Informação Alternativa

Portugal

01/10/2005

 

A crise económica não afectou as 500 maiores empresas não financeiras. Lucros líquidos subiram 42% só em 2004

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Os lucros líquidos das 500 maiores empresas em Portugal somaram, em 2004, 3.111 milhões de euros (623,7 milhões de contos), tendo aumentado neste mesmo ano 42,1% relativamente a 2003. Se considerar o período 2001­‑2004, o aumento dos lucros destas empresas atingiu 86,7%. Estes dados mostram que a crise económica não está a afectar as maiores empresas, revelando-se até como anos dourados, contrariamente ao que sucede com as pequenas e médias empresas.

 

Este aumento de lucros tem-se verificado simultaneamente com um aumento menor de vendas e de crescimento do VAB (riqueza criada). Por ex. em 2004, os lucros cresceram 42,1%, as vendas 7,1% e o VAB 21,3%. Aquele crescimento dos lucros parece ter sido conseguido fundamentalmente pela redução da percentagem do VAB destinada ao pagamento de impostos ao Estado e ao pagamento de remunerações aos trabalhadores.

 

Em 2004, cerca de 15% de toda a riqueza criada no nosso País já era controlada pelas 500 maiores empresas, tendo-se verificado uma tendência de aumento contínuo nos últimos 4 anos. Efectivamente, entre 2001 e 2004, o VAB destas 500 empresas aumentou de 16.080 milhões de euros para 18.554 milhões de euros. E estas empresas empregavam em 2004 apenas 6,1% da população empregada.

 

Em 2004, a Autoeuropa, uma das maiores empresas a funcionar em Portugal, continuou a não divulgar dados de natureza económica e financeira. Em 1999, os lucros da Autoeuropa atingiram 12,3 milhões de contos e, em 2000, cerca de 16,2 milhões de contos; portanto, num ano apenas aumentaram 32,5%. A partir de 2000 a Autoeuropa deixou de divulgar dados de natureza económica e financeira, tendo imposto pouco depois um congelamento de salários aos seus trabalhadores por 3 anos, que se prolonga até Setembro de 2005, determinando uma redução do poder de compra dos salários dos trabalhadores em cerca de 8%.

 

Mesmo em relação às estruturas representativas dos trabalhadores da Autoeuropa, a empresa tem dito que são dados confidenciais, violando a lei portuguesa (art.º 503 do Código do Trabalho e art.º 358 da Lei 35/2004). É evidente que a Autoeuropa, ao ocultar aquilo que outras empresas a funcionar em Portugal, mesmo estrangeiras, divulgam todos os anos, para além de ser uma violação da lei, levanta suspeitas na opinião pública que esta empresa teria todo o interesse em esclarecer.

 

No estudo anterior analisamos a actividade da banca em Portugal, tendo-se mostrado que a taxa efectiva dos impostos sobre lucros pagos por este sector ao Estado (12,1%) representou, em 2004, menos de metade da taxa do IRC em vigor nesse ano (25%); que a parte da riqueza apropriada pelos bancos que é utilizada no pagamento das remunerações aos trabalhadores tem diminuído de uma forma continuada, registando uma quebra de mais de 11% entre 1998 e 2004; e que os lucros líquidos representam mais de 29% do chamado Produto Bancário (VAB do sector bancário), o que prova que a banca coexiste bem com a crise económica.

 

Neste estudo vai-se mostrar que, contrariamente ao que muitas vezes se afirma ou pretende fazer crer, a crise económica que enfrenta o País não está a atingir apenas o sector. E isto porque os lucros das 500 maiores empresas não financeiras a funcionar em Portugal têm registado um crescimento vertiginoso nos últimos anos.

 

LUCROS LÍQUIDOS DAS 500 MASIORES EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS AUMENTARAM 86% ENTRE 2001 E 2004

 

Os dados constantes do quadro seguinte, publicados pela revista EXAME no seu número especial dedicado às 500 maiores e melhores empresas, mostram que o aumento percentual dos lucros líquidos destas empresas, entre 2001 e 2004, portanto no período de grande crise económica nacional, foi 3,4 vezes superior ao aumento verificado nas vendas e 5,6 vezes superior ao crescimento percentual verificado no VAB (riqueza criada por estas empresas.

