Informação Alternativa

Estados Unidos da América

05/10/2005

 

Precisa‑se de um líder para os Estados Unidos

 

Noam Chomsky

Khaleej Times

 

Enquanto os sobreviventes do furacão Katrina tratam de refazer as suas vidas, é cada vez mais claro que uma tempestade longamente conjugada de políticas e prioridades erradas precedeu a tragédia.

 

As falhas do governo em casa e a guerra do Iraque encontraram uma confluência no acordar do Katrina que ilustra graficamente a necessidade de uma profunda mudança social, sem a qual corremos o risco de sofrer piores desastres no futuro.

 

Num relatório anterior ao 11 de Setembro, a Agência Federal de Gestão de Emergências [FEMA, nas siglas em inglês] incluiu um furacão de grande intensidade em Nova Orleães como uma das três catástrofes com mais probabilidades de afectar os Estados Unidos. As outras: um ataque terrorista em Nova York e um terramoto em São Francisco.

 

Nova Orleães tinha­‑se tornado numa prioridade urgente na FEMA desde Janeiro, quando o director da agência Michael Brown, agora demitido, retornou de uma viagem à Ásia, onde observou a devastação causada pelo tsunami.

 

«Nova Orleães era o desastre n.º 1 em que falávamos», afirmou ao The New York Times Eric L. Tolbert, um antigo funcionário da FEMA. «Estávamos obcecados com Nova Orleães por causa do risco».

 

Um ano antes do impacto do Katrina, a FEMA conduziu um exercício de simulação para Nova Orleães, mas os planos elaborados da FEMA não foram implementados.

 

A guerra teve um papel no fracasso. Os soldados da Guarda Nacional que tinham sido enviados para o Iraque «levaram consigo muito do equipamento necessário, incluindo dúzias de veículos para zonas inundadas, Humvees, tanques de combustível e geradores que seriam necessários se um importante desastre natural golpeasse o estado», informou The Wall Street Journal. «Um oficial superior do exército disse que o serviço foi relutante em implicar a 4ª Brigada da 10ª Divisão de Montanha de Fort Polk, porque a unidade, integrada por vários milhares de soldados, estava no meio de preparativos para ser enviada para o Afeganistão».

 

As manobras burocráticas também aumentaram o risco de um desastre natural. Antigos funcionários da FEMA explicaram a The Chicago Tribune que as capacidades da agência foram «efectivamente marginalizadas» sob o presidente George W. Bush quando a agência foi incorporada no Departamento de Segurança Interna, com menos recursos e mais ónus burocrático, uma «fuga de cérebros» à medida que empregados desmoralizados saíam e um compadre político de Bush sem nenhuma qualificação era posto à frente.

 

Em tempos «uma agência federal de primeira fila», a FEMA agora não está «sequer no banco de trás», declarou ao Financial Times Eric Holdeman, director de gestão de emergências do condado de King, Washington. «Estão na bagageira do carro do Departamento de Segurança Interna».

 

Os cortes de fundos de Bush em 2004 obrigaram o Corpo de Engenheiros do Exército a reduzir drasticamente o trabalho de controle de inundações, incluindo o muito necessário reforço dos diques que protegiam Nova Orleães. O orçamento de Bush para 2005 exigia outra redução séria – uma especialidade do calendário certeiro da Administração Bush, muito à semelhança do proposto corte drástico em segurança para o transporte público imediatamente antes dos atentados em Londres de Julho de 2005.

 

A desatenção ao meio ambiente foi outro factor nesta tempestade perfeita. As áreas pantanosas ajudam a reduzir o poder dos furacões e as marés tempestuosas, mas Sandra Postel, uma especialista em gestão hidráulica, escreveu no The Christian Science Monitor que os pântanos tinham «em grande parte desaparecido quando o Katrina golpeou», em parte porque «a administração Bush em 2003 esvaziou efectivamente a política de “nenhuma perda líquida” de pântanos iniciada durante a administração do velho Bush».

 

O custo humano do Katrina é incalculável, especialmente entre os cidadãos mais pobres da região, mas um número relevante é taxa de pobreza de 28% em Nova Orleães – mais do dobro da média nacional. Durante o governo Bush a taxa de pobreza dos EUA cresceu, e a limitada protecção da rede de segurança social foi enfraquecida ainda mais.

 

Os efeitos [do Katrina] foram tão impressionantes que mesmo os meios de comunicação de direita se sentiram horrorizados pela escala da devastação com base na classe e na raça. Enquanto os meios de comunicação mostravam vívidas cenas de miséria humana, as páginas internas informavam que os líderes republicanos não perderam tempo em «usar as medidas de ajuda destinadas à costa do Golfo devastada pelo furacão para conseguir um amplo leque de políticas económicas e sociais conservadoras», segundo informou The Wall Street Journal.

 

Essas medidas promotoras de uma agenda incluem a suspensão de regras que requerem o pagamento pelos contratistas federais de salários estabelecidos por convénio ou a entrega de cheques escolares a alunos deslocados – outro golpe dissimulado ao sistema da escola pública. Incluíram a suspensão das restrições ambientais, «abrir mão do imposto de sucessões nos estados afectados pela tempestade» – uma grande ajuda para a população que fugiu dos bairros degradados de Nova Orleães – e, em geral, tornaram claro uma vez mais que o cinismo conhece poucos limites.

 

Perdida na enxurrada ficou a preocupação pelas necessidades das cidades e pelos serviços humanos. A mais ampla agenda de aumentar a dominação global e as concentrações domésticas de riqueza e poder tomam a precedência.

 

As imagens de sofrimento no Iraque, e no período subsequente ao furacão Katrina, dificilmente poderiam descrever mais dramaticamente as consequências.