Informação Alternativa

Portugal

29/01/2005

 

Crescimento económico, défice orçamental e dívida pública

em Portugal no período 1974­‑2004

 

Eugénio Rosa

 

AS PRINCIPAIS CONCLUSÕES DESTE ESTUDO

 

1. O pensamento económico único dominante em Portugal, de cariz neoliberal, tem procurado difundir a ideia de que o défice orçamental mais elevado é incompatível com taxas de crescimento económico mais elevadas, e que bastaria reduzir o défice abaixo dos 3% para que, como por milagre, Portugal alcançasse elevadas taxas de crescimento económico e a prosperidade invadisse o País.

 

2. Este estudo realizado com base em dados publicados pelo INE, e abrangendo um período de tempo suficientemente longo (1974-2004), mostra que isso não é verdade.

 

3. Assim, depois do 25 de Abril, os anos em que o crescimento económico foi maior em Portugal, com taxas reais iguais ou mesmo superior a +5% (períodos 1977­‑1980 e 1986­‑1991) foram anos com défices elevados que, no primeiro período (77/80), se situaram entre os –4% e os –9% e, no segundo período (86/91), entre –2% e –6% (gráfico I e II).

 

4. Se a análise se circunscrever a um período mais recente (1986­‑2004), e se seleccionarmos os 6 anos em que o défice foi inferior a –3% (1989, 1999, 2000, 2002, 2003 e 2004), e os 6 anos em que o défice foi superior a –5,5% (1986, 1987, 1990, 1991, 1994 e 1995) conclui-se que as taxas de crescimento económico nos anos em que o défice foi superior a –5,5% foram, em média, 68% mais elevadas do que as taxas de crescimento económico nos anos em que o défice foi inferior a –3%. Efectivamente, a média das taxas reais de crescimento económico dos anos em que o défice ultrapassou os –5,5% é de 3,7%, enquanto a média das taxas em que o défice foi inferior a –3% é de 2,2% (gráfico III e quadro I).

 

5. Em resumo, a experiência portuguesa mostra, por um lado, que não é incompatível taxas de crescimento elevadas com défices e endividamento mais elevados, e que o inverso – Dívida Pública e défices mais reduzidos – não está necessariamente associado a taxas de crescimento económico mais elevadas, como o pensamento económico único pretende fazer crer (quadro I).

 

REDUÇÃO DO DÉFICE ORÇAMENTAL NÃO DETERMINA, SÓ POR SI, ELEVADAS TAXAS DE CRESCIMENTO ECONÓMICO

 

Uma das ideias força do pensamento económico único dominante é que quanto mais reduzido for o défice orçamental mais elevado será o crescimento económico.

 

Chega-se mesmo ao ponto de afirmar-se ou insinuar-se que bastaria reduzir o défice abaixo do valor mítico de 3% para que, como por milagre, o crescimento económico e a prosperidade atingissem Portugal. E o raciocínio elementar é o seguinte: desta forma o Estado libertaria meios que ficariam disponíveis para as empresas que os aplicariam em investimento produtivo e o crescimento dispararia.

 

TAXAS DE CRESCIMENTO ELEVADAS COM DÉFICES ELEVADOS EM PORTUGAL

 

A experiência do crescimento económico português depois do 25 de Abril, esquecida sistematicamente pelo pensamento económico dominante, prova que o crescimento económico não é incompatível com défices mais elevados, mostrando mesmo que em muitos anos o crescimento só foi possível dessa forma.

 

O gráfico que se apresenta seguidamente, publicado no estudo 30 ANOS DE 25 DE ABRIL, um retrato estatístico publicado pelo INE, revela a curva do crescimento económico em Portugal num período suficiente longo pois abrange o período que vai de 1974 a 2002.

 

GRÁFICO I – Taxas de crescimento económico em Portugal 1974-2002

Taxas de crescimento do Produto Interno Bruto [preços de mercado]

Fontes: Até 1995: BP, Séries Longas para a Economia Portuguesa. Desde 1995: INE, Contas Nacionais.

Nota: Os dados de 2000 e 2001 são provisórios. Os dados de 2002 e 2003 são preliminares.

 

A linha mais carregada é a taxa de crescimento nominal, portanto antes de ser deduzido o efeito do aumento dos preços, enquanto a linha menos carregada é taxa de crescimento económico real, a que se obtém depois de se retirar o efeito provocado pela subida de preços. E a conclusão que se tira é que depois do 25 de Abril, os períodos de maior crescimento económico, com taxas de crescimento real superior a 5%, foram os períodos 1977­‑1980 e 1986­‑1991.

 

Observe-se agora o gráfico seguinte que reúne os valores do défice e da dívida.

 

GRÁFICO II – Défice e Dívida Púbica em Portugal 1974-2004

Fontes: Banco de Portugal, Séries Longas, 1979­‑1994. INE, Contas Nacionais, 1995­‑1998. (Saldo global).

Comissão europeia (1973­‑1996). Eurostat (1997­‑1998). (Dívida Pública)

INE, Procedimento dos défices excessivos, 1999­‑2004, Março de 2004.

Os dados de 2002 e 2003 são estimados. Os dados de 2004 são previstos.

