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16/09/2004 Noam Chomsky * Tal como
explicou Colin Powell perante o público hostil do Foro Económico Mundial em
Setembro de 2002, segundo a Estratégia de Segurança Nacional (ESN),
Washington tem «o direito soberano de utilizar a força para se defender»
daquelas nações que possuem armas de destruição em massa (ADM) e que cooperam
com terroristas, os pretextos oficiais para invadir o Iraque. A falsidade de
tais pretextos é bem conhecida, mas houve pouca reacção ante a sua sequela
mais importante: A ESN foi efectivamente revista para baixar a fasquia que
conduz à agressão. A necessidade de estabelecer vínculos com o terrorismo foi
discretamente abandonada. Mais ainda, Bush e os seus colegas manifestaram o
direito de recorrer à força inclusive se o país não possui ADM ou planos para
fabricá-las. Basta apenas que revele «a intenção e capacidade» para
consegui-lo. Quase todos os países contam com a capacidade, e a intenção
depende de quem a julgue. A doutrina oficial, então, é que qualquer país está
sujeito a um ataque devastador. Colin Powell ampliou os conceitos ainda mais
ao dizer que a razão assistia ao Presidente no seu ataque ao Iraque porque
Saddam não só tinha «a intenção e capacidade», mas já antes tinha «utilizado
essas terríveis armas contra os seus inimigos no Irão e contra o seu próprio
povo» – esquecendo‑se de mencionar, seguindo as convenções usuais, que
o conseguiu com o apoio continuado do próprio Powell e seus sócios.
Condoleezza Rice apresentou uma versão similar. Com tais raciocínios, quem
está isento da agressão? Não surpreende que, como apontou um repórter da
Reuters, «se os iraquianos alguma vez virem Saddam Hussein encadeado, querem
ver os seus antigos aliados estadounidenses a seu lado». No seu
desesperado afã de fabricar justificações à medida que cada pretexto ia
caindo por terra, a administração e os seus comentaristas evadiram o
verdadeiro motivo da invasão: estabelecer as primeiras bases militares fixas
num país cliente, localizado no eixo dos principais recursos energéticos do
mundo e assinalado desde a Segunda Guerra Mundial como uma «generosa fonte de
poder estratégico», cuja importância, segundo prognósticos, seria maior no
futuro. Não é novidade que a administração planeava atacar o Iraque antes do
11 de Setembro e que baixou o grau da sua “guerra contra o terror” em favor
deste objectivo. No diálogo interno, as evasivas são desnecessárias. Muito
antes de chegar ao poder, o clube privado de estadistas reaccionários tinha
decidido que «a necessidade de uma forte presença militar estadounidense no
golfo transcende a questão do regime de Saddam Hussein». Com todos os vaivéns
em matéria política desde que os atuais dirigentes tomaram o poder em 1981,
um princípio guia se mantém imutável: o povo iraquiano não deve governar o
Iraque. A
Estratégia de Seguridade Nacional de 2002 e a sua posta em prática no Iraque
considera‑se sem lugar a dúvidas uma divisão de águas em assuntos
internacionais. «O novo método é revolucionário», escreve Henry Kissinger,
aprovando a doutrina, ainda que com certa reserva táctica e uma asseveração
crucial: não pode ser «um princípio universal disponível para toda as
nações». O direito de agressão deve reservar‑se para os Estados Unidos
e quiçá os seus sócios elegidos. Devemos rejeitar o mais elementar dos
axiomas morais, o princípio da universalidade – uma postura geralmente
soterrada em discursos de intenções altruístas e de tortuosa legalidade. Arthur
Schlesinger admite que a doutrina e a posta em prática são «revolucionárias»,
mas de uma posição diametralmente oposta. Quando as primeiras bombas caíram
sobre Bagdade, recordou as palavras de F. D. Roosevelt depois do ataque a
Pearl Harbor, «uma data que viverá na infâmia». Agora são os estadounidenses
quem vivem na infâmia, escreve Schlesinger, já que o seu governo adoptou a
estratégia do império japonês. Acrescentou que George Bush tinha convertido
uma «avalanche global de simpatia» pelos Estados Unidos numa «avalanche
global de ódio à arrogância e militarismo estadounidenses". Um ano mais
tarde, o «descontentamento para com os Estados Unidos e a sua política, longe
de declinar, intensificou-se». Inclusive em Inglaterra o apoio à guerra
