Informação Alternativa

Mundo

11/06/2004

 

Crimes de guerra e fantasias imperiais

– Noam Chomsky entrevistado por David Barsamian –

 

Noam Chomsky

International Socialist Review

Noam Chomsky, o internacionalmente reputado professor do MIT, inventou praticamente a linguística moderna. Para além do seu trabalho pioneiro nesse campo, ele tem sido a voz mais destacada em favor da paz e da justiça social. É tão procurado como conferencista que a sua agenda está preenchida com anos de avanço. E, sempre que aparece, arrasta grandes audiências. The New Statesman apelida­‑o «A consciência do povo Americano». É o autor de inúmeros livros, sendo o último o bestseller Hegemonia ou Sobrevivência. Produziu uma série de livros com David Barsamian. O mais recente é Propaganda e Opinião Pública. David Barsamian é o director e produtor da premiada Alternative Radio em Boulder, Colorado. Ele entrevistou Noam Chomsky no Massachusetts Institute of Technology em Cambridge, em 11 de Junho de 2004. 

Quero perguntar­­­‑lhe acerca de um quadro que está pendurado no seu escritório. É um tanto horrendo. Você comentou comigo que a maior parte dos cidadãos dos EU não parecem saber quem é, mas a maioria dos estrangeiros que o vêm visitar e ver, reconhecem­‑no imediatamente.

Não é exactamente certo. Praticamente toda a gente a sul do Rio Grande sabe o que é. Quase ninguém a norte do Rio Grande sabe. Entre os europeus, há talvez 10 porcento. Não tentei com os asiáticos. Provavelmente não muitos. Vem realmente a propósito. Tem a ver com a presidência de Reagan, começando um pouco antes. É um retrato do anjo da morte erguendo­‑se sobre o arcebispo Romero, que foi assassinado em 1980. Portanto, no tempo de Carter. Ele foi assassinado uns dias após ter escrito uma carta ao presidente Carter pedindo­‑lhe que não enviasse ajuda aos militares da junta de El Salvador, que seria usada para esmagar as pessoas que lutavam pelos seus elementares direitos humanos. A ajuda seguiu. Ele foi assassinado.

Então Reagan assumiu o cargo. A coisa mais simpática que podemos dizer acerca de Reagan é que pode não ter sabido quais eram as políticas da sua administração, mas vou fazer de conta que sabia. Os anos Reagan foram um período de devastação e desastre em El Salvador. Talvez setenta mil pessoas tenham sido chacinadas. A década começou com o assassínio do arcebispo. Terminou, um tanto simbolicamente, com o assassínio brutal de seis destacados intelectuais latino­‑americanos, sacerdotes jesuítas, por um batalhão de elite, treinado, armado, orientado pelos EU, que tinha um enorme, ensanguentado rastro de assassinatos e massacres atrás de si. Os sacerdotes também aparecem no quadro, juntamente com a sua governanta e a respectiva filha, que também foram assassinadas pelo mesmo batalhão de elite, e entre dezenas de milhares das vítimas usuais. Isso foi El Salvador. E, como digo, as pessoas a sul da fronteira sabem o que é; as pessoas a norte da fronteira não fazem ideia.

Imagine que algo de comparável tinha acontecido, digamos, na Checoslováquia, que a década de 80 tinha começado com o assassínio de um arcebispo pelas forças intimamente ligadas aos Russos, um arcebispo que era chamado a voz dos sem voz. Então o seu sucessor denunciava o governo russo por apoiar «a guerra de extermínio e genocídio contra uma população civil indefesa», que foi o que aconteceu em El Salvador, e então continuava a guerra de extermínio e assassinatos, e a década terminava com o rebentar do cérebro de Vaclav Havel e de meia dúzia dos seus colegas e, entretanto, outros setenta mil checos. Saberíamos o que tinha acontecido? Há muitas chances de que não, porque provavelmente teria levado a uma guerra nuclear e não restaria ninguém para saber fosse o que fosse. Mas assumindo que sobrevivíamos, sim, saberíamos o que tinha acontecido. Isso é uma diferença assinalável.

