Informação Alternativa

Portugal

05/03/2005

 

As desigualdades de remunerações entre homens e mulheres aumentam com o aumento do nível de escolaridade

e de qualificação das mulheres

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Apesar da importância e da participação crescente da mulher na vida do País, o certo é que persistem desigualdades entre homens e mulheres, e que o peso de algumas tende até a aumentar. Neste estudo chama-se a atenção para duas dessas desigualdades que se têm mantido invisíveis mas que, se não forem denunciadas e tomadas medidas adequadas para as contrariar, tenderão com o tempo a ganhar maior peso em Portugal.

 

Contrariamente ao que se poderia pensar, as desigualdades de remunerações entre homens e mulheres em Portugal não têm diminuído com o aumento do nível de escolaridade e das qualificações das mulheres; muito pelo contrário. As mulheres apesar de serem já claramente maioritárias entre a população empregada em 12 das 16 áreas de saber (Letras e Ciências Religiosas; Ciências da Educação; Belas Artes; Direito; Administração das empresas e Técnicas Comerciais; Jornalismo e Informação; Ciências Exactas e Ciências Físicas; Matemáticas e Estatísticas; Ciências Médicas e Saúde; e Indústria Transformadora), só o não sendo ainda em quatro (Agricultura, Silvicultura e Pesca; Ciências de Engenharia; Ciências Informáticas; e Ciências Veterinárias), e apesar do nível médio de escolaridade da população empregada feminina (8,5 anos) ser em 2002 já superior à dos homens empregados (apenas 7,7 anos), no entanto esse aumento do nível de escolaridade não tem determinado uma maior igualdade das remunerações entre homens e mulheres em Portugal; muito pelo contrário (quadro I).

 

Os dados dos quadros de pessoal tratados e divulgados pelo novamente chamado Ministério do Trabalho, mostram que quanto mais elevado é o nível de escolaridade da mulher, maior é a desigualdade das remunerações entre homens e mulheres. Por exemplo, em 2002 (e este é o ultimo ano em que existem dados disponíveis) para o nível de escolaridade mais baixo – “Inferior ao Ensino Básico” – o ganho médio mensal das mulheres, que inclui tudo o que recebem, correspondia a 80,8% do ganho médio mensal dos homens, enquanto em relação ao nível de escolaridade mais elevado – “Licenciatura” – o ganho médio mensal das mulheres correspondia apenas a 66,7% do ganho médio dos homens (quadro II) . Os mesmos dados dos quadros de pessoal das empresas também revelam que quanto mais elevado é o nível de qualificação das mulheres, maior é a desigualdade de ganhos (remunerações) entre homens e mulheres. Assim, em 2002, o ganho médio mensal das mulheres do grupo “Praticantes e Aprendizes” (o nível de qualificação mais baixo) correspondia a 94,1% do ganho médio mensal dos homens do mesmo grupo, enquanto o ganho médio mensal das mulheres do grupo “Quadros Superiores” (o nível de qualificação mais elevado) correspondia apenas a 70% do ganho médio mensal dos homens do mesmo grupo de qualificação (quadros II e IV).

 

O nível de escolaridade e de qualificação das mulheres vai continuar a aumentar rapidamente (basta lembrar que actualmente em cada 100 licenciados que saem anualmente das universidades portuguesas 65 já são mulheres), por isso, muitas mais mulheres alcançarão níveis elevados de escolaridade e de qualificação. Se as desigualdades entre homens e mulheres que se verificam actualmente a nível de ganhos (remunerações) nos níveis mais elevados de escolaridade e de qualificação se mantiverem, então a desigualdade de remunerações entre homens e mulheres tenderá a aumentar em termos nacionais porque uma maior percentagem de mulheres será afectada por ela. E isso constituirá certamente um obstáculo sério ao desenvolvimento do País, na medida em que impede a utilização plena das capacidades da maioria da população e gera naturalmente sentimentos de grave injustiça social e económica.