decresceu em um terço. Segundo o
previsto, a guerra aumentou a ameaça do terrorismo. Fawaz Gerges,
expecialista em assuntos do Médio Oriente, opina que é «simplesmente
inacreditável como a guerra renovou o apelo por uma jihad Islâmica global, a
qual estava em verdadeiro declínio depois do 11 de Setembro». O recrutamento
para as redes de Al Qaeda aumentou e o Iraque converteu‑se em «refúgio
de terroristas» pela primeira vez. Os ataques suicidas em 2003 atingiram o
nível mais alto da época moderna; o Iraque sofreu o seu primeiro caso desde o
século XIII. A substancial opinião dos especialistas é que a guerra também
conduziu à proliferação de armas de destruição em massa. Durante a véspera
do aniversário da invasão do Iraque, a estação central de comboios em Nova
York esteve vigiada por polícias armados com metralhadoras, talvez como
resposta aos bombardeios do 11 de Março em Madrid, o pior crime terrorista na
Europa, onde morreram 200 pessoas. Dias depois, o eleitorado espanhol
destituiu o governo que optou pela guerra apesar da esmagadora oposição
popular. Os espanhóis foram condenados por ceder ao terrorismo ao votar pela
retirada das suas tropas do Iraque na ausência de uma resolução da ONU; ou
seja, por assumir uma posição similar a 70 por cento da população
estadounidense, que exigiu que a ONU assumisse o papel principal no Iraque. Bush
assegurou aos estadounidenses que «hoje o mundo está mais seguro porque no
Iraque a nossa coligação terminou com um regime que cultivava vínculos
terroristas e construía armas de destruição em massa». Os assessores do
presidente sabem que cada palavra é falsa, mas também sabem que as mentiras
podem converter-se em verdade, se se repetem com a frequência adequada. Existe
amplo consenso entre os especialistas a respeito de como reduzir a ameaça do
terrorismo - mantendo‑me aqui na subcategoria doutrinalmente
aceitável, ou seja, o terrorismo contra nós – e também a respeito de como
incitar atrocidades terroristas, que podem chegar a ser realmente horríveis.
Esse consenso foi bem explicado por Jason Burke no seu estudo sobre o
fenómeno da Al Qaeda, a investigação mais detalhada e melhor informada sobre
esse conjunto disperso de muçulmanos radicais de quem Bin Laden é pouco mais
do que um símbolo (talvez mais perigoso depois de morto, ao converter-se num
mártir que inspire outros a unir-se à sua causa). O papel dos atuais
inquilinos de Washington, na sua fase reaganóide, na criação das redes
islâmicas radicais é bem conhecido. Menos divulgada é a sua tolerância à
inclinação do Paquistão para o extremismo radical islâmico e o seu
desenvolvimento de armas nucleares. Como
assinala Burke, os bombardeamentos de Clinton em 1998 sobre o Sudão e o
Afeganistão erigiram bin Laden em símbolo e propiciaram nexos muito próximos
entre este e os Taliban, provocando um aumento tangível na ajuda, no
recrutamento, e no financiamento da Al Qaeda, organização que até então era
virtualmente desconhecida. Outra contribuição importante para a ascensão da
Al Qaeda e a proeminência de Bin Laden foi o bombardeamento de Bush sobre o
Afeganistão depois do 11 de Setembro, empreendido sem pretextos credíveis
como mais tarde foi discretamente reconhecido. Como resultado, a mensagem de
Bin Laden «propagou‑se ao redor do mundo, entre dezenas de milhões de
pessoas, sobretudo entre a juventude e os desesperados», escreve Burke,
examinando o aumento no terrorismo global e a criação «de um novo tropel de
terroristas» filiados ao que consideram uma «luta entre o bem e o mal», visão
que compartilham Bin Laden e Bush. Como foi notado, a invasão do Iraque teve
