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02/08/2005 Noam Chomsky O aniversário este mês dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki provoca somente a mais sombria reflexão e a mais fervente esperança de que o horror nunca mais se repita. Nos 60 anos seguintes, esses bombardeamentos assombraram
a imaginação mundial, mas não tanto como para frear o desenvolvimento e a
propagação de armas de destruição em massa infinitamente mais letais. Um problema relacionado, discutido na literatura especializada muito antes do 11-S, é que as armas nucleares podem, mais tarde ou mais cedo, cair nas mãos de grupos terroristas. As recentes explosões e vítimas em Londres são outro lembrete mais de como o ciclo de ataque e resposta poderia escalar, de maneira imprevisível, mesmo a um ponto horrificamente superior a Hiroshima ou Nagasaki. O poder reinante do mundo outorga a si mesmo o direito
de fazer a guerra à sua vontade, sob a doutrina da “autodefesa anticipatória”
que cobre qualquer contingência que escolha. Os meios de destruição são para
ser ilimitados. Os gastos militares dos EUA aproximam‑se aos do resto do mundo combinado, enquanto as vendas de armas de 38 companhias norte‑americanas (uma no Canadá) representam mais de 60 por cento do total mundial (as quais atingiram 25 por cento desde 2002). Realizaram-se esforços para fortalecer a delgada corda
de onde se dependura a sobrevivência. O mais importante é o Tratado de Não
Proliferação Nuclear, que entrou em vigor em 1970. A conferência regular em
cada cinco anos do NPT para fazer a revisão teve lugar em Maio nas Nações
Unidas. O NPT tem enfrentando o colapso, principalmente por
causa do fracasso dos estados nucleares de cumprirem a sua obrigação sob o
artigo VI de prosseguirem esforços de «boa fé» para eliminarem as armas
nucleares. Os Estados Unidos lideraram o caminho na recusa em acatar os
deveres emanados do artigo VI. Mohamed El‑Baradei, chefe da Agência Internacional
de Energia Atómica, salienta que a «relutância de uma das partes em cumprir as
suas obrigações alenta a relutância em outras». O presidente Jimmy Carter apontou os Estados Unidos como
«o maior culpado nesta erosão do NPT. Enquanto alegam estar a proteger o mundo
da proliferação de ameaças no Iraque, Líbia, Irão e Coreia do Norte, os
líderes norte‑americanos não só abandonaram as existentes restrições do
tratado, mas também reafirmaram planos para testar e desenvolver novas armas,
incluindo mísseis antibalísticos, os “bunker buster” penetradores do solo e
talvez algumas novas “pequenas” bombas. Também abandonaram promessas passadas
e agora ameaçam com o primeiro uso de armas atómicas contra estados não nucleares». A ameaça esteve a ponto de converter-se em realidade em
várias ocasiões nos anos que seguiram a Hiroshima. O caso mais conhecido foi
a crise dos mísseis cubana, em Outubro de 1962, «o momento mais perigoso da
história humana», como observou em Outubro de 2002 Arthur Schlesinger,
historiador e antigo conselheiro do presidente John F. Kennedy, numa
conferência retrospectiva em Havana. O mundo «salvou‑se por um cabelo de um desastre
nuclear», recorda Robert McNamara, secretário de Defesa de Kennedy, que também
assistiu à retrospectiva. No número de Maio-Junho da revista Foreign
Policy, ele acompanha esta recordação com uma renovada advertência de «apocalipse
próximo». McNamara encara «a presente política de armas nucleares
dos EUA como imoral, ilegal, desnecessária militarmente e temivelmente
perigosa», criando «riscos inaceitáveis para outras nações e para a nossa»,
tanto o risco de um «lançamento nuclear acidental ou inadvertido», o qual é«inaceitavelmente
alto», como de um ataque nuclear por terroristas. McNamara compartilha o
juízo de William Perry, secretário de Defesa do ex presidente Bill Clinton,
de que «há possibilidade superior a 50 por cento de um ataque nuclear contra
alvos dos EUA dentro de uma década». Juízos similares são também expressados por proeminentes
analistas de estratégia. No seu livro Nuclear Terrorism, o
especialista em relações internacionais de Harvard, Graham Allison, relata o
«consenso na comunidade de segurança nacional» (da qual fez parte) de que um
ataque com uma «bomba suja» é «inevitável», e um ataque com um arma nuclear é
altamente provável, se materiais de fissão – o ingrediente essencial – não
forem recuperados e postos em segurança. Allison descreve os sucessos parciais para fazer isso
desde os começos de 1990, sob as iniciativas dos senadores Sam Nunn e Richard
Lugar, e o retrocesso destes programas desde os primeiros dias do governo de Bush,
paralisados pelo que o senador Joseph Biden chamou «idiotia ideológica». A liderança de Washington pôs de lado programas de não
proliferação e devotou as suas energias e recursos a conduzir o país à guerra
por meio de um extraordinário engano, tentando depois lidar com a catástrofe
que criou no Iraque. A ameaça e uso da violência está a estimular a
proliferação nuclear juntamente com o terrorismo islâmico. Uma análise de alto nível da “guerra contra o terrorismo”
dois anos depois da invasão «incidiu na forma de lidar com o surgimento de
uma nova geração de terroristas, treinados no Iraque durante os dois anos
passados», informou Susan B. Glasser no The Washington Post. «Altos
funcionários governamentais estão a virar cada vez mais a sua atenção para a
antecipação do que um denominou “derrame” de centenas ou milhares de
jihadistas treinados no Iraque, quando voltarem aos seus países de origem
através do Médio Oriente e da Europa Ocidental. Um ex alto funcionário do
governo de Bush disse que “É uma nova peça de uma nova equação”. “Se você não
sabe quem eles são no Iraque, como vai localizá-los em Istambul ou Londres?”» Peter Bergen, especialista em terrorismo dos EUA, afirma
no The Boston Globe que «o presidente tem razão em que o Iraque é uma
frente principal da guerra contra o terrorismo, mas essa é uma frente que nós
mesmos criámos». Pouco depois das bombas em Londres, Chatham House, a principal instituição britânica em análise de assuntos estrangeiros, publicou um estudo estabelecendo a conclusão óbvia – negada com indignação pelo governo – de que «o Reino Unido está particularmente em risco porque é o aliado mais próximo dos Estados Unidos, mobilizou forças armadas nas campanhas militares para derrocar o regime talibã no Afeganistão e no Iraque... (e é) um passageiro à boleia» da política norte‑americana, sentando‑se atrás do motorista da motocicleta. A probabilidade de apocalipse próximo não pode ser estimada de maneira realista, mas é seguramente demasiado alta para que qualquer pessoa sã a contemple com equanimidade. Porquanto a especulação seja inútil, a reacção ante a ameaça de outra Hiroshima definitivamente não o é. Pelo contrário, é urgente, particularmente nos Estados
Unidos, por causa do papel primordial de Washington em acelerar a corrida
para a destruição ao estender o seu domínio militar historicamente único. |