 

Mas não é apenas nos campos anteriores que as desigualdades entre homens e mulheres continuam a ser grandes. O mesmo sucede no acesso ao emprego. Em Janeiro de 2005, o número de mulheres desempregadas inscritas nos Centros de Emprego com o 1º ciclo era superior ao número de homens inscritos nos Centros de Emprego com igual nível de escolaridade em 12,3%; na mesma data, o número de mulheres inscritas nos mesmos Centros com o ensino superior era mais elevado do que o número de homens com o mesmo nível de escolaridade inscritos nos Centros de Emprego em 92% (Q. V).

 

Apesar da crescente participação e importância da mulher na vida do País, o certo é que muitas desigualdades entre homens e mulheres persistem, e outras tendem a tornarem-se visíveis devido ao seu agravamento.

 

Como mostrámos no estudo que publicámos no 8 de Março de 2004 [1], utilizando como indicador o número de licenciados, as mulheres já são claramente maioritárias em 12 das 16 áreas do saber. Assim, em 2001, na população empregada, 78% dos licenciados em “Letras e Ciências Religiosas” eram mulheres; em “Ciências da Educação” essa percentagem era de 84%; em “Belas Artes” era de 62%; no Direito 54,4% dos licenciados eram mulheres; nas “Ciências Sociais” 61,7%; na “Administração de empresas e Técnicos Comerciais” 53,8%; no “Jornalismo e Informação” 53,8%; nas “Ciências exactas e Ciências Físicas” 66,2% dos licenciados eram mulheres; nas “Matemáticas e Estatísticas” 73,3%; nas “Ciências Médicas e Saúde” 60,5%; e na “Industria Transformadora” 53%. Apenas na “Arquitectura e Construção” (26,9% dos licenciados eram mulheres), na “Agricultura, Silvicultura e Pesca” ( 40,3% dos licenciados), “Ciências de Engenharia” ( 19,1%), “Ciências Informáticas” (31,9% dos licenciados) e “Ciências Veterinárias” (41,6% dos licenciados) as mulheres eram ainda minoritárias relativamente ao total de licenciados empregados. E o peso das mulheres em todas as áreas do saber continuará a aumentar rapidamente. Para concluir isso, basta recordar que actualmente em cada 100 licenciados que saem anualmente das universidades portuguesas 65 são já mulheres.

 

O NIVEL MÉDIO DE ESCOLARIDADE DAS MULHERES EMPREGADAS (8,5 ANOS) É JÁ SUPERIOR AO DOS HOMENS (7,7 ANOS)

 

Os últimos dados conhecidos dos quadros de pessoal das empresas tratados pelo novamente chamado Ministério do Trabalho e da Segurança Social, referentes ao ano de 2002, que constam do quadro I mostram que o nível médio de escolaridade das mulheres empregadas é já superior ao nível médio de escolaridade dos homens empregados.

 

QUADRO I – População empregada (quadros de pessoal) por níveis de escolaridade e por sexo e escolaridade média da população empregada feminina e masculina em Portugal em 2002

 

N.º Trabalhadores(as)

% em relação TOTAL

% Mulheres

Anos escolaridade

NÍVEIS ENSINO

Mulheres

Homens

Das Mulheres

 

Dos Homens

no Total (Homens + Mulheres)

Mulheres

Homens

Inferior Ensino Básico

13.148

24.546

1,7%

2,2%

34,9%

0

0

1º Ciclo

193.038

346.694

25,1%

31,3%

35,8%

772.152

1.386.776

2º Ciclo

161.066

251.261

20,9%

22,7%

39,1%

966.396

1.507.566

3º Ciclo

145.405

212.462

18,9%

19,2%

40,6%

1.308.645

1.912.158

Secundário

170.054

179.931

22,1%

16,2%

48,6%

2.040.648

2.159.172

Bacharelato

22.920

23.588

3,0%

2,1%

49,3%

343.800

353.820

Licenciatura

64.681

69.503

8,4%

6,3%

48,2%

1.099.577

1.181.551

TOTAL

770.312

1.107.985

100,0%

100,0%

41,0%

6.531.218

8.501.043

NIVEL DE ESCOLARIDADE MÉDIA (n.º de anos médio de escolaridade)

8,5

7,7

FONTE: DGEEP do Ministério SSFC – Quadros de Pessoal

 

Assim, de acordo com os dados do quadro, 56,2% dos homens empregados possuíam apenas o ensino básico ou menos, enquanto a nível das mulheres essa percentagem era de 47,7%; em relação ao ensino secundário, a percentagem de homens com este nível de ensino era apenas de 16,2% enquanto a percentagem de mulheres atingia 22,1%; com um nível de escolaridade superior a percentagem de homens era apenas de 8,4%, enquanto a das mulheres atingia 11,4%.

