Informação Alternativa

Portugal

03/07/2005

 

O défice orçamental não é insustentável. O que é insustentável é a estagnação económica e a grave injustiça social existente em Portugal

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

A ciência económica não é uma mera contabilidade entre receitas e despesas, nem a sua questão fundamental consiste em estabelecer a igualdade receitas = despesas como considerava Salazar, e como o programa “Prós e Contras” de 27 de Junho procurou também fazer numa operação de manipulação da opinião pública.

 

Contrariamente ao que se pretende fazer crer, o défice orçamental não é, nem sob o ponto de vista empírico nem sob o ponto de vista técnico, insustentável, nem é o problema mais grave que o País enfrenta. Ele é fundamentalmente consequência e sintoma de outros problemas muito mais graves cuja resolução é muito mais urgente, já que só esta é que poderá permitir o desenvolvimento sustentado de Portugal e a resolução de uma forma verdadeira e duradoura do problema do défice orçamental.

 

Em Portugal, com governos de Cavaco Silva, verificaram­‑se défices orçamentais mais elevados (por ex., em 1993, –8,9% do PIB) e não se ouviu nessa altura os defensores actuais do pensamento económico único dizer que eles eram insustentáveis.

 

Muito mais grave do que o défice orçamental é o défice comercial (–10,8% em 2004), que já atinge o dobro do défice orçamental, e que revela uma perda crescente de competitividade das empresas portuguesas quer nos mercados externos quer mesmo no mercado nacional, hipotecando assim Portugal como nação independente, mas que não tem merecido qualquer atenção.

 

A economia portuguesa está a crescer, em média, a um ritmo que corresponde a metade do da economia da União Europeia, e esta está a crescer a um ritmo correspondente a também metade do ritmo de crescimento da Economia Mundial. Tudo isto, a manter-se, só poderá determinar para Portugal mais estagnação económica e mais desemprego. A juntar a tudo isto, verifica-se uma crescente injustiça social, de que é prova o facto de que se em Portugal revertesse para os trabalhadores a mesma percentagem do PIB que em média reverte na União Europeia, os trabalhadores em Portugal teriam recebido, em 2004, mais 13.500 milhões de euros, ou seja, em média mais 250 euros por mês.

 

Num país como o nosso, em que o tecido económico e social é extremamente frágil, em que os empresários têm, em média, apenas 7,7 anos de escolaridade, o papel de uma Administração Pública moderna e eficiente é fundamental para assegurar a modernização das empresas e garantir um desenvolvimento sustentado do País.

 

O ataque violento que se verifica neste momento contra a Administração Pública e contra os seus trabalhadores põe em causa este importante papel que deverá ter a Administração Pública em Portugal. Serve de exemplo concreto a situação do sector têxtil em que, se não houver uma forte intervenção do Estado visando a modernização das empresas, inevitavelmente assistir-se-á no máximo daqui a 3 anos a milhares de despedimentos e à destruição de uma parte significativa deste importante sector produtivo.

 

O programa “Prós e Contras”, que de prós e contras só tem o nome, transformou-se num programa onde o verdadeiro debate tem estado ausente, através da construção artificial de unanimismos conseguidos por meio da selecção de participantes que têm, no fundo, a mesma posição. Assim, no realizado em 27 de Junho assistiu­‑se a um espectáculo de manipulação da opinião pública, em que se procurou reduzir a ciência económica a uma mera contabilidade (receitas = despesas) à boa maneira salazarista que levou o País ao estado de atraso conhecido, perante a passividade de todos os presentes, que acabaram por reforçar, com essa atitude e com a sua presença , e várias vezes até com as suas intervenções, essa mensagem contabilística da economia, assim como mais um ataque violento contra toda a Administração Pública em que os que têm opinião diferente foram afastados.

 

A análise empírica e técnica mostra, contrariamente ao que pretende fazer crer o pensamento económico que tem acesso aos media, que o défice orçamental português não é insustentável.

 

O défice orçamental português é apenas “insustentável” face aos critérios impostos pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu. E como os economistas sabem bem, estes critérios são cegos e não assentam em qualquer base técnica ou científica. Ele tem-se tornado preocupante porque tem sido gerado fundamentalmente por “investimentos” improdutivos, de que é apenas exemplo paradigmático a construção de 10 estádios de futebol, e por meio da manutenção de ineficiências na área da responsabilidade do governo.

 

Mas muito mais grave do que o défice orçamental é a estagnação e mesmo o retrocesso económico que se está a verificar em Portugal, determinado pela perda crescente de competitividade da Economia Portuguesa cujo indicador mais visível é o défice da Balança Comercial que atinge já o dobro do défice orçamental, mas que não tem merecido qualquer atenção nem por parte do governo nem do pensamento económico dominante nos media.

