|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
10/03/2006 Noam
Chomsky A perspectiva de que a Europa e a Ásia possam evoluir
para uma maior independência preocupou os planificadores dos EUA desde a Segunda
Guerra Mundial. As preocupações simplesmente aumentaram à medida que a “ordem
tripolar” – Europa, América do Norte e Ásia - continuou a evoluir. Cada dia,
também a América Latina se está a tornar mais independente. Agora, a Ásia e
as Américas estão a reforçar os seus laços, enquanto a superpotência
reinante, a excepção, está a consumir-se em desventuras no Médio Oriente. A integração regional na Ásia e na América Latina é um
tema crucial e cada vez mais importante que, da perspectiva de Washington,
pressagia um mundo desafiante que escapou de controle. Evidentemente, a energia
permanece como factor de definição – o objecto de contenção – em todas as partes.
A China, ao contrário da Europa, recusa ser intimidada por Washington, razão
primordial para o medo que têm da China os planificadores dos EUA, a qual apresenta
um dilema: os passos para a confrontação estão inibidos pela confiança das
corporações estadunidenses na China como uma plataforma de exportação e um
mercado em crescimento, bem como pelas reservas financeiras da China, que se
tem informado estarem a aproximar‑se em escala às do Japão. Em Janeiro, o guardião das duas mesquitas sagradas, o
rei Abdullah bin Abdulaziz da Arábia Saudita, visitou Pequim, o que se espera
conduza a um memorando de entendimento sino‑saudita propondo um «aumento
da cooperação e dos investimentos entre os dois países em petróleo, gás
natural e investimentos», informa o The Wall Street Journal. Grande
parte do petróleo do Irão já é enviado para a China, e a China está a prover
o Irão de armas que ambos os estados parecem considerar uma força dissuasora
para os desígnios dos EUA. A Índia também tem opções: pode escolher ser
cliente dos EUA, ou pode preferir unir-se ao bloco mais independente da Ásia
que está a adquirir forma, com crescentes laços com os produtores de petróleo
do Médio Oriente. Siddarth Varadarjan, subdirector do The Hindu,
observa que «se o século XXI vai ser um “século asiático”, a passividade da
Ásia no sector energético tem que acabar». A chave está na cooperação entre a Índia e a China. Em
Janeiro, um acordo assinado em Pequim «abriu o caminho para que a Índia e a
China colaborem não só em tecnologia, mas também na exploração e produção de
hidrocarbonetos, uma associação que pode eventualmente alterar equações
fundamentais no sector mundial de petróleo e de gás natural», assinala
Varadarjan. Um passo adicional, que já está a ser contemplado, é um mercado de
petróleo asiático em euros. O impacto no sistema financeiro internacional e
no equilíbrio de poder global poderia ser significativo. Não deveria
constituir uma surpresa que o presidente Bush tenha feito uma visita em data
recente para tentar manter a Índia no redil, oferecendo cooperação nuclear e
outros incentivos como engodo. Entretanto, na América Latina, os governos de centro‑esquerda
prevalecem da Venezuela à Argentina. As populações indígenas tornaram-se
muito mais activas e influentes, particularmente na Bolívia e no Equador,
onde ou querem que o petróleo e o gás seja controlado a nível interno ou, em
alguns casos, se opõem totalmente à produção. Muitos indígenas aparentemente não
encontram razão alguma pela qual as suas vidas, sociedades e culturas têm de
ser perturbadas ou destruídas para que os nova-iorquinos possam sentar‑se
nos seus SUVs no labirinto do tráfego. A Venezuela, o principal exportador de petróleo do
hemisfério, forjou provavelmente as relações mais próximas com a China que
qualquer outro país latino‑americano, e está a planear vender
crescentes quantidades de petróleo a Pequim como parte do seu esforço para
reduzir a dependência do abertamente hostil governo dos EUA. A Venezuela
juntou-se ao Mercosul, a união aduaneira sul‑americana, um acção
descrita pelo presidente argentino Néstor Kirchner como «um marco» no desenvolvimento
deste bloco comercial, e recebido como um «novo capítulo da nossa integração»
pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. A Venezuela, para além
de fornecer combustível à Argentina, comprou quase um terço da dívida
argentina emitida em 2005, um elemento do esforço de toda a região para
libertar os países do controle do Fundo Monetário Internacional após duas
décadas de uma desastrosa conformidade às regras impostas pelas instituições
financeiras internacionais dominadas pelos EUA. Os passos para a integração
do Cone Sul avançaram mais em Dezembro com a eleição de Evo Morales na
Bolívia, o primeiro presidente indígena do país. Morales movimentou‑se
rapidamente para alcançar uma série de acordos energéticos com a Venezuela. O The Financial Times informou que «espera‑se
que estes impulsionem próximas reformas radicais da economia e do sector
energético da Bolívia» com as suas imensas reservas de gás, só superadas pela
Venezuela na América do Sul. As relações entre Cuba e Venezuela tornaram-se
mais estreitas que nunca, cada um apoiando‑se nas suas vantagens
comparativas. A Venezuela está a prover petróleo a baixo custo, enquanto
Cuba, em retribuição, organiza programas de alfabetização e saúde, enviando
milhares de profissionais altamente qualificados, professores e médicos, que
trabalham nas áreas mais pobres e negligenciadas, como o fazem em outras
partes do terceiro mundo. A assistência médica cubana está também a ser bem
recebida noutras partes. Uma das tragédias mais horríveis dos anos recentes
foi o terramoto no Paquistão em Outubro passado. Para além da grande
quantidade de mortos, um número desconhecido de sobreviventes teve que
enfrentar um brutal clima invernal com pouco refúgio, comida ou assistência
médica. «Cuba providenciou o maior contingente de médicos e paramédicos ao
Paquistão», pagando todos os custos (talvez com financiamento venezuelano),
escreve John Cherian em India’s Frontline, citando Dawn, um importante
diário paquistanês. O presidente Pervez Musharraf, do Paquistão, expressou a
sua «profunda gratidão» a Fidel Castro pelo «espírito e compaixão» das
equipas médicas cubanas – que, segundo se informou, compreendiam mais de 1000
elementos qualificados, 44 por cento deles mulheres, que continuaram a
trabalhar em remotas aldeias de montanha, «vivendo em tendas num clima gélido
e numa cultura estranha» depois de as equipas de ajuda ocidentais terem sido
evacuadas. Os crescentes movimentos populares, principalmente no sul, mas com
uma crescente participação nos países industriais ricos, estão a servir como
base para muitos destes desenvolvimentos no sentido de uma maior
independência e preocupação pelas necessidades da grande maioria da
população. |