|
Informação Alternativa |
|
|
Portugal |
|
|
09/10/2005 Política de crédito
bancário contribui para a baixa produtividade e competitividade de Portugal Eugénio
Rosa
O Banco de Portugal acabou de publicar o seu Relatório
de Estabilidade Financeira – 2004 referente ao sistema bancário. O capítulo
5, dedicado à análise do “Risco de crédito”, contém dados importantes sobre a
política de crédito seguida pelos bancos que, convenientemente analisados,
ajudam a compreender algumas das causas da baixa produtividade e
competitividade da Economia Portuguesa. Neste estudo vai-se utilizar dados
publicados nesses relatório oficial para analisar a política de crédito da
banca em Portugal e as suas consequências nefastas em termos de
desenvolvimento do País. A CONCESSÃO DE CRÉDITO EM PERCENTAGEM DOS ACTIVOS
DIMINUIU NOS ÚLTIMOS ANOS EM PORTUGAL Se se analisar a evolução do crédito concedido
pelos bancos no período compreendido entre 1998 e 2004, não em euros, mas em
percentagem do valor do activo consolidado da banca, conclui-se que a partir
de 2002 verificou‑se uma tendência de diminuição, como mostra o
gráfico seguinte. Gráfico
I – Evolução da percentagem que o crédito concedido pela banca ao
sector privado não financeiro representa em relação ao activo
Em 1998, os empréstimos concedidos pelos bancos
representaram cerca de 44% dos activos; em 2002, tinha aumentado para os 58%
mas, em 2004, desceu para cerca de 55%. Esta diminuição está naturalmente
associada à quebra do investimento verificada em Portugal. Mas tão grave como
esta evolução quantitativa, é a qualidade do investimento que é apoiado e
promovido pelo sistema bancário. MAIS DE METADE DO CRÉDITO BANCÁRIO DESTINA-SE
EXCLUSIVAMENTE AO SECTOR IMOBILIÁRIO A banca move-se fundamentalmente com dois objectivos:
maximizar os lucros e reduzir os riscos nas aplicações que faz. Os objectivos
de desenvolvimento do País, de aumento da produtividade e competitividade da
Economia Portuguesa estão em segundo lugar para a banca, como mostram os
dados do gráfico II. Tudo isto é também a consequência inevitável da
privatização da banca e da sua sujeição aos interesses privados dos grandes
grupos económicos, a que o pensamento económico dominante chama “mercado”,
para assim os ocultar atrás de uma entidade mítica e objectiva, que
pretensamente está acima dos interesses de classe que continuam a dividir as
sociedades actuais. GRÁFICO
II – Evolução do crédito bancário destinado ao sector
imobiliário em percentagem do crédito total dos bancos
Entre 1997 e 2004, verifica-se um aumento muito
significativo do peso do crédito bancário destinado exclusivamente ao sector
imobiliário em Portugal. Em 1997, este tipo de crédito representava cerca de
49% do total de empréstimos concedidos ao sector privado financeiro pela banca
e, em 2004, já atingia cerca de 60%. E, como mostra o gráfico anterior, a
tendência é de contínuo crescimento (tem aumentado cerca de 1,67 pontos
percentuais por ano). É evidente que esta estrutura do crédito bancário
reflecte a estrutura do investimento realizado em Portugal que é promovido
pelo sistema bancário português. Como afirma o próprio Banco de Portugal no seu Relatório
de Estabilidade Financeira – 2004, «a manutenção de um crescimento forte
deste tipo de crédito deverá continuar a traduzir, do lado da oferta, a
necessidade de evitar a perda de quotas de mercado, num contexto de forte
pressão concorrencial» (pág. 76). Desta forma, os interesses de rápido
desenvolvimento do País submetem-se à lógica do mercado e à luta, entre os
diversos bancos, para obter uma quota maior deste. O INVESTIMENTO MAIS APOIADO PELA BANCA NÃO SE
DESTINA A EMPRESAS QUE PRODUZEM BENS TRANSACIONÁVEIS, OU SEJA, PARA A
EXPORTAÇÃO O governo afirma que o País só poderá sair da
grave crise em que se encontra se exportar mais. Para isso terá de investir
fundamentalmente na produção de bens transaccionáveis. No entanto, isso não tem qualquer concretização
na política de crédito promovida pela banca, como reconhece o próprio Banco
de Portugal. Assim, na pág. 68 do seu Relatório de
Estabilidade Financeira – 2004, o Banco de Portugal afirma o seguinte: «Em
conclusão, a generalidade dos grupos bancários concentra a sua carteira de
empréstimos nos segmentos em que o risco de crédito é relativamente baixo,
tais como empréstimos a particulares para habitação e, no caso das sociedades
não financeiras, os empréstimos a grandes empresas do sector de bens não
transaccionáveis», ou seja, de bens que não são exportáveis; ou seja, fazem
precisamente o contrário daquilo que o governo afirma que é necessário
realizar para que o País saia da grave crise económica em que se encontra. É
a lógica do mercado a funcionar, consequência também da privatização do
sector bancário e do seu controlo pelos grupos económicos. O ENDIVIDAMENTO DOS PARTICULARES EM PORTUGAL É
SUPERIOR À MÉDIA DA UNIÃO EUROPEIA Contrariamente ao que muitas vezes se pretende
fazer crer, o endividamento dos particulares em Portugal já é bastante
superior à média da União Europeia, como mostra o gráfico seguinte. GRÁFICO
III – Percentagem que o endividamento das famílias representa
do Rendimento
Disponível em Portugal e na União Europeia: 2000-2004
Em Portugal, no ano de 2004, o endividamento dos
particulares atingiu cerca de 118% do Rendimento Disponível, enquanto a média
na União Europeia era, no mesmo ano, de apenas 98% do Rendimento Disponível.
Por outro lado, enquanto no nosso País se verifica uma tendência de
crescimento contínuo e significativo (entre 2000 e 2004, aumentou mais de 20
pontos percentuais) a média na União Europeia tem tendido para a
estabilização (entre 2000 e 2004, manteve-se nos 98% do rendimento
disponível). Este crescimento contínuo e significativo do endividamento das famílias determinou que elas tiveram de pagar à banca, só de juros, o correspondente a 5% do rendimento disponível, ou seja, a 4.748 milhões de euros (951,8 milhões de contos). Neste valor não está incluída a amortização dos empréstimos que é certamente várias vezes superior. Basta qualquer aumento determinado pelo Banco Central Europeu, que não atende aos interesses de um pequeno País como é Portugal, para desequilibrar o orçamento de centenas de milhares de famílias portuguesas. |