Informação Alternativa

Portugal

21/05/2005

 

Injustiça fiscal, défice orçamental e a necessidade

de um imposto sobre as grandes fortunas portuguesas

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Neste momento, utilizando os grandes órgãos de informação, a que têm acesso fácil, os defensores do pensamento económico de cariz neoliberal procuram criar a ideia a nível da opinião pública de que é necessário e inevitável aumentar os impostos indirectos (IVA, IA, ISP) em Portugal. Mas isso não é verdade, como provamos neste estudo utilizando apenas dados oficiais.

 

Assim, contrariamente ao que muitas vezes se afirma ou pretende fazer crer, a carga fiscal em Portugal não é a mais elevada da União Europeia. De acordo com dados publicados pelo Eurostat, em 2003, a carga fiscal representava em Portugal 38,1% do PIB enquanto a média na União Europeia rondava os 41,6%. O que é mais elevado em Portugal é o peso dos Impostos Indirectos, que são os impostos mais injustos porque não atendem ao rendimento do contribuinte (pobres ou ricos quando adquirem o mesmo maço de cigarros pagam a mesma importância de imposto). Em 2003, as receitas que tiveram como origem os impostos indirectos representaram em Portugal 41,9% das receitas fiscais do Estado, quando a média na União Europeia foi apenas de 33,8% do PIB (quadro I). Depois de 2003, esta situação agravou­‑se mais em Portugal, pois em 2005 em cada 100 euros de receitas fiscais 62,3 euros terão como origem impostos indirectos (quadro II).

 

Mesmo a nível dos Impostos Directos, que são impostos mais justos pois atendem, em princípio, ao rendimento dos contribuintes, a injustiça tem aumentado em Portugal. Em 2002, em cada 100 euros de receitas de impostos directos, 63,3 euros tinham como fonte o IRS, enquanto o IRC, pago pelas empresas, contribuía apenas com 35,9 euros. Em 2005, em cada 100 euros de receitas fiscais com origem em impostos directos, 70,3 euros terão como origem o IRS e apenas 27,8 euros o IRC pago pelas empresas (quadro III).

 

A nível do IRS a injustiça fiscal é também assustadora. Em 2003, por ex., 87,5% dos rendimentos declarados eram rendimentos do trabalho por conta de outrém e de pensões de reforma. Os rendimentos auferidos por pessoas singulares de empresas, profissões liberais, rendimentos de capitais, rendimentos prediais, mais valias, etc., representavam apenas 12,5% do total de rendimentos declarados naquele ano para efeitos de pagamento de IRS (quadro IV).

 

Entre 2001 e 2003, o número de contribuintes que declararam rendimentos superiores a 250.000 euros por ano diminuiu de 26.802 para apenas 2.144, o que indicia um forte aumento da evasão e fraude fiscal, feito perante a passividade dos sucessivos governos (quadro V).

 

Só no período compreendido entre 2001 e 2003, o Estado perdeu receitas que têm como origem o IRC, devido aos benefícios fiscais concedidos às empresas assim como à possibilidade que estas têm de deduzir nos anos em que têm lucros os prejuízos de anos anteriores, cerca de 5.020 milhões de euros (o que correspondente a mais de 1.000 milhões de contos). Uma redução dos benefícios e uma limitação significativa dos prejuízos que podem ser deduzidos pelas empresas determinaria um acréscimo importante de receitas fiscais do Estado que contribuiria para reduzir o défice orçamental (quadro VI).

 

Em Portugal, de acordo com um estudo divulgado pelo INE, os 10% mais ricos da população apropriam-se de 29% do rendimento do País, enquanto 50% da população portuguesa recebe apenas 24% do rendimento do País. Um imposto sobre as grandes fortunas, à semelhança do que já existe em França e no Luxemburgo, lançado temporariamente sobre os 10% da população mais rica, permitiria obter uma receita que contribuiria também para reduzir o défice orçamental.

 

Um combate eficaz, e não apenas mediático, contra a evasão e fraude fiscal, que a própria Administração Fiscal reconhece situar-se entre os 4% e os 7% do PIB (nós estimamos em 10% do PIB) permitiria obter um importante acréscimo de receitas fiscais.

