Informação Alternativa

EUA

29/11/2004

 

As eleições de 2004

 

Noam Chomsky

Znet

As eleições de Novembro de 2004 foram objecto de muita discussão, Com exultação nalguns círculos, desesperada noutros, lamentos generalizados sobre uma “nação dividida”. Provavelmente terão consequências políticas, particularmente daninhas para o público no terreno doméstico, e para o mundo pela “transformação dos militares”, que levou alguns destacados analistas de estratégia a advertir da “catástrofe final” e a esperar que o militarismo e a agressividade dos EUA sejam contra­balançados por uma coligação de estados amantes da paz encabeçados pela – China! (John Steinbruner e Nancy Gallagher, Daedalus). Encontramo-nos numa boa embrulhada se palavras semelhantes são expressadas nas publicações mais respeitáveis e sóbrias. Também vale a pena notar quão profundo é o desespero dos autores quanto ao estado da democracia norte­‑americana. Se esta avaliação é ou não meritória, é algo que os activistas terão que determinar.

Apesar de significativas nas suas consequências, as eleições dizem­‑nos pouco sobre o estado do país, ou do sentimento popular. Existem, no entanto, outras fontes das quais podemos aprender muito, e extrair importantes lições. A opinião pública nos EUA é intensivamente monitorizada, e apesar de algum cuidado e cautela na interpretação serem sempre necessários, estes estudos constituem recursos de valor. Também podemos perceber porque é que os resultados, ainda que públicos, são mantidos em segredo pelas instituições doutrinárias. Isso vale para os principais e altamente informativos estudos de opinião pública, publicados justamente antes da eleição, nomeadamente pelo Conselho de Relações Externas de Chicago (CCFR) e pelo Programa sobre Atitudes de Política Internacional na Universidade de Maryland (PIPA), a que voltarei.

Uma conclusão é que as eleições não conferiram mandato para nada, na verdade, mal tiveram lugar, em qualquer sentido sério do termo “eleição”. Isso não é de modo algum uma conclusão inovadora. A vitória de Reagan em 1980 reflectiu «a decadência das estruturas partidárias organizadas, e a vasta mobilização de Deus e do dinheiro na bem sucedida candidatura de uma figura em tempos marginal ao “centro vital” da vida política norte­‑americana», que representou «a contínua desintegração dessas coligações políticas e estruturas económicas que deram à política partidária alguma estabilidade e definição durante a geração passada» (Thomas Ferguson e Joel Rogers, Hidden Election, 1981). Na mesma valiosa colecção de ensaios, Walter Dean Burnham descreveu a eleição como mais uma evidência de uma «crucial peculiaridade comparativa do sistema político norte­‑americano: a ausência total de um partido socialista ou trabalhista de massas como competidor organizado no mercado eleitoral», responsável por uma boa parte das «taxas de abstenção com viés classista» e pela significação minimal das temáticas. Por isso, de 28% do eleitorado que votou por Reagan, 11% mencionou como sua razão principal que «é um verdadeiro conservador». Na “vitória terminante” de Reagan em 1984, com pouco menos de 30% do eleitorado, a percentagem caiu para 4% e uma maioria de votantes esperava que o seu programa legislativo não fosse realizado.

O que estes proeminentes cientistas políticos descrevem faz parte da poderosa reacção contra a aterrorizadora “crise da democracia” dos anos 60, que ameaçou democratizar a sociedade, e, apesar de enormes esforços por esmagar esta ameaça à ordem e à disciplina, teve efeitos transcendentes sobre a consciência e as práticas sociais. A era posterior aos anos 60 foi marcada por um crescimento substancial de movimentos populares dedicados a maior justiça e liberdade, e pela recusa em tolerar a agressão brutal e a violência a que previamente se tinha dado rédea solta. A guerra de Vietname é uma ilustração dramática, naturalmente ocultada pelas lições que apresenta sobre o impacto civilizador da mobilização popular. A guerra contra Vietname do Sul lançada por JFK em 1962, depois de anos de terror estatal apoiado pelos EUA que matou dezenas de milhares de pessoas, foi brutal e bárbara desde o seu início: bombardeamentos, guerra química para destruir cultivos alimentares e assim forçar mediante a fome a população civil a não apoiar a resistência autóctone, programas para deslocar milhões de pessoas para verdadeiros campos de concentração ou favelas urbanas para eliminar a sua base popular. Quando os protestos atingiram uma escala substancial, o altamente respeitado e bastante belicista especialista no Vietname e historiador militar Bernard Fall perguntou­‑se se o «Vietname como entidade cultural e histórica» escaparia à «extinção» já que «o campo literalmente morre sob os golpes da maior maquinaria militar que jamais foi desencadeada sobre uma área deste tamanho» – particularmente o Vietname do Sul, sempre o principal alvo do ataque dos EUA. E quando os protestos finalmente se desenvolveram, muitos anos demasiado tarde, orientaram-se sobretudo contra os crimes periféricos: a extensão da guerra contra o Sul ao resto da Indochina – crimes terríveis, mas secundários.

