Informação Alternativa

Portugal

15/05/2005

 

As “palavras veneno” do semanário Expresso

contra a Administração Pública

 

Eugénio Rosa

 

A PERCENTAGEM DOS TRABALHADORES NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA EM PORTUGAL REPRESENTA APENAS 58% DA MÉDIA DOS PAÍSES DA UNIÃO EUROPEIA

 

O semanário Expresso de 5 de Maio p.p., caracterizou a situação da Administração Pública em Portugal nos seguintes termos: «retrato ainda mais negro», «crescimento imparável», «o prometido emagrecimento da Função Pública … não teve quaisquer resultados», etc., ou seja, utilizou termos que na ciência da comunicação se chamam “palavras veneno” com o intuito de provocar sentimentos negativos no leitor relativamente à Administração Pública e aos seus trabalhadores.

 

No entanto, a análise objectiva do chamado “peso” da Administração Pública em Portugal e em outros países da União Europeia utilizando dados publicados pelo Eurostat, o serviço oficial de estatística da U.E., mostra o seguinte: (a) Tomando como base os trabalhadores da “Administração Pública, Defesa e Segurança”, e fazendo a análise tendo como base um conjunto constituído por doze países representativos da UE15, conclui-se que a percentagem que representa os trabalhadores empregues nesse subsector em Portugal (6,8% da população total empregada) corresponde apenas a 88% da média dos 12 países analisados (7,7%); (b) Se somarmos à percentagem de população empregue na “Administração Pública, Defesa e Segurança” as percentagens referentes à “Educação” e à “Saúde e Acção Social”, obtemos para Portugal 18% da população empregada total, enquanto a média dos doze países da União Europeia analisados atinge 25,6%, ou seja, é superior à percentagem portuguesa em 42,2%; (c) Se realizarmos uma análise mais fina, concluímos que a percentagem portuguesa, na “Educação”, corresponde a 85,9% da média dos doze países analisados e, na “Saúde e Acção Social”, somente a 47,2% da média dos doze países analisados (quadro I).

 

Estes dados oficiais do serviço de estatística na União Europeia revelam um aspecto importante que tem sido sistematicamente esquecido quer no discurso daqueles que atacam a Administração Pública, e que falam num «crescimento imparável» como fez o Expresso, quer mesmo no discurso oficial, a saber: a percentagem de trabalhadores, relativamente à população total empregada, naqueles sectores fundamentais para a segurança e bem estar da população em Portugal, está muito abaixo da verificada nos países desenvolvidos da União Europeia. Privatizar esses serviços ou reduzir a dimensão pública desses serviços apenas significará que eles serão fornecidos por privados com custos mais elevados para a população, excluindo o seu acesso àqueles que não tiverem dinheiro para os pagar. Não corresponde à verdade afirmar, como é normalmente feito, que fazendo-os sair da área pública isso representaria um benefício para a população. Como mostra a experiência dos países mais desenvolvidos, Portugal não conseguirá desenvolver-se reduzindo “o peso” destes sectores fundamentais como está implícito no discurso, mas não explícito porque quem o afirma não tem a coragem de o dizer claramente, contra a Administração Pública.

 

Por outro lado, se se analisar a evolução do número de inscritos na Caixa Geral de Aposentações, conclui-se que a partir de 2002 o seu número tem baixado, tendo registado uma diminuição significativa em 2004. E tenha-se presente que estão inscritos na CGA não só funcionários e agentes públicos mas também trabalhadores de empresas públicas e até professores do ensino privado superior (quadro II).

 

No período compreendido entre 1993 e 2004, o Estado e outras entidades empregadoras entregaram à CGA para pagar pensões de reforma e de aposentação 23.606 milhões de euros (4.733 milhões de contos). No entanto, se tivessem entregue o correspondente a 23,75% das remunerações que pagaram, como sucede com as outras entidades empregadoras em Portugal, no lugar do valor anterior deviam ter entregue à CGA 30.970 milhões de euros (6.209 milhões de contos), portanto entregaram menos 7.369 milhões de euros (1.477 milhões de contos). A preços actuais (de 2005), aquele valor corresponde a 9.223 milhões de euros (1.850 milhões de contos). Esta importância – 9.223 milhões de euros – pode ser considerada como uma dívida do Estado e de outras entidades empregadoras à Caixa Geral de Aposentações. E isto só referente ao período compreendido entre 1993 e 2004, pois se o cálculo fosse feito para o período em que existe a CGA, o valor desta dívida seria certamente muito mais elevado, pois só agora é que a segurança social dos trabalhadores da Administração Pública atingiu a sua maturidade (quadro III e IV).

