Informação Alternativa

Estados Unidos

02/10/2004

 

Entender a doutrina Bush

 

Noam Chomsky

Information Clearing House

Talvez o documento mais ameaçador da nossa época seja a Estratégia de Segurança Nacional dos EU difundida em Setembro de 2002. A sua implementação no Iraque custou já incontáveis vidas e abanou os alicerces do sistema internacional.

Uma das consequências da guerra contra o terrorismo é a ressurreição da guerra fria, com mais participantes do que nunca no clube nuclear. Também se ampliaram os palcos possíveis de explodir em diferentes partes do globo.

Como explicou Colin Powell, o documento indica que Washington «tem direito soberano ao uso da força para se defender» de países que possuem armas de destruição em massa e que cooperam com terroristas, a desculpa oficial para invadir o Iraque.

A razão óbvia para invadir o Iraque continua a ser eludida de maneira conspícua: a necessidade de estabelecer as primeiras bases militares seguras dos Estados Unidos no centro dos maiores recursos energéticos do mundo.

À medida que foram caindo os antigos pretextos, o presidente Bush e os seus colegas começaram a rever a doutrina da ESS, para poderem apelar ao uso da força ainda que um país careça de ADM ou de programas para desenvolvê­‑las. A «intenção e capacidade» para fazê-lo é suficiente.

Praticamente qualquer país do mundo tem a capacidade, e a intenção depende sempre do critério do espectador. A doutrina oficial, então, é de que qualquer um pode ser atacado.

Em Setembro de 2003, Bush assegurou aos estadunidenses que «o mundo está agora mais seguro porque a nossa coligação pôs fim a um regime iraquiano que tinha vínculos com terroristas enquanto fabricava armas de destruição em massa». Os assessores do presidente sabem como converter a mentira em verdade, se repetida com suficiente insistência.

A guerra no Iraque incitou o terrorismo à escala mundial. Em Novembro de 2003, Fawaz Gerges, especialista em assuntos do Médio Oriente, assinalou que é «simplesmente inacreditável como a guerra renovou o apelo por uma jihad Islâmica global, a qual estava em verdadeiro declínio depois do 11 de Setembro». O Iraque transformou­‑se pela primeira vez num «santuário de terroristas», e sofreu os primeiros ataques suicidas desde o século XIII.

O recrutamento para a rede Al Qaeda aumentou. «Cada uso da força é outra pequena vitória para Osama Bin Laden», que «está a ganhar», escreve o jornalista britânico Jason Burke em Al Qaeda, o seu estudo sobre esse conjunto disperso de muçulmanos radicais, agora bastante independentes.

Para eles, Bin Laden é pouco mais do que um símbolo. Pode tornar­‑se ainda mais perigoso depois de morto, ao converter-se num mártir que inspire outros a unir-se à sua causa. Burke assinala que estão a surgir «novos quadros de terroristas», arrolados no que consideram ser «uma luta cósmica entre o bem e o mal», visão compartilhada por Bin Laden e Bush.

A reacção mais apropriada frente ao terrorismo tem duas frentes de ataque: uma dirigida aos próprios terroristas e a outra dirigida às fontes de apoio potencial. Os terroristas consideram­‑se uma vanguarda, que tenta mobilizar outros. O trabalho policial, uma resposta apropriada, foi bem sucedido à escala mundial. Mais importante, no entanto, é a ampla base de simpatizantes que os terroristas tentam atingir, incluídos muitos que os odeiam e os temem, mas que, no entanto, os consideram como lutadores de uma causa justa.

Podemos ajudar a vanguarda terrorista a mobilizar essa reserva de apoio mediante a violência. Ou também podemos enfrentar a «miríade de queixas», muitas delas legítimas, que são «a causa principal da moderna militância islâmica», escreve Burke.

Este esforço básico pode reduzir de maneira significativa a ameaça do terrorismo, e deve ser empreendido independentemente desse objectivo.

Acções violentas provocam reacções que podem ser catastróficas. Especialistas estadunidenses calculam que os gastos militares da Rússia triplicaram durante a era Bush-Putin, em boa medida uma resposta à belicosidade do governo de Bush. Em ambos os lados, as ogivas nucleares continuam em estado de alerta máximo. Mas os sistemas de controlo russos, contudo, deterioraram­‑se. Os perigos aumentam com a ameaça e o uso da força.

Como foi antecipado, os planos militares estadunidenses provocaram também a reacção da China. O governo de Pequim anunciou planos para «transformar o seu exército numa força de alta capacidade tecnológica capaz de projectar o seu poder a nível global em 2010», informou no mês passado Jehangir Pocha, correspondente do diário Boston Globe, acrescentando que «estão a substituir o seu arsenal nuclear de uns 20 mísseis balísticos intercontinentais da época dos anos 70 por 60 novos mísseis de ogiva nuclear múltipla capazes de chegar aos Estados Unidos».

É possível que as acções da China causem um efeito de onda expansiva através da Índia, Paquistão e por aí fora. O desenvolvimento nuclear no Irão e na Coreia do Norte, também uma resposta, pelo menos em parte, às ameaças dos Estados Unidos, é muito preocupante. O impensável converte­‑se em possibilidade verdadeira.

Em 2003, na Assembleia Geral das Nações Unidas, os Estados Unidos votaram sozinhos contra a implementação do Tratado de Proibição de Testes Atómicos, e acompanhados do seu novo aliado, a Índia, contra medidas para eliminar as armas nucleares.

Os Estados Unidos votaram sozinhos contra o «estabelecimento de normas ambientais», em acordos de desarmamento e de controle de armamentos, e só com Israel e Micronesia contra passos para prevenir a proliferação nuclear no Médio Oriente – o pretexto para invadir o Iraque. Os presidentes costumam ter “doutrinas”, mas Bush II é o primeiro que tem também “visões”, possivelmente devido a que os seus assessores recordam que o seu pai era criticado por “carecer de uma visão”.

A mais exaltada dessas, conjurada depois de todos os pretextos para a invasão do Iraque terem sido abandonados, era a de levar a democracia ao Iraque e ao Médio Oriente. Em Novembro de 2003, esta visão foi adoptada como o verdadeiro motivo para iniciar a guerra.

A evidência para ter fé nessa visão consta de pouco mais do que declarações virtuosas. Tomar essas declarações a sério implica presumir que os nossos líderes são uns mentirosos acabados. Enquanto mobilizavam os seus países para a guerra, declararam que as razões eram totalmente diferentes. Uma norma de saúde mental é mostrar­‑nos cépticos a respeito do que produzem para substituir pretextos que caíram.