Informação Alternativa

Médio Oriente

18/11/2004

 

Rescrever a história

 

Noam Chomsky

Al-Ahram

O princípio fundamental é que “nós somos bons” – por “nós” entende­‑se o Estado que servimos –, e o que “nós” fazemos é dedicado à consecução dos mais nobres objectivos, ainda que na prática possam produzir-se alguns erros. Como exemplo típico, segundo a versão retrospectiva no extremo da esquerda liberal, a correcta interpretação da Guerra do Vietname é que esta se iniciou com «esforços desajeitados para fazer o bem» mas que, a partir de 1969, se tinha convertido num «desastre» (Anthony Lewis) – em 1969, quando o mundo empresarial se voltou contra a guerra pelo seu altíssimo custo e quando 70 por cento da população a considerava «fundamentalmente errada e imoral», não um “erro”; em 1969, sete anos após o começo do ataque de Kennedy ao Vietname do Sul, dois anos depois de o mais respeitado especialista sobre o Vietname, e historiador militar, Bernard Fall advertir que «o Vietname como entidade cultural e histórica... está ameaçado de extinção... (enquanto)... os seus campos são literalmente arrasados pelos ataques da maior maquinaria de guerra jamais empregada contra uma região tão pequena»; em 1969, o momento de algumas das mais horrendas operações terroristas de Estado de um dos maiores crimes do passado século XX, entre as quais as realizadas pelas lanchas rápidas no extremo sul, já devastado pelos bombardeamentos em massa, pela guerra química e pelos massacres em massa, foram as menores das atrocidades realizadas. Mas a rescrita da história prevalece. Durante a campanha eleitoral de 2004, painéis sérios de especialistas ponderaram as razões da “obsessão americana com o Vietname”, quando a guerra do Vietname não foi mencionada em nenhum momento, isto é, o Vietname real que não responde à reconstruída imagem da história.

O princípio fundamental tem corolários. O primeiro deles é que os estados clientes são essencialmente bons, ainda que menos bons do que “nós”. Sempre que se adaptem às exigências dos EUA são “saudavelmente pragmáticos”. Outro é o de que os inimigos são muito maus; a intensidade da sua maldade depende do quão intensamente “nós” os estamos a atacar ou a planejar fazê­‑lo. O seu estatuto pode mudar rapidamente, em conformidade com estas directrizes. Assim, a actual Administração e os seus imediatos mentores foram muito favoráveis a Saddam Hussein e foram­­­‑lhe prestáveis enquanto se limitava a gasear curdos, a torturar os dissidentes e a esmagar uma rebelião chiita que poderia tê-lo derrubado em 1991, por causa da sua contribuição para a “estabilidade” – uma palavra codificada para a “nossa” dominação – e da sua utilidade para os exportadores dos EUA, como se admitiu francamente. Mas os mesmos crimes converteram­‑se nas provas da sua definitiva maldade quando se apresentou o momento oportuno para “nós”, levantando orgulhosamente a bandeira do Bem, invadirmos o Iraque e estabelecermos o que será chamada uma “democracia” se obedecer às ordens e contribuir para a “estabilidade”.

Os princípios são simples, e fáceis de recordar para quem aspira a fazer carreira em círculos respeitáveis. A notável consistência da sua aplicação está documentada amplamente. É algo que se espera que ocorra nos estados totalitários e nas ditaduras militares, mas resulta um fenómeno muito mais instrutivo nas sociedades livres, onde não se pode alegar seriamente o medo como atenuante.

A morte de Arafat fornece mais um da imensa lista de estudos de caso. Vou-me cingir ao The New York Times (NYT), o jornal mais importante do mundo, e ao The Boston Globe, talvez, mais do que nenhum outro, o jornal local da elite culta liberal.