 

Finalmente, interessa recordar, porque esse facto é sistematicamente esquecido, que já cerca de 350.000 trabalhadores da Administração Pública inscritos na CGA estão abrangidos pelo Regime Geral da Segurança Social e que, com o passar dos anos, todos os trabalhadores da função pública ficarão abrangidos por este regime. Isto significa que a forma de calcular as suas pensões de reforma e de aposentação será igual à dos trabalhadores por conta de outrém do sector privado. Portanto representa uma autêntica mistificação afirmar, como muitas vezes sucede, que a segurança social de todos os trabalhadores da Administração Pública é diferente da dos outros trabalhadores. A diferença que existe é relativamente aos trabalhadores mais antigos que têm direitos adquiridos, e mesmo em relação a estes as suas pensões nunca poderão ser superiores a 89% da sua remuneração.

 

A Administração Pública tem um papel fundamental no fornecimento de serviços essenciais à população, como são os serviços de saúde, de educação, de segurança social e ainda de outros importantes para a vida dos portugueses, em particular dos trabalhadores. Apesar de não existirem estudos credíveis sobre a dimensão adequada da Administração Pública em Portugal, pois isso até exigiria que previamente se estabelecessem objectivos, e neste momento nem o governo conhece o número exacto dos trabalhadores da Administração Pública (o último censo é de 1999), mesmo assim os ataques à Administração Pública e aos seus trabalhadores não param em Portugal.

 

O ataque mais recente a nível dos media foi feito pelo semanário Expresso que, no seu número de 8 de Maio p.p., utilizando dados cuja fonte se desconhece mas que merecem pouca credibilidade, publicou uma peça jornalística sobre a Administração Pública em Portugal recheada de frases do tipo: «retrato ainda mais negro»; «crescimento imparável»; «o ministério da Educação continua a ser o que mais pesa»; «o prometido emagrecimento da Função Pública … não teve quaisquer resultados», etc. Desta forma substituiu a informação objectiva que diz defender por um processo clássico de manipulação, que consiste em procurar associar na mente do leitor a Administração Pública a “palavras veneno” que geram em quem as lê sentimentos negativos em relação àquela.

 

OS DADOS DO EUROSTAT SOBRE A DIMENSÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA NOS PAÍSES DA UNIÃO EUROPEIA

 

Não existem dados rigorosos sobre o número actual de trabalhadores na Administração Pública nos diferentes países da União Europeia que permita fazer uma análise da dimensão da Administração Pública em cada um deles, mas os dados publicados pelo Eurostat, embora indicativos, desmentem claramente o retrato negro que se pretende dar em Portugal da Administração Pública. Para concluir isso, basta observar os dados constantes do quadro I que a seguir se apresenta, disponíveis na publicação L’emploi en Europe 2003, publicada pela Comission Européenne, portanto uma fonte oficial credível e conhecida, bem diferente da fonte utilizada pelo semanário Expresso.

 

QUADRO I – Percentagem da população total empregada com idade

entre os 15 e 64 nas áreas de responsabilidade dominante do Estado

 

PERCENTAGEM DO EMPREGO TOTAL – Ano 2002

 

População 15-64 anos

PAÍSES

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

EDUCAÇÃO

SAÚDE E

TOTAL

 

DEFESA, SEGURANÇA SOCIAL

 

ACÇÃO SOCIAL

 

Bélgica

9,6%

8,1%

12,4%

30,1%

Dinamarca

5,8%

7,8%

18,4%

32,0%

Suécia

5,7%

8,2%

18,7%

32,6%

Alemanha

8,0%

5,6%

10,4%

24,0%

Itália

8,7%

7,4%

6,1%

22,2%

Grécia

7,6%

6,4%

4,6%

18,6%

Irlanda

5,2%

6,4%

9,1%

20,7%

Luxemburgo

11,3%

7,0%

7,9%

26,2%

Holanda

7,6%

6,6%

15,1%

29,3%

França

9,3%

7,6%

10,6%

27,5%

Inglaterra

6,7%

8,2%

11,1%

26,0%

Espanha

6,3%

5,9%

5,5%

17,7%

Média 12 países

7,7%

7,1%

10,8%

25,6%

PORTUGAL

6,8%

6,1%

5,1%

18,0%

FONTE: L’emploi en Europe 2003, pág. 37 - Comission européenne.