Os dirigentes do Estado estão bem conscientes de que já não têm essa liberdade. Guerras contra «inimigos muito mais débeis» – os únicos objectivos aceitáveis – devem ser ganhas «decisivamente e rapidamente», aconselharam os serviços de inteligência de Bush I. A demora poderia «reduzir o apoio político», admitido como débil, uma grande mudança desde o período Kennedy-Johnson quando o ataque contra Indochina, apesar de nunca ter sido popular, provocou pouca reacção durante muitos anos. Estas conclusões valem apesar dos abomináveis crimes de guerra em Falluja, que reproduzem a destruição de Grozny pelos russos dez anos antes, incluindo crimes exibidos nas primeiras páginas pelos quais a direcção civil está sujeita à pena de morte sob a Lei de Crimes de Guerra aprovada pelo Congresso republicano em 1996 – e também um dos episódios mais vergonhosos nos anais do jornalismo norte­‑americano.

O mundo é bastante horrível hoje em dia, mas é muito melhor do que no passado, não só quanto à recusa em tolerar a agressão, mas também em muitos outros aspectos, que agora tendemos a tomar por garantidos. Há aqui lições muito importantes, que deveríamos ter sempre presentes nas nossas mentes – pelo mesmo motivo por que são ocultadas na cultura da elite. Voltando às eleições, em 2004 Bush recebeu os votos de pouco mais de 30% do eleitorado, Kerry um pouco menos. Os padrões de votação assemelharam­‑se aos de 2000, virtualmente com o mesmo modelo de estados “vermelhos” e “azuis” (seja qual for o significado que isso possa ter). Uma pequena mudança na preferência de votos teria colocado Kerry na Casa Branca, o que também nos diz muito pouco sobre o país e as preocupações do público.

Como de costume, as campanhas eleitorais foram dirigidas pela indústria de relações públicas, que na sua vocação normal vende pastas dentífricas, medicamentos para melhorar a qualidade de vida, automóveis, e outras mercadorias. O seu princípio guia é o engano. A sua tarefa é minar os “mercados livres” que nos ensinam a reverenciar: entidades míticas nas quais consumidores informados tomam decisões racionais. Em tais sistemas dificilemnte imagináveis, os negócios forneceriam informação sobre os seus produtos: barato, fácil, simples. Mas não é um segredo que não fazem nada semelhante. Ao invés, tratam de enganar os consumidores para que escolham o seu produto em vez de outro virtualmente idêntico. A General Motors não se limita a tornar públicas as características dos modelos do próximo ano. Em vez disso, dedica imensas somas à criação de imagens para enganar os consumidores, exibindo estrelas desportivas, modelos sensuais, carros que sobem encostas escarpadas para um futuro celestial, etc. O mundo dos negócios não gasta centenas de milhares de milhões de dólares por ano para providenciar informação. A famosa “iniciativa empresarial” e o “livre comércio” são tão realistas como a escolha informada do consumidor. A última coisa pretendida pelos que dominam a sociedade é o fantástico mercado da doutrina e da teoria económica. Tudo isto deveria ser demasiado familiar para merecer muita discussão.