E ilustra algo bastante geral. Quando o inimigo comete crimes, são crimes. Na verdade, é­‑nos permitido ampliá­‑los, mentir acerca deles, inventar histórias acerca deles e por aí fora, mas seguramente ficar zangados e furiosos acerca deles. Quando nós cometemos crimes, eles não acontecem. E podemos ver isso de forma bastante assinalável na adoração de Reagan que foi criada como um culto ao longo dos anos 90 por uma maciça campanha de propaganda. Olhemos para o que se está a passar agora. Não há menção acerca disto.

Claro, na imprensa latino­‑americana, eles mencionam isto. De facto, a imprensa salvadorenha condenou Reagan de modo bastante acutilante. Na Nicarágua, mesmo a imprensa pró-Contra, de direita, que foi suportada e financiada pelos EU, condenou Reagan, o que é bastante chocante. E, claro, por todo o continente, o mesmo, porque o seu foi um regime de assassinatos, brutalidade e violência, o qual provavelmente deixou duas centenas de milhares de pessoas mortas só na América Central, centenas de milhares de órfãos, viúvas, e países devastados.

Mas isto não pode ser mencionado aqui, porque não aconteceu. Assim, por exemplo, há um reputado especialista de lei internacional, na verdade um dos historiadores do Tribunal Mundial, que de facto escreveu uma pequena carta – ele enviou­‑me uma cópia dela – ao New York Times após o seu entusiástico editorial sobre Reagan, onde dizia que eles se tinham esquecido de apontar que Reagan foi a única figura mundial a rejeitar ordens do Tribunal Mundial. No caso, para terminar uma campanha terrorista internacional contra a Nicarágua – ordens que, claro, os EU não acataram. Também vetou duas resoluções do Conselho de Segurança confirmando o julgamento do Tribunal e prosseguiu imediatamente escalando a guerra, pela primeira vez autorizando oficialmente ataques ao que o Comando Sul dos EU chamou “alvos fáceis”, alvos civis indefesos. Um reputado especialista em “promoção da democracia” na América Latina, que se considera um neo-reaganista, apontou com precisão que a proporção de mortos per capita na Nicarágua teria sido grosso modo o equivalente a 2,5 milhões nos EU, superior ao número total de mortos de todas as guerras americanas do século vinte e do século dezanove, incluindo a Guerra Civil. Mas isto não existe. Evidentemente, a carta não foi publicada, mas também não há referência ao Tribunal, à reacção dos EU, ao destino das vítimas. Simplesmente, não interessa.

E torna­‑se muito pior do que isso. A pessoa responsável pela guerra no terreno foi a pessoa que foi chamada o procônsul das Honduras. As Honduras foi a base para o ataque do exército terrorista à Nicarágua. O procônsul foi John Negroponte. Ele tinha duas incumbências como procônsul. Primeiro, mentir ao congresso acerca das atrocidades levadas a cabo pelos serviços de segurança hondurenhos, de modo que a ajuda militar pudesse continuar a ser canalizada para as Honduras, não porque as Honduras fosse de alguma importância, mas porque era a base para atacar a Nicarágua. E, segundo, supervisionar os campos de treino onde o exército mercenário estava a ser treinado, armado, e organizado para levar a cabo atrocidades, a guerra terrorista pela qual os EU foram condenados pelo Tribunal Mundial e pelo Conselho de Segurança, tirando o veto.

Ele é agora o procônsul do Iraque. O Wall Street Journal, para seu crédito, teve um artigo intitulado “Procônsul Moderno”, apontando que Negroponte vai para o Iraque como um procônsul moderno e que ele aprendeu o seu ofício nas Honduras no início dos anos 80. Não aprofundaram, mas é exacto. Nas Honduras, posso acrescentar, ele tinha a cargo a maior central da CIA no mundo. Tem agora a cargo a maior embaixada do mundo. E nada disto tem importância e interessa, porque nós o fizemos. E isso é uma razão suficiente para o apagar da história.