O artigo de opinião de primeira página do NYT (12 de Novembro) começa por descrever Arafat como «ao mesmo tempo, o símbolo da esperança dos palestinianos num Estado independente viável e o principal obstáculo para a sua realização». E prossegue explicando que jamais atingiu a altura do Presidente egípcio Anwar Sadat do Egipto; Sadat «conseguiu a devolução do Sinai por meio de um tratado de paz com Israel» porque foi capaz de «estender a mão aos israelitas e satisfazer os seus medos e esperanças» (citação de Shlomo Avineri, filósofo israelita e antigo funcionário governamental, na edição seguinte, 13 de Novembro).

Podemos pensar em obstáculos mais sérios para a criação de um Estado palestino, mas são excluídos pelos princípios orientadores, tal como o é a verdade acerca de Sadat – que Avineri no mínimo seguramente conhece. Recordemos alguns.

Desde que a questão dos direitos dos nacionais palestinianos a ter um Estado próprio se incorporou à agenda diplomática em meados dos anos 70, «o primeiro obstáculo para a sua realização», sem nenhuma dúvida, foi o governo dos Estados Unidos, com o NYT como aspirante qualificado ao segundo posto. Isso tem sido claro desde Janeiro de 1976, quando a Síria apresentou uma Resolução ao Conselho de Segurança da ONU convocando um acordo para o estabelecimento de dois Estados. A Resolução incorporava o fraseado crucial da resolução 242 – o documento básico, todos concordam. Nela se reconheciam a Israel os mesmos direitos que a qualquer outro estado no sistema internacional, ao lado de um Estado palestino nos territórios ocupados por Israel em 1967. A Resolução foi vetada pelos Estados Unidos. Foi apoiada pelos principais estados árabes. A OLP de Arafat condenou a «tirania do veto». Houve algumas abstenções por questões de tecnicismos.

Então, a solução de dois estados nos termos previstos tinha suscitado um muito amplo consenso internacional, bloqueado unicamente pelos Estados Unidos (e rejeitado por Israel). Assim continuaram as coisas, não só no Conselho de Segurança, mas também na Assembleia Geral, onde se aprovaram regularmente resoluções similares com uma votação como 150-2 (com os Estados Unidos captando às vezes outro estado cliente). Os EUA também bloquearam iniciativas similares da Europa e dos estados árabes.

Entretanto, o NYT recusou – a palavra é exacta- publicar o facto de que, durante os anos 80, Arafat apelou a negociações, as quais Israel rejeitou. Os principais meios de informação israelitas apresentavam manchetes sobre as solicitações de Arafat de negociações directas com Israel, rejeitadas por Shimon Peres com base no argumento doutrinal de que a OLP de Arafat não «pode ser um interlocutor nas negociações». E pouco depois o correspondente do NYT em Jerusalém, e ganhador do prémio Pulitzer, Thomas Friedman, que podia certamente ler a imprensa hebraica, escreveria artigos lamentando a angústia das forças de paz israelitas por causa «da ausência de algum interlocutor válido para as negociações», enquanto Peres deplorava a falta de um «movimento a favor da paz entre o povo árabe (semelhante) ao que existe entre o povo judeu» e explicava uma vez mais que não se podia admitir a participação da OLP nas negociações «enquanto permanecer uma organização terrorista e recusar negociar». Tudo isso, pouco tempo depois de outra oferta de negociação de Arafat que o NYT recusou reportar, e quase três anos depois de o governo israelita ter rejeitado as propostas de negociação formuladas por Arafat que levariam ao reconhecimento mútuo. Peres, entretanto, é descrito como um «saudável pragmático», em virtude das directrizes estabelecidas.

As coisas mudaram de algum modo nos anos 90, quando a administração Clinton declarou todas as resoluções das Nações Unidas «obsoletas e anacrónicas» e confeccionou a sua própria forma de rejeição. Os Estados Unidos permanecem sós no bloqueio a um acordo diplomático. Um exemplo recente importante foi a apresentação dos Acordos de Genebra em Dezembro de 2002, apoiados pelo habitual e extenso consenso internacional, com as excepções habituais: «Os Estados Unidos de forma conspícua não figuravam entre os governos que enviaram mensagens de apoio”, informava o NYT num despiciente artigo (2 de Dezembro de 2002).