 

A proposta defendida pelos defensores do pensamento económico de cariz neoliberal de aumento de impostos indirectos agravaria ainda mais a já grave injustiça fiscal existente no nosso País e violaria o n.º 1 do art.º 103 da Constituição da República. As propostas que apresentamos provam que existem outras soluções para aumentar as receitas fiscais que não determinariam um aumento da carga fiscal para as classes trabalhadoras e que respeitariam o preceito constitucional. Fazemos votos para que, desta vez, o Sr. Presidente da República não se esqueça que o sistema fiscal visa não só a satisfação das necessidades financeiras do Estado, mas também «uma repartição mais justa dos rendimentos e da riqueza» como estabelece a Constituição da República e que explique isso principalmente aos mais ricos e ao governo.

 

A questão do défice orçamental e a forma de o “resolver” está-se a transformar novamente na questão central que domina os órgãos de informação e arrisca-se a condicionar a política económica e social futura, com consequências graves para o futuro dos portugueses.

 

Contrariamente àquilo que afirmam os defensores do pensamento económico de cariz neoliberal (Victor Constâncio, Medina Carreira, Eduardo Catroga, Hernâni Lopes, etc.), cujas opiniões são reproduzidas e repetidas até à exaustão pelos media, o problema mais grave que Portugal enfrenta neste momento não é o problema do défice orçamental. Este é apenas um sintoma (ponta do “iceberg”) de problemas mais graves que enfrenta a Economia Portuguesa, fruto de políticas económicas erradas levadas a cabo pelos diferentes governos que se têm sucedido de uma forma pendular ao longo dos anos (recorde-se, a este propósito, o papel de Pina Moura que, agora instalado no conselho de administração da multinacional espanhola Ibrola, não se cansa de dar conselhos). Transformar o problema do défice no problema central da economia portuguesa, subordinando-se tudo ele, é condenar Portugal ao atraso e a uma crise mais profunda e duradoura. A experiência dos últimos anos, e a situação actual da Economia Portuguesa provam isso.

 

No entanto, neste estudo não vamos analisar esse problema (fica para um outro) mas sim as implicações das “propostas milagrosas” insistentemente apresentadas pelos defensores do pensamento económico único dominante para aumentar as receitas que se traduzem, pura e simplesmente, em aumentar os impostos indirectos (IVA, IA, e Imposto sobre os Combustíveis) sem olhar às consequências sociais, e também económicas, do agravamento das desigualdades que tal medida implicaria. E é importante desmontar e denunciar tal manobra até porque, sendo repetida até à exaustão pelos media como está a suceder, o que se procura é torná-la inevitável.

 

PORTUGAL É O PAÍS DA UNIÃO EUROPEIA COM UMA ESTRUTURA DE CARGA FISCAL JÁ EXTREMAMENTE INJUSTA

 

Observem-se os dados do quadro I, que são dados oficiais do serviço de estatística da União Europeia divulgados em 2005, sobre a estrutura fiscal portuguesa e a média da União Europeia.

 

QUADRO I – Estrutura da carga fiscal média na União Europeia e em Portugal

 

Carga Fiscal Total

Em percentagem da carga fiscal total

PAÍSES

em percentagem do PIB

Impostos indirectos

Impostos directos

 

2002

2003

2002

2003

2002

2003

UE25

41,3%

41,6%

33,4%

33,8%

33,4%

31,6%

UE15

41,6%

41,8%

33,3%

33,4%

33,7%

32,2%

Zona Euro

42,1%

42,2%

32,5%

32,8%

30,4%

29,0%

PORTUGAL

37,4%

38,1%

40,4%

41,9%

28,1%

24,6%

FONTE: Eurostat, Communiqué de presse, 15/2005, 28.1.2005.

 

A primeira conclusão que se tira dos dados oficiais divulgados pelo Eurostat é que contrariamente ao que insistentemente se ouve nos media em Portugal, o nosso País não tem a carga fiscal mais elevada da União Europeia. E tenha-se presente que é precisamente com base nesta afirmação, que é falsa, que depois se afirma que Portugal não é competitivo em termos fiscais. Efectivamente, os dados do Eurostat constantes do quadro anterior provam que a carga fiscal portuguesa, medida em percentagem do PIB, ou seja, em percentagem da riqueza criada no País rondava, em 2003, os 38% do PIB, estando assim abaixo da média europeia que se situava entre os 41,6% do PIB (UE25) e os 42,2% do PIB (zona do euro a que Portugal também pertence).

