Informação Alternativa

Portugal

03/05/2005

 

O Plano Tecnológico e os centros móveis de emprego são medidas insuficientes para enfrentar com eficácia o aumento rápido do desemprego com as características que ele tem em Portugal

 

Eugénio Rosa

 

AS MEDIDADS DO GOVERNO SÃO INSUFICIENTES PARA COMBATER O DESEMPREGO

(Resumo deste estudo)

 

O desemprego em Portugal está a atingir fundamentalmente os trabalhadores de baixa escolaridade (aqueles que têm o ensino básico ou menos e que constituem ainda 73% da população empregada) e com qualificação de banda estreita (sabem fazer muito bem uma determinada operação fruto da experiência acumulada ao longo de muitos anos, mas têm grande dificuldade em se adaptar a outra actividade devido à baixa escolaridade e à ausência total de cultura de formação profissional).

 

Entre o 4º Trimestre de 2001 e o 4º Trimestre de 2004, foram destruídos em Portugal nas profissões ocupadas por estes trabalhadores (“Operários, artífices e trabalhadores e similares”, “Operadores de instalações, máquinas e trabalhadores de montagem”, “Trabalhadores não qualificados”) cerca de 170.700 postos de trabalho, já que o número de postos de trabalho ocupados pelos trabalhadores com estas profissões passou de 2.178.700 para 2.008.00, segundo o Instituto Nacional de Estatística (quadro II).

 

A repartição do desemprego oficial por níveis de escolaridade confirma também que a destruição de postos de trabalho está a atingir fundamentalmente os trabalhadores de baixa escolaridade e de qualificação profissional de banda estreita pois, no 4º trimestre de 2004, 75% dos desempregados tinham apenas o ensino básico ou menos. (quadro III).

 

A análise da evolução do desemprego por duração, entre o 4º Trimestre de 2001 e o 4º Trimestre de 2004, mostra que o desemprego com uma duração superior a 25 meses cresceu 186%, ou seja, praticamente o dobro do aumento total do desemprego registado no período considerado, que foi de 84%. Este aumento vertiginoso que se está a verificar em Portugal no desemprego de longuíssima duração revela que a maioria dos trabalhadores despedidos com baixa escolaridade e qualificação profissional de banda estreita estão a enfrentar dificuldades crescentes para encontrarem novamente emprego, correndo sérios riscos de exclusão social (quadro IV).

 

A análise das medidas anunciadas pelo governo para enfrentar a grave crise económica e para combater o desemprego mostra que essas medidas não são suficientes, nem adequadas para combater o desemprego com as características que ele tem em Portugal.

 

Efectivamente, é fácil de concluir que os empregos que eventualmente criará o chamado Plano Tecnológico, que é a medida mais emblemática do programa de governo neste campo, não se destinam a trabalhadores com baixa escolaridade e de qualificação de banda estreita, que são fundamentalmente aqueles que estão a ser atingidos neste momento pelo desemprego.

 

Por outro lado, a medida anunciada recentemente pelo governo da «criação de centros de emprego móveis», também chamados «Núcleos de Intervenção Rápida e Personalizada» no «âmbito do novo Gabinete de Intervenção Integrada para a Reestruturação Empresarial (AGIIRE)» (Diário de Notícias, 30.04.2005) constituídos por técnicos dos centros de emprego e da segurança social, previsivelmente terá reduzida eficácia no combate ao desemprego, tendo em conta os resultados obtidos pelos centros de emprego actuais, cuja experiência é conhecida.

 

Um combate eficaz ao desemprego pressupõe a elaboração e implementação de Planos de Desenvolvimento, sejam eles “Operação Integrada de Desenvolvimento”, Plano Regional ou Plano Nacional, com ampla participação dos interessados, nomeadamente das estruturas representativas dos trabalhadores, com objectivos claros e com medidas e meios bem definidos, e com uma permanente e rigorosa monitorização com o objectivo de corrigir eventuais desvios e falhas.

 

Contrariamente ao que defende o pensamento económico único de cariz neoliberal dominante em Portugal, não serão “os mercados”, nem a livre concorrência que poderão fazer sair o país da situação grave em que se encontra. Deixar actuar livremente “o mercado” ou “a livre concorrência”, como defendem alguns, só contribuiria para agravar as dificuldades económicas e aumentar as desigualdades sociais.

