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03/09/2005 Noam
Chomsky Não é tarefa fácil conseguir algum entendimento dos assuntos humanos. Em alguns aspectos, é mais difícil do que com as ciências naturais. A mãe natureza não provê imediatamente as respostas, mas pelo menos não se desvia do seu caminho para erigir barreiras à compreensão. Nos assuntos humanos, é necessário detectar e desmantelar barreiras erigidas pelos sistemas doutrinários, que adoptam uma gama de mecanismos que fluem muito naturalmente da concentração de poder. Para facilitar os esforços de marketing, os sistemas doutrinários costumam descrever o inimigo como diabólico pela sua própria natureza. A caracterização é algumas vezes precisa, mas os crimes raramente são a origem do apelo a medidas enérgicas contra algum alvo que interfere com planos actuais. Uma ilustração recente é Saddam Hussein – um alvo indefeso caracterizado como uma ameaça medonha à nossa sobrevivência que foi responsável pelos ataques do 11 de Set. e prestes a atacar‑nos novamente. Em 1982, a administração Reagan tirou Saddam da lista de Estados que patrocinavam o terrorismo, de modo que o fluxo de ajuda militar e outra ajuda ao tirano assassino pudesse começar. Isto continuou muito depois das piores atrocidades de Saddam e do fim da guerra com o Irão, e incluiu os meios para desenvolver armas de destruição em massa. O registo, pouco obscuro, cai dentro do “acordo geral tácito segundo o qual ‘não valeria a pena’ mencionar esse facto particular”, na fraseologia de Orwell. É necessário criar falsas impressões não apenas sobre o actual “Grande Satã”, mas também sobre a nossa nobreza única. Em particular, a agressão e o terror devem ser descritos como autodefesa e dedicação a visões inspiradoras. O imperador Hirohito do Japão, na sua declaração de rendição em Agosto de 1945, disse: «Nós declarámos a guerra aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha com base no nosso desejo de assegurar a autopreservação do Japão e a estabilização do leste asiático, estando longe da nossa intenção violar a soberania de outras nações ou embarcar no alargamento do território». A história dos crimes internacionais está inundada de sentimentos similares, incluindo as mais baixas profundezas. Escrevendo em 1935, com as nuvens escuras do nazismo ameaçando, Heidegger declarou que a Alemanha devia agora evitar «o perigo do escurecimento do mundo» além das fronteiras nacionais. Com as suas «novas energias espirituais» reavivadas sob o domínio nazi, a Alemanha é finalmente capaz de «empreender a sua missão histórica» de salvar o mundo da «aniquilação» pelas «massas indiferentes» noutros lados, principalmente nos Estados Unidos e na Rússia. Mesmo indivíduos da maior inteligência e integridade moral sucumbem à patologia. No pico dos crimes britânicos na Índia e na China, John Stuart Mill escreveu o seu clássico ensaio sobre a intervenção humanitária, instando a Grã‑Bretanha a empreender a tarefa vigorosamente – mesmo que fosse «caluniada» por europeus atrasados que não conseguem compreender que a Inglaterra é «uma novidade no mundo», uma nação que age somente «ao serviço de outros», assumindo generosamente os custos de levar a paz e a justiça ao mundo. A imagem do excepcionalismo justo parece ser quase universal. Para os Estados Unidos, um tema constante é a dedicação a levar a democracia e a independência a um mundo afligido. A história padrão entre os eruditos e nos meios de comunicação é que a política externa dos EUA contém duas tendências em conflito. Uma é a que se chama idealismo wilsoniano, o qual é baseado em nobres intenções. A outra é o realismo sóbrio, que diz que devemos compreender os limites das nossas boas intenções. Seja qual for a retórica operativa, requer disciplina não reconhecer elementos de verdade na observação do historiador Arno Mayer de que, desde 1947, os EUA foram o maior perpetrador do «terrorismo de Estado» e de outras «acções fora da lei», causando imenso dano, «sempre em nome da democracia, da liberdade e da justiça». Para os EUA, o inimigo de longo tempo tem sido o nacionalismo independente, particularmente quando ameaça converter‑se num «vírus», para usar a referência de Henry Kissinger ao socialismo democrático no Chile depois de Salvador Allende ter sido eleito Presidente em 1970. O vírus, portanto, tinha que ser extirpado, como foi, na terça‑feira, 11 de Set. de 1973, uma data frequentemente chamada “o primeiro 11‑S” na América Latina. Nessa data, depois de anos de subversão pelos EUA, as forças do general Augusto Pinochet atacaram o palácio presidencial chileno. Allende morreu, num aparente suicídio, não querendo render-se ao assalto que demoliu a democracia mais antiga e vibrante da América Latina, e Pinochet estabeleceu um regime brutal. O número oficial de mortos do primeiro 11‑S é de 3.200; o número real é habitualmente estimado em cerca do dobro dessa cifra. Em termos per capita, isso equivaleria a 50.000‑100.000 mortos nos EUA. Washington apoiou firmemente o regime de Pinochet e não teve um papel pequeno no seu triunfo inicial. Pinochet cedo se mexeu para integrar outras ditaduras militares latino‑americanas apoiadas pelos EUA na rede internacional de Estados terroristas, a Operação Condor, que provocou destruição na América Latina. Esta é uma mais das múltiplas ilustrações da “promoção da democracia” no hemisfério e noutros lugares. Agora somos levados a acreditar que a missão dos EUA no Afeganistão e no Iraque é levar a democracia ali. «Os muçulmanos não “odeiam a nossa liberdade”, mas antes odeiam as nossas políticas», conclui um relatório de Setembro passado do Defence Science Board, um painel consultivo do Pentágono, acrescentando que «quando a diplomacia pública norte-americana fala sobre a necessidade de levar a democracia às sociedades islâmicas, isto é visto como nada mais do que como hipocrisia auto‑servente». Tal como os muçulmanos o vêem, continua o relatório, «a ocupação americana do Afeganistão e do Iraque não conduziu à democracia ali, mas somente a mais caos e sofrimento». Num artigo do Financial Times em Julho, citando o relatório do DSB, David Gardner observa: «Na sua maioria, os árabes acreditam plausivelmente que foi Osama Bin Laden quem destroçou o status quo, não George Bush, [porque] os ataques do 11-S tornaram impossível ao Ocidente e aos seus déspotas clientes árabes continuar a ignorar um arranjo político que incubava uma raiva cega contra eles». Não deveria resultar uma surpresa que os EUA sejam semelhantes a outros Estados poderosos, passados e presentes, perseguindo interesses estratégicos e económicos dos sectores dominantes com o acompanhamento de floreados retóricos sobre a sua excepcional dedicação aos mais altos valores. Sob o pano de
fundo do desastre que se desenrola no Iraque, uma fé acrítica nas boas
intenções só retarda uma rectificação desesperantemente necessária de
abordagem e políticas. |