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06/01/2006 Noam
Chomsky O presidente dos EUA classificou as eleições do mês passado no Iraque como «um grande marco na marcha para a democracia». São realmente um marco – só que não do tipo que agradaria a Washington. Ignorando as habituais declarações de boas intenções por parte dos líderes, revisemos a história. Quando Bush e o primeiro‑ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, invadiram o Iraque, o pretexto, reiterado com insistência, foi uma “única questão”: Eliminará o Iraque as suas armas de destruição em massa? Em alguns meses essa “única questão” foi respondida da maneira errada. Então, muito rapidamente, a razão real da invasão tornou‑se a “missão messiânica” de Bush de levar a democracia ao Iraque e ao Médio Oriente. Mesmo aparte da oportunidade, a carroça da democratização esbarra contra o facto de que os Estados Unidos tentaram, de todas as maneiras possíveis, evitar as eleições no Iraque. As eleições de Janeiro último realizaram‑se devido à resistência não violenta das massas, da qual o grande aiatolá Ali Sistani se tornou um símbolo. (A insurgência violenta é outra criatura que nada tem a ver com este movimento popular). Poucos observadores competentes discordariam dos editores do Financial Times, que escreveram em Março passado que «a razão de que se realizassem (as eleições) foi a insistência do grande aiatolá Ali Sistani, que vetou três maquinações das autoridades de ocupação lideradas pelos EUA para as pôr na prateleira ou diluí-las». As eleições, se forem tomadas a sério, significam que se presta alguma atenção à vontade da população. A questão crucial para um exército invasor é: “Eles querem que estejamos aqui?”. Não há falta de informação sobre a resposta. Uma fonte importante é uma sondagem do ministério da Defesa da Grã‑Bretanha, de Agosto passado, levada a cabo por pesquisadores universitários iraquianos e vertida para a imprensa. Determinou que 82 por cento estão «fortemente opostos» à presença de soldados da coligação e menos de 1 por cento pensa que sejam responsáveis por alguma melhoria na segurança. Analistas da Brookings Institution em Washington informam que, em Novembro, 80 por cento dos iraquianos estavam a favor de uma «retirada quase total das tropas dos EUA». Outras fontes coincidem no geral. Assim, as forças da coligação deveriam retirar-se, tal como o deseja a população, em vez de tentarem desesperadamente instalar um regime cliente, com forças militares que possam controlar. Mas Bush e Blair ainda se negam a estabelecer um cronograma para a retirada, limitando-se retiradas simbólicas à medida que os seus objetivos são atingidos. Há uma boa razão pela qual os Estados Unidos não podem tolerar um Iraque soberano, mais ou menos democrático. O assunto mal pode ser levantado pois entra em conflito com uma doutrina firmemente estabelecida: é suposto que acreditemos que os Estados Unidos teriam invadido o Iraque se fosse uma ilha no Oceano Índico e o seu principal produto de exportação fosse picles, não petróleo. Como é óbvio para qualquer pessoa não esteja comprometida com a linha partidária, tomar o controlo do Iraque fortalecerá enormemente o poder dos EUA sobre os recursos de energia globais, uma alavanca crucial no controle do mundo. Suponhamos que o Iraque se tornasse num país soberano e democrático. Imaginemos as políticas que provavelmente seguiria. A população xiita do sul, onde se encontra a maior parte do petróleo iraquiano, teria uma influência predominante. Prefeririam relações amistosas com o Irão xiita. As relações já são estreitas. A brigada Badr, a milícia que controla principalmente o sul, foi treinada no Irão. Os clérigos altamente influentes também têm relações de longa data com o Irão, incluindo Sistani, que cresceu nesse país. E o governo interino, maioritariamente xiita, já começou a estabelecer relações económicas e possivelmente militares com o Irão. Além disso, do outro lado da fronteira, na Arábia Saudita, existe uma substancial população xiita oprimida. Qualquer movimento no sentido da independência no Iraque provavelmente aumentará os esforços por obter um grau de autonomia e de justiça ali, também. Acontece que essa é também a região onde se encontra a maior parte do petróleo da Arábia Saudita. O resultado poderia ser uma aliança xiita solta compreendendo o Iraque, o Irão e as principais regiões petrolíferas da Arábia Saudita, independente de Washington e controlando grandes porções das reservas mundiais de petróleo. Não é inverosímil que um bloco independente deste tipo poderia seguir a liderança do Irão no desenvolvimento de grandes projectos de energia em conjunto com a China e a Índia. O Irão pode renunciar à Europa ocidental, presumindo que [esta] não estará disposta a actuar independentemente dos Estados Unidos. Mas a China não pode ser intimidada. É por isso que os Estados Unidos estão tão assustados com a China. China já está a estabelecer relações com o Irão – e mesmo com a Arábia Saudita, tanto militares como económicas. Existe uma rede de energia asiática, com base na China e na Rússia, mas que possivelmente atrairá a Índia, a Coreia e outros. Se o Irão se deslocar nessa direcção, pode tornar‑se num elemento vital dessa rede energética. Tais desenvolvimentos, incluindo um Iraque soberano e talvez grandes recursos energéticos sauditas, seriam o pior pesadelo para Washington. Também está a formar‑se um movimento sindical de grande importância no Iraque. Washington insiste em manter as leis anti‑sindicais de Saddam Hussein, mas o movimento sindical continua o seu trabalho de organização apesar delas. Os seus activistas estão a ser assassinados. Ninguém
sabe por quem, talvez por insurgentes, talvez por antigos membros do partido
Baath, talvez por outros. Mas eles estão a persistir. Constituem uma das
principais forças democratizantes que têm profundas raízes na história do
Iraque, e que podem ressurgir, muito também para horror das forças de
ocupação. Uma questão crítica é como reagirão os ocidentais. Estaremos ao
lado das forças de ocupação que tentam impedir a democracia e a soberania? Ou
estaremos ao lado do povo iraquiano? |