 

QUADRO I – Aumentos das Vendas , do VAB e dos Lucros das 500 maiores

empresas não financeiras a funcionar em Portugal entre 2001 e 2004

 

VENDAS

VAB

(Riqueza criada)

LUCROS LÍQUIDOS

Variação percentual em

ANOS

Milhões

Milhões

Milhões

relação ano anterior

 

Euros

Euros

Euros

Vendas

VAB

Lucros

2001

67.779

16.080

1.666

 

 

 

2002

72.083

17.002

2.176

6,4%

5,7%

30,6%

2003

79.219

15.293

2.189

9,9%

-10,1%

0,6%

2004

84.878

18.554

3.111

7,1%

21,3%

42,1%

2001-04

25,2%

15,4%

86,7%

 

 

 

FONTE: Revista EXAME – Edição Especial de 2005

 

Entre 2001 e 2004, as vendas das 500 maiores empresas a funcionar em Portugal cresceram 25,2%; o VAB, ou seja, a riqueza criada por estas empresas aumentou 15,4%, mas os lucros líquidos subiram 86,7%. O ano de 2004, foi um ano de ouro para estas empresas pois, enquanto o País continuava a debater-se numa grave crise económica e social, os lucros líquidos destas empresas aumentaram 42,1% num único ano.

 

Como se sabe, o VAB, ou seja, a riqueza criada é aplicada em amortizações, no pagamento das remunerações aos trabalhadores, dos impostos ao Estado e dos lucros e juros pelos diversos detentores do Capital. Como entre 2001 e 2004, os lucros líquidos destas 500 maiores empresas cresceram 5,6 vezes mais do que o VAB (entre 2001 e 2004, os lucros aumentaram 86,7% e o VAB apenas 15,4%), é legitimo concluir que, se isso sucedeu, é porque a parte destinada aos trabalhadores (remunerações pagas por estas empresas) e ao Estado (impostos pagos por elas) diminuiu. A provar isso, está o facto de que, em 2001, os lucros líquidos representavam 10,4% do VAB enquanto, em 2004, já correspondiam a 16,8% do VAB, ou seja, cresceram 61,8%.

 

MAIS DE 15% DE TODA A RIQUEZA NACIONAL É JÁ CONTROLADA PELAS 500 MAIORES EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS

 

Em 2004, as 500 maiores empresas não financeiras empregavam 326.909 trabalhadores, o que correspondia a 6,1% da população empregada. No entanto, em percentagem do VAB nacional, ou seja, de riqueza criada no País corresponde a cerca de 2,5 vezes mais, como mostram os dados do quadro seguinte.

 

QUADRO II – Riqueza criada no País e riqueza criada pelas 500 maiores empresas

 

PORTUGAL

500 Maiores Empresas

Percentagem que o VAB das

das 500 maiores representam

em relação ao VAB de Portugal

ANOS

VAB

VAB

 

Milhões euros

Milhões euros

2001

111.239

16.080

14,5%

2002

116.109

17.002

14,6%

2003

117.772

15.293

13,0%

2004

122.416

18.554

15,2%

Fonte: VAB Portugal – Contas Nacionais – INE; 500 ME: Revista EXAME – 2005

 

Em 2004, o VAB destas 500 maiores empresas correspondia a 15,2% do VAB nacional. Por outro lado, os dados do período 2001-2004 constantes do quadro anterior mostram que a percentagem da riqueza nacional controlada pelas 500 maiores empresas tem aumentado, registando mesmo uma tendência de crescimento contínuo pois, entre 2001 e 2004, o VAB destas empresas passou de 14,5% do VAB nacional para 15,2%.

 

Por outro lado, se calcularmos para o ano de 2004 o valor do VAB por empregado destas 500 maiores empresas, normalmente conhecido por produtividade do trabalho, e se fizermos o mesmo para todo o País, obtemos os seguintes valores: (1) Para as 500 maiores empresas, 56.755 euros por empregado; (2) Para todo o País, 23.896 euros por trabalhador. Isto significa que a produtividade média por empregado nas 500 maiores empresas a funcionar em Portugal é 2,37 vezes superior à média nacional.

 

Esta diferença tão grande de produtividade entre as empresas a funcionar em Portugal, prova que a causa da baixa produtividade da Economia Portuguesa não está nem na chamada “rigidez” das leis laborais portuguesas, nem no custo do trabalho, mas sim na gestão e na organização da produção, bem como na qualidade do investimento realizado. E isto porque empresas com as mesmas leis laborais e com “custos do trabalho” idênticos apresentam valores de produtividade muito diferentes.

 

PORQUE RAZÃO A AUTOEUROPA DEIXOU DE DIVULGAR DADOS ECONÓMICOS E FINANCEIROS SOBRE A SUA ACTIVIDADE EM PORTUGAL?

 

A Autoeuropa é uma das maiores empresas a funcionar em Portugal. Contrariamente ao que sucede com centenas de grandes empresas portuguesas e estrangeiras a funcionar no nosso País, em 2004, tal como sucedeu nos três anos anteriores, a Autoeuropa não divulgou dados económicos e financeiros da sua actividade em Portugal.

 

Até ao ano 2000, a Autoeuropa divulgou dados económicos e financeiros como acontece com todas as empresas a funcionar em Portugal e como resulta da própria lei portuguesa. A partir daquela data deixou de o fazer, considerando tais dados como confidencias mesmo para os delegados sindicais e para os membros da Comissão de Trabalhadores. E isto apesar da lei portuguesa estabelecer que os representantes dos trabalhadores têm direito a tal informação.

