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06/11/2005 Noam Chomsky O presidente George W. Bush é partidário de ensinar tanto a teoria da evolução como o “desenho inteligente” nas escolas, «para que as pessoas possam saber sobre o que é o debate». Para os proponentes, o desenho inteligente é a noção de que o universo é demasiado complexo para se ter desenvolvido sem o dedo de um poder superior à evolução ou à selecção natural. Para os detractores, o desenho inteligente é criacionismo – a interpretação literal do livro do Génese – numa aparência fina, ou simplesmente vácua, tão interessante como “não compreendo”, como sempre foi verdade na ciência antes de a compreensão ser alcançada. De acordo com isso, não pode haver “debate”. O ensino da teoria da evolução foi desde há muito difícil nos Estados Unidos. Agora surgiu um movimento nacional para promover o ensino da teoria do desenho inteligente nas escolas. O assunto veio de forma notória à superfície na sala de um tribunal de Dover, Pensilvânia, onde a junta directiva de uma escola exige aos estudantes que escutem uma declaração sobre o desenho inteligente numa classe de biologia - e pais conscientes da separação constitucional da Igreja e do Estado processaram a junta directiva. No interesse da justeza, talvez os escritores dos discursos do presidente devessem levá‑lo a sério quando o fazem dizer que as escolas deveriam ter a mente aberta e ensinar todos os pontos de vista. Até agora, contudo, o currículo não abarcou um ponto de vista óbvio: o desenho maligno. Ao contrário do desenho inteligente, para o qual a evidência é zero, o desenho maligno tem toneladas de evidência empírica, muito mais do que a evolução darwiniana, segundo alguns critérios: a crueldade do mundo. Seja como for, o pano de fundo da actual controvérsia evolução/desenho inteligente é a generalizada rejeição da ciência, um fenómeno com profundas raízes na história dos Estados Unidos que foi cinicamente explorado para obter mesquinhos ganhos políticos durante o último quarto de século. A teoria do desenho inteligente levanta a questão sobre se é inteligente eliminar a evidência científica a respeito de assuntos de suprema importância para a nação e para o mundo – como o aquecimento global. Um conservador à maneira antiga acreditaria no valor dos ideais do iluminismo – racionalidade, análise crítica, liberdade de expressão, liberdade de investigação – e tentaria adaptá-los a uma sociedade moderna. Os pais fundadores [dos Estados Unidos], filhos do iluminismo, defenderam esses ideais e dedicaram muitos esforços para criar uma Constituição que apoiasse a liberdade religiosa, e ao mesmo tempo garantisse a separação da Igreja e do Estado. Os Estados Unidos, apesar dos ocasionais messianismos dos seus líderes, não são uma teocracia. No nosso tempo, a hostilidade da administração Bush para com a investigação científica põe o mundo em risco. A catástrofe ambiental, independentemente de você pensar que o mundo se tem vindo a desenvolver somente desde o Génese ou desde há milhões de anos, é de longe demasiado séria para ignorá-la. Na preparação para a cimeira do G8, as academias científicas de todas as nações do G8 (incluindo a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos), acompanhadas pelas da China, Índia e Brasil, apelaram aos líderes dos países ricos que empreendessem acções urgentes a fim de impedir o aquecimento global. «A compreensão científica da mudança climática é agora suficientemente clara para justificar uma acção imediata», diz a sua declaração. «É vital que todas as nações identifiquem passos com custos suportáveis que possam tomar agora, para contribuir para uma redução substancial e de longo prazo das emissões netas dos gases causadores do efeito de estuda». No seu principal editorial, The Financial Times aprovou este “toque a rebate”, enquanto observava: «Há, no entanto, uma recusa, e infelizmente encontra‑se na Casa Branca onde George W. Bush insiste que ainda não sabemos o suficiente sobre este fenómeno literalmente de mudança mundial». A rejeição da evidência científica em matéria de sobrevivência, na linha do julgamento científico de Bush, é rotineira. Uns meses antes, na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, investigadores do clima dos Estados Unidos de topo deram a conhecer «a evidência mais convincente até agora» de que as actividades humanas são responsáveis pelo aquecimento global, segundo The Financial Times. Eles predisseram importantes efeitos climáticos, incluindo reduções severas nas reservas de água em regiões que dependem de rios alimentados por neve derretida e glaciares. Na mesma sessão, outros investigadores proeminentes relataram evidência de que o derretimento dos mantos de gelo no Árctico e na Groenlândia está a provocar mudanças no equilíbrio de salinidade do mar que ameaça «fechar a correia de transmissão oceânica, que transfere calor dos trópicos para as regiões polares mediante correntes como as do Golfo do México». Estas mudanças podem trazer reduções significativas de temperatura no norte da Europa. Tal como a declaração das academias nacionais na cimeira do G8, a publicação de «a evidência mais convincente até agora» teve escassa difusão nos Estados Unidos, apesar da atenção dada nos mesmos dias à implementação dos protocolos de Quioto, com o mais importante governo recusando‑se a fazer parte. É importante enfatizar “governo”. A informação habitual de que os Estados Unidos são os únicos a rejeitar os protocolos de Quioto é correcta somente se as palavras “Estados Unidos” excluírem a sua população, a qual favorece fortemente o pacto de Quioto (73 por cento, segundo uma sondagem do Program on International Policy Attitudes). Talvez só a palavra “maligno” possa descrever o fracasso
em reconhecer, quanto mais enfrentar, a questão demasiado científica da
mudança climática. Assim se estende a “clareza moral” da administração Bush à
sua arrogante atitude para com o destino dos nossos netos. |