Informação Alternativa

Portugal

17/04/2005

 

A eliminação da desigualdade das remunerações entre

homens e mulheres em Portugal melhoraria a repartição da

riqueza e a sustentabilidade financeira da Segurança Social

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

As desigualdades de remunerações entre Homens e Mulheres que persistem em Portugal, e que estão mesmo a crescer com o aumento da escolaridade da população empregada, tem consequências graves em múltiplos campos que normalmente são esquecidos, mas que constituem obstáculos importantes não apenas ao crescimento económico mas fundamentalmente a um desenvolvimento em que as pessoas estão em primeiro lugar, e em que a economia deve servir as pessoas, e não o inverso como defende o pensamento económico neo-liberal dominante, nomeadamente a nível dos media.

 

O estudo realizado sobre os efeitos das desigualdades em Portugal mostra o seguinte:

 

1. A desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres determinou que as trabalhadoras portuguesas recebessem, em 2004 por ex., menos 6.439 milhões de euros de ordenados e salários, ou seja, menos 263 euros por mês (14 meses) aumentando em igual valor a “poupança” (lucros) das entidades patronais (quadro III).

 

2. Portugal é um dos países da União Europeia onde a parte da riqueza criada (PIB) que reverte para os trabalhadores sob a forma de ordenados e salários é mais baixa (em Portugal representa apenas 40% do PIB enquanto a média na U.E. é de 51% do PIB). A eliminação da desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres em Portugal determinaria que a parte que reverte para os trabalhadores sob a forma de ordenados e salários subisse de 40% para 45% do PIB aproximando Portugal um pouco mais da média da União Europeia (quadro IV).

 

3. A Segurança Social enfrenta dificuldades devido ao aumento vertiginoso do desemprego. Entre 2002 e 2004, as receitas das contribuições e cotizações aumentaram apenas 2,2%, enquanto as despesas com o pagamento de subsídios de desemprego cresceram, no mesmo período, 52,8%. A eliminação da desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres determinaria, em 2004 por ex., um acréscimo de receitas para a Segurança Social calculado em 1.236 milhões de euros, o que corresponde a cerca de 74% do valor total dos subsídios de desemprego pagos nesse ano (quadro V).

 

A CGTP realizou em Lisboa no dia 15 de Abril a “4ª Conferencia sobre Igualdade entre Homens e Mulheres” com mais de 500 participantes, sendo a esmagadora maioria mulheres, o que mostra bem que o problema das desigualdades é um problema extremamente sentido na nossa sociedade, em particular pelas mulheres.

 

Aproveitando a realização desta conferência, interessa chamar a atenção, mais uma vez, para as consequências das desigualdades que persistem, nomeadamente em campos que são sistematicamente esquecidos nas análises habituais sobre discriminação, porque muitas vezes se pensa, erradamente, que não têm qualquer relação.

 

Neste estudo iremos analisar apenas duas dessas consequências pouco conhecidas ou, pelo menos, pouco faladas que são as seguintes: as consequências da desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres na repartição da riqueza em Portugal e na sustentabilidade financeira da Segurança Social.

 

Para que se possa fazer essa análise é necessário ter presente os dados do quadro seguinte.

 

QUADRO I – Ganhos das Mulheres e dos Homens em 2002 por níveis de escolaridade

 

GANHO MÉDIO MENSAL Euros

DIFERENÇA de ganho (H-M)

em % do ganho da Mulher

NÍVEIS ENSINO

Mulheres (M)

Homens (H)

Inferior Ensino Básico

482,21

596,79

23,8%

1º Ciclo

491,7

682,22

38,7%

2º Ciclo

511,51

691,29

35,1%

3º Ciclo

648,96

853,11

31,5%

Secundário

791,69

1.094,07

38,2%

Bacharelato

1.212,41

1.817,05

49,9%

Licenciatura

1.513,02

2.269,83

50,0%

TOTAL

698,37

903,81

29,4%

FONTE: DGEEP do Ministério SS e do Trabalho – Quadros de Pessoal

 

Os ganhos constantes do quadro anterior foram apurados pelo Departamento de Estatística do Ministério do Trabalho com base nos dados dos quadros de pessoal enviados pelas empresas.

 

E a conclusão imediata que se tira é a seguinte: em relação a todo o universo, ou seja, com base nos ganhos de todos os quadros de pessoal analisados (são os valores constantes da linha com a designação “TOTAL” do quadro) a diferença entre o ganho médio mensal do Homem e o Ganho médio mensal da Mulher, que era de 205,44 euros (903,81 – 698,37), corresponde a 29,4% do ganho médio da Mulher (que era 698,37 euros).

 

No entanto, se a análise for feita por níveis de escolaridade a situação torna­‑se ainda mais grave, pois para alguns níveis a desigualdade de remunerações é ainda maior.