 

Um dos problemas mais graves que Portugal enfrenta neste momento é o crescimento rápido do desemprego que está a lançar na miséria centenas de milhares de trabalhadores e a destruir a sua auto­ estima pois são considerados “novos para se reformarem e velhos para trabalharem”.

 

Este aumento rápido do desemprego em Portugal é determinado, por um lado, pela desaceleração económica prolongada e mesmo pela recessão que se está a verificar em Portugal e, por outro lado, pelas transformações impostas pela actuação selvagem e desregulamentada daquilo que se convencionou chamar “os mercados”, transformados pelo pensamento económico dominante de cariz neoliberal numa espécie de deus, a que as pessoas se devem submeter e mesmo sacrificar, esquecendo que é a economia que deve servir as pessoas e não o inverso, como está a suceder.

 

As pessoas não podem continuar a ser consideradas, à semelhança do que sucede com as máquinas, simples peças que se descartam quando não permitem aumentar os lucros, sendo o despedimento considerado um instrumento legítimo para maximizar os lucros (é mesma obsceno, sob o ponto de vista social, a atitude daqueles gestores que fazem num ano centenas e mesmos milhares de despedimentos, e no ano seguinte vêm­‑se glorificar – e são glorificados pelo pensamento económico único dominante nos media – dos elevados lucros que alcançaram com a redução daquilo que eufemisticamente chamam “custos de pessoal”).

 

A MAIORIA DA POPULAÇÃO EMPREGADA EM PORTUGAL CONTINUA A POSSUIR UM BAIXO NÍVEL DE ESCOLARIDADE

 

O quadro que se apresenta seguidamente contém os dados mais recentes, divulgados pelo INE, sobre o emprego em Portugal repartidos por níveis de escolaridade. Esses dados referem-se ao 4º Trimestre de 2004.

 

QUADRO I – Evolução do nível de escolaridade da população empregada

em Portugal entre o 4º Trimestre de 1998 e o 4º Trimestre de 2004

Escolaridade

Número de empregados

 Mil

 % do Total de empregados

por níveis de escolaridade

Evolução

4T98-4T04

dos

empregados

4ºT 1998

4ºT 2001

4ºT 2004

4ºT 1998

4ºT 2001

4ºT

2004

Nenhum

485

 

 

10,1%

 

 

(Pontos Percentuais)

1º ciclo

1.728

 

 

36,1%

 

 

2º ciclo

995

 

 

20,8%

 

 

3º ciclo

642

 

 

13,4%

 

 

 

Básico e menos

3.850

3.906

3.757

80,4%

78,0%

73,3%

–7,1

Secundário

519

 

707

10,8%

 

13,8%

+3,0

Superior

418

 

664

8,7%

 

12,9%

+4,2

Sec+Superior

937

1.101

1.371

19,6%

22,0%

26,7%

+7,1

TOTAL

4.786

5.007

5.127

100,0%

100,0%

100,0%

 

FONTE: Estatísticas de Emprego – 4T1998, 4T2001 e 4T2004 – INE

 

Entre o 4º Trimestre de 1998 e o 4º Trimestre de 2001, o emprego em Portugal cresceu em 221.000 (+4,6%), pois passou de 4,786 milhões de empregados para 5 milhões. No entanto, o número de empregados com o ensino básico ou menos também cresceu em 56.000.

 

Entre o 4º Trimestre de 2001 e o 4º Trimestre de 2004, o emprego total cresceu em Portugal em 120.000, mas o número de empregados com o ensino básico ou menos diminuiu em 149.000, pois passou de 3,906 milhões para 3,756 milhões de empregados, o que significa que foi este segmento da população empregada o mais atingido pelo desemprego.

 

Apesar desta redução, no 4º Trimestre de 2004, o número de empregados em Portugal com o ensino básico ou menos ainda constituía 73,3% de toda a população empregada, ou seja, 3.756.600 empregados continuavam a possuir este baixo nível de escolaridade.