 

Concentrar as energias para resolver o problema da crescente falta de competitividade da Economia Nacional é muito mais importante para Portugal e para o futuro dos portugueses do que resolver o problema do défice orçamental. A resolução deste devia submeter­‑se à resolução daquele primeiro problema assim como a uma maior justiça social e não o contrário como está a suceder, o que só poderá levar à crescente destruição do já frágil aparelho produtivo português.

 

Isto não significa que o défice orçamental não tenha de ser controlado, e os dinheiros públicos não tenham de ser sujeitos a uma rigorosa gestão, mas sim que o défice orçamental só poderá ser efectivamente resolvido com o desenvolvimento sustentado do País.

 

O DÉFICE ORÇAMENTAL PORTUGUÊS NÃO É INSUSTENTÁVEL

 

A provar que o défice orçamental português não é insustentável está o facto de Portugal no passado já ter tido défices superiores ao actual, e apesar disso a economia cresceu e o País ultrapassou a situação. Os dados oficiais do quadro seguinte provam precisamente isso.

 

QUADRO I – Evolução do défice e da dívida pública em

percentagem do PIB, em Portugal e nos 15 países da União Europeia

Pais

DESIGNAÇÃO 

Cavaco Silva

PS – Guterres

PSD/PP

 

 

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

Portugal

Défice da Administração Pública (%PIB)

–8.9

–6.6

–4.5

–4.0

–3.0

–2.6

–2.8

–2.8

–4,4

–2,7

(–4,1)

–2,8

(–4,1)

–2,9%

(–5,2%) 

UE15

Défice da Administração Pública (%PIB)

 

 

 

4,2 

2,4

1,6

0,7

1,0 

1,1

2,1

2,7

 

Portugal

Dívida Pública (% do PIB)

59,1

62,1

64,3

62,9

59,1

55,0

54,3

53,3

55,8

58,4

60,3 

61%

UE15

Dívida Pública (% do PIB)

 

66,4 

70,8 

72,6 

71,0 

68,9

67,9

64,1 

63,3 

62,7 

64,3 

 

FONTE: 1993-2003: Eurostat; 2004: Relatório Constâncio (Os valores de 2002-2004 entre parêntesis correspondem aos valores do défice orçamental sem medidas extraordinários, como a transferência dos fundos de pensões da CGD)

 

Durante os governos de Cavaco Silva os défices orçamentais foram, em vários anos, superiores ao actual, e não se ouviu dizer aos defensores do pensamento económico único que o défice orçamental era insustentável.

 

O mesmo sucedeu em relação ao valor da Dívida Pública medida em percentagem do PIB. Como mostram também os dados do quadro anterior, se se comparar o valor de 2004 – cerca de 61% do PIB – quer com valores atingidos nos anos do governo Cavaco Silva (variaram entre 59,1% e 64,3% do PIB) quer com a média da UE15 (64,3% em 2003) rapidamente se conclui que o rácio da dívida portuguesa não se afasta desses valores; até é inferior.

 

Para além disto, os economistas sabem que um défice gerado por investimento produtivo ou para aumentar a eficiência de serviços que tornem possível um desenvolvimento elevado, é um bom défice porque gera mais riqueza que acaba por pagar esse défice.

 

O RITMO DE CRESCIMENTO DA ECONOMIA PORTUGUESA É METADE DO DA ECONOMIA EUROPEIA, E O DA ECONOMIA EUROPEIA É METADE DO DA ECONOMIA MUNDIAL

 

O próprio relatório que acompanha o Orçamento rectificativo para 2005 apresentado pelo governo contém dados que provam que o problema mais grave que o nosso País actualmente enfrenta situa-se na falta de crescimento económico.

 

Os dados oficiais do quadro seguinte mostram que os ritmos de crescimento económico tanto na União Europeia como em Portugal são preocupantes quando os comparamos com o crescimento médio da Economia Mundial.

 

QUADRO II – A Economia Mundial está a crescer ao dobro da União Europeia

REGIÃO

2003

2004

2005

2006

ECONOMIA MUNDIAL

3,7%

5,0%

4,2%

4,1%

União Europeia 25 países

1,0%

2,4%

2,0%

2,3%

União Europeia 15 países

0,9%

2,3%

1,9%

2,2%

PORTUGAL

-1,3%

1,1%

0,8%

1,4%

FONTE: Economia Mundial, UE25 e UE15: Relatório OE2005 (Rectificativo); PORTUGAL: PEC: 2005-2009

 

Para explicar a crise que enfrenta actualmente a União Europeia e a estagnação económica em Portugal, os defensores do pensamento económico único de cariz neo-liberal apresentam como justificação a crise da Economia Mundial.

