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02/05/2005 Noam
Chomsky Nesta semana uma conferência das Nações Unidas assistida
pelos 180 países signatários começará a examinar o Tratado de Não
Proliferação Nuclear (TNP), considerado habitualmente como a base de qualquer
esperança séria para evitar a catástrofe que está praticamente garantida pela
lógica das armas nucleares. «O tratado nunca pareceu mais débil ou o seu futuro menos seguro», escreveu este mês em Current Affairs Thomas Graham, antigo representante especial dos EUA nas negociações sobre controle de armas e autor do livro Common Sense on Weapons of Mass Destruction (2004). Se o tratado fracassar nas próximas semanas, advertiu Graham, um «mundo de pesadelo nuclear» pode tornar-se realidade. Tal como outros analistas, Graham admite que a principal ameaça ao TNP é a política do governo dos EUA, ainda que os outros Estados nucleares partilhem a responsabilidade. No texto do tratado, no crucial artigo 6, as potências
nucleares prometiam realizar esforços «de boa fé» para eliminar as armas
nucleares. Nenhuma o fez, e a administração Bush foi mais além ao declarar
que deixou de aceitar a estipulação principal do tratado, e agora está até a
desenvolver novas armas nucleares. O TNP baseava-se também no compromisso com vários tratados adicionais: o Tratado de Proibição de Provas Nucleares, rejeitado pelo Senado republicano em 1999, e declarado fora da agenda pelo presidente George W. Bush; o Tratado de Mísseis Anti‑balísticos, que Bush rescindiu; e, provavelmente mais importante, o Tratado para a Redução de Materiais de Cisão que, segundo escreveu Graham, permitiria bloquear a ameaça de acrescentar «mais material de fabricação de bombas nucleares à vasta quantidade já existente». Em Novembro último, o Comité de Desarmamento da ONU
votou a favor do tratado por 147 contra 1. O voto unilateral dos EUA é, na
verdade, um veto – neste caso, uma prenda que sem dúvida foi bem recebida por
Osama bin Laden. Fornece‑nos alguma luz adicional sobre o lugar da
sobrevivência das espécies na lista de prioridades dos planificadores governamentais. A administração Bush enviou previamente o seu homem de confiança, John Bolton, à Europa para informar que se haviam acabado as prolongadas negociações destinadas a fazer cumprir a proibição de usar armas biológicas porque não estavam «nos melhores interesses dos EUA», aumentando assim a ameaça do bioterrorismo. Isso é consistente com as declarações francas de Bolton: «Quando os EUA lideram, as Nações Unidas seguirão. Quando for adequado aos nossos interesses fazer assim, faremos assim. Quando não for adequado aos nossos interesses, não o faremos». É simplesmente natural que seja nomeado como embaixador
dos Estados Unidos perante a ONU, num insulto calculado à Europa e ao mundo. Sob as políticas actuais, «um enfrentamento nuclear é no fundo inevitável», advertiu Michael McGwire, antigo planificador da NATO, na revista de Janeiro do Instituto Real Britânico de Assuntos Internacionais. «Em comparação com o aquecimento global, o custo de
eliminar armas nucleares seria pequeno», escreveu McGwire. «Mas os resultados
catastróficos de uma guerra nuclear global excederiam em grande medida os de
uma mudança climática progressiva, porque os efeitos seriam instantâneos e
não poderiam ser mitigados. A ironia da situação é que está no nosso poder
eliminar a ameaça de uma guerra nuclear global, ao passo que a mudança
climática não pode ser evitada». As advertências de McGwire são repetidas deste lado do
Atlântico por Sam Nunn, antigamente um senador democrata e chefe do Comité
dos Serviços Armados do Senado, que é um dos principais líderes em matéria de
controle de armas e em esforços para reduzir a ameaça de uma guerra nuclear.
«As possibilidade de um ataque nuclear acidental, por erro, ou não autorizado,
podem estar a aumentar», escreveu Nunn no Financial Times em Dezembro.
Como resultado de escolhas políticas que deixam «a sobrevivência dos Estados
Unidos (dependente da) precisão dos sistemas de aviso da Rússia e do seu
comando e controle... estamos a correr um risco desnecessário de um
Armageddon engendrado por nós próprios». Nunn referia‑se à forte expansão dos programas militares dos EUA, que alteram o equilíbrio estratégico de uma maneira que torna a Rússia «mais propensa a lançar perante um aviso de ataque, sem esperar para ver se o aviso é exacto». A ameaça é agravada, acrescenta, pelo facto de que «o
sistema de alerta da Rússia está em más condições e é mais propenso a dar um
aviso falso sobre a chegada de mísseis». Uma preocupação relacionada é que as armas nucleares
possam cair, cedo ou tarde, em mãos de grupos terroristas, tornada mais
plausível pelo facto de que, como dissuasão contra as armas norte-americanas,
a Rússia vê‑se obrigada a manter o seu próprio arsenal nuclear,
disseminado pelo seu vasto território, com materiais frequentemente em trânsito. «Este movimento perpétuo cria uma vulnerabilidade séria, pois o transporte é o calcanhar de Aquiles em matéria de segurança de armas atómicas», assinalou Bruce Blair, presidente do Centro de Informação da Defesa sedeado em Washington e antigo funcionário de lançamento Minuteman. Blair invocou a possibilidade totalmente plausível de «terroristas se apossarem de tal arma enquanto se move entre os campos de disposição e as fábricas». O risco estende‑se para além da Rússia, acrescentou. «Os problemas dos sistemas de alerta e controle que
afectam o Paquistão, a Índia e outros países nucleares são ainda mais agudos
(e), à medida que esses países avançam rumo a situações de confrontação, a
ameaça terrorista para eles aumentará em paralelo», escreveu Blair. Tudo
isto, concluiu, constitui «um acidente à espera de acontecer». O terrorismo de Estado e outras formas de ameaça e uso
da força levaram o mundo até muito próximo da aniquilação nuclear. A
conferência da ONU faria bem em atender ao apelo formulado por Bertrand
Russel e Albert Einstein há 50 anos: «Aqui, pois, está o problema que lhes
apresentamos, duro, temível e inescapável: devemos pôr fim à raça humana, ou
deve a humanidade renunciar à guerra?» |