o mesmo efeito. Depois de citar numerosos exemplos, Burke conclui que «cada vez que se faz uso da força, outorga‑se outra pequena vitória a Bin Laden», que «está a ganhar», esteja vivo ou morto. Muitos analistas compartilham o critério de Burke, incluindo vários prévios chefes da inteligência militar israelita e dos Serviços Gerais de Segurança. Existe também amplo consenso sobre a acção indicada frente ao terrorismo. Deve ter duas vertentes: dirigida tanto aos próprios terroristas como às reservas de possível apoio. A resposta adequada aos crimes terroristas é o trabalho de polícia, que demonstrou a sua eficácia no mundo inteiro. Mais importante ainda é a ampla clientela que os terroristas – que se consideram uma vanguarda – tentam mobilizar, incluindo muitos que os odeiam e temem, mas pensam que estão a lutar por uma causa justa. Podemos ajudar esta vanguarda a mobilizar esta reserva de apoio por meio da violência, ou podemos reconhecer os «inumeráveis agravos», muitos deles legítimos, que são «as causas medulares da militância islâmica moderna». Isso pode reduzir de maneira perceptível a ameaça do terrorismo, e deve ser empreendido independentemente deste objectivo. A violência pode ter sucesso, tal como os estadounidenses demonstraram com a conquista do território nacional. Mas a um preço terrível. Pode também provocar violência como resposta, e frequentemente o faz. O incitamento ao terrorismo não é a única ilustração. Existem outras ainda mais perigosas. Em Fevereiro de 2004, a Rússia efectuou os maiores exercícios militares em dois decénios, exibindo com proeminência ADM avançadas. Os militares russos e o ministro da Defesa Sergei Ivanov anunciaram que respondiam à estratégia de Washington de «fabricar armas nucleares como instrumentos para resolver tarefas militares», incluindo o desenvolvimento de inovadoras armas nucleares de «baixo rendimento», a seu juízo «um empreendimento demasiado perigoso, que está a minar a estabilidade global e regional..., aumentando a possibilidade da sua implementação na prática». O analista estratégico Bruce Blair escreve que a Rússia sabe de sobra que os novos “rompe‑bunkers” estadounidenses estão desenhados para penetrar os «refúgios antinucleares de comandos de alto nível» que controlam o seu arsenal nuclear. Ivanov e os generais russos relataram que, em resposta à escalada dos Estados Unidos, a Rússia está a desenvolver «o míssil mais avançado do mundo», virtualmente impossível de destruir, algo que será «muito alarmante para o Pentágono», diz o ex subsecretário da Defesa estadounidense Phil Coyle. Os analistas dos Estados Unidos suspeitam que a Rússia também pode estar a duplicar o projecto dos EUA de um veículo hipersónico de cruzeiro que pode reentrar na atmosfera vindo do espaço e lançar ataques devastadores sem prévio aviso; o dito veículo faz parte dos planos dos EUA para reduzir a dependência em bases de ultramar e para evitar as negociações de acesso a rotas aéreas. Os analistas dos EUA estimam que os gastos militares russos triplicaram durante a gestão de Putin, em grande parte uma reacção prevista à militância e à agressividade da administração Bush. Putin e Ivanov citaram a doutrina de Bush de “ataque preventivo” – a nova doutrina “revolucionária” da Estratégia de Segurança Nacional – mas «acrescentaram um detalhe decisivo, ao mencionar que a força militar pode ser utilizada se existir uma tentativa de restringir o acesso da Rússia às regiões que são essenciais para a sua sobrevivência», adaptando assim para a Rússia a doutrina de Clinton de que os Estados Unidos têm direito a recorrer ao «uso unilateral da força militar» para assegurar para si o «acesso ilimitado aos mercados vitais, às fontes de energia, e aos recursos estratégicos». O mundo «é um lugar muito mais inseguro» agora que a Rússia decidiu seguir o exemplo dos Estados Unidos, disse Fiona Hill, do Brookings Institution, acrescentando que outros países talvez «seguirão o exemplo». No passado, os sistemas de resposta automática russos estiveram a minutos de lançar um ataque nuclear, abortado por pouco graças à intervenção humana. Até agora, os sistemas deterioraram‑se; os sistemas estadounidenses, conquanto sejam muito mais confiáveis, resultam de igual modo perigosos. Dão um prazo de três minutos para o juízo humano depois de os computadores advertirem sobre um ataque de mísseis, como o fazem com frequência. O Pentágono também encontrou defeitos graves nos seus sistemas computadorizados de segurança que podem permitir que algum hacker terrorista tome controle e simule um ataque; «um acidente que só aguarda o momento para suceder», escreve Bruce Blair. Estes perigos estão a ser conscientemente aumentados devido à ameaça e uso da violência. A preocupação não é aliviada ante a recente descoberta de que os presidentes dos Estados Unidos têm sido «sistematicamente mal informados» a respeito dos