 

Se analisarmos a percentagem que as mulheres representam em cada nível de escolaridade (ver coluna “% de Mulheres no Total (Homens+Mulheres)” conclui­‑se que o peso das mulheres é tanto maior quanto maior é o nível de escolaridade. Por ex., as mulheres com o 1º ciclo do ensino básico representam 35,8% deste grupo (Homens+Mulheres) , enquanto já representam 48,2% do grupo de licenciados.

 

Se calcularmos a escolaridade média dos homens e das mulheres empregados, concluímos que esta última (a das mulheres) é já superior à primeira (à dos Homens) . Assim, tomando como base toda a população empregada feminina, por um lado, e, por outro lado, toda a população masculina, conclui-se rapidamente que a escolaridade média (ponderada) dos homens empregados em Portugal é apenas de 7,7 anos enquanto a das mulheres é de 8,5 anos.

 

QUANTO MAIS ELEVADO É O NÍVEL DE ESCOLARIDADE, MAIORES SÃO AS DESIGUALDADES DE REMUNERAÇÕES ENTRE HOMENS E MULHERES

 

No entanto, este maior nível de escolaridade das mulheres não tem tido correspondência a nível de maior igualdade de ganhos entre homens e mulheres. Efectivamente, o que tem sucedido nas empresas portuguesas é que quanto maior é o nível de escolaridade, maiores são as desigualdades de remuneração entre homens e mulheres. Os dados oficiais dos quadros de pessoal que constam do quadro seguinte provam precisamente isso.

 

QUADRO II – Ganho médio mensal dos Homens e das Mulheres em Portugal

de acordo com o nível de escolaridade em 2002 e em Euros

 

Ganho médio mensal – Euros

% que ganho das Mulheres representa

NÍVEIS ENSINO

Mulheres

Homens

em relação ganho dos Homens

Inferior Ensino Básico

482,21

596,79

80,8%

1º Ciclo

491,70

682,22

72,1%

2º Ciclo

511,51

691,29

74,0%

3º Ciclo

648,96

853,11

76,1%

Secundário

791,69

1.094,07

72,4%

Bacharelato

1.212,41

1.817,05

66,7%

Licenciatura

1.513,02

2.269,83

66,7%

TOTAL

698,37

903,81

77,3%

FONTE: DGEEP do Ministério SSFC – Quadros de Pessoal

 

Os dados do quadro mostram que existe uma correlação positiva entre nível de escolaridade e desigualdade de remunerações entre Homens e Mulheres em Portugal, ou seja, quanto mais elevada é a escolaridade maiores são as desigualdades entre homens e mulheres. Efectivamente, para o nível de escolaridade mais baixo – “Inferior ao Ensino Básico” – o ganho médio das mulheres, que inclui tudo o que ela recebe, corresponde a 80,8% do ganho médio mensal dos homens, enquanto em relação ao nível de escolaridade mais elevado – “Licenciatura” – o ganho médio das mulheres corresponde apenas a 66,7% do ganho médio dos homens.

 

Os dados oficiais disponíveis parecem mostrar que o crescimento contínuo do nível de escolaridade das mulheres empregadas, que tem sido superior à dos homens, não se tem traduzido por uma maior igualdade de remunerações entre homens e mulheres; pelo contrário, tem-se verificado é uma desigualdade maior nos grupos profissionais com mais elevado nível de escolaridade, o que não deixa de ser preocupante.

