Informação Alternativa

Estados Unidos da América

11/10/2004

 

O dinheiro determina o Presidente dos EU

 

Noam Chomsky

Tehran Times

Dado o facto de a eleição presidencial dos EU se aproximar, como vê a perspectiva de tal evento?

Os EU são um país bastante livre, talvez de modo único. É também, numa extensão inusual, dominado por um sector de negócios com uma grande consciência de classe, tanto que o mais proeminente filósofo social nort­e‑americano, John Dewey, descreveu a política como a «sombra lançada pelos negócios sobre a sociedade». Isso não é um grande exagero. Na véspera das eleições presidenciais de 2000, uma larga maioria da população considerou­‑as não relacionadas com os seus interesses e preocupações, encarando­‑as como uma partida jogada por contribuintes abastados e pela indústria de relações públicas, a qual treina os candidatos para se focarem sobre “valores” e “qualidades pessoais”, e evitar a discussão dos temas. Há boas razões para isso. Em muitos temas importantes, há uma considerável diferença entre um consenso de elite e a opinião popular, como revelam as sondagens. O acto de votar está pesadamente inclinado para os mais ricos. Há alguns anos foi demonstrado por proeminentes cientistas políticos que os não votantes – cerca de metade da população – têm um perfil sócio­‑­económico bastante parecido com o daqueles que votam em partidos de base trabalhista e social­‑democratas na Europa, mas sentem que não estão representados nos EU. Em 2004, parece haver mais em jogo e o interesse é maior do que em 2000, mas há uma continuação do longo processo de descomprometimento, principalmente da parte dos norte­‑americanos pobres e da classe trabalhadora. O projecto da Universidade de Harvard que monitoriza as políticas eleitorais relata que «a diferença de comparecimento às urnas entre a quarta parte do topo e a quarta parte do fim em termos de rendimento é de longe a maior entre as democracias ocidentais e tem vindo a aumentar». Há algumas diferenças entre os candidatos, mas não são de grande alcance, particularmente em assuntos externos. Num sistema de imenso poder, no entanto, ligeiras diferenças podem traduzir­‑se em resultados de considerável significado, tanto nos assuntos externos como nos assuntos domésticos.

Como sabe, os dois partidos principais dos EU estão a competir entre si no apoio a Israel. Ora, tendo em conta o apoio judaico aos democratas na última eleição presidencial e dadas as políticas de George W. Bush em relação a Israel, como antevê as políticas judaicas a este respeito?

Há fortes blocos de voto e eleitorados financiadores pró-israelitas. O maior bloco de votos é de longe os cristãos evangélicos, um enorme segmento da população nos EU, que é inteiramente distinto de outras sociedades industriais na escala do fundamentalismo religioso e, em anos recentes, do seu papel nas políticas domésticas. Tem sido assim particularmente desde que Israel desempenhou um enorme serviço aos Estados Unidos (e aos seus aliados sauditas e iranianos) destruindo o maior centro do nacionalismo árabe secular em 1967, o Egipto de Nasser. Agora Israel tornou-se quase uma base militar para os EU no estrangeiro, e um centro de alta tecnologia e finança intimamente ligado à economia dos EU, à qual se assemelha em muitos aspectos. Uma larga maioria da população dos EU opõe­‑se ao bipartido e bastante extremista «apoio a Israel» - na verdade, muito prejudicial para os israelitas na minha opinião – e favorece o esmagador consenso internacional no estabelecimento de dois estados aproximadamente na fronteira internacional. Mas estes pontos de vista recebem uma expressão pouco articulada, e as mais importantes sondagens nem sequer são divulgadas. Há pouca organização relacionada com estes pontos de vista, e eles não entram no sistema eleitoral.

O presidente dos EU anunciou recentemente que precisaria de um outro mandato de 4 anos para completar a sua missão no Afeganistão e no Iraque; também disse que iria desafiar fortemente o Irão. Como avalia as políticas da próxima administração dos EU em relação aos assuntos do Médio Oriente, em particular os palestinianos?