efeitos de uma guerra nuclear. O nível de destruição «subestimou‑se de maneira grave» devido a erros sistemáticos por parte das «burocracias isoladas» que proporcionam análises «sobre uma guerra nuclear limitada e com “possibilidades de triunfo”»; «a miopia institucional que predomina pode resultar catastrófica», muito mais do que a manipulação de inteligência sobre o Iraque. A administração Bush programou o desenvolvimento inicial de um sistema de defesa à base de mísseis para o Verão de 2004, um acto criticado como “totalmente político”, já que emprega tecnologia ainda não testada, a um alto custo. Uma crítica mais apropriada é que o sistema pode parecer que funciona; mas na lógica da guerra nuclear, o que conta é a opinião. Tanto os estrategas nos Estados Unidos como os seus objectivos potenciais consideram a defesa com mísseis como a primeira linha de ataque, tendo como intenção proporcionar maior liberdade para a agressão, incluindo um ataque nuclear. E todos sabem como os Estados Unidos responderam perante a montagem russa de um sistema muito elementar de mísseis antibalísticos (MAB) em 1968: apontando ao sistema com armas nucleares para se assegurar de que seriam pulverizadas num instante. Os especialistas advertem que os planos actuais dos Estados Unidos também provocarão uma reacção da China. A história e a lógica da dissuasão «recordam‑nos que os sistemas de defesa à base de mísseis conduzem à elaboração de programas de ofensiva nuclear»: a iniciativa de Bush acordará outra vez a ameaça contra o seu país e o resto do mundo. A reacção da China pode ocasionar respostas similares na Índia, Paquistão, e outros. Na Ásia Ocidental, Washington está a incrementar a ameaça que pressupõem as armas nucleares de Israel e outras ADM, ao dar a Israel mais de cem aviões bombardeiros, anunciando que estes podem chegar ao Irão e regressar, já que são uma versão avançada dos que Israel utilizou para destruir um reactor iraquiano em 1981. A imprensa israelita acrescenta que os Estados Unidos estão a munir a força aérea israelita de «armamento “especial”». Não há razões para duvidar que o Irão e outros serviços de inteligência estejam observando muito de perto e talvez estejam a chegar à pior conclusão: que se trata de armas nucleares. Os subterfúgios e o envio de aviões podem ter como intenção agitar a direcção iraniana, talvez para provocar uma manobra que pudesse utilizar-se como pretexto para um ataque. Em Setembro de 2002, imediatamente depois de se dar a conhecer a ESN, os Estados Unidos apressaram‑se a fechar as negociações de um acordo vinculativo sobre armas biológicas e a bloquear esforços internacionais para proibir ataques biológicos e a militarização do espaço. Um ano mais tarde, na Assembleia Geral da ONU, os Estados Unidos votaram, sem apoio algum, contra a implantação do Tratado para a Proibição Completa de Ensaios Nucleares (TPCEN) e só com o seu novo aliado, a Índia, votou contra os planos para a eliminação de armas nucleares. Os Estados Unidos votaram sozinhos contra o «estabelecimento de normas ambientais», em acordos de desarmamento e do controle de armamentos, e só com Israel e Micronesia contra passos para prevenir a proliferação nuclear no Médio Oriente – o pretexto para invadir o Iraque. A resolução para evitar a militarização do espaço foi aprovada com 174 votos contra 0, com quatro abstenções: Estados Unidos, Israel, Micronesia, e as ilhas Marshall. Como já se disse antes, um voto negativo ou uma abstenção dos Estados Unidos constituem um duplo veto: a resolução é bloqueada e eliminada dos relatos e da história. Os estrategas de Bush sabem tão bem como outros que o recurso à força aumenta a ameaça do terrorismo, e que a sua postura e actos bélicos provocam reacções que aumentam o risco de uma catástrofe. Não aspiram a tais resultados, mas atribuem‑lhes pouca prioridade em comparação com os interesses domésticos e internacionais que fazem tão pouco esforço em ocultar. |
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O presente artigo é uma versão abreviada e ligeiramente adaptada do epílogo
para a recém publicada edição do seu livro Hegemony or Survival, America's
Quest for Global Dominance. As notas do bem documentado “Epílogo” foram
eliminadas nesta versão.