Esta é apenas uma pequena amostra dos registos diplomáticos que são tão consistentes, e tão dramaticamente claros, que resultam impossíveis de ignorar – a não ser que nos atenhamos rigidamente à  história moldada pelos que a escrevem.

Vamos ao segundo exemplo: o de Sadat estendendo a mão aos israelitas e com isso ganhando a devolução do Sinai em 1979, uma lição para o malvado Arafat. Voltando à história inaceitável, em Fevereiro de 1971 Sadat propôs um tratado de paz total a Israel, de acordo com a então política oficial dos Estados Unidos, especificamente, a retirada israelita do Sinai – sem a mais mínima alusão aos direitos dos palestinianos. A Jordânia veio a seguir com propostas similares. Israel reconheceu que podia ter obtido uma paz total, mas o governo trabalhista de Golda Meier preferiu rejeitar a oferta e dedicar-se a continuar a expansão, naquele momento para o nordeste do Sinai, onde Israel estava a expulsar milhares de beduínos para o deserto e a destruir as suas vilas, mesquitas, cemitérios e moradias para estabelecer em seu lugar a cidade etnicamente judia de Yamit.

A questão crucial, como sempre, foi a de como iam reagir os Estados Unidos. Kissinger conseguiu que prevalecesse a sua opinião no debate interno, e os Estados Unidos assumiram a sua política de “ponto morto”: nada de negociações, apenas a força. Os Estados Unidos continuaram a rejeitar – mais exactamente, a ignorar – os esforços de Sadat para prosseguir um processo diplomático, apoiando a rejeição e o expansionismo de Israel. Aquela posição desembocou na guerra de 1973, que foi um sinal muito próximo para Israel e para o resto do mundo; os Estados Unidos inclusive puseram em marcha um alerta nuclear. Nesse momento, mesmo Kissinger compreendeu que o Egipto não podia ser dispensado, e iniciou as suas viagens diplomáticas que conduziram às reuniões de Camp David em que os Estados Unidos e Israel aceitaram a oferta de Sadat de 1971 – mas então com condições mais duras, do ponto de vista israelita-estadounidense. Nessa altura, o consenso internacional tinha acabado por reconhecer os direitos nacionais palestinianos e, consequentemente, Sadat propunha a necessidade de um Estado palestino, o que para os EUA e Israel era um anátema.

Na história oficial rescrita pelos seus donos, e repetida pelos artigos de opinião dos meios informativos, estes acontecimentos constituíram um “triunfo diplomático” para os Estados Unidos e uma prova de que, se os árabes fossem capazes de se unirem a nós na preferência pela paz e pela diplomacia, poderiam conseguir os seus objectivos. Na história real, o triunfo foi uma catástrofe, e os acontecimentos demonstraram que os Estados Unidos só estariam dispostos a ceder à violência. A rejeição estadounidense à solução diplomática conduziu a uma guerra terrível e muito perigosa e a muitos anos de sofrimento, com amargas consequências até ao dia de hoje.

Nas suas memórias, o general Shlomo Gazit, comandante militar dos territórios ocupados de 1967 a 1974, menciona que, ao rejeitar tomar em consideração as propostas apresentadas pelo exército e pelo serviço de inteligência relativas a algum tipo de autonomia nos territórios e inclusive a aceitação de alguma actividade política limitada, e a insistência de «mudanças substanciais de fronteiras», o governo trabalhista apoiado por Washington contraiu uma significativa responsabilidade no posterior desenvolvimento do fanático grupo de colonos Gush Emumin e da resistência palestina que se desenvolveu muitos anos depois na primeira Intifada, depois de anos de brutalidade e terrorismo de Estado, e do continuado espólio das terras mais férteis e dos recursos palestinos.