 

Os dados do Eurostat mostram, o que é sistematicamente esquecido nos media em Portugal, que a estrutura da carga fiscal existente no nosso País é muito mais injusta do que a estrutura média da carga fiscal média dos países que constituem a União Europeia. Para concluir isso, é preciso ter presente o que significa, sob o ponto de vista de equidade fiscal, os impostos directos e os impostos indirectos.

 

E isto porque os primeiros – os Impostos Directos – atendem ao rendimento auferido por cada contribuinte. Quanto mais elevado é o rendimento, maior é o imposto pago ao Estado. Por ex., a nível do IRS, quanto mais elevado é o rendimento, maior é a percentagem de imposto que se tem de pagar ao Estado.

 

Em relação aos Impostos Indirectos isso não acontece. Seja qual for o rendimento do contribuinte, ele paga sempre o mesmo imposto (em euros) ao Estado. Por ex., um contribuinte que receba o salário mínimo nacional quando adquire um maço de cigarros paga o mesmo imposto (em euros) que é pago por um contribuinte que adquira o mesmo maço de cigarros mas cujo rendimento mensal seja dez vezes superior ao salário mínimo nacional.

 

Os dados do Eurostat constantes do quadro I mostram o seguinte: Em 2003, por ex., em Portugal, os impostos directos (os impostos mais justos) contribuíam apenas com 24,6% das receitas fiscais do Estado, enquanto a média na União Europeia se situava, no mesmo ano, entre 29% (zona do euro) e 32,2% (UE15, a que Portugal sempre pertenceu). Pelo contrário, os Impostos Indirectos, portanto os impostos mais injustos sob o ponto de vista de equidade fiscal, contribuem em Portugal com 41,9% das receitas fiscais do Estado, enquanto a média na União Europeia se situa entre os 32,8% (Zona euro) e 33,8% (UE25).

 

Em resumo, a estrutura fiscal portuguesa já era em 2003 uma das mais injustas de toda a União Europeia. E essa situação não tem parado de se agravar como provam os dados oficiais do quadro II que se apresenta seguidamente.

 

QUADRO II – Evolução do peso dos

Impostos Directos e dos Impostos Indirectos em Portugal

DESIGNAÇÃO

IMPOSTOS

2002

2003

2004

2005

PERCENTAGEM

Estimativa

Estimativa

Estimativa

Orçamento

DO TOTAL

Milhões €

Milhões €

Milhões €

Milhões €

2002

2003

2004

2005

IRS

7.413,90

7.110,00

7.535,00

7.905,00

26,4%

25,9%

26,3%

26,5%

IRC

4.203,70

3.464,00

3.637,00

3.123,00

15,0%

12,6%

12,7%

10,5%

Outros

99,5

101

28

221

0,4%

0,4%

0,1%

0,7%

I.DIRECTOS

11.717,10

10.675,00

11.200,00

11.249,00

41,8%

38,9%

39,1%

37,7%

ISP

2.700,00

3.074,00

3.102,00

3.275,00

9,6%

11,2%

10,8%

11,0%

IVA

9.813,50

9.812,00

10.388,00

11.100,00

35,0%

35,8%

36,3%

37,2%

IA

1.211,00

971,5

1.115,00

1.164,00

4,3%

3,5%

3,9%

3,9%

IT

1.117,30

1.240,00

1.145,00

1.220,00

4,0%

4,5%

4,0%

4,1%

Selo e Estampilhas

1.192,30

1.337,60

1.430,00

1.500,00

4,3%

4,9%

5,0%

5,0%

Outros

286,4

323,5

260

335

1,0%

1,2%

0,9%

1,1%

I.INDIRECTOS

16.320,50

16.758,60

17.440,00

18.594,00

58,2%

61,1%

60,9%

62,3%

TOTAL

28.037,60

27.433,60

28.640,00

29.843,00

100,0%

100,0%

100,0%

100,0%

FONTE: 2002: Relatório OE2003, pág. 51; 2003: Relatório OE2004, pág. 60; 2004 e 2005: Relatório OE2005, pág. 51.