Algumas vezes o compromisso com o engano é bastante aberto. As recentes negociações entre os EUA e a Austrália sobre um “acordo de livre comércio” foram demoradas pela preocupação de Washington ante o sistema de cuidados de saúde da Austrália, talvez o mais eficiente do mundo. Em particular, os preços dos medicamentos são uma fracção dos dos EUA: os mesmos medicamentos, produzidos pelas mesmas companhias, que obtêm lucros substanciais na Austrália ainda que nada comparáveis com os que são concedidos nos EUA – com frequência a pretexto de que são necessários para a investigação e o desenvolvimento, outro exercício na arte do engano. Parte da razão para a eficiência do sistema australiano é que, como outros países, a Austrália baseia­‑se nas práticas que o Pentágono emprega quando compra molas para segurar papéis: o poder aquisitivo do governo é utilizado para negociar preços, algo ilegal nos EUA. Outro motivo é que Austrália usa procedimentos “baseados em provas” no mercado de produtos farmacêuticos. Os negociadores denunciaram­‑nos como interferência no mercado: as corporações farmacêuticas são privadas dos seus direitos legítimos se lhes é exigido que apresentem provas quando afirmam que o seu produto mais recente é melhor do que alguma alternativa mais barata, ou quando apresentam anúncios televisivos em que algum herói desportivo ou uma modelo dizem ao público que pergunte ao seu médico se esse medicamento é «bom para si (é bom para mim)», por vezes sem sequer revelar para que se destina. O direito a enganar deve ser garantido às imensamente poderosas, patológicas e imortais pessoas, criadas pelo activismo judicial radical para dirigir a sociedade. Quando lhes é atribuída a tarefa de vender candidatos, a indústria de relações públicas recorre naturalmente às mesmas técnicas fundamentais, a fim de assegurar que a política continua a ser «a sombra projectada pelos grandes negócios sobre a sociedade», como o principal filósofo social dos EUA, John Dewey, descreveu há muito tempo os resultados do “feudalismo industrial”. O engano é empregado para minar a democracia, assim como é o dispositivo natural para minar os mercados. E os eleitores parecem sabê-lo.

Na véspera das eleições de 2000, cerca de 75% do eleitorado considerava­‑as como um jogo de contribuintes ricos, de dirigentes de partidos e da indústria de relações públicas, que treina os candidatos para projectarem imagens e produzir frases sem conteúdo que possam ganhar alguns votos. Muito provavelmente, é por esse motivo que a população prestou pouca atenção à “eleição roubada” que inquietou tanto os sectores educados. E é por esse motivo que provavelmente prestarão pouca atenção a campanhas sobre supostas fraudes em 2004. Se se atira a moeda ao ar para obter o Rei, não tem muita importância se a moeda está viciada.

Em 2000, a “consciência dos assuntos” – o conhecimento das posições das organizações que produzem candidatos a respeito dos assuntos – chegou ao seu ponto mais baixo de sempre. Os dados actualmente disponíveis sugerem que em 2004 pode ter sido ainda mais baixa. Cerca de 10% dos eleitores disseram que a sua escolha seria baseada nos «planos/ideias/plataformas/objectivos» dos candidatos; 6% dos votantes de Bush, 13% dos de Kerry (Gallup). O resto votaria pelo que a indústria chama “qualidades” ou “valores”, que são o equivalente político dos anúncios de pasta dentífrica. Os estudos mais cuidadosos (PIPA) descobriram que os eleitores tinham pouco conhecimento da posição dos candidatos sobre assuntos que lhes diziam respeito. Os votantes de Bush tendiam a crer que ele compartilhava as suas crenças, apesar de o Partido Republicano as rejeitar, com frequência explicitamente. Pesquisando as fontes utilizadas nos estudos, descobrimos que o mesmo valia em grande parte para os votantes de Kerry, a não ser que déssemos interpretações altamente compassivas a declarações vagas que a maioria dos eleitores provavelmente nunca ouviu.

As sondagens à boca das urnas mostraram que Bush ganhou grandes maiorias dos que estavam preocupados com a ameaça do terrorismo e com os “valores morais”, e Kerry ganhou maiorias entre aqueles preocupados com a economia, os cuidados de saúde, e outros temas semelhantes. Estes resultados dizem­‑nos muito pouco.