 

Se a análise for feita com base nos dados da coluna com o titulo “Administração Pública, Defesa e Segurança Social” do quadro anterior referente ao conjunto dos doze países representativos da União Europeia analisado, concluímos que desses doze países apenas cinco (Dinamarca, Suécia, Irlanda, Inglaterra e Espanha) apresentam percentagens de trabalhadores inferiores à de Portugal. Nos restantes sete países, a percentagem que representam os trabalhadores da “Administração Pública, Defesa e Segurança Social” em relação à população total empregada é superior e, em vários casos, bastante superior à percentagem portuguesa. A média dos doze países (7,7%) é superior à percentagem portuguesa (6,8%) em cerca de 13,2%.

 

Se somarmos à percentagem anterior, as percentagens constantes das colunas “Educação” e “Saúde e Acção Social” também do quadro I, que são áreas onde é dominante também a presença da Administração Pública, concluímos que a percentagem portuguesa – apenas 18% da população empregada total – é consideravelmente inferior à percentagem registada em todos os outros países da União Europeia constantes do quadro anterior, com excepção de Espanha, que é praticamente igual à portuguesa (17,7%). O valor de Portugal (18%) corresponde a cerca de 70% da média dos doze países analisados (que é 25,6%). Na “Educação” a percentagem representa 85,9% da média dos doze países, e na “Saúde e Acção Social” a percentagem portuguesa corresponde apenas a 47,2% da média dos doze países analisados constantes do quadro I.

 

Estes dados oficiais do serviço de estatística na União Europeia revelam um aspecto importante que tem sido sistematicamente esquecido quer no discurso daqueles que atacam a Administração Pública quer mesmo no discurso oficial, a saber: a percentagem de trabalhadores, relativamente à população total empregada, nos sectores fundamentais para a segurança e bem estar das populações em Portugal está muito abaixo do verificado nos países desenvolvidos da União Europeia. Privatizar esses serviços ou reduzir a dimensão pública desses serviços apenas significará que eles serão fornecidos por privados com custos mais elevados para as populações. É uma inverdade, para não dizer mesmo que é uma grande mentira, afirmar que a saída destes serviços da área pública para a área privada representará um benefício para a população como está implícito no discurso de todos aqueles que atacam a Administração Pública.

 

Desta forma, fica destruído o «retrato ainda mais negro» agitado pelo semanário Expresso quando o comparamos com os países da União Europeia a que Portugal também pertence.

 

O NÚMERO DE INSCRITOS NA CAIXA GERAL DE APOSENTAÇÕES NÃO AUMENTA DESDE 2002

 

Contrariamente àquilo que o semanário Expresso pretendeu também fazer crer, o número de trabalhadores inscritos na CGA não tem aumentado desde 2002, e até diminuiu em 2004 como provam os dados oficiais constantes do quadro II, que foram retirados dos Relatórios e Contas da Caixa Geral de Aposentações (CGA).

 

QUADRO II – Número de inscritos na CGA de 1995-2004, e número dos

novos inscritos em cada ano e daqueles que se aposentam ou reformam

ANOS

N.º

NÚMERO DE “NOVOS”

 

SUBSCRITORES

APOSENTADOS/REFORMADOS

SUBSCRITORES

1993

661.347

34.237

+ 11.217

1994

638.327

41.067

+ 18.047

1995

637.749

27.596

+ 27.018

1996

647.893

22.098

+ 32.242

1997

654.228

20.235

+ 26.570

1998

681.169

16.411

+ 43.352

1999

709.167

16.172

+ 44.170

2000

747.449

15.646

+ 53.928

2001

771.285

14.969

+ 38.805

2002

778.782

22.207

+ 29.704

2003

778.357

34.067

+ 33.642

2004

737.355

22.264

-18.738

FONTE: Relatórios e Contas: 1998-2004.