 

Como mostram os dados do quadro anterior, em 2002, em cada 100 euros de receitas fiscais, 58,2 euros tiveram como origem os impostos indirectos e apenas 41,8 euros os impostos directos; em 2005, essa situação já é muito mais grave, pois em cada 100 euros de receitas fiscais 62,3 euros têm como origem impostos indirectos e apenas 37,7 euros impostos directos.

 

Isto determina que seja precisamente a maioria da população, constituída pelos trabalhadores, que tenha de contribuir, e de uma forma crescente, mais para as receitas fiscais do Estado. E as propostas dos defensores do pensamento de cariz neoliberal, como Medina Carreira e Rogério Fernandes Ferreira e outros é aumentar ainda os impostos indirectos de uma forma geral e sem qualquer critério (falam em aumentar o IVA para 21% e mesmo 22%, “esquecendo” que quem iria pagar mais uma vez esse aumento seriam principalmente os trabalhadores ).

 

DESIGUALDADES CRESCENTES MESMO NOS IMPOSTOS DIRECTOS: RECEITA DE IRS CRESCE, RECEITA DE IRC DIMINUIU

 

Mesmo dentro dos impostos directos, que são aqueles que em princípio são mais justos, a política que tem sido seguida nos últimos anos está a criar graves injustiças.

 

Os dados do quadro seguinte, que são dados constantes dos Relatórios que têm acompanhado as Proposta de Orçamento de Estado, mostram o que se tem registado na área dos impostos directos.

 

QUADRO III – Evolução do peso do IRS e do IRC nas receitas dos Impostos Directos

DESIGNAÇÃO

2002

2003

2004

2005

IMPOSTOS

% do TOTAL

% do TOTAL

% do TOTAL

% do TOTAL

IRS

63,3%

66,6%

67,3%

70,3%

IRC

35,9%

32,4%

32,5%

27,8%

Outros

0,8%

0,9%

0,3%

2,0%

TOTAL

100,0%

100,0%

100,0%

100,0%

FONTE: 2002: Relatório OE2003, pág. 51; 2003: Relatório OE2004, pág. 60; 2004 e 2005: Relatório OE2005, pág. 51.

 

Em 2003, em cada 100 euros de impostos directos arrecadados pelo Estado, 63,3 euros tinham como origem o IRS e, em 2005, em cada 100 euros já 70,3 euros terão como origem o IRS, ou seja, um crescimento de 11,1%. E como se sabe o IRS é pago fundamentalmente pelos trabalhadores.

 

Enquanto isso sucede a nível de IRS, as receitas que têm como origem o IRC, pago pelas empresas, não têm parado de descer. Em 2002, apenas 35,9 euros em cada 100 euros de impostos directos tiveram como origem o IRC e, em 2005, serão apenas 27,8 euros cada 100, ou seja, uma diminuição de 22,6%.

 

Como consequência da política de favorecimento das empresas sobrecarregando fundamentalmente os rendimentos do trabalho, a injustiça mesmo a nível dos impostos directos cresceu de uma forma impressionante.

 

A NÍVEL DO IRS, 87,5% DOS RENDIMENTOS DECLARADOS SÃO DE TRABALHADORES POR CONTA DE OUTRÉM E DE REFORMADOS

 

O IRS incide sobre todo o tipo de rendimentos auferidos por pessoas singulares, sejam rendimentos do trabalho, de pensões de reforma, de prédios, de empresas, de aplicações de capitais, de mais-valias, etc.. Como mostram os dados do quadro IV, são os trabalhadores por conta de outrém e os reformados que pagam a maior parte do IRS, pois as outras categorias de rendimentos continuam a fugir impunemente ao pagamento deste imposto.

 

QUADRO IV – Distribuição do rendimento declarado

para efeitos de IRS por categorias de rendimento – Ano 2003

Categorias

Rendimentos

Número

Rendimento

Rendimento

rendimento

de

titulares

Milhões €

% TOTAL

Médio Euros

A

Trabalho dependente

3.963.261

44.983

71,4%

11.350

H

Pensões