 

É evidente, que dependendo o rápido desenvolvimento do País do aumento significativo do nível de escolaridade da população, e sabendo­‑se que é precisamente o nível de escolaridade das mulheres aquele que está a aumentar mais rapidamente, consequentemente as graves desigualdades referidas anteriormente constituem obstáculos importantes à recuperação do atraso do País, na medida em que impedem a utilização plena das capacidades das mulheres, marginalizando­‑as e criando sentimentos reais de injustiça.

 

QUANTO MAIS ELEVADO É O NIVEL DE QUALIFICAÇÃO, MAIORES SÃO TAMBÉM AS DESIGUALDADES DE REMUNERAÇÕES ENTRE HOMENS E MULHERES

 

Se cruzarmos os dados do quadro II – repartição da população empregada feminina e masculina por níveis de escolaridade – com os dados também oficiais constantes do quadro III – repartição da população empregada feminina e masculina por níveis de qualificação – as conclusões anteriores são reforçadas.

 

QUADRO III - População empregada (quadros de pessoal)

por níveis de qualificação e por sexo em Portugal em 2002

 

N.º Trabalhadores(as)

% em relação TOTAL

% Mulheres do

NÍVEIS QUALIFICAÇÃO

Mulheres

Homens

 Mulheres

Homens

Total (H+M)

Quadros superiores

28.821

60.338

3,9%

5,6%

32,3%

Quadros médios

25.233

40.748

3,4%

3,8%

38,2%

Encarregados, Contramestres, Chefes de equipa

18.060

59.621

2,4%

5,6%

23,2%

Profissionais altamente qualificados

54.425

70.602

7,3%

6,6%

43,5%

Profissionais qualificados

297.099

545.534

40,0%

50,9%

35,3%

Profissionais semi­‑qualificados

166.791

121.843

22,5%

11,4%

57,8%

Profissionais não qualificados

91.380

115.653

12,3%

10,8%

44,1%

Praticantes e aprendizes

60.544

57.673

8,2%

5,4%

51,2%

TOTAL

742.353

1.072.012

100,0%

100,0%

40,9%

FONTE: DGEEP do Ministério SSFC – Quadros de Pessoal

 

Como os dados do quadro mostram, quanto maior é o nível de qualificação, menor é o peso das mulheres. Por ex., as mulheres representam 51,1% do total (Homens+Mulheres) dos “Praticantes e Aprendizes” enquanto a percentagem de mulheres no grupo “Quadros Superiores” é apenas de 32,3%.

 

Assim, em relação a níveis de qualificação verifica-se uma inversão do que se observa relativamente a níveis de escolaridade. E isto porque em relação a níveis de escolaridade, quanto mais elevado é o nível de escolaridade, maior é o peso (percentagem ) de mulheres, enquanto relativamente a níveis de qualificação verifica­‑se precisamente o inverso, ou seja, quanto maior é o nível de qualificação menor é o peso (percentagem) de mulheres. Também aqui, ou seja, quanto a níveis de qualificação a mulher não tem obtido um estatuto que corresponda ao aumento do seu nível de escolaridade. Parece também persistirem elevadas desigualdades nesta área.

 

Esta conclusão é reforçada pela análise dos ganhos médios mensais dos homens e das mulheres em Portugal por níveis de qualificação, o que é possível fazer com base nos dados oficiais dos quadros de pessoal das empresas constantes do quadro IV.

 

QUADRO IV – Ganho médio mensal dos Homens e das Mulheres em Portugal

de acordo com o nível de qualificação em 2002 e em Euros

 

Ganho médio mensal – Euros

% Ganho das Mulheres

NÍVEIS QUALIFICAÇÃO

Mulheres

Homens

em relação ganho Homens

Quadros superiores

1.789,68

2.556,60

70,0%

Quadros médios

1.385,10

1.667,54

83,1%

Encarregados, Contra-mestres, Chefes equipa

991,61

1.139,10

87,1%

Profissionais altamente qualificados

1.122,00

1.270,97

88,3%

Profissionais qualificados

620,14

733,75

84,5%

Profissionais semi­‑qualificados

496,41

639,08

77,7%

Profissionais não qualificados

462,69

535,79

86,4%

Praticantes e aprendizes

451,58

479,95

94,1%