Informação Alternativa

Portugal

25/09/2005

 

A banca paga metade da taxa de IRC, as remunerações dos trabalhadores representam apenas 30% do “VAB” do sector, e faltam 530 milhões de contos nos fundos de pensões

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Em Portugal, no ano de 2004, a percentagem do PIB (riqueza criada em cada ano) que reverte para os trabalhadores sob a forma de remunerações atingiu apenas 40%, enquanto a média na União Europeia rondou os 51%. No nosso País, 73% da população activa recebe apenas 40% da riqueza criada, o que revela um grau de desigualdades muito elevado.

 

Se se fizer o mesmo tipo de análise em relação ao sector bancário conclui-se que, em 2004, de acordo com dados publicados pelo Banco de Portugal, as remunerações dos trabalhadores bancários, retirando as contribuições patronais para os fundos de pensões e para a segurança social, a fim dos dados poderem ser comparáveis com os anteriores, deverá ter rondado apenas 30% do VAB (Valor Acrescentado Bruto) do sector bancário, tendo descido 5 pontos percentuais desde 1998, ou seja, a desigualdade na repartição da riqueza era ainda mais grave do que a nível nacional e tem-se agravado ao longo dos anos.

 

Em 2004, os impostos sobre lucros pagos pela banca ao Estado foram inferiores, mesmo em valores nominais, aos de 1998, tendo representado, em 1998, 22,8% dos lucros antes de impostos e, em 2004, apenas 12,1%, ou seja, metade da taxa de IRC em vigor nesse ano. No período compreendido entre 1998 e 2004, a banca pagou de impostos sobre lucros ao Estado 2.815 milhões de euros, mas arrecadou 14.363 milhões de euros de lucros líquidos, ou seja, cinco vezes mais do que os impostos pagos, o que mostra que a privatização da banca foi um mau negócio para o País, mesmo em termos financeiros, porque se a banca fosse pública uma grande parte destes lucros constituiriam receitas do Orçamento do Estado, contribuindo para reduzir o défice orçamental.

 

No fim de 2004, as responsabilidades dos Fundos de Pensões dos trabalhadores dos cinco maiores bancos somavam 8.862,2 milhões de euros. No entanto, o valor do património para cobrir essas responsabilidades era apenas de 6.216,2 milhões de euros, o que significava que estavam em falta nesses fundos 2.645,9 milhões de euros (530 milhões de contos) para estarem totalmente provisionados. É urgente alterar a lei dos fundos de pensões para que os trabalhadores bancários no activo e na reforma possam controlar os seus fundos de pensões, como já sucede em países da União Europeia (ex. Espanha), pois em Portugal os banqueiros continuam a utilizar como querem o dinheiro dos fundos de pensões dos trabalhadores sem terem de prestar quaisquer contas ou informações dos seus actos aos principais interessados.

 

Num estudo anterior [1] que fizemos, utilizando dados do Eurostat e do Banco de Portugal, mostrámos que, entre todos os países da União Europeia, era precisamente em Portugal que a parte do PIB (Produto Interno Bruto), ou seja, da riqueza criada em cada ano que reverte para os trabalhadores sob a forma de remunerações era mais baixa. Efectivamente, em 2004, enquanto na UE25 essa parte representava, em média, 51% do PIB, em Portugal era apenas de 40%.

 

Neste estudo, vamos procurar fazer a mesma análise para o sector bancário. Como se sabe, o PIB resulta do somatório dos VAB (Valor Acrescentado Bruto) de cada sector. Para isso, teremos de calcular o VAB do sector bancário a partir do Produto Bancário já que não existem dados do VAB disponíveis.

 

Mas antes interessa esclarecer os conceitos que vão ser utilizados para que os resultados obtidos sejam facilmente compreensíveis.

 

Os resultados da actividade bancária resultam, em primeiro lugar, da diferença entre os proveitos financeiros que a banca obtém pelas aplicações que faz (por ex.: juros que cobra pelos empréstimos que realiza) e os custos financeiros resultantes dos recursos que capta (por ex., juros que paga aos depositantes). A esta diferença chama-se MARGEM FINANCEIRA (MF). Se se adicionar à MF os proveitos dos rendimentos dos títulos e dos serviços bancários que presta (por ex., comissões que cobra por cada transferência, por cada empréstimo, etc.), obtém-se o chamado PRODUTO BANCÁRIO.