 

No entanto, como mostram os dados oficiais do quadro anterior que foram retirados de documentos oficias portugueses – OE2005 rectificativo e PEC: 2005-2209 – a taxa média de crescimento da Economia Mundial é o dobro da Economia Europeia, e o ritmo de crescimento da economia da União Europeia, apesar de ser muito baixo, é o dobro da Economia Portuguesa.

 

Estes dados oficiais parecem mostrar claramente que as razões do baixo crescimento da economia da União Europeia e da estagnação económica que atingiu a Economia Portuguesa devem estar nas políticas erradas seguidas quer pela União Europeia quer em Portugal. Esta é uma questão fundamental, que tem sido ignorada ou mesmo conscientemente silenciada, mas que deverá merecer uma atenção.

 

O DÉFICE COMERCIAL PORTUGUÊS É JÁ O DOBRO DO DÉFICE ORÇAMENTAL, E UM DOS MAIS ELEVADOS EM TODA A UNIÃO EUROPEIA

 

Na pág. 14 do Relatório que acompanha o Orçamento rectificativo para 2005 pode-se ler o seguinte em relação às importações portuguesas: «Após dois anos de variações praticamente nulas, em 2004 as importações de bens e serviços registaram um crescimento muito forte (6,9% em termos reais), indicando também perda de competitividade da economia portuguesa». E poucas linhas mais à frente também se pode ler o seguinte: «Alguma substituição de produção interna por produtos importados em determinados sectores, nomeadamente vestuário e calçado, contribui também para esta evolução».

 

Em resumo, o próprio governo reconhece que a Economia Portuguesa está a perder quota de mercado quer no estrangeiro quer dento do próprio País.

 

Os dados do quadro seguinte, que são do Eurostat, mostram a dimensão atingida pelo défice comercial de Portugal, que é também uma consequência e um indicador da falta crescente de competitividade da maioria das empresas portuguesas.

 

QUADRO III – Dimensão do excedente e do défice comercial em

Portugal e em outros países da União Europeia de 1997 a 2004

ANO

1997

2000

2001

2002

2003

2004

2004

País

Até 31.12.98: Milhões de écus

 Depois de 1.1.1999: Milhões de euros

PIB pm

Milhões €

SALDO

% PIB

Dinamarca

4.741

7.369

8.280

8.086

8.570

7.455

194.421

+3,8%

Alemanha

62.063

61.665

99.644

135.449

130.854

154.581

2.207.240

+7,0%

Espanha

–11.836

–37.778

–36.395

–34.601

–37.843

–51.884

837.557

-6,2%

França

23.724

–3.580

3.948

7.964

1.569

–5.972

1.648.368

-0,4%

Irlanda

16.466

28.133

30.494

35.442

33.421

31.865

146.202

+21,8%

Itália

41.414

10.360

17.410

14.038

8.787

8.109

1.351.328

+0,6%

PORTUGAL

–8.705

–14.810

–15.043

–13.202

–11.619

–14.387

135.035

–10,7%

Finlândia

10.209

14.896

14.142

13.868

11.392

10.511

149.742

+7,0%

Suécia

16.777

15.944

16.150

17.738

16.843

18.886

279.008

+6,8%

Inglaterra

–17.881

–54.116

–65.428

–74.210

–68.872

–85.450

1.709.750

–5,0%

Noruega

10.241

28.376

29.567

25.707

25.022

26.980

201.387

+13,4%

FONTE: Eurostat

 

No quadro estão os saldos da Balança Comercial de cada país, ou seja, o valor que se obtém subtraindo ao valor do que se exporta o valor daquilo que se importa. Quando é positivo significa que o valor das exportações é superior ao das importações; e quando é negativo, verifica-se precisamente o contrário, ou seja, que o valor das importações é superior ao valor do que se conseguiu exportar.

 

Como mostram também os dados do quadro, em 2004 por ex., dos 11 países constantes do quadro, sete países obtiveram um saldo positivo, enquanto quatro tiveram um saldo negativo. E foi Portugal que teve o saldo negativo mais elevado, que representou cerca de 10,7% do PIB, ou seja, foi superior em 107,6% ao défice orçamental real verificado em 2004 (–5,2%), que é o défice sem as chamadas medidas extraordinárias.

 

Apesar deste saldo ser um valor insustentável pois, por um lado, é consequência da crescente falta de competitividade das empresas portuguesas e, por outro lado, determina um crescente endividamento do País ao estrangeiro, o que não se poderá prolongar indefinidamente, mesmo assim nada tem sido feito para alterar esta grave situação.

 

EM PORTUGAL A PARTE DO PIB QUE REVERTE PARA OS TRABALHADORES É MUITO INFERIOR À MÉDIA EUROPEIA