Informação Alternativa

Estados Unidos da América

18/10/2004

 

Noam Chomsky sobre o estado da nação, o Iraque e a eleição

 

Amy Goodman e Noam Chomsky

Democracy Now!

Amy Goodman: Na semana passada fui a Cambridge para falar com o professor Noam Chomsky. Fui ao seu escritório no MIT.

Noam Chomsky: Há sérios problemas aqui. Um dos problemas é quase uma total desilusão, o desaparecimento da base para uma sociedade democrática. Se compararmos esta eleição com eleições no segundo maior país do hemisfério, o Brasil, devíamos ter vergonha de nós próprios. Eles têm verdadeiras eleições onde há a discussão dos temas e onde podem eleger algumas organizações populares de massas. Eles podem eleger como presidentes alguém das suas próprias fileiras, um homem que tem um passado de camponês, de trabalhador do aço, de sindicalista, sem uma educação superior, uma figura bastante impressionante. Contra barreiras bastante mais altas do que as que existem aqui. Aqui, temos uma coisa chamada eleição, que é uma escolha entre dois homens ambos nascidos no seio de uma grande riqueza e influência política, ambos tendo frequentado as mesmas escolas privadas de luxo, a mesma universidade de elite, membros da mesma sociedade secreta onde se treinam pessoas para serem membros da classe governante. Podem concorrer porque são financiados basicamente pelas mesmas concentrações de poder privado. Ambos compreendem que é suposto a eleição manter­‑se afastada da discussão dos temas. São orientados pela indústria de relações públicas, de certo modo projectadas para manter o público fora disso. Focam o que eles designam por qualidades. Ele é um líder, uma boa pessoa? Suspira? Esse género de coisas. Isso é o que a campanha é. Muito poucas pessoas sabem o que eles defendem. Na verdade, houve uma sondagem da Gallup há cerca de uma semana onde se perguntou aos eleitores porque iriam votar em Bush ou em Kerry. Penso que foi bastante impressionante. Uma das escolhas das muitas escolhas era as suas posições sobre os assuntos. As suas agendas, as suas políticas. Foi cerca de 10%. Se tivessem perguntado às pessoas, elas não saberiam. É assim que é suposto ser. Isto é o símbolo de algo extremamente sério. De facto, em assunto após assunto – este é um país muito bem sondado. Sabemos muito acerca das atitudes e opiniões das pessoas. Estão na maior parte fora da agenda. Não são discutidas; são radicalmente diferentes do consenso da elite. Simplesmente não entram no sistema político. Isso é um problema importante. A atitude não é má. A par disto há um nível muito alto de activismo, talvez mais alto do que nunca. É desorganizado. É o modo como este país é, tudo está quebrado, desorganizado, ninguém sabe o que se está a passar do outro lado da cidade. Mas há muita coisa a acontecer, muito mais do que no passado.

Contudo, você diz que estes dois candidatos representam muito pouco que seja diferente um do outro.

A população foi muito cuidadosamente excluída da arena política, e da cultura em geral, da cultura dominante em geral. Isso não é acidental. Uma imensa quantidade de trabalho foi dedicada a isto. As elites estavam aterrorizadas pelos anos sessenta, essa explosão de participação popular na democracia e por aí fora. E há uma enorme contra campanha para empurrar isso para trás. Isso revela­‑se de várias maneiras. Desde o que é chamado neoliberalismo – abrir o sistema financeiro para libertar os fluxos financeiros, o que é bem entendido como uma arma contra a possibilidade de os governos fazerem escolhas, uma arma contra a democracia. Desde isso, até à enorme explosão de lobbistas em Washington, até aos bancos de ideias [think tanks] de direita. Tudo o que se possa imaginar, sobre o tabuleiro, tem sido um esforço para conduzir o perigo da democracia de volta ao buraco onde pertence.

Contudo, a respeito da pessoa que aponta isso, Ralph Nader, você e Howard Zinn, e outros, para surpresa de muitas pessoas assinaram uma carta e disseram “Não votem nele”.

Nós não dissemos isso. Na verdade, estou um pouco surpreendido pela surpresa. Tomei exactamente a posição que tomei em 2000, nomeadamente, a eleição é um assunto marginal, não nos deveria distrair do trabalho sério de mudar a sociedade, e a cultura e as instituições, criando uma cultura democrática. É nisso que devemos trabalhar. Não podemos ignorar as eleições. Estão aí. Mas são desenhadas como um método de essencialmente marginalizar a população. Há uma grande campanha de propaganda para levar as pessoas a concentrarem­‑se nestas extravagâncias personalizadas, e fazê­‑las pensar “Isso é a política”. Pois bem, não é. Isso é uma parte marginal da política, e aqui, uma parte muito marginal. Por isso, o principal é continuar com o nosso trabalho. Não podemos ignorá­‑lo. Deveríamos passar cinco minutos, talvez, a pensar acerca do que deveríamos fazer. Nesses cinco minutos, deveríamos reconhecer que há algumas diferenças entre os dois grupos que competem pelo poder, e um deles por acaso é bastante extremista, e muito perigoso, e já causou bastantes problemas e poderia provocar ainda mais. O outro é mau, mas menos extremista e menos perigoso. Assim, nesses cinco minutos que dedicamos ao tópico, deveremos chegar à conclusão racional que, se se trata de um Estado oscilante, devemos manter os piores tipos de fora. Se é outro Estado, fazemos o que nos apetece. É o mesmo que disse em 2000 durante os cinco minutos de tempo que despendi nesse assunto.