 

E isto porque essas diferenças, calculadas depois em percentagem do ganho médio da mulher, variam entre 23,8% (para o nível de escolaridade mais baixa que é “Inferior ao ensino básico”) e 50% que correspondente ao nível de escolaridade mais elevada (a Licenciatura).

 

Assim, os dados constantes do quadro levam à conclusão de que em Portugal a desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres aumenta significativamente quando a escolaridade aumenta. Como naturalmente o nível de escolaridade da população empregada aumentará, se a mesma correlação continuar por falta de medidas adequadas, então é de prever que a desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres, no lugar de diminuir, até aumente. É um problema em que é necessário que os sindicatos e governo estejam atentos, não só a nível da negociação colectiva, mas fundamentalmente a nível da sua aplicação, onde as perversões são possíveis como a realidade mostra.

 

AS DESIGUALDADES FAZEM PERDER ÁS TRABALHADORAS ANUALMENTE MAIS DE 6.400 MILHÕES DE EUROS DE REMUNERAÇÕES

 

Utilizando os dados sobre ganhos médios mensais das trabalhadores e dos trabalhadores calculados pelo Ministério do Trabalho que constam do quadro I e os últimos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística sobre a repartição por género dos trabalhadores por conta de outrém (TCO) calculou-se o aumento percentual nas remunerações globais (a chamada “Massa Salarial”) que se obteria se as Mulheres começassem a ganhar o mesmo que os Homens, ou seja, se fosse eliminada a desigualdade de remunerações por género que se continua a verificar em Portugal.

 

O resultado desse cálculo consta do quadro seguinte.

 

QUADRO II – Aumento percentual da “Massa Salarial” que

determinaria a igualdade das remunerações entre Homens e Mulheres

REPARTIÇÃO DOS TRABALHADORES POR CONTA DE OUTRÉM POR GÉNERO – 4º Trimestre 2004

2004

% Total

Homens – MIL

1998,7

53,40%

Mulheres – MIL

1747,4

46,60%

TOTAL

3746,1

100,00%

VALOR MENSAL DAS REMUNERAÇÕES

A preços de 2002 

 

   COM DESIGUALDADE (actual) – Milhões euros

3.027

 

   COM IGUALDADE REMUNERAÇÕES – Milhões euros

3.386

 

AUMENTO % da “MASSA SALARIAL” devido IGUALDADE

+ 11,9%

 

Fonte: INE e DEEP do MSST

 

Como mostram os dados do quadro anterior, as Mulheres já representam 46,6% de todos os “Trabalhadores por Conta de Outrém” (TCO), contribuindo muito para a riqueza criada no nosso País.

 

Tomando como base, por um lado, essa repartição e, por outro lado, os ganhos médios mensais determinados pelo Ministério do Trabalho conclui-se que a eliminação da desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres determinaria um aumento na “Massa Salarial Total” dos Trabalhadores por Conta de Outrém da amostra considerada (3.746.100) que estimamos em 11,9%.

 

Utilizando a percentagem obtida anteriormente facilmente se calcula o aumento que se verificaria no valor total dos Salários e Ordenados recebidos pelos trabalhadores portugueses, ou seja, naquilo que chamamos “Massa Salarial” em 2004, por ex., se as desigualdades de remunerações entre Homens e Mulheres fossem eliminadas, isto é, se as remunerações recebidas pelas Mulheres fossem iguais às dos Homens.

 

O quadro seguinte, construído com base em dados do Banco de Portugal (o valor de “Ordenados e Salários com desigualdade” referente a 2004 foi estimado a partir de dados de 2003 constantes no Relatório do Banco de Portugal desse ano, pois o de 2004 ainda não foi publicado); repetindo, o quadro seguinte contém os resultados dos cálculos feitos.

 

QUADRO III – Aumento na “Massa Salarial “ que determinaria

a igualdade de remunerações entre Homens e Mulheres

VALOR DOS SALÁRIOS E ORDENADOS

SALÁRIOS E ORDENADOS

Em milhões de euros

Em 2004 com DESIGUALDADE (situação actual)

54.108

Em 2004 com IGUALDADE

60.547

AUMENTO “MASSA SALARIAL”

6.439

 

A simples eliminação das desigualdades das remunerações ainda existentes em Portugal com base no género determinaria que as trabalhadoras e, consequentemente as famílias portuguesas, recebessem em 2004 mais 6.439 milhões de euros em ordenados e salários do que receberam. Se dividirmos este valor pelo número de trabalhadores por conta de outrém e por 14 meses, obtém-se 263 euros por mês que cada trabalhadora em média não recebe por mês devido à discriminação a que está sujeita. E este valor é também a “poupança” (aumento de lucros) que as entidades patronais obtêm devido à discriminação que impõem a nível das empresas.

