e 48,2% do PIB comunitário, ou seja, da soma do PIB de todos os países que constituem actualmente a União Europeia.

 

Para além disso, os dados do quadro também revelam que não foi no ano de 2004 que esta percentagem atingiu o seu valor mais elevado. Em 1993, as despesas totais com a Administração Pública em Portugal representaram 47,8% do PIB enquanto, em 2004, já corresponderam a 46,5% do PIB, ou seja, menos 1,3 pontos percentuais do PIB que em 1993.

 

AS CONTRIBUIÇÕES DO ESTADO PARA A SEGURANÇA SOCIAL SÃO EM PORTUGAL INFERIORES À MÉDIA COMUNITÁRIA

 

Um outro argumento muito utilizado pelo governo e pelas forças que o apoiam é que as transferências do Estado para a segurança social são incomportáveis e muito superiores à média comunitária.

 

O Eurostat também acabou de publicar dados sobre esta matéria que constam do quadro seguinte, os quais provam que aquela afirmação também não é verdadeira.

 

QUADRO II – Prestações sociais pagas pela Administração Pública – Percentagem do PIB

 

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

 

ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS – % do PIB

UE (25 países)

:

:

:

:

:

:

:

15.9

15.9

16.1

16.4

16.2

UE (15 países)

:

:

17.1

17.3

17.0

16.5

16.3

15.9

16.0

16.2

16.4

16.3

Zona euro

:

:

17.2

17.6

17.5

17.0

16.9

16.5

16.5

16.8

17.0

16.9

Zona euro (12 países)

:

:

17.2

17.5

17.4

17.0

16.9

16.5

16.5

16.8

17.0

16.9

Portugal

11.2

12.6

11.3

11.4

11.2

11.3

11.4

11.9

12.1

12.7

13.7

14.3

FONTE: Eurostat

 

De acordo com a informação do Eurostat que acompanha estes dados, as prestações sociais consideradas abrangem a doença, a invalidez, os acidentes de trabalho ou doenças profissionais, a velhice, a sobrevivência, a maternidade, a família, a promoção do emprego, o desemprego, a indigência, etc..

 

E de acordo com o Eurostat, essas despesas da Administração Pública em Portugal representavam, em 2004, 14,3% do PIB quando a média comunitária variava, como mostram também os dados do quadro, entre 16,2% do PIB e 16,9% do PIB comunitário, ou seja, mais 2,6 pontos percentuais do que em Portugal.

 

O QUE É NECESSÁRIO É MODERNIZAR E AUMENTAR A EFICIÊNCIA DA ADMNISTRAÇÃO PÚBLICA E NÃO DESTRUÍ-LA

 

Contrariamente àquilo que afirma o pensamento económico dominante, o que é necessário para fazer sair o País da grave crise em que se encontra, não é reduzir a Administração Pública ou atacá­‑la e fragilizá-la, como o governo está a fazer, mas sim modernizar e aumentar a sua eficiência. E isto porque o País, para sair da estagnação económica em que se encontra mergulhado, necessita de mais e melhor educação, de mais e melhor saúde, de mais e melhor segurança social, de mais e melhor qualificação profissional, de mais e melhor qualidade de investimento, de mais e melhor justiça, etc. E isso só é possível com uma Administração Pública moderna e eficiente. Não será certamente o sector privado, mais interessado em maximizar os lucros sem olhar a meios (veja-se o caso da banca privada) a fazer isso.

 

E tudo isto só se consegue com uma grande motivação, mobilização e responsabilização dos trabalhadores da Administração Pública, ou seja, precisamente o contrário daquilo que o actual governo está a fazer.

 

O que País precisa, para poder sair da grave crise económica e social em que está mergulhado, não é de menos Administração como defende o pensamento económico neoliberal dominante, mas sim de MELHOR ESTADO para poder enfrentar, com êxito, os pesados problemas e desafios da estagnação e da globalização.