Ralph Nader disse que pelo menos uma exigência devia ter acompanhado isto.

Em relação a quê? A quem? Uma exigência a quem? Quero dizer, não me dirijo a George Bush. Não lhe faço exigências. Donald Rumsfeld não é a minha audiência. Não falo com Sandy Berger.

A John Kerry, se você lhe ia atirar o seu apoio.

Não falo com John Kerry. Quero dizer, ele não é a minha audiência, ou a sua audiência, ou a nossa audiência. Não lhe podemos fazer exigências. Algumas pessoas podem, como Pat Robertson que recentemente disse que a não ser que adoptem uma posição ainda mais extrema no apoio à expansão de Israel, ele formará um terceiro partido – isso é uma verdadeira ameaça. Ele poderia atrair dezenas de milhões de cristãos evangélicos para fora do Partido Republicano. Okay. Ele podia fazer uma exigência. Assim, eles dirão obrigado, atirar­‑lhe­‑ão um pequeno bocado de carne, e depois continuarão a fazer o que estavam a fazer. Mas nós não temos esse eleitorado. Nós não podemos fazer exigências. Quero dizer, as exigências – isto não faz sentido. É uma falta de entendimento sobre como a política funciona. Deveríamos criar uma situação em que organizações populares serão capazes de fazer exigências. Não eu, não você. Mas organizações populares. Elas serão capazes de fazer exigências e pressioná­‑los. É nisso que deveríamos estar a trabalhar. Não fingindo que estamos a falar com John Kerry. Não estamos.

Qual é o extremismo que você pensa que Bush representa?

Acontece que eles são, tanto domesticamente como internacionalmente, um grupo bastante extremista de nacionalistas reaccionários radicais. Domesticamente, estão publicamente muito empenhados em desmantelar e destruir o que quer que exista de legislação progressista e de bem estar social, e por aí fora, as conquistas que foram ganhas, e não são zero, por lutas populares ao longo do último século. Querem ver­‑se livres delas, e praticamente o dizem. Não é um segredo. Internacionalmente, estão a apelar à dominação do mundo pela força militar. Algumas das coisas que são menos faladas são mais perigosas. Estão a levar a cabo o que chamam de transformação das forças militares, uma vasta escalada de poder militar ofensivo. A militarização do espaço é uma parte substancial disso. Isso é especialmente delineado para dar aos EU – ou seja, a eles – o poder de atacar e destruir qualquer parte do mundo sem aviso, sem anúncio. Agora, talvez não falem acerca disso aqui, mas fazem­‑no noutros lados. Isso conduziu como previsto a um vasto incremento, talvez uma triplicação da capacidade militar ofensiva russa, com novos sistemas de mísseis apontados aos Estados Unidos, postos sob controlo automático, o que é o mesmo que pedir que aconteça um desastre. A China, que até agora tem sido relutante a responder, está agora a responder trabalhando para desenvolver a sua própria capacidade militar ofensiva de alta tecnologia. Não a tinham. Acabaram de triplicar o número de mísseis, e vão continuar. Aumenta a ameaça de terror. Isto são tudo extremos, estes são perigos para a sobrevivência. Não são brincadeiras. Ora, eles não inventaram as políticas. Como Clinton que também impediu a Comissão de Desarmamento da ONU de funcionar ao insistir que os EU iriam embarcar na militarização do espaço. Podemos dizer que as posições são similares e baseadas nos mesmo princípios, e eu escrevi acerca disso, passei muito tempo a escrever acerca disso, é verdade. Os princípios básicos e as instituições vêm de muito longe, mas isso não quer dizer que não há diferenças. As diferenças podem ter efeitos enormes.

Quais são os mais importantes?

Domesticamente, pode institucionalizar­‑se a destruição das conquistas progressistas das lutas do século passado, o que não é pequena coisa. Uma vez institucionalizado, é difícil reconstruí-lo. Internacionalmente, podem rebentar com o mundo. Talvez não o façam, mas levarão outras pessoas a fazê­‑lo em reacção.

A resolução para o Iraque agora mesmo?

Bem, sabe, a resolução para o Iraque é rapidamente fazer – na verdade, é fazer o que a maioria da população norte­‑americana quer. Durante cerca de um ano, a maioria da população sentiu que a ONU deveria tomar a liderança, não os Estados Unidos, no tema da segurança, e na reconstrução económica, e na transição para seja qual for o sistema político que se dê. E que a ONU deveria juntar­‑se como parte do que quer que seja decidido pela comunidade internacional, e pelos iraquianos. Ora isso faz sentido. Isso significaria abandonar publicamente e explicitamente cada um dos objectivos militares, incluindo bases militares permanentes no Iraque, programas económicos que transformam o Iraque num paraíso para os investidores dos EU, um sistema democrático formal que vai ser uma ficção. Abandonar tudo isso indo muito mais longe noutras políticas globais e fazendo o que um exército de ocupação deveria fazer, que é descobrir como sair o mais depressa possível quando as pessoas lhe dizem para sair.