A interminável necrologia da especialista no Médio Oriente Judith Miller do Times (11 de Novembro) desenvolve-se no mesmo tom que o artigo de opinião da primeira página. Segundo a sua versão, «Até 1988, [Arafat] rejeitou em repetidas ocasiões o reconhecimento de Israel, e persistiu na luta armada e no terrorismo. Só se decidiu pela via diplomática depois de se ter posto ao lado do presidente iraquiano, Saddam Hussein, durante a guerra do Golfo Pérsico de 1991».

Miller expõe uma visão exacta da história oficial. Na história real, Arafat propôs em repetidas ocasiões negociar o reconhecimento mútuo, enquanto Israel – em particular as suas “pragmáticas” pombas – o rejeitou liminarmente, com o apoio dos Estados Unidos. Em 1989, o governo de coligação israelita (Shamir­‑Peres) confirmou o consenso político no seu plano de paz. O primeiro ponto foi que não pode haver «um novo Estado palestino» entre a Jordânia e Israel – pois a Jordânia já é um “Estado palestino”. O segundo, foi que o destino dos territórios ocupados seria estabelecido «de acordo com as linhas programáticas do governo [israelita]». O plano israelita foi aceite sem reservas pelos EUA, e tornou­‑se no “Plano Baker” (Dezembro de 1989). Exactamente ao contrário do relato de Miller e da história oficial, foi apenas depois da Guerra do Golfo que Washington esteve disposto a considerar as negociações, reconhecendo que então se encontrava em situação de impor de forma unilateral a sua própria solução.

Os EUA convocaram a conferência de Madrid (com a participação russa como figurante). Isso conduziu efectivamente a negociações, com uma delegação palestina legítima, presidida por Haidar Abdul-Shafi, um nacionalista íntegro que é provavelmente o líder mais respeitado nos territórios ocupados. Mas as negociações ficaram bloqueadas porque Abdul Shafi rejeitou a insistência israelita, apoiada por Washington, em continuar a ocupar zonas valiosas dos territórios com os seus programas de assentamentos e de infra-estruturas – todos ilegais, como reconhecido pela própria Administração de Justiça dos EUA, a única que dissentiu na recente sentença do Tribunal Internacional que condenou o muro israelita que divide a Cisjordânia. Os “palestinianos de Tunes” [1], dirigidos por Arafat, desautorizaram os negociadores palestinianos e levaram a cabo as suas próprias, os “Acordos de Oslo”, celebrados com grande fanfarra no relvado da Casa Branca em Setembro de 1993 [2].

Foi imediatamente evidente que se tratava de uma venda ao desbarato. O documento único – A Declaração de Princípios – estabelecia que o resultado final teria de basear­‑se exclusivamente na Resolução 242 da ONU de 1967, excluindo os temas fundamentais na diplomacia desde meados dos anos 70: os direitos nacionais dos palestinianos e o estabelecimento de dois estados. A Resolução 242 define o resultado final porque nada diz acerca dos direitos dos palestinianos; excluídas são as Resoluções que reconhecem os direitos dos palestinianos a par dos israelitas, de acordo com o consenso internacional que tem vindo a ser bloqueado pelos Estados Unidos desde que tomou forma em meados dos anos 70. O articulado dos acordos deixava claro que eles eram um mandato para a continuação dos programas de assentamentos israelitas, tal como a liderança israelita (Yitzhak Rabin e Shimon Peres) não se deu ao trabalho de ocultar. Por essa razão, Abdul Shafi negou­‑se até a estar presente nas cerimónias. O papel reservado a Arafat era o de fazer de polícia nos territórios, como Rabin deixou bem claro. Enquanto desempenhou bem esta tarefa, foi considerado um “pragmático”, aprovado pelos EUA e Israel sem qualquer preocupação pela corrupção, pela violência e pela repressão. Foi apenas quando já não podia manter a população sob controlo, enquanto Israel tomava posse de mais terras e recursos, que se converteu num vilão retorcido, que obstruía o caminho para a paz: a transição usual.

