Informação Alternativa

Portugal

20/03/2005

 

A situação dos reformados em Portugal e o Programa do Governo PS

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

A pensão média mensal recebida pelos 2.600.000 reformados da Segurança Social, em 2005, é de cerca de 259,50 euros, sendo de 266 euros a pensão média mensal de invalidez, de 298,80 euros a pensão média mensal de velhice, e apenas de 156,37 euros a pensão média mensal de sobrevivência (quadro I).

 

A pensão média mensal tanto de velhice como de invalidez varia muito de distrito para distrito. Assim, em 2005, as pensões médias de velhice que estão a ser pagas variam entre 374,01 euros por mês (distrito de Lisboa) e 182,40 euros por mês (estrangeiro), o que significa que a primeira é mais do dobro da segunda. Em relação às pensões médias de invalidez, variam, em 2005, entre 290,48 euros (distrito de Lisboa) e 196,88 euros (estrangeiro), ou seja, a primeira é superior à segunda em mais de 47,5% (quadro II).

 

Muitas das pensões mínimas ainda são de valores mais baixos. A pensão mínima média é, em 2005, apenas de 220,08 euros por mês tendo registado, entre 2004 e 2005, um aumento de apenas 8,30 euros. No entanto, 868.200 reformados recebem ainda em 2005 uma pensão inferior a 217 euros por mês (quadro III).

 

Mas as principais medidas constantes do Programa de Governo são apenas as seguintes:

 

1. Na página 66: «É condição essencial que a idade de reforma vá acompanhando a evolução da esperança de vida» (pág. 66). Como a esperança de vida em Portugal está a aumentar um ano em cada 3,5 anos, isto significa que em cada 3,5 anos a idade de reforma aumentará um ano, acrescentando­‑se um ano aos 65 anos por cada 3,5 anos que passe.

 

2. Na página 66 do Programa: «Uniformizar-se-ão, progressivamente, os diversos regimes de protecção social (Segurança Social, CGA, etc.), nomeadamente no que respeita à idade de reforma» o que para os trabalhadores que entraram para a Administração Pública antes de 1 de Setembro de 1993 significaria o não respeito por direitos adquiridos.

 

3. Na pág. 69 do Programa: «Implementar, no prazo de uma legislatura uma prestação Extraordinária de Combate à Pobreza dos Idosos, para que finalmente nenhum pensionista tenha que viver com um rendimento abaixo de 300 euros», devendo ser beneficiados aproximadamente 300.000 pensionistas. «Esta prestação a atribuir a idosos reformados» será «sujeita a rigorosas condições de recursos». Portanto, não é para criar imediatamente, mas num prazo de 4 anos. Ela não vai beneficiar todos os reformados com pensões inferiores a 300 euros por mês, mas apenas um em cada quatro reformados. Para além disso, o valor considerado é o rendimento de 300 euros e não a pensão de 300 euros. Isto significa que antes de ser atribuído terão de ser analisados todos os rendimentos de cada reformado, daí a afirmação que a sua atribuição está «sujeita a rigorosa condições de recursos». Isto determinará naturalmente um novo e importante acréscimo de trabalho para os serviços da Segurança Social, (o número de reformados com pensões inferiores a 300 euros, ou seja, que eventualmente poderão ser beneficiados, ronda o 1,2 milhão) que já enfrentam dificuldades enormes em cumprir as tarefas que já têm.

 

Muitos daqueles que defendem a “moderação” no aumento das pensões de reforma, ou que afirmam que as despesas com as pensões constitui um gasto insuportável para a Segurança Social, ou que defendem pura e simplesmente “cortes” na Segurança Social para “equilibrar” as contas públicas, esquecem-se de referir, intencionalmente ou por ignorância, de que valores de pensões de reforma estão a falar.

 

E isto para dizer que embora o direito a uma pensão de reforma se tenha generalizado depois do 25 Abril, as pensões de reforma recebidas pela esmagadora maioria dos 2.600.000 reformados da Segurança Social são extremamente baixas, e insuficientes para garantir uma vida com um mínimo de dignidade a quem recebe tais pensões. É o que se vai procurar mostrar seguidamente utilizando dados oficiais.

 

AS PENSÕES MÉDIAS DA ESMAGADORA MAIORIA DOS REFORMADOS CONTINUAM A SER EXTREMAMENTE BAIXAS EM PORTUGAL

 

Observe-se o quadro I cujos dados sobre os valores médios das pensões de reforma referentes a 2003, foram calculados utilizando informação constante das Estatísticas da Segurança Social de Julho de 2004.

 

QUADRO I – Pensão média mensal em 2003 e 2005 da Segurança Social

 

Ano 2003

2005

TIPO

Número

de

Pensionistas

Valor pago

durante o ano

1.000 euros

Pensão Média

Mês (14 meses)

Euros

Pensão média

Mês – Estimativa Euros

TODOS OS REFORMADOS

2.593.512

8.829.734

243,18

259,50

Invalidez

342.956

1.197.420

249,39

266,12

Velhice

1.613.580

6.325.563

280,01

298,80

Sobrevivência

636.976

1.306.751

146,54

156,37

FONTE: 2003: “Estatísticas da Segurança Social – Julho 2004”; 2005: Estimativas nossas calculadas com base nos valores oficiais de 2003.

 

Como mostram os dados do quadro I, a pensão média em Portugal (inclui todos os reformados de invalidez, velhice e sobrevivência) era apenas 243,18 euros por mês em 2003 e, em 2005, deverá rondar os 259,50 euros por mês, portanto um valor claramente inferior ao limiar da pobreza, mesmo do eng. Sócrates que é de 300 euros.