 

É com este Produto Bancário, obtido desta forma, que os bancos pagam os chamados custos operativos, que incluem os Custos com Pessoal e os Custos com Fornecimentos e Serviços de Terceiros (FST), ficando o resto para amortizações, provisões, impostos, e lucros. Portanto, se retirarmos ao Produto Bancário os Custos com Fornecimentos e Serviços de Terceiros obtemos aquilo que praticamente coincide com o VAB que se obtém para os outros sectores.

 

É isso que se vai calcular seguidamente utilizando dados constantes do Relatório de Estabilidade Financeira de 2004 publicado pelo Banco de Portugal.

 

ENTRE 1998 E 2004, A PERCENTAGEM QUE OS CUSTOS DE PESSOAL REPRESENTAM DO “VAB” DO SECTOR BANCÁRIO DIMINUIU 11,6%, MAS A PRODUTVIDADE POR TRABALHADOR AUMENTOU 57,5%

 

Os dados do quadro seguinte são dados do Banco de Portugal, portanto são dados oficiais e correctos. Qualquer leitor pode ter acesso a eles, consultando o site do Banco de Portugal.

 

Como já se explicou, para obter o valor do VAB do sector bancário subtraímos ao valor do Produto Bancário os Custos com os Fornecimentos e Serviços de Terceiros. No entanto, os Custos com Pessoal que constam do quadro II, incluem, para além das remunerações dos trabalhadores do sector bancário, outros custos como as remunerações e outros benefícios pagos aos administradores assim como as transferências para os Fundos de Pensões e para o Regime Geral dos trabalhadores inscritos neste regime. Mesmo assim, a percentagem que, do VAB, reverte para os trabalhadores é significativamente baixa como revelam os dados do quadro, o que torna evidente a grande desigualdade na repartição da riqueza que se verifica no sector bancário entre os trabalhadores e as entidades patronais.

 

QUADRO I – Evolução da produtividade e da percentagem que os

Custos de Pessoal representam no VAB do Sector Bancário. 1998­‑2004

 

ANOS

 

Em Milhões de Euros

N.º

Traba-

lhadores

Produtividade

VAB/Trabalhador

Mil euros

Custos

com Pessoal

Milhões Euros

% Custos

do Pessoal

do VAB

Produto

Bancário

Fornecimentos e Serviços de

Terceiros (FST)

VAB= Produto

Bancário –

( FST)

1998

7.500

1.531

5.969

59.912

99,629

2.525

42,3%

1999

7.721

1.626

6.095

60.453

100,822

2.608

42,8%

2000

8.321

1.625

6.696

58.864

113,754

2.626

39,2%

2001

9.024

1849

7.175

55.375

129,571

2.722

37,9%

2002

9.154

1.929

7.225

53.623

134,735

2.812

38,9%

2003

9.839

2.021

7.818

52.866

147,883

2.949

37,7%

2004

10.222

2.135

8.087

51.523

156,959

3.025

37,4%

Variação

36,3%

39,5%

35,5%

–14,0%

57,5%

19,8%

–11,6%

Fonte: Relatório de Estabilidade Financeira – 2004 – Banco de Portugal

 

Entre 1998 e 2004, a percentagem que os Custos com Pessoal representam no VAB do sector bancário desceu de 42,3% para apenas 37,4%, ou seja, teve uma redução de 11,6%. E tenha-se presente que os Custos de Pessoal incluem, como já se referiu, muitas mais despesas do que as remunerações que os trabalhadores recebem.

 

Por essa razão, os 37,4% que representam os Custos de Pessoal no VAB do sector bancário em 2004 não podem ser comparados com os 40% que representam as remunerações recebidas por todos os trabalhadores portugueses do PIB no ano de 2004. Para os dados serem comparáveis, haveria que retirar aos 37,4% do sector bancário a parte correspondente às contribuições patronais para os Fundos de Pensões e para o Regime Geral da Segurança Social. Fazendo isso, aquela percentagem desceria certamente para menos de 30% do VAB do sector bancário.