Assim as coisas prosseguiram durante os anos 90. Os objectivos das pombas israelitas foram explicados em 1998, num trabalho académico de Shlomo ben­‑Ami, que cedo se tornou no negociador principal de Barak em Camp David: o «processo de paz de Oslo» pretendeu estabelecer «uma dependência neocolonial permanente» nos territórios ocupados, com alguma forma de autonomia local. Entretanto, as colónias israelitas e a anexação de territórios continuaram ininterruptamente com o apoio total dos Estados Unidos. Atingiram o clímax no último ano do mandato de Clinton (e do de Barak), minando as esperanças de um acordo diplomático.

Voltando a Miller, ela mantém a versão oficial de que em «Novembro de 1988, depois de consideráveis esforços dos Estados Unidos, a OLP aceitou a Resolução das Nações Unidas que pediam o reconhecimento de Israel e a renúncia ao terrorismo». A história real é que em Novembro de 1988, Washington se estava a converter em objecto de ridículo internacional pela sua recusa em “ver” que Arafat estava a apelar a um acordo diplomático. Nesse contexto, a administração Reagan concordou relutantemente em admitir a verdade evidente e indiscutível, e teve que recorrer a outras formas de prejudicar os esforços diplomáticos. Assim, os EUA iniciaram negociações de baixa intensidade com a OLP, mas como o primeiro­‑ministro Rabin assegurou em 1989 aos dirigentes de Peace Now, elas não tinham sentido e pretendiam apenas dar a Israel mais tempo para «duras pressões militares e económicas» de forma que «no final, eles acabarão destroçados» e aceitarão as condições de Israel.

Miller prossegue a história no mesmo sentido, levando­‑a ao desenlace padrão: em Camp David, Arafat “rejeitou” a magnânima oferta de paz de Clinton e Barak, e mesmo mais tarde recusou unir-se a Barak em aceitar os “parâmetros” de Clinton em Dezembro de 2000, provando com isso de forma concludente que persistia na violência, uma verdade deprimente que os pacíficos governos de Israel e Estados Unidos tinham que aceitar.

Voltando à história real, as propostas de Camp David dividiram a Cisjordânia em cantões virtualmente separados entre si, e não podiam ser aceites por nenhum dirigente palestino. Isso torna­‑se evidente com uma olhadela aos mapas que eram facilmente acessíveis, salvo para o NYT, ou aparentemente para todos os principais meios de informação estadounidenses, talvez por essa razão. Depois do fracasso daquelas negociações, Clinton reconheceu que as reservas de Arafat faziam sentido, tal como ficou demonstrado com os famosos “parâmetros” de Clinton que, ainda que vagos, foram muito mais além no sentido de um possível acordo – assim minando a história oficial, mas isso é apenas lógica, e por isso tão inaceitável como a história. Clinton deu a sua própria versão das reacções aos seus “parâmetros” numa palestra ante o Israeli Policy Forum [3] em 7 de Janeiro de 2002: «O primeiro­‑ministro Barak e o Presidente Arafat aceitaram agora estes parâmetros como base para futuras negociações. Ambos expressaram algumas reservas».

Pode-se aceder a esta informação em fontes tão obscuras como a prestigiada revista do MIT, International Security (Outono 2003), bem como na conclusão de que «a versão palestina das conversas de paz dos anos 2000-01 é significativamente mais exacta do que a narrativa de Israel» – a “narrativa” EUA­‑NYT.

Depois disso, negociadores palestinianos e israelitas de alto nível prosseguiram tomando como ponto de partida os “parâmetros” de Clinton «como base para futuras negociações» e apresentaram as suas «reservas» nas reuniões de Taba em Janeiro. Estas produziram um acordo provisório, indo ao encontro de algumas das preocupações palestinas – e portanto minando de novo a história oficial. Persistiram certos problemas, mas as negociações de Taba foram mais além no caminho para a consecução de um possível acordo do que quaisquer das precedentes. As negociações foram interrompidas por Barak, pelo que não podemos saber qual teria sido o resultado final. Um detalhado relatório do representante da União Europeia, Miguel Moratinos [4], foi aceite por ambas partes como fiel, e amplamente difundido em Israel. Mas duvido de que tenha sequer sido mencionado nos principais meios informativos dos Estados Unidos.