É fácil demonstrar que, para os planificadores de Bush, a ameaça do terrorismo constitui uma baixa prioridade. A invasão do Iraque é só um de muitos exemplos. Mesmo as suas próprias agências de inteligência estiveram de acordo com o consenso de outras agências, e especialistas independentes, de que a invasão ia provavelmente aumentar a ameaça do terrorismo, como o fez; provavelmente também a proliferação nuclear, como também foi predito. Tais ameaças simplesmente não são altas prioridades em comparação com a oportunidade de estabelecer as primeiras bases militares seguras num estado cliente dependente no coração das principais reservas de energia do planeta, uma região considerada desde a II Guerra Mundial como «a área mais importante, do ponto de vista estratégico, do mundo», «uma fonte estupenda de poder estratégico, e uma das maiores recompensas materiais da história do mundo». Aparte do que um historiador da indústria chama «lucros para além dos sonhos da avareza», que devem fluir no sentido correcto, o controle sobre dois terços das reservas estimadas de hidrocarbonetos do mundo – singularmente baratas e fáceis de explorar – assegura o que Zbigniew Brzezinski chamou recentemente de «alavanca crítica» sobre os rivais europeus e asiáticos, o que George Kennan chamou muitos anos antes «poder de veto» sobre eles. Estas têm sido preocupações políticas cruciais durante todo o período posterior à II Guerra Mundial, ainda mais no mundo tripolar que se desenvolve actualmente, com a sua ameaça de que a Europa e a Ásia possam orientar­‑se para maior independência, e pior ainda, que talvez se unam: a China e a UE convertam­‑se nos principais sócios comerciais respectivos, juntamente com a segunda maior economia do mundo (Japão), e essas tendências provavelmente aumentarão. Uma mão firme sobre a torneira reduz estes perigos.

Note-se que o tema crítico é o controle, não o acesso. As políticas dos EUA para o Médio Oriente foram as mesmas quando era um exportador neto de petróleo, e permanecem as mesmas actualmente quando os serviços de inteligência dos EUA prognosticam que os próprios EUA dependerão de recursos mais estáveis da bacia atlântica. A política seria provavelmente a mesma se os EUA se virassem para as energias renováveis. A necessidade de controlar a «estupenda fonte de poder estratégico» e de ganhar «lucros para além dos sonhos da avareza» continuariam a existir. As disputas pela Ásia Central e pelas rotas dos oleodutos reflectem preocupações similares.

Há muitas outras ilustrações da mesma falta de preocupação dos planificadores acerca do terrorismo. Os votantes de Bush, quer o soubessem ou não, votaram por um provável aumento da ameaça do terrorismo, que poderia ser terrível: foi entendido bem antes do 11-S que mais tarde ou mais cedo é provável que os jihadistas organizados pela CIA e seus associados nos anos 80 venham a ter acesso a ADM, com horrendas consequências. E mesmo estas perspectivas aterrorizadoras estão a ser conscientemente ampliadas pela transformação dos militares, que, aparte de aumentar a ameaça de «catástrofe final» através de uma guerra nuclear acidental, está a compelir a Rússia a mover mísseis nucleares pelo seu imenso e geralmente indefeso território para confrontar ameaças militares dos EUA – incluindo a ameaça de aniquilação instantânea que é uma parte fundamental da “propriedade do espaço” para propósitos militares ofensivos anunciado pela administração Bush juntamente com a sua Estratégia de Segurança Nacional em fins de 2002, ampliando significativamente os programas de Clinton que já eram mais do que suficientemente perigosos, e que já tinham imobilizado o Comité de Desarmamento da ONU.