 

No gráfico anterior, as barras indicam o défice da Administração Pública em percentagem do PIB cujos valores estão indicados à esquerda do gráfico, enquanto a linha indica a Dívida Pública também em percentagem do PIB cujos valores estão indicados à direita do gráfico.

 

Cruzando os dados do gráfico II com os dados do gráfico I, as conclusões que imediatamente se tiram são as seguintes: Depois do 25 de Abril, no período compreendido entre 1977 e 1980, em que as taxas anuais de crescimento real da economia foram superior a +5%, o défice situou-se sempre entre –4% e –9%; e no período entre 1986 e 1991, outro período em que as taxas de crescimento económico real foram também superiores sempre a +5%, o saldo das contas da Administração Pública foi negativo, tendo-se situado o défice dentro do intervalo –2% e –6%.

 

A partir de 2001, em que o défice apresenta valores menos elevados, é precisamente o período em que as taxas de crescimento económico são mais baixas, tendo o País entrado em recessão económica em 2003, da qual ainda não saiu completamente.

 

Outro aspecto importante que mostra a análise empírica revelada no Gráfico II é a evolução da Dívida Pública em percentagem do PIB.

 

No período 2001-2004, em que dominou a obsessão do défice, a Dívida Pública não parou de crescer, pois passou de cerca de 55% do PIB para 60% do PIB.

 

O gráfico seguinte completa os dois anteriores pois reúne num único gráfico o défice e a Dívida Pública, ambos em percentagem do PIB.

 

GRÁFICO III – Défice e Dívida Pública em Portugal 1985­‑2004

Saldo global das Administrações Públicas e Dívida Pública Bruta em % do PIB

Fontes: Banco de Portugal, Séries Longas, 1986‑1994. INE, Contas Nacionais, 1995­‑1998. (Saldo global).

Comissão europeia (1986­‑1996). Eurostat (1997­‑1998). (Dívida Pública)

INE, Procedimento dos défices excessivos, 1999­‑2004, Março de 2004.

Os dados de 2002 e 2003 são estimados. Os dados de 2004 são previstos.

 

O gráfico anterior mostra que no período compreendido entre 1986 e 2004, os anos em que o défice foi inferior a 3% foram apenas 6 anos (1989, 1999, 2000, 2002, 2003 e 2004), existindo também seis anos em que o défice foi mesmo superior a 5,5% (1986, 1987, 1990, 1991, 1994 e 1995).

 

No quadro seguinte estão as taxas de crescimento económico e a dimensão da Dívida Pública nesses anos.

 

QUADRO I – Défice, taxa de crescimento económico e Dívida Pública

ANOS COM DÉFICE

inferior a 3% do PIB

(% do PIB)

Taxa crescimento

real da Economia

Dívida Pública

% do PIB

1989

5,5%

57,5%

1999

3,8%

54,3%

2000

3,7%

53,3%

2002

0,5%

58,1%

2003

-1,2%

59,5%

2004

1,0%

62,0%

Média

2,2%

57,5%

ANOS COM DÉFICE

superior a 5,5% do PIB

Taxa crescimento

real da Economia

Dívida Pública

% do PIB

1986

5,0%

61,0%

1987

5,1%

58,0%

1990

5,2%

68,2%

1991

4,0%

68,1%

1994

0,7%

66,6%

1995

2,3%

65,9%

Média

3,7%

64,6%

 

Como mostram os dados do quadro, as taxas de crescimento real da Economia no período em que o défice foi superior a 5,5% foram mais elevadas do que as taxas de crescimento em que o défice foi inferior e 3%, já que a média das primeiras taxas (3,7%) é superior em cerca de 68% à média das taxas dos anos em que o défice foi inferior a 3%. (2,2%). Em segundo lugar, também se verificaram taxas de crescimento económico mais elevadas quando a Dívida Pública era mais elevada.

 

Em resumo, a experiência portuguesa mostra, por um lado, que não é incompatível taxas de crescimento económico elevadas com défices e endividamento mais elevados, e que o inverso – défices e Dívida Pública mais reduzidas – não está necessariamente associado a taxas de crescimento económico mais elevadas, como o pensamento económico único pretende fazer crer.

 

ALGUMAS CONCLUSÕES FINAIS

 

É evidente que não se está a defender que quanto mais elevado for o défice maior será o crescimento económico, e que o equilíbrio das contas públicas não deve merecer preocupação. Pelo contrário, as contas públicas, pela importância que têm no contexto do País, devem merecer uma atenção constante e um controlo inteligente e não cego como tem sido feito.

 

No entanto, a experiência portuguesa depois do 25 de Abril mostra que as taxas de crescimento económico mais elevadas estiveram associadas a défices mais elevados. Assim, se já não tinha qualquer sustentação científica a defesa obsessiva do défice de –3%, a experiência empírica reforça a ideia de que é errado transformar o défice de –3% numa obsessão a que tudo se deve sujeitar, sacrificando o crescimento económico como tem sido feito, e pensando que com défices reduzidos impostos de qualquer maneira o crescimento económico elevado será automático. A experiência portuguesa dos três últimos anos mostra de uma forma clara que persistir no caminho que tem sido seguido só poderá ter consequências económicas e sociais graves. A experiência europeia, com taxas de crescimento muito reduzidas, parece também confirmar o mesmo.