A versão que Miller dá destes acontecimentos no NYT baseia­‑se no muito elogiado livro do negociador e enviado de Clinton ao Médio Oriente, Dennis Ross. Como qualquer jornalista deve estar consciente, tal fonte é altamente suspeita, quanto mais não seja pelas suas origens. E mesmo uma leitura superficial seria suficiente para demonstrar que a versão de Ross resulta pouco credível. As suas 800 páginas consistem na sua maioria em adulação a Clinton (e aos seus próprios esforços), baseando-se em praticamente nada de verificável; ou melhor, em “citações” do que assegura ter dito e escutado dos participantes, identificados pelo primeiro nome se são os “tipos bons”. Mal há uma só palavra a respeito do que todos sabemos que foram os assuntos cruciais desde 1971: os planos de assentamentos e de desenvolvimento de infra-estruturas nos territórios, que dependiam do apoio económico, militar e diplomático dos EUA, como incluído claramente por Clinton. Ross trata o seu problema de Taba de forma simples: terminando o livro imediatamente antes de começarem as conversações (o que lhe permite omitir a avaliação de Clinton, citada uns dias mais tarde). Desta maneira, consegue evitar que as suas conclusões fundamentais sejam refutadas instantaneamente.

No livro de Ross, Abdul-Shafi é mencionado de passagem uma só vez. Naturalmente, a percepção do seu amigo Shlomo ben‑Ami sobre o processo de Oslo é ignorada, tal como o são todos os elementos significativos dos acordos provisórios e de Camp David. Não existe alusão alguma à rejeição liminar dos seus heróis, Rabin e Peres – aliás, “Yitzhak” e “Shimon” – mesmo para tomar em consideração um Estado palestino. Na verdade, a primeira menção dessa possibilidade aparece em Israel com o governo do “tipo mau”, o ultra­‑direitista Benyamin Netanyahu. O seu ministro da informação, interrogado sobre a possibilidade de um Estado palestino, respondeu que os palestinianos podiam denominar os cantões que lhes eram deixados «um Estado» se quisessem – ou «um frango frito».

Isso é só o começo. As opiniões de Ross são tão deficientes em fontes independentes e tão radicalmente selectivas que tudo o que afirma deve encarar-se com grandes reservas, desde os detalhes concretos que meticulosamente reproduz literalmente (talvez recolhidos com um gravador oculto) até às conclusões de carácter muito geral que se apresentam como autorizadas mas sem evidências credíveis. Resulta algo interessante que as suas opiniões se apresentem como se pudessem ser consideradas uma versão autorizada dos factos. Em geral, o livro pouco vale, excepto pelo facto de dar as impressões de um dos protagonistas. É difícil imaginar que um jornalista não esteja consciente disso.

Não desprezível, contudo, é a evidência crucial de que não somos informados. Por exemplo, as análises dos serviços de inteligência israelitas durante aqueles anos: entre elas, de Amos Malka, director dos serviços militares israelitas de inteligência; do general Ami Ayalon, que dirigia os Serviços Gerais de Segurança (Shin Bet); de Matti Steinberg, conselheiro especial para assuntos palestinianos do chefe do Shin Bet; e do coronel Ephraim Lavie, o funcionário da divisão de investigação responsável pelos assuntos palestinianos. O consenso, segundo Malka, era «a suposição de que Arafat prefere o processo diplomático, e que fará tudo quanto possa por conseguir levá­‑lo avante, e que só quando chega a um beco sem saída se volta para a violência. Mas esta violência tem como objectivo fazê-lo sair do beco sem saída, para pôr em movimento a pressão internacional que propicie dar o passo seguinte». Malka denuncia que estes relatórios de alto nível foram falsificados quando foram transmitidos aos dirigentes políticos e outras instâncias. Os repórteres estadounidenses poderiam facilmente aceder com facilidade a eles através de fontes prontamente disponíveis, em inglês.