 

A ELIMINAÇÃO DAS DESIGUALDADES DETERMINARIA UMA MELHORIA SIGNFICATIVA DE 4,5 PONTOS PERCENTUAIS NA REPARTIÇÃO DA RIQUEZA EM PORTUGAL

 

Portugal é um dos países da União Europeia onde a desigualdade na repartição da riqueza criada anualmente no país é maior, como mostram os dados do quadro seguinte.

 

QUADRO IV – Percentagem que os Ordenados e Salários representam do PIB

em Portugal (sem e com Igualdade de Remunerações) e em outros países da U.E.

PAÍSES

% que Ordenados e Salários representam do PIB

UNIÃO EUROPEIA (15 países)

51,1%

UNIÃO EUROPEIA (25 países)

50,8%

PORTUGAL

 

1975

59,0%

2004 – Sem IGUALDADE

40,3%

2004 – Com IGUALDADE

45,1%

ALEMANHA

53,2%

ESTÓNIA

46,4%

Fonte: Eurostat e Banco de Portugal

 

Na União Europeia em média cerca de 51% do PIB, ou seja, da riqueza criada anualmente reverte para os trabalhadores sob a forma de Ordenados e salários recebidos pelos trabalhadores. Em Portugal, actualmente, portanto sem igualdade nas remunerações entre Homens e Mulheres, reverte para os trabalhadores/as o correspondente a cerca de 40,3% do PIB. Se a desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres fosse eliminada, essa medida teria efeitos extremamente positivos em termos de maior justiça na repartição da riqueza criada, pois a percentagem que os “Ordenados e Salários” representa em relação ao PIB aumentaria dos actuais 40,3% do PIB para 45,1% do PIB, ou seja, cresceria em 4,8 pontos percentuais, aproximando Portugal do valor médio da União Europeia.

 

IGUALDADE DE REMUNERAÇÕES DETERMINARIA UM AUMENTO DE 1.263 MILHÕES NAS RECEITAS DA SEGURANÇA SOCIAL

 

As dificuldades financeiras que está a enfrentar a Segurança Social são causadas fundamentalmente pelo aumento do desemprego. Por um lado, são receitas que deixa de receber (os trabalhadores lançados no desemprego deixam de descontar para a Segurança Social, assim como as empresas em que trabalhavam) e, por outro lado, são as despesas com o pagamento de subsídios de desemprego que estão a crescer mais rapidamente.

 

Por exemplo, entre 2002 e 2004, as receitas das contribuições e descontos para a Segurança Social aumentaram apenas 2,2%, pois passaram de 10.160,8 milhões de euros para apenas 10.386 milhões de euros (em 2004, as receitas deste ano até foram inferiores em –0,6% às de 2003), enquanto as despesas com o pagamento de subsídios de desemprego cresceram em 52,8%, pois aumentaram de 1.090,4 milhões de euros para 1.665,8 milhões de euros.

 

Alguns defendem, face a esta evolução, que é necessário aumentar os descontos ou impostos, mesmo os pagos principalmente pelos trabalhadores, para garantir a sustentabilidade financeira da Segurança Social. E a justificação é que as propostas a apresentar “têm de ser credíveis para a opinião pública” (descodifique­‑se e leia­‑se aceites pelo poder político e económico, que domina os media, os quais “constróem” a opinião publica).

 

A análise mais profunda da situação que está a provocar à Segurança Social a recessão ou a desaceleração económica que se verifica no nosso País, leva à conclusão de que é possível encontrar outras formas de financiamento que não sobrecarreguem ainda mais os trabalhadores. E essas podem ir desde um imposto extraordinário sobre as empresas que provocam elevado número de despedimentos para apresentar depois elevados lucros até à eliminação das desigualdades de remunerações entre Homens e Mulheres que continua a verificar-se em Portugal.

 

O quadro seguinte quantifica os benefícios para a Segurança Social em termos de crescimento de receitas se a chamada discriminação salarial fosse eliminada.

 

QUADRO V – Aumento das receitas da Segurança Social em 2004 que determinaria

a eliminação da desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres

VALOR DAS CONTRIBUIÇÕES E COTIZAÇÕES

RECEBIDAS PELA SEGURANÇA SOCIAL

Milhões euros

Em 2004 com DESIGUALDADE de remunerações (situação actual)

10.386

Em 2004 com IGUALDADE de remunerações

11.622

AUMENTO DE RECEITAS PARA A SEGURANÇA SOCIAL se fosse eliminada a desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres

+1.236

 

Como mostram os dados do quadro, bastaria eliminar as desigualdades de remunerações entre Homens e Mulheres para que as receitas da Segurança Social aumentassem em 1.236 milhões de euros, o que corresponde a 74% do valor total dos subsídios de desemprego pagos em 2004. Este exemplo prova também que é possível aumentar as receitas da Segurança Social, garantindo a sua sustentabilidade financeira, sem sobrecarregar mais os trabalhadores portugueses. Mas isso exige uma acção firme, clara e continuada com esse objectivo.