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16/11/2007 Noam
Chomsky Os crimes contra os palestinianos nos territórios ocupados e em outras partes, particularmente desde que os palestinianos votaram “de forma errada" e deram a vitória ao Hamas no ano passado, são tão chocantes que a única reacção emocionalmente válida é a raiva e o apelo a acções extremas. Mas isso não ajuda as vítimas, e é provável que as prejudique. As nossas acções têm de ser adaptadas às circunstâncias
do mundo real, por muito difícil que possa ser permanecer calmo face a crimes
vergonhosos, nos quais nós, nos Estados Unidos, estamos directa e
crucialmente implicados. Aproximamo‑nos da conferência sobre Israel‑Palestina
convocada pelo presidente Bush, a primeira iniciativa diplomática
potencialmente séria da administração em relação a esse conflito. Idealmente, as negociações de Anápolis deveriam começar
no ponto que tinham atingido em Taba, no Egipto, em Janeiro de 2001. Essa
semana foi o único momento em 30 anos em que os Estados Unidos e Israel
abandonaram a posição de rejeição que mantiveram praticamente isolados até ao
presente. E Taba esteve desesperantemente perto de um possível acordo de dois
estados, com uma razoável troca de terras. A ideia convencional é que em Taba
os palestinianos recusaram a generosa oferta de Israel. Na verdade, a
conferência foi findada abruptamente pelo primeiro‑ministro israelense
Ehud Barak, num momento em que os negociadores informaram que estavam a ponto
de chegar a um acordo. Talvez Taba tenha sido quase um sucesso porque os Estados
Unidos não estavam ali como mediadores. A política de Washington para com Israel-Palestina
foi por muito tempo uma contorção. «Cada administração (estadunidense) desde
1967, quando Israel ganhou a guerra e ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza,
favoreceu em privado a devolução de quase todo esse território aos palestinianos
com o propósito de criar um estado palestiniano separado», observou há dois
meses no The New York Times Book Review o respeitado analista político
Leslie Gelb. Observem a expressão «em privado». Porque não publicamente? Gelb não pôde querer dizer que a diferença na posição resultou
do medo do aterrorizante lobby israelense, pois tenta por todos os
meios negar a tese de que se trata de uma força poderosa e intimidante. Então,
porquê somente «em privado»? Talvez porque tal interpretação apoia a reconfortante
auto‑imagem dos Estados Unidos como um “intermediário honesto”, frustrado
nos seus nobres esforços por estrangeiros violentos e irracionais, com a
atribuição aos palestinianos do papel principal no drama. Sabemos o que as administrações disseram publicamente. Recusaram
tudo aquilo que fosse remotamente aparentado [com o acordo de dois estados], desde
1976, quando os Estados Unidos vetaram uma resolução do Conselho de Segurança
reclamando um acordo de dois estados na fronteira internacional (a Linha Verde),
incorporando todo o fraseado relevante da Resolução 242 da ONU, de Novembro
de 1967. Agora praticamente todo o mundo está de acordo com o consenso internacional de dois estados, segundo as linhas acordadas em Taba. Isso inclui todos os estados árabes, que propõem uma total normalização de relações com Israel. Inclui o Irão, que aceita a posição da Liga Árabe. Inclui o Hamas, cujos líderes pediram repetidamente e publicamente um acordo de dois estados, inclusive na imprensa dos Estados Unidos. Inclui até a figura mais militante do Hamas, Khaled Meshal, exilado na Síria. Israel rejeitou reiteradamente o consenso internacional,
e os Estados Unidos apoiam totalmente essa rejeição. Bush II chegou a novos
extremos de rejeccionismo, declarando que os colonatos ilegais da Cisjordânia
devem ficar em mãos de Israel. Mas a linha do partido permanece imperturbável:
Bush, Condoleezza Rice e outros desejam que se concretize a “visão” de Bush
de um Estado palestiniano, persistindo no nobre esforço do “intermediário
honesto” de longa data. O rejeccionismo vai muito além das palavras. Mais
significativas são as acções no terreno: programas de colonização, o muro de
anexação, encerramentos, postos de controle e coisas muito piores. A história
continua à medida que a conferência de Anápolis se aproxima. Só um exemplo:
Israel acaba de confiscar mais terra árabe para construir uma rota de desvio
para palestinianos com o propósito de «impulsionar o tráfico palestiniano
entre Belém e Ramalah para o deserto e efectivamente excluir (palestinianos) da
parte central da Cisjordânia», parte do projecto de desenvolvimento E-1, a leste
de Jerusalém, projectado para incorporar o povoado de Ma’aleh Adumim em
Israel e, efectivamente, dividir em duas a Cisjordânia, segundo a organização
pacifista israelense Gush Shalom. «Com tais políticas levadas a cabo pelo
governo, a famosa conferência de Anápolis fica esvaziada de todo o
significado, muito antes de se realizar». Não foi avançada nenhuma proposta realista que não tome o
acordo de dois estados pelo menos como ponto de partida, segundo as linhas
gerais de Taba. Seguiram-se negociações informais, que conduziram a várias
propostas detalhadas, especialmente o Acordo de Genebra de Dezembro de 2002,
aplaudido pela maior parte do mundo mas descartado pelo «chefe disfarçado de
sócio», como o analista político israelense Amir Orem descreve a relação Estados
Unidos‑Israel. Sem o apoio dos EUA, Israel não pode concretizar os seus
objectivos expansionistas, o que faz recair a responsabilidade sobre nós aqui
nos Estados Unidos. Há montes de escolhos por diante. Alguns dos assessores
mais próximos do primeiro-ministro Ehud Olmert respaldaram uma versão da
política de “troca de terras” de Avigdor Lieberman, o líder do partido de
extrema‑direita Yisrael Beitenu. Esse tipo de troca daria aos palestinianos
a autoridade técnica sobre a região “triangular” de forte maioria árabe em
Israel, que bordeja a Linha Verde. Em troca, Israel anexaria os colonatos da
Cisjordânia que abarcam preciosos recursos hídricos e valiosas terras,
deixando o resto cantonizado e aprisionado, com a tomada israelita do vale do
Jordão. Os habitantes, evidentemente, não são para serem consultados. Nas próximas semanas, e a longo prazo, há grande
quantidade de trabalho educativo e organizativo a fazer, entre uma população
estadunidense que é amplamente receptiva, ainda que inundada de propaganda e
enganos. Não será fácil. Nunca o é. Mas tarefas muito mais difíceis foram
levadas a cabo com um esforço dedicado e persistente. _____ * Noam Chomsky é professor de linguística no Instituto
de Tecnologia de Massachusetts e autor, recentemente, do livro Hegemonia
ou sobrevivência – O sonho americano de domínio global, Editorial Inquérito,
2007. |