Não tem sentido continuar com as versões de Miller ou de Ross. Vamos ao Boston Globe, no extremo liberal. Os seus editores (a 12 de Novembro) aderem ao mesmo princípio fundamental do NYT (provavelmente quase universal: seria interessante procurar excepções). Os editores reconhecem que o fracasso na consecução de um Estado palestino «não pode atribuir­‑se só a Arafat. Os líderes israelitas... tiveram a sua quota­‑parte...». O papel decisivo dos EUA é imencionável, impensável.

O Globe também publicou um artigo de opinião na primeira página a 11 de Novembro. No seu primeiro parágrafo aprendemos que Arafat foi «um dos líderes carismáticos e autoritários - de Mao Zedong na China a Fidel Castro em Cuba a Saddam Hussein no Iraque – que surgiram dos movimentos anti-coloniais que se estenderam pelo mundo a seguir à Segunda Guerra Mundial».

Esta afirmação resulta interessante sob diversos pontos de vista. A ligação revela, de novo, o inevitável ódio visceral em relação a Castro. Sucederam-se os pretextos segundo mudavam as circunstâncias, mas nenhuma informação foi dada para questionar as conclusões dos serviços de inteligência dos EUA nos primeiros dias dos ataques terroristas de Washington e da guerra económica contra Cuba: o problema de fundo estriba no seu “bem sucedido desafio” das políticas dos EUA que remontam à Doutrina Monroe. Não obstante, há algo de verdadeiro no retrato de Arafat no artigo de opinião do Globe, como haveria num relato de primeira página durante os funerais imperiais do semi-divino Reagan descrevendo­‑o como um dos elementos carismáticos do grupo de assassinos de massas – de Hitler a Idi Amin a Peres – que mataram com displicência e com enorme apoio dos meios de informação e dos intelectuais. Aqueles que não compreendem a analogia têm muito que aprender da história.

Prosseguindo, o relatório do Globe, fazendo a recontagem dos crimes de Arafat, diz­‑nos que conseguiu ganhar o controlo do sul do Líbano e que «o utilizou para lançar uma série de ataques contra Israel, que respondeu invadindo o Líbano [em Junho de 1982]. O objectivo declarado de Israel era expulsar os palestinianos da fronteira da região, mas, sob as ordens do então general e ministro da defesa Sharon, as suas forças avançaram até Beirute, onde Sharon permitiu aos seus aliados, as milícias cristãs, perpetrar o terrível massacre de palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Chatilla e mandar Arafat e a liderança palestiniana para o exílio em Tunes».

Voltando à história inaceitável, durante o ano anterior à invasão israelita a OLP aderiu a uma iniciativa quebrada de paz dos Estados Unidos, enquanto Israel levava a cabo muitos ataques mortíferos no sul do Líbano, num esforço de provocar alguma reacção palestina que pudesse utilizar como pretexto para a invasão planificada. Quando nenhuma reacção se materializou, inventaram um pretexto e invadiram, matando provavelmente 20.000 palestinianos e libaneses, graças aos vetos dos Estados Unidos a resoluções do Conselho de Segurança apelando ao cessar­‑fogo e à retirada dos territórios invadidos. O massacre de Sabra­‑Chatila foi uma nota de rodapé, no final. O objectivo declarado muito claramente aos mais altos níveis políticos e militares, e pelos pesquisadores e analistas israelitas, foi pôr um fim às irritantes e incessantes iniciativas de Arafat para conseguir um acordo diplomático e assegurar o controle de Israel sobre os territórios ocupados.