 

Em resumo, se a nível nacional os 40% que as remunerações representam em relação ao PIB já revelam uma situação de grande desigualdade na repartição da riqueza, pois a média que se verifica na União Europeia é de cerca de 51% do PIB, os 30% do VAB que os trabalhadores bancários recebem sob a forma de remunerações representa uma desigualdade ainda maior do que aquela que se verifica a nível de todo o País.

 

A REPARTIÇÃO “VAB” POR BANCOS SEGUNDO DADOS PUBLICADOS PELA REVISTA EXAME

 

A revista EXAME publicou um número especial em 2005, com dados dos bancos referentes a 2004, com base nos quais é possível calcular a percentagem para cada banco. No entanto, como rapidamente se conclui, os dados desta revista não coincidem com os publicados pelo Banco de Portugal. E embora sejam os dados publicados pelo Banco de Portugal que estão certos, no entanto vamos apresentar os dados dessa revista, já que permitem uma análise mais fina – banco a banco –, por um lado, e, por outro lado, possibilita aos trabalhadores de cada banco analisar esses dados e identificar as razões que explicam que eles não coincidam com os publicados pelo Banco de Portugal, que são dados consolidados.

 

QUADRO II – Percentagem que os Custos com Pessoal representam do VAB do sector bancário em 2004

BANCOS

 

 

Produto Bancário 1000 euros

Fornecimentos e Serviços Terceiros (FST) 1000 euros

VAB = Produto Bancário - FST 1000 euros

Custos com Pessoal 1000 euros

% Custos Pessoal representam do VAB

SANTANDER TOTTA, SGPS, S.A.

922.951

145.340

777.611

261.862

33,7%

BANCO COMERCIAL PORTUGUES, S.A.

2.319.293

583.598

1.735.695

852.520

49,1%

BANCO BPI, S.A.

751.656

169.342

582.314

283.365

48,7%

CAIXA GERAL DE DEPOSITOS, S.A.

1.623.303

411.952

1.211.351

626.685

51,7%

BANCO ESPIRITO SANTO, S.A.

1.279.634

289.388

990.246

330.143

33,3%

SUBTOTAL – Grandes bancos

6.896.837

1.599.620

5.297.217

2.354.575

44,4%

TECNICRÉDITO, SGPS, S.A.

60.357

11.867

48.490

5.644

11,6%

CREDIFIN - BANCO CREDITO CONSUMO, S.A.

31.255

15.232

16.024

6.015

37,5%

BANCO FINANTIA, S.A.

95.837

20.899

74.938

18.099

24,2%

BNC - BANCO NACIONAL DE CREDITO, S.A.

147.028

21.971

125.057

37.309

29,8%

BANCO CETELEM, S.A.

37.610

19.027

18.584

6.515

35,1%

FINIBANCO HOLDING, SGPS, S.A.

100.187

24.014

76.173

36.995

48,6%

BANIF – S.G.P.S., S.A.

228.536

57.834

170.702

81.883

48,0%

BPN - BANCO PORTUGUES DE NEGOCIOS, S.A.

186.128

70.781

115.347

52.506

45,5%

CAIXA CENTRALDE CREDITO AGRICOLA MUTUO

50.203

9.253

40.951

15.775

38,5%

CAIXA ECONOMICA MONTEPIO GERAL

296.511

63.960

232.551

126.692

54,5%

BANCO DE INVESTIMENTO GLOBAL, S.A.

13.095

3.656

9.440

5.846

61,9%

BANCO PRIVADO PORTUGUES, S.A.

32.778

8.260

24.518

6.544

26,7%

BANCO BILBAO VIZCAYA ARGENTARIA (Pt), S.A.

89.647

29.814

59.833

41.629

69,6%

BANCO ITAU EUROPA, S.A.

22.474

3.568

18.906

4.643

24,6%

RCI BANQUE PORTUGAL, S.A.

8.672

1.766

6.906

608

8,8%

BANCO ALVES RIBEIRO, S.A.

8.891

2.025

6.866

2.839

41,4%

BNP PARIBAS

13.691

3.616

10.075

6.212

61,7%

SUBTOTAL – Pequenos bancos

1.422.902

367.543

1.055.359

455.754

43,2%

TOTAL

8.319.739

1.967.163