Pensa que o conflito Israel-Palestina está a alimentar muito disto?

Está indubitavelmente a alimentar – e tem­‑no feito durante anos – a raiva e o medo em relação aos Estados Unidos em todo o mundo e, em particular, nos países muçulmanos, e está a criar um reservatório para bin Laden. Na verdade, podemos lê­­­‑lo mesmo nas palavras tépidas da Comissão 9/11. Dizem que bin Laden ganha uma audiência das acções dos EU no Iraque, Israel-Palestina, e do apoio a regimes repressivos. Sabíamos isso, qualquer pessoa que tenha os seus olhos abertos sabia disso há décadas. É bom que o tenham dito, mas isso é o cerne do problema do que chamamos terrorismo, o terrorismo, os maus tipos. Enquanto tiverem uma audiência e nós ajudarmos bin Laden e outros a mobilizá­‑la, vai aumentar a ameaça do terror, tal como o Iraque o fez, previsivelmente.

Então o que pensa que precisa de ser feito com Israel e a Palestina?

Israel e a Palestina? Os EU deveriam juntar­‑se ao esmagador consenso internacional, que tem estado a bloquear há anos, e dizer a Israel que tem de sair dos territórios. Tem de haver um acordo sobre a fronteira internacional, com algum ajustamento aqui e ali. E então, eu esperaria, avançar a partir daí, se o ciclo de violência for reduzido, para uma integração cada vez mais estreita, mas isso é no longo prazo. Esse é o primeiro passo, é realizável, e a maioria da população norte­‑americana está a favor dele e tem estado há muito tempo. Quase não há oposição a ele no mundo fora dos EU e Israel. E sim, poderia ser feito. Não é perfeito., não é maravilhoso. Há planos na mesa que se aproximam, e que poderiam ser ajustados. O que está a bloqueá­‑los é a nossa recusa em fazê­‑lo, de novo não a população. A voz da população está fora da discussão. Sabe qual é a percentagem da população norte­‑americana que pensa que nos devíamos inclinar a favor do apoio a Israel, em vez de tomar uma posição neutral? Nas últimas sondagens há cerca de uma semana, 17%. Ora, uma maioria da população pensa que devíamos igualar o auxílio a Israel e à Palestina, e que devíamos negar auxílio a qualquer um deles que recuse negociações, o que acarretaria negá­‑lo a Israel. Isso é a maioria da população. Esses resultados são tão inaceitáveis, que a imprensa não os relatará.

O que diz àqueles que o chamam anti­‑semita?

Depende de quem eles são. Se são pessoas como o – com uma boa educação judia como eu tive, digo­‑lhes para ler a Bíblia, onde o conceito é inventado. Foi usado pelo rei Ahab, o epítome do mal na Bíblia que chama o profeta Elias – Elias foi o que nos nossos dias chamaríamos um intelectual dissidente, como muitos dos profetas foram, fazendo análise geopolítica, apelando a um comportamento moral. Ele chamou Elias, e perguntou­‑lhe, porque é que odeias Israel? O que é que isso significa? Estás a criticar­‑me. Eu sou o rei. Eu sou Israel. E portanto tu odeias Israel. E isso é o que o conceito significa. Se identificarmos o país, as pessoas, a cultura com os governantes, e aceitarmos a doutrina totalitária, então sim, é anti­‑semita criticar a política israelita, e anti­‑americano criticar a política americana, e foi anti­‑soviético quando os dissidentes criticavam a política da Rússia. É preciso aceitarmos pressupostos profundamente totalitários para não rir perante isto. Se um italiano criticasse Berlusconi e fosse chamado anti­‑italiano, as pessoas iriam desatar a rir, porque há algum tipo de cultura democrática. O facto de nós não desatarmos a rir com o ridículo, de que essa noção é anti­‑americana ou anti­‑israelita ou anti­‑semita, diz­‑nos algo acerca de nós próprios.

Finalmente, o que lhe dá esperança neste momento, no mundo como é actualmente?

Primeiro que tudo, não interessa se tenho esperança ou não, porque faço as mesmas coisas de qualquer maneira. Mas na verdade está melhor do que era. Quero dizer, mencionei a guerra do Vietname. Não houve nenhum protesto durante anos, e o lugar foi praticamente destruído antes que houvesse qualquer protesto. A guerra do Iraque foi a primeira vez na história do Ocidente da Europa e dos estados Unidos, em que houve um protesto massivo contra a guerra antes de ser oficialmente lançada. Isso é uma enorme mudança. Há muitas outras mudanças. Se tivéssemos tempo, poderíamos falar acerca delas, mas todos conhecemos o facto de que você está a fazer este programa, por exemplo. Isso não teria acontecido há 40 anos atrás ou há 20 anos atrás.

Noam Chomsky, muito obrigado.

Obrigado.