Tergiversações parecidas de factos bem documentados apareceram nos comentários sobre a morte de Arafat, e foram tão convencionais durante muitos anos nos meios de informação estadounidenses que dificilmente se pode culpar os jornalistas por repeti­‑los – apesar de uma investigação mínima ser suficiente para revelar a verdade.

Também resultam instrutivos alguns elementos menores dos comentários. Por exemplo, o artigo de opinião do Times diz­‑nos que os sucessores prováveis de Arafat – os “moderados” preferidos por Washington – têm alguns problemas: carecem de «credibilidade na rua». Esta é a frase convencional utilizada para mencionar a opinião pública no Mundo Árabe, como quando nos informam sobre as “ruas árabes”. Se uma figura política ocidental tem escasso apoio público, não dizemos que carece de “credibilidade na rua”, e não existem alusões às “ruas” estadounidenses ou britânicas. A frase é reserva para as ordens inferiores, irreflectidamente. Eles não são pessoas, mas criaturas que habitam as “ruas”. Podemos também acrescentar que o líder mais popular “nas ruas palestinas”, Marwan Barghouti, foi fechado à chave com segurança por Israel, de forma permanente. E que George Bush demonstrou a sua paixão pela democracia ao unir-se ao seu amigo Sharon – o “homem de paz” – em manter o único líder democraticamente eleito do mundo Árabe numa prisão virtual, enquanto apoiava Mahmoud Abbas, que, como os Estados Unidos confessaram, não goza de “credibilidade nas ruas”. Tudo isto poderia dizer­‑nos algo sobre o que a imprensa liberal denomina a “visão messiânica” de Bush para levar a democracia ao Médio Oriente, mas somente se os factos e a lógica importassem.

O NYT publicou um grande artigo de opinião sobre a morte de Arafat, do historiador israelita Benny Morris. O trabalho merece uma análise detida, mas porei isso de parte aqui, e ficarei apenas pelo seu primeiro comentário, que marca o tom: Arafat é um impostor, afirma Morris, que fala de paz e em pôr fim à ocupação, mas na realidade quer «redimir a Palestina». Isto demonstra a irremediável natureza selvagem de Arafat.

Aqui, Morris revela o seu desprezo não só pelos árabes (que é profundo) mas também pelos leitores do NYT. Aparentemente, ele não se dá conta de que está a tomar emprestada a terrível frase da ideologia sionista. O seu princípio fundamental durante um século foi o de “redimir A Terra”, um princípio que está por detrás do que Morris reconhece ser um conceito central do movimento sionista: a “transferência” da população nativa, isto é, a expulsão, para “redimir A Terra” para os seus legítimos proprietários. Não parece que seja necessário soletrar as conclusões.

Morris é identificado como um historiador israelita, autor do recente livro The Birth of the Palestinian Refugee Problem Revisited. É verdade. Ele também realizou as investigações mais exaustivas nos arquivos israelitas, demonstrando em detalhe considerável as selvajarias das operações israelitas em 1948-9 que conduziram à “transferência” da grande maioria da população do que se converteria no Estado de Israel, incluída a parte que a ONU estabeleceu para o Estado palestino de que Israel se apropriou, repartindo­‑a em cerca de 50% com o seu sócio jordano. Morris é crítico das atrocidades e da “limpeza étnica” (numa tradução mais precisa, “purificação étnica”): nomeadamente, não foi suficientemente longe. Morris pensa que o grande erro de Ben Gurion, provavelmente o «engano fatal», foi não ter “limpado a totalidade do país – a totalidade da Terra de Israel, até ao rio Jordão».

Para crédito de Israel, a sua postura sobre este assunto foi amargamente condenada. Em Israel. Nos Estados Unidos é a escolha apropriada para o principal comentário sobre o seu injuriado inimigo.

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[1] N.T.: Lugar da sede da OLP naquela época.

[2] N.T.: no original, figura 2003.

[3] N.T. Organismo judeu estadounidense pró-israelita.

[4] N.T.: Actual ministro espanhol dos negócios estrangeiros.