 

A partir de 2001, o número de subscritores deixou de aumentar, tendo mesmo registado uma diminuição importante em 2004. E essa diminuição não resultou apenas da aposentação ou reforma de trabalhadores como também provam os dados do quadro anterior. No entanto, é preciso ter presente que na CGA não estão apenas inscritos funcionários e agentes públicos, pois também existem trabalhadores de várias empresas públicas e os professores do ensino privado superior. Por essa razão, o número de subscritores, ou seja, de trabalhadores inscritos na CGA não coincide com o número de trabalhadores da Administração Pública. O número de inscritos na CGA deverá ser apenas considerado como um indicador, no entanto bastante representativo, por isso é legitimo, a nosso ver, concluir que a tendência verificada a nível de subscritores também seja válida para todos os trabalhadores da Administração Pública e que se deve ter verificado nos últimos anos uma redução do número destes.

 

O DÉFICE FICTÍCIO DA CGA AGITADO NOS MEDIA, E A DÍVIDA DO ESTADO À CGA ATINGIU NOS ÚLTIMOS 12 ANOS 9.223 MILHÕES DE EUROS (1.850 milhões de contos)

 

Um outro ataque frequente contra os trabalhadores da Administração Pública é em relação ao seu sistema de segurança social. E o argumento utilizado é de que ele gera um défice crescente que é incomportável para o Orçamento Geral do Estado. É precisamente com base neste argumento que o actual governo inscreveu no seu programa o aumento da idade de aposentação dos trabalhadores da Administração Pública. Para fundamentar este ataque deturpa-se a verdade como se mostrará seguidamente.

 

Para compreender os défices da CGA de que tanto se fala, e que são fictícios, é preciso compreender como eles são fabricados.

 

Contrariamente ao que sucede com qualquer empregador no nosso País, o Estado não contribui para a Caixa Geral de Aposentações com 23,75% das remunerações que paga. Não paga nada, e apenas transfere para a Caixa Geral de Aposentações aquilo que é necessário para pagar as pensões de aposentação e de reforma daqueles trabalhadores que já se aposentaram ou reformaram. E depois chama abusivamente a estas transferências “subsídios”, e a soma deles chama “défice”, como se não tivesse quaisquer obrigações como empregador. Os trabalhadores da função pública, tal como sucede com todos os outros trabalhadores do País, descontam 11% nas suas remunerações, sendo 10% para a CGA e 1% para a ADSE.

 

Com base em dados oficiais constantes dos Relatórios da CGA, calculámos aquilo que o Estado e outras entidades públicas e privadas que têm trabalhadores inscritos na CGA deviam ter entregue à CGA se tivessem contribuído para as reformas dos trabalhadores que empregam com 23,75% das remunerações que pagam, como sucede com qualquer outra entidade patronal em Portugal, e depois comparámos os valores obtidos dessa forma com aqueles que foram efectivamente entregues à CGA pelo Estado e pelas outras entidades. Os dados utilizados assim como os resultados desses cálculos para os últimos 12 anos – 1993/2004 - constam do quadro que se apresenta seguidamente.

 

QUADRO III – VALORES NÃO ENTREGUES PELO ESTADO E POR OUTRAS

ENTIDADES PÚBLICAS À CAIXA GERAL DE APOSENTAÇÕES NO PERÍODO 1993-2004

 

Milhões contos

 

Milhões euros

RUBRICAS

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

SOMA

2002

2003

2004

SOMA

Quotizações dos

Trabalhadores

119

157,5

169

179,7

186,1

203

223

244

270

1.751,3

1.415

1.446

1.462

4.323

Contribuições das

Entidades empregadoras

18,3

23,3

25,6

27,8

28,3

32

37

39

44

2.75,3

256

410

456

1.122

“Subsídios” do Estado

136,3

156,6

233

274,4

312,5

346

362

405

402

2.627,8

2.355

2.543

3.106

8.004

PAGO À CGA PELO ESTADO + ENTIDADES

155

180

259

302

341

378

399

444

445

2.903

2.611

2.953

3.562

9.126

MASSA SALARIAL

1190

1575

1690

1797

1861

2030

2.227

2.439

2.699

17.508

14.154