 

Se a análise for feita por tipos de pensionistas, e relativamente apenas a 2005, conclui­‑se que a pensão média mensal que está a ser paga este ano situa­‑se entre os 298,80 euros (velhice) e 156,37 euros (sobrevivência) por mês, portanto valores muito baixos que impossibilitam qualquer vida com um mínimo de dignidade.

 

É evidente que há reformados a receberem pensões muitos superiores a estes valores médios. Mas para que isso aconteça é necessário que muitos mais recebam pensões de reforma também muitos inferiores àqueles valores médios.

 

OS VALORES DAS PENSÕES MÉDIAS VARIAM MUITO DE DISTRITO PARA DISTRITO

 

Se fizermos uma análise mais fina por distrito, constamos que existem diferenças muito grandes entre eles, verificando que os reformados de muitos distritos recebem pensões médias ainda inferiores aos valores que estão no quadro I. Observem­‑se os dados do quadro II, sendo os de 2003 publicados pela Segurança Social e os de 2005 estimativas.

 

QUADRO II – Pensão média mensal de velhice e de invalidez por distrito - 2003 e 2005

DISTRITOS

VELHICE

2003

VELHICE

2005

INVALIDEZ

2003

INVALIDEZ

2005

 

N.º

Pensão

Ano

Pensão

Mês – Euros

Pensão Mensal – €

n.º

Pensão Ano

Pensão

Mês – Euros

Pensão

Mês – €

Lisboa

315.582

4.907

350,50

374,01

68.761

3.811

272,21

290,48

Setúbal

112.948

4.522

323,00

344,67

25.642

4.212

300,86

321,04

Porto

213.288

4.228

302,00

322,26

55.135

3.458

247,00

263,57

PORTUGAL

1.613.580

3.810

272,14

290,40

342.956

3.440

245,71

262,20

Aveiro

102.117

3.724

266,00

283,85

21.316

3.272

233,71

249,39

RA Madeira

34.888

3.495

249,64

266,39

7.420

3.206

229,00

244,36

Santarém

83.906

3.490

249,29

266,01

14.451

3.351

239,36

255,42

Évora

37.535

3.471

247,93

264,56

6.424

3.257

232,64

248,25

Coimbra

75.953

3.425

244,64

261,06

15.973

3.444

246,00

262,50

Braga

101.303

3.420

244,29

260,67

28.324

3.289

234,93

250,69

Leiria

77.091

3.413

243,79

260,14

15.134

3.396

242,57

258,85

Faro

62.163

3.377

241,21

257,40

8.216

3.248

232,00

247,56

RA Açores

24.539

3.324

237,43

253,36

8.777

3.580

255,71

272,87

Portalegre

31.231

3.245

231,79

247,34

5.010

3.212

229,43

244,82

Beja

37.637

3.170

226,43

241,62

6.428

3.123

223,07

238,04

C. Branco

48.062

3.077

219,79

234,53

7.327

3.074

219,57

234,30

V. Castelo

43.308

3.026

216,14

230,64

9.736

3.134

223,86

238,88

Viseu

68.827

2.974

212,43

226,68

10.008

2.828

202,00

215,55

Vila real

40.646

2.927

209,07

223,10

7.705

2.801

200,07

213,49

Guarda

39.070

2.926

209,00

223,02

6.724

3.041

217,21

231,79

Bragança

32.606

2.861

204,36

218,07

6.332

2.834

202,43

216,01

Estrangeiro

30.880

2.393

170,93

182,40

8.104

2.583

184,50

196,88

Fonte: 2003: Estatísticas da Segurança Social. 2005: Estimativas Eugénio Rosa calculadas com base nos dados 2003

 

Como mostram os dados do quadro II, apenas nos distritos de Lisboa, Setúbal e Porto é que as pensões médias mensais de invalidez e velhice são superiores aos valores das pensões médias nacionais. Em todos os outros distritos as pensões médias estão abaixo das médias nacionais, e em muitos deles mesmo muito abaixo.

 

Efectivamente, em 2005, as pensões médias de velhice que estão a ser pagas variam entre 374,01 euros por mês (distrito de Lisboa) e 182,40 euros por mês (estrangeiro), o que é uma diferença muito grande, pois a primeira é mais do dobro da segunda.

 

Em relação às pensões médias de invalidez, embora a diferença não seja tão grande, ela continua a ser significativa, pois variam, em 2005, entre 290,48 euros (distrito de Lisboa) e 196,88 euros (estrangeiro), ou seja, a primeira é superior à segunda em mais de 47,5%.

 

Refira­‑se que os valores das pensões médias calculadas pela própria Segurança Social que constam do quadro II, na linha “PORTUGAL”, são ainda inferiores aos valores que calculamos utilizando uma metodologia diferente e que constam do quadro I.

 

1.200.000 REFORMADOS COM PENSÕES MÍNIMAS MUITAS DELAS AINDA MAIS BAIXAS

 

No entanto, entre os reformados anteriores, existem aqueles – e são quase 1.200.000 – que recebem as chamadas pensões mínimas, a maioria delas de valores ainda inferiores aos anteriores, como se mostra no quadro III, que se apresenta seguidamente.

 

QUADRO III – Valores das Pensões mínimas em 2004 e 2005

ANOS DE

DESCONTOS

REFORMADOS

Pensão

até 1.12.04