 

Estas são as características actuais do emprego em Portugal que não devem, a nosso ver, ser esquecidas na definição de medidas de combate ao desemprego, pois é nesta parte da população empregada que tem origem o maior número de desempregados como se irá mostrar.

 

OS GRUPOS DA POPULAÇÃO QUE ESTÃO A SER MAIS ATINGIDOS PELA DESTRUIÇÃO DO EMPREGO SÃO OS DE QUALIFICAÇÃO DE BANDA ESTREITA E DE BAIXA ESCOLARIDADE

 

Os dados do quadro seguinte, publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram com clareza quais são as profissões que estão a ser mais atingidas pela destruição de postos de trabalho em Portugal.

 

QUADRO II – Criação e destruição de emprego em Portugal no período

compreendido entre o 4º Trimestre de 1998 e o 4º Trimestre de 2004 por profissões

GRUPOS PROFISSIONAIS

4ºT

1998

4ºT

2001

4ºT

2004

4T98-4T01

4T01-4T04

 

Mil

Mil

Mil

Quadros superiores e dirigentes Ad. Púb. e empresas

345,7

348,3

453,5

+ 2,6

+ 105,2

Especialistas das profissões intelectuais e cientificas

289,8

351,1

446,7

+ 61,3

+ 95,6

Técnicos e profissionais de nível intermédio

357,0

362,2

422,7

+ 5,2

+ 60,5

QUALIFICAÇÃO E ESCOLARIDADE MAIS ELEVADA

992,5

1.061,6

1.322,9

+ 69,1

+ 261,3

Pessoal administrativo e similares

428,0

476,9

531,9

+ 48,9

+ 55,0

Pessoal dos serviços e vendedores

635,9

701,3

673,1

+ 65,4

-28,2

QUALIFICAÇÃO E ESCOLARIDADE MÉDIA

1.063,9

1.178,2

1.205,0

+ 114,3

+ 26,8

Agricultores e trabalhadores qualif. Agricultura, pescas

537,1

557,6

559,5

+ 20,5

+ 1,9

Operários, artífices e trabalhadores e similares

1.109,4

1.087,2

950,9

-22,2

-136,3

Operadores de instalações, maquinas e trabalhadores de montagem

406,5

418,0

417,9

+ 11,5

- 0,1

Trabalhadores não qualificados

614,7

673,5

639,2

+ 58,8

-34,3

QUALIFICAÇÃO DE BANDA ESTREITA E ESCOLARIDADE BAIXA

2.667,7

2.736,3

2.567,5

+ 68,6

-168,8

TOTAL

4.724,1

4.976,1

5.095,4

252,0

119,3

FONTE: Estatísticas de Emprego – 3º Trimestre de 1999, 2001, e 4º Trimestre de 2003 e 2004 – INE

 

Os dados do quadro anterior revelam duas tendências distintas a nível de criação e destruição de emprego por profissões em cada um dos períodos seguintes: 4º Trimestre 1998/4º Trimestre 2001 e 4º Trimestre 2001/4º Trimestre 2004.

 

No período compreendido entre o 4º Trimestre de 1998 e o 4º Trimestre de 2001, registou­‑se um crescimento de emprego em quase todas as profissões, incluindo naquelas que consideramos de baixa escolaridade e de qualificação de banda estreita, com excepção do grupo profissional “Operários, artífices e trabalhadores similares” que mesmo neste período sofreu uma redução de 22.200 postos de trabalho.

 

No período compreendido entre o 4º Trimestre de 2001 e o 4º Trimestre de 2004, a quase totalidade dos grupos profissionais que consideramos de “qualificação de banda estreita e de escolaridade baixa” sofreram uma redução significativa de postos de trabalho (foram destruídos 170.700 postos de trabalho) tendo sido atingido também o subgrupo mais baixo do grupo que chamamos “Qualificação e escolaridade média” em que desapareceram 28.200 postos de trabalho em “Pessoal dos Serviços e vendedores”.

 

Neste período (4T2001/4T2004), foi fundamentalmente nas profissões do grupo de “Qualificação e escolaridade mais elevada” que se criou emprego (mais 261.300 postos de trabalho).