 

Efectivamente o art.º 503 do Código do Trabalho dispõe textualmente que os delegados sindicais gozam do direito de ter «informação sobre a evolução recente e a evolução provável da empresa ou do estabelecimento e a sua situação económica». E o art.º 356 da Lei 35/2004 estabelece que o direito de informação da Comissão de Trabalhadores abrange, entre muitas, as seguintes matérias: (a) Planos gerais da empresa e orçamento; (b) Balanço, conta de resultados e balancetes trimestrais; (c) Impostos e pagamentos à segurança social; (c) Previsão, volume e administração de vendas, etc.. E segundo o n.º 1 e 2 do art.º 358 da Lei 35/2004 esta informação é solicitada à empresa por escrito, e a empresa é obrigada a prestá-la também por escrito num prazo de 8 dias que excepcionalmente poderá ser alargado para 15 dias.

 

No entanto, a administração da Autoeuropa deve considerar que está acima da lei e, infelizmente, parece que tem contado com a “compreensão/aceitação” da Comissão de Trabalhadores pelo menos neste campo.

 

A Autoeuropa é uma das poucas grandes empresas que conseguiu impor aos seus trabalhadores um congelamento de salários durante 3 anos seguidos (não conheço nenhuma grande empresa que fez o mesmo) e que pretendeu apresentar esse “acordo” como exemplo a ser seguido por outras empresas do nosso País. Nestes 3 anos de congelamento salarial os trabalhadores da Autoeuropa viram os seus salários perder mais de 7% do seu poder de compra que dificilmente será recuperado no futuro.

 

A decisão da Autoeuropa em deixar de divulgar os dados de natureza económica e financeira que todas as outras empresas disponibilizam ainda se torna mais suspeita se se tiver presente, por um lado, que isso sucedeu precisamente pouco tempo antes da empresa ter imposto o congelamento dos salários aos seus trabalhadores e, por outro lado, face aos dados divulgados pela empresa até 2000, que constam do quadro seguinte.

 

QUADRO III – Aumento das vendas, do VAB (riqueza criada em cada ano),

dos lucros e da produtividade da AUTOEUROAPA em 1999 e 2001

ANOS

VENDAS

LUCROS

Líquidos

AUMENTO DOS LUCROS

VAB

Número

Trabalha-

dores

PRODUTIVIDADE

DO TRABALHO

Milhões

Milhões

Num

ano

Em 3

anos

Milhões

VAB/Trab.

contos

contos

contos

Contos

1999

419,7

12,3

349,9%

 

72,49

4.000

18.123

2000

418,5

16,2

32,5%

180,3%

86,282

4.300

20.066

FONTE: Revista EXAME – CD-ROM distribuído no número especial de 2005

 

Entre 1999 e 2000, a Autoeuropa registou um crescimento muito grande dos seus lucros líquidos pois passaram de 12,3 milhões de contos para 16,2 milhões de contos, tendo aumentado 32,5% num único ano (em 1999, o aumento fora de 349,9%, como provam os dados do quadro). Se se considerar um período mais longo de 3 anos, conclui-se que o aumento dos lucros, de acordo com os dados divulgados pela revista EXAME, não foi menor, já que atingiu 180,3%.

 

A produtividade do trabalho da Autoeuropa, que é medida pelo VAB (Valor Acrescentado Bruto, que corresponde à riqueza criada em cada ano na empresa) a dividir pelo número de trabalhadores, aumentou num ano apenas 10%, pois passou de 18.123 contos para 20.066 contos por trabalhador, sendo cerca de 78% superior à média da produtividade das 500 maiores empresas em 2000 que era, por sua vez, muito superior à produtividade média das empresas portuguesas.

 

E foi precisamente pouco tempo depois que a Autoeuropa conseguiu impor aos seus trabalhadores o congelamento de salários por um longo período de 3 anos. O menos que se poderia esperar numa situação tão excepcional como esta de forte perda de poder de compra para os trabalhadores (cerca de –8%) era que a empresa tornasse a situação transparente fornecendo aos trabalhadores dados verdadeiros sobre a sua situação económica e financeira, até porque isso é imposto pela lei portuguesa.

 

No entanto, foi precisamente a partir dessa altura que a Autoeuropa passou a ocultar a informação económica e financeira. A suspeita levanta-se naturalmente e seria bom que a empresa a divulgasse e os representantes dos trabalhadores a exigissem, pois é um direito consagrado na lei portuguesa de que, a nosso ver, não devem abdicar, sob pena de estarem a dar cobertura à violação da lei pela empresa e os trabalhadores da Autoeuropa estarem a ser profundamente lesados pela perda do poder de compra dos seus salários.