A missão dos EU no Afeganistão e no Iraque pretende ser permanente. “Completar a missão” significa estabelecer estados clientes dependentes, com alguns adornos de democracia formal, mas sob controlo dos EU, os locais de grandes bases militares dos EU, com os EU mantendo o controle primordial sobre os imensos recursos energéticos do golfo Pérsico e secundariamente da Ásia Central. Isso é conhecido dos primeiros dias do império britânico, no Irão também, e nos domínios tradicionais dos EU na América Central e noutros lados. Os EU pretendem trazer o Irão para este sistema de uma maneira ou outra, provavelmente pela subversão e, alguns académicos acreditam, apoiando esforços para fragmentar o país. Os palestinianos nada oferecem aos EU. Não têm riqueza nem poder, por isso não lhes são concedidos direitos, segundo os princípios mais elementares da arte de estado. A mais recente manifestação destas atitudes da parte da liderança política dos EU é a sua recente reacção à decisão do Tribunal Mundial sobre o muro de separação israelita, a qual foi virtualmente unânime: a Justiça dos EU discordou, mas com fundamentos estreitos que tinham a ver com questões de procedimento, enquanto aceitava as conclusões básicas do Tribunal, incluindo a aplicabilidade da Quarta Convenção de Genebra aos territórios ocupados e a ilegalidade dos colonatos. Mas isso não terá efeito sobre as políticas dos EU a não ser que haja algum sucesso em actividades educativas e de organização entre o público, como aconteceu no passado em muitos outros assuntos. Devo acrescentar que um dos desastrosos falhanços da liderança dos palestinianos, e dos estados árabes, tem sido que eles não têm ajudado neste processo, como poderiam ter feito, ou mesmo parecem ter reconhecido a sua importância.

Sobre o Irão, tenho a certeza que está a par que os EU estão a munir o seu cliente israelita com mais de 100 dos seus mais avançados jactos bombardeiros, F16-I, para completar uma força aérea que os analistas militares israelitas já descrevem como mais avançada e maior do que qualquer potência da NATO, excluindo os EU. Isso graças à aliança militar EU-Israel; por si própria, Israel é um pequeno país com limitados recursos. Os novos jactos bombardeiros são publicitados abertamente como capazes de bombardear o Irão e voltar, e de acordo com a imprensa israelita (hebraica), estão munidos de “armas especiais”; o que isso quer dizer não é explicado. Seguramente todos estes anúncios (não publicados nos EU) são dirigidos aos ouvidos da inteligência iraniana, para que propósito apenas podemos especular.

Como encara o ponto de vista dos eleitores sobre as próximas eleições presidenciais, tendo em conta os continuados problemas dos EU no Médio Oriente, em particular no Iraque? Irão os cidadãos dos EU votar por uma mudança de presidente num momento de crise?

De momento, as sondagens indicam uma corrida empatada. Habitualmente, as eleições dos EU podem ser previstas bastante bem pelo nível de financiamento, esmagadoramente dos mais ricos e das corporações. Nas primeiras fases, Bush liderava de longe, o que não é uma surpresa à luz dos enormes presentes que a sua administração prodigalizou a uma muito pequena minoria abastada e ao poder corporativo. Contudo, essa diferença de financiamento foi consideravelmente reduzida nos últimos meses, aparentemente reflectindo preocupação entre os sectores da elite sobre a extraordinária incompetência dos estrategas de Bush e o mal que estão a fazer a interesses no cerne da elite. A eleição está, como sempre, a evitar temas de grande preocupação para a população. Poucas pessoas estão a par das propostas dos partidos políticos em temas que lhes dizem respeito. As campanhas de relações públicas giram em torno de “força”, “liderança”, “qualidades pessoais”, e outros assuntos que mantêm o público afastado da interferência em escolhas políticas, que não são consideradas como fazendo parte do papel do público numa cultura democrática severamente desgastada.

Como iria a vitória do Partido Democrata nas eleições afectar a Grande iniciativa para o Médio Oriente?

Há pouca coisa a caminho da “Grande iniciativa para o Médio Oriente”, para além da postura retórica. As preocupações primordiais permanecem como têm sido há perto de um século, muito claramente desde a Segunda Guerra Mundial, quando o governo dos EU reconheceu a região do golfo Pérsico como sendo uma «estupenda fonte de poder estratégico, e um dos maiores prémios materiais na história do mundo», «um prémio vital para qualquer potência interessada na influência e domínio mundiais», como a Grã­‑Bretanha, previamente a potência dominante, descreveu a região em 1947. Isso é ainda mais verdadeiro hoje do que era nessa altura. Devemos sempre ser cuidadosos em distinguir a retórica da política. Mesmo os mais horríveis criminosos – Hitler, Estaline e outros – tipicamente empregam uma retórica bastante nobre e elevada. Não traz qualquer informação, porque é completamente previsível. As pessoas que querem entender o mundo prestar­‑lhe­‑ão portanto pouca atenção, e indagarão antes sobre as práticas consistentes e as suas raízes institucionais.