 

Estes dados do INE devem ser interpretados como dados indicativos, não traduzindo de uma forma rigorosa a realidade, pois os critérios de classificação em cada grupo não são naturalmente rigorosos. No entanto, eles dão já uma ideia de em que grupos profissionais se está a criar emprego e em que grupos profissionais se está a destruir mais emprego em Portugal.

 

E as conclusões, sob o ponto vista social, são extremamente preocupantes, pois são normalmente esquecidas quer nos planos do governo de combate à crise económica quer mesmo por organizações que têm como responsabilidade defender as classes mais desfavorecidas da população.

 

Efectivamente, o desemprego em Portugal está a atingir fundamentalmente a parte mais numerosa e mais frágil da população empregada – os que têm o ensino básico ou menos e com qualificação profissional de banda estreita (sabem fazer muito bem uma determinada operação fruto da experiência acumulada ao longo de muitos anos, mas têm grande dificuldade em se adaptar a outra devido à baixa escolaridade e à ausência total de cultura de formação profissional) – repetindo, é precisamente este grupo mais numeroso da população empregada, com baixa escolaridade e baixa adaptação profissional, que está a ser mais atingido pelos despedimentos em Portugal.

 

OS DESEMPREGADOS DE ESCOLARIDADE MAIS BAIXA CONSTITUEM CERCA DE 75% DO DESEMPREGO OFICIAL EM PORTUGAL

 

O número real de desempregados é bastante superior ao número oficial de desempregados. Efectivamente, se somarmos ao número oficial de desempregados, os desempregados desencorajados que não procuraram emprego no mês em que foi realizado o inquérito do INE, e que por isso não são considerados nos números oficiais do desemprego em Portugal, assim como o “subemprego visível” (aqueles que trabalham menos de 15 horas por semana por não encontrarem um emprego a tempo completo), o número de desempregados sobe dos 389.900, que é o número oficial, para 525.600, mais de meio milhão, que é o que temos chamado desemprego corrigido.

 

Se analisarmos agora os números oficiais do desemprego desagregados por níveis de escolaridade, que são publicados pelo INE, concluímos também que a população empregada que está a ser mais atingida pelo desemprego é a dos níveis de escolaridade mais baixos.

 

QUADRO III – Repartição do desemprego oficial

por níveis de escolaridade no 4º Trimestre de 2004

Nível de Escolaridade

4º Trimestre de 2004

Mil

% TOTAL

Ensino básico

292,2

75,0%

Secundário

55,0

14,1%

Superior

42,6

10,9%

TOTAL

389,8

100,0%

FONTE: Estatísticas de Emprego – 4ºT2004 – INE

 

No 4º Trimestre de 2004, 75% da população desempregada tinha apenas o ensino básico ou menos, embora a população empregada com idêntico nível de escolaridade correspondesse a 73% da população empregada.

 

Os desempregados com o nível de escolaridade superior representam já 10,9% do desemprego oficial em Portugal, tendo crescido 180% entre o 4º Trimestre de 1999 e o 4º Trimestre de 2004, sendo fundamentalmente os licenciados das áreas das ciências da educação, comunicação, sociologia e psicologia, áreas com reduzidas saídas profissionais, que estão a ser mais atingidos pelo desemprego.

 

O CRESCIMENTO VERTIGINOSO DE DESEMPREGO DE LONGUÍSSIMA DURAÇÃO

 

O crescimento do desemprego em Portugal está associado ao aumento rápido do desemprego de longa e longuíssima duração como mostram os dados do INE constantes do quadro seguinte.

 

QUADRO IV – Evolução do desemprego por duração em Portugal no

período compreendido entre o 4º Trimestre de 1999 e o 4º Trimestre de 2004

DURAÇÃO DO

DESEMPREGO

DESEMPREGO OFICIAL

4º Trimestre 2001

4º Trimestre 2004

Evolução %

Mil

Mil

4ºT2001-4ºT2004

Menos 1 mês

22,7

18,8

–17,2%

1-6 meses

78,0

132,6

70,0%

7-11 meses

31,9

54,8

71,8%

12-24 meses

42,0

85,4

103,3%

Mais 25 meses

36,5

97,0

165,8%

TOTAL

211,1

388,6