Quanto aos “valores morais”, conhecemos o que precisamos saber sobre eles pela imprensa empresarial do dia seguinte à eleição, informando da “euforia” nos conselhos de administração – não porque os directores executivos se oponham aos casamentos gay. E dos esforços indissimulados para transferir para gerações futuras os custos da dedicação dos planificadores de Bush a favor dos privilégios e da riqueza: custos fiscais e ecológicos, entre outros, para não falar da ameaça de «catástrofe final». Pondo isso de lado, não significa grande coisa dizer que as pessoas votam na base de “valores morais”. A questão é o que querem dizer com a frase. As limitadas indicações são de certo interesse. Em algumas sondagens, «quando se pediu aos eleitores que escolhessem a crise moral mais urgente que o país enfrenta, 33% citou ‘a cobiça e o materialismo’, 31% seleccionaram ‘a pobreza e a justiça económica’, 16% mencionaram o aborto, e 12% seleccionou o casamento gay» (Pax Christi). Noutras, «quando se perguntou aos eleitores interrogados que listassem o tema moral que mais afectou o seu voto, a guerra do Iraque foi colocada em primeiro lugar por 42 porcento, enquanto 13 porcento mencionaram o aborto e 9 por cento mencionaram o casamento gay» (Zogby). Seja o que for que os eleitores quisessem dizer, dificilmente poderiam ter sido os valores morais operativos da administração, festejados pela imprensa empresarial.

Não entrarei aqui nos detalhes, mas uma olhadela cuidadosa indica que grande parte do mesmo vale para os votantes de Kerry que pensaram que estavam a pedir uma atenção séria para a economia, para a saúde, e para as suas outras preocupações. Tal como nos mercados fictícios construídos pela indústria de relações públicas, também na democracia fictícia que ela comanda o público é pouco mais do que um espectador irrelevante, aparte do apelo de imagens cuidadosamente construídas que têm apenas a mais vaga semelhança com a realidade.

Voltemo-nos para dados mais sérios sobre a opinião pública: os estudos que mencionei anteriormente foram tornados públicos pouco antes das eleições por algumas das instituições mais respeitadas e fiáveis que monitorizam regularmente a opinião pública. Eis alguns dos resultados (CCFR):

Uma ampla maioria do público crê que os EUA deveriam aceitar a jurisdição do Tribunal Penal Internacional e do Tribunal Internacional, assinar os protocolos de Kyoto, permitir que as Nações Unidas assumam a liderança nas crises internacionais, e apoiar­‑se em medidas diplomáticas e económicas em vez de militares na “guerra contra o terrorismo”. Maiorias similares crêem que os EUA deveriam recorrer à força apenas quando existam «fortes provas de que o país se encontra em iminente perigo de ser atacado», rejeitando assim o consenso bipartidário sobre a “guerra preventiva” e adoptando uma interpretação bastante convencional da Carta da ONU. Uma maioria está inclusive a favor de renunciar ao veto no Conselho de Segurança, seguindo assim a orientação da ONU mesmo se não é da preferência dos dirigentes estatais dos EUA Quando o moderado oficial da administração, Colin Powell, é citado na imprensa dizendo que Bush «obteve um mandato do povo norte­‑americano para continuar a prossecução da sua política externa ‘agressiva’», baseia­‑se na suposição convencional de que a opinião popular é irrelevante para as decisões políticas dos que estão no poder.

É instrutivo considerar mais de perto as atitudes populares para com a guerra no Iraque à luz da oposição geral às doutrinas de “guerra preventiva” do consenso bipartidário. Na véspera das eleições de 2004, «três quartos dos norte­‑americanos dizem que os EUA não deveriam ter ido à guerra se o Iraque não tinha ADM ou não estava a fornecer apoio à al Qaeda, enquanto quase metade ainda dizem que a guerra foi a decisão correcta» (Stephen Kull, informando sobre o estudo PIPA que dirige). Mas isto não é uma contradição, assinala Kull. Apesar dos relatórios Kay e Duelfer quase­‑oficiais que debilitam as afirmações, a decisão de ir à guerra «é apoiada por crenças persistentes entre metade dos norte­‑americanos de que o Iraque forneceu considerável apoio à al Qaeda, e que possuía ADM, ou pelo menos um importante programa de ADM», e portanto vêem a invasão como uma defesa contra uma severa ameaça iminente. Estudos PIPA muito anteriores tinham mostrado que uma grande maioria crê que a ONU, não os EUA, deveria assumir a liderança em assuntos de segurança, reconstrução e transição política no Iraque. Em Março passado, os eleitores espanhóis foram amargamente condenados por apaziguar o terrorismo quando votaram por tirar o governo que tinha participado na guerra contra as objecções de cerca de 90% da população, recebendo as suas ordens de Crawford no Texas, e conseguindo aplausos pela sua liderança na “Nova Europa” que é a esperança da democracia. Poucos, se alguns, comentaristas assinalaram que os eleitores espanhóis tomaram em Março passado aproximadamente a mesma posição que a grande maioria dos norte­‑americanos: votando por retirar as tropas espanholas a não ser que estivessem sob a direcção da ONU. As maiores diferenças entre os dois países são que em Espanha a opinião pública era conhecida, enquanto aqui se requer um projecto de investigação individual para descobri­‑la; e em Espanha o assunto resultou numa votação quase inimaginável na democracia formal em deterioração que há aqui.

