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08/12/2005 Noam Chomsky “How Venezuela Is Keeping the Home Fires Burning in Massachussets” [“Como a Venezuela mantém acesas as chaminés em Massachusetts”] pode ler-se em importantes jornais dos EUA num recente anúncio de página inteira da PDVSA, a companhia de petróleo estatal da Venezuela, e da CITGO, a sua subsidiária estabelecida em Houston. O anúncio descreve um programa, encorajado pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, para vender combustível de calefacção com desconto às comunidades de baixos rendimentos em Boston, no sul do Bronx e noutros lugares dos Estados Unidos – um dos gestos mais irónicos de sempre no diálogo Norte‑Sul. O acordo concretizou‑se depois de um grupo de senadores estadunidenses ter enviado uma carta a nove importantes companhias petrolíferas pedindo-lhes que doassem uma porção dos seus recentes lucros recorde para ajudar os residentes pobres a cobrir os seus gastos em calefacção. A única resposta veio da CITGO. Nos Estados Unidos, os comentários sobre o acordo são, quando muito, mesquinhos, dizendo que Chávez, que acusou a administração Bush de tentar derrocar o seu governo, é motivado por fins políticos – ao contrário, por exemplo, dos programas puramente humanitários da Agência Internacional de Desenvolvimento dos EUA. O combustível para calefacção é um entre muitos desafios que fervilham na América Latina para os planificadores de grande estratégia de Washington. Os ruidosos protestos durante a viagem de Bush, no mês passado, à Cimeira das Américas na Argentina, mostram a amplitude do dilema. Da Venezuela à Argentina, o hemisfério está a ficar completamente fora de controle, com governos de centro‑esquerda por todo o lado. Mesmo na América Central, que ainda sofre os efeitos da “guerra ao terrorismo” do presidente Ronald Reagan, a tampa mal se aguenta. No Cone Sul, as populações indígenas tornaram‑se muito mais activas e influentes, particularmente na Bolívia e no Equador, ambos produtores importantes de energia, onde eles ou se opõem à produção de petróleo e gás ou querem que seja controlada internamente. Alguns estão inclusive a apelar a uma “nação indígena” na América do Sul. Entretanto, a integração económica interna está a reforçar‑se, invertendo o isolamento relativo que data das conquistas espanholas. A interacção Sul-Sul está a aumentar, com as principais potências (Brasil, África do Sul, Índia) à cabeça, particularmente em assuntos económicos. A América Latina na sua totalidade está a incrementar o comércio e outras relações com a União Europeia e a China, com alguns revezes, mas provável expansão, especialmente para os exportadores de matérias primas, como o Brasil e o Chile. A Venezuela forjou provavelmente as relações mais estreitas com a China de todos os países da América Latina, e planeia vender crescentes quantidades de petróleo à China como parte do seu esforço para reduzir a dependência de um governo estadunidense hostil. Certamente, o problema mais espinhoso de Washington na região é a Venezuela, que provê quase 15 por cento das importações de petróleo dos EUA. Chávez, eleito em 1998, exibe o tipo de independência que os Estados Unidos traduzem como desafio – como com o aliado de Chávez, Fidel Castro. Em 2002, Washington abraçou a visão de democracia do presidente Bush ao apoiar um golpe militar que derrocou brevemente o governo de Chávez. A administração Bush teve, no entanto, que dar marcha atrás devido à oposição ao golpe na Venezuela e em toda a América Latina. Acentuando as aflições de Washington, as relações entre Cuba e a Venezuela estão a tornar‑se muito próximas. Esses países praticam o sistema de permuta, cada um apoiando-se nos seus pontos fortes. A Venezuela provê petróleo a baixo preço enquanto Cuba organiza programas de alfabetização e saúde, e envia milhares de professores e médicos que, como noutros lugares, trabalham nas áreas mais pobres, antes negligenciadas. Os projectos conjuntos de Cuba e da Venezuela estão também a ter um impacto considerável nos países do Caribe, onde, sob um programa chamado Operação Milagre, médicos cubanos provêem cuidados de saúde a pessoas que não tinham esperança de recebê-los, com fundos proporcionados pela Venezuela. Chávez ganhou repetidamente eleições e referendos monitorados, apesar da esmagadora e amarga hostilidade dos meios de comunicação. O apoio ao governo eleito aumentou durante os anos de Chávez. O jornalista veterano Hugh O’Shaughnessy explica porquê numa reportagem para o Irish Times: «Na Venezuela, onde a economia do petróleo produziu uma rutilante elite de super‑ricos, uma quarta parte dos que têm menos de 15 anos passam fome, por exemplo, e 60 por cento das pessoas acima dos 59 anos não têm qualquer rendimento. Menos de um quinto da população goza de segurança social. Somente agora sob o presidente Chávez... a medicina começou a ser algo real para a maioria dos pobres na rica mas profundamente dividida – praticamente disfuncional – sociedade. Desde que chegou ao poder em eleições democráticas e começou a transformar o sector da saúde e da assistência social, que satisfazia tão mal a massa da população, o progresso foi lento. Mas foi perceptível...» Agora, a Venezuela junta‑se ao Mercosul, o bloco de comércio líder da América do Sul. O Mercosul, que já inclui a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai, apresenta uma alternativa ao chamado Tratado de Livre Comércio das Américas (ALCA), patrocinado pelos Estados Unidos. Em jogo na região, como noutras partes do mundo, estão modelos sociais e económicos alternativos. Movimentos populares enormes e sem precedentes desenvolveram‑se para expandir a integração através das fronteiras – indo além das agendas económicas para abarcar os direitos humanos, as preocupações ambientais, a independência cultural e os contactos povo‑a‑povo. Estes movimentos são ridiculamente chamados “anti-globalização” porque favorecem uma globalização dirigida aos interesses dos povos, não os dos investidores e das instituições financeiras. Os problemas dos EUA nas Américas estendem‑se tanto a norte como a sul. Por razões óbvias, Washington esperou contar mais com o Canadá, a Venezuela e outras fontes de petróleo fora do Médio Oriente. Mas as relações do Canadá com os Estados Unidos estão mais “esticadas e combativas” do que nunca como resultado, entre outras questões, da rejeição de Washington das decisões do NAFTA que favorecem o Canadá. Como Joel Brinkley informa no The New York Times, «Parcialmente como resultado, o Canadá está a trabalhar no duro para construir a sua relação com China (e) alguns funcionários estão a dizer que o Canadá pode transferir uma porção significativa do seu comércio, particularmente do petróleo, dos Estados Unidos para a China». É preciso um verdadeiro talento para os Estados Unidos alienarem até o Canadá. A política de Washington para a América Latina está, no
entanto, apenas a ressaltar o
isolamento dos EUA. Um exemplo recente: pelo 14º ano seguido, a Assembleia
Geral da ONU votou contra o embargo comercial dos EUA contra Cuba. A votação
sobre a resolução foi de 182 para 4: Estados Unidos, Israel, Ilhas Marshall e
Palau. A Micronésia absteve‑se. |