Estes resultados indicam que os activistas não fizeram seu trabalho eficientemente.

Considerando outras áreas, maiorias esmagadoras do público estão a favor da expansão de programas domésticos: primeiramente a saúde (80%), mas também a ajuda à educação e à Segurança Social. Resultados similares foram encontrados há muito tempo nestes estudos (CCFR). Outras sondagens importantes assinalam que 80% está a favor dos cuidados de saúde garantidos, mesmo que isso aumentasse os impostos – na realidade, um sistema nacional de saúde provavelmente reduziria consideravelmente as despesas, evitando os elevados custos de burocracia, a supervisão, a papelada, etc., alguns dos factores que tornam o sistema privatizado dos EUA o mais ineficiente do mundo industrializado. A opinião pública tem sido similar durante muito tempo, com cifras que variam segundo se formulem as perguntas. Os factos são às vezes discutidos na imprensa, com as preferências públicas assinaladas mas descartadas como «politicamente impossíveis». O mesmo ocorreu novamente na véspera das eleições de 2004. Alguns dias antes (31 de outubro), o NY Times informou que «há tão pouco apoio político para a intervenção governamental no mercado dos cuidados de saúde nos Estados Unidos que o senador John Kerry se esforçou num recente debate presidencial por dizer que o seu plano de expandir o acesso ao seguro de saúde não criaria um novo programa governamental» – que é o que a maioria deseja, ao que parece. Mas é «politicamente impossível» e tem «[tão] pouco apoio político», querendo dizer que as seguradoras, organizações de manutenção da saúde, as indústrias farmacêuticas, Wall Street, etc. se opõem.

É notável que opiniões semelhantes sejam expressadas por pessoas em virtual isolamento. Raramente ouvem falar delas, e não deixa de ser provável que os interrogados considerem as suas próprias opiniões como idiossincráticas. As suas preferências não entram nas campanhas políticas, e só marginalmente recebem algum reforço na opinião articulada nos media e na imprensa. O mesmo se aplica noutros domínios.

Quais teriam sido os resultados da eleição se os partidos, qualquer dos dois, tivessem estado dispostos a articular as preocupações das pessoas sobre os temas que consideram vitalmente importantes? Ou se estes temas tivessem entrado na discussão pública nos meios dominantes? Só podemos especular sobre isso, mas sim sabemos que não acontece, e que os factos mal são reportados. Não parece difícil imaginar quais poderão ser os motivos.

Resumidamente, aprendemos muito pouco com algum significado das eleições, mas podemos aprender muito dos estudos das atitudes públicas que são mantidos na sombra. Apesar de ser natural que os sistemas doutrinais tratem de induzir o pessimismo, a impotência e o desespero, as verdadeiras lições são bastante diferentes. São encorajadoras e esperançosas. Mostram que existem substanciais oportunidades de educação e organização, incluindo o desenvolvimento de potenciais alternativas eleitorais. Como no passado, os direitos não serão concedidos por autoridades benevolentes, ou conquistados por acções intermitentes – umas poucas manifestações grandes depois das quais se vai para casa, ou dando uma mãozinha nos grandes espectáculos personalizados que são apresentados cada quatro anos como “política democrática”. Como sempre no passado, as tarefas requerem um compromisso diário para criar – em parte recriar – a base para uma cultura democrática operativa na qual o público represente algum papel na determinação das políticas, não só na arena política da qual é largamente excluído, mas também na crucial arena económica, da qual está excluído por princípio.