Entre o serviço de Negroponte nas Honduras e a sua nomeação como embaixador para o Iraque, ele foi o delegado de Colin Powell no Conselho Nacional de Segurança, e mais tarde foi nomeado por Bush II como embaixador para a ONU. O que está a dizer faz­‑me lembrar uma citação de Orwell em 1984. «Tudo se desvaneceu na neblina. O passado foi apagado, o apagamento foi esquecido, a mentira tornou­‑se a verdade». Estamos sentamos aqui numa sexta-feira, 11 de Junho, olhando para a página principal do New York Times. Está cheio da solenidade e homenagem de um funeral de estado honrando o presidente Reagan, alguém que orgulhosamente declarou, «Eu sou um Contra», e então prosseguiu comparando os Contra com «o equivalente moral dos pais fundadores». Na página principal, “Legado de Reagan inicia agora o teste do tempo”, escreve R. W. Apple, Jr., «O que a história, com a sua privilegiada posição vantajosa longe das quentes batalhas partisãs, concluirá acerca dele?»

O único acrescento que devemos fazer à citação de Orwell é que nada teve de ser apagado, porque foi apagado instantaneamente. Não aconteceu. Não entrarei nisso. Mas foi tudo bloqueado imediatamente. Na coluna de R. W. Apple, que é típica, não se consegue vislumbrar Negroponte; o registo completo das atrocidades reaganistas é completamente apagado. Por exemplo, você mencionou que Negroponte se tornou no delegado de Colin Powell.

O que estava Colin Powell a fazer, o moderado oficial, como conselheiro nacional de segurança? Bem, para já, consideremos África, com a qual era suposto ele estar preocupado. Durante os anos de Reagan, havia uma política chamada envolvimento construtivo. Havia uma forte oposição ao apartheid. O Congresso até aprovou legislação banindo a ajuda e o apoio à África do Sul. Os reaganistas tiveram de encontrar modos desviados de contornar a legislação congressista em ordem a, de facto, incrementar o comércio com a África do Sul. E a razão foi que a África do Sul se estava a defender contra o que foi identificado durante a posse de Powell, em 1988, como um dos «mais notórios grupos terroristas» do mundo, nomeadamente o Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela. Durante esses oito anos, a África do Sul apoiada pelos EU, apoiada também pelos britânicos, matou um estimado milhão e meio de pessoas somente nos países circundantes, Angola e Moçambique, pondo de lado o que se estava a passar na África do Sul. Isso nos anos Reagan e com Powell sendo um alto funcionário, na verdade, ao fim e ao cabo, o conselheiro de segurança nacional e o seu associado Negroponte.

E podemos continuar com outras áreas do mundo. Este foi um período de massacre, devastação, destruição, do qual tudo foi apagado, nem uma palavra.

Apple continua na sua coluna falando acerca dos «dotes políticos extraordinários» de Reagan que o «acompanharam ao longo» da sua presidência e dos «seus talentos como comunicador, a sua compreensão intuitiva do americano médio...». Uma das coisas que aconteceram durante este período foi a invasão de Granada. Lembro­‑me que você estava em Boulder nesse dia, 25 de Outubro de 1983, e começou a sua palestra dizendo, «A última intervenção dos EU desde esta manhã é Granada». Reagan chamou à ilha uma «praia avançada cubano­‑soviética».

De novo, a coisa mais simpática que podemos dizer acerca de Reagan é que ele provavelmente não sabia o que estava a dizer. Foi relatado que as suas notas, incluindo as suas piadas, lhe eram entregues pelos escrevinhadores de discursos. Mas, de novo, supondo que sabia, sim, a alegação foi que se tratava de uma praia avançada cubano­‑soviética porque estava a ser construída uma base aérea por algumas dezenas de contratados cubanos, sob planejamento e autorização britânicos. E a alegação era que os russos, se de alguma forma pudessem encontrar Granada no mapa, iriam usá­‑la como uma base aérea para atacar os EU.

Em certo sentido, Apple está correcto quando diz que Reagan entrou em sintonia com a população. Por qualquer razão, este tem sido um país bastante amedrontado e aterrorizado de há longo tempo; há uma tendência de medo. E Reagan exibiu­‑a. Ele era um inacreditável cobarde. Alguém que pode acreditar que uma base aérea em Granada pudesse ser usada para atacar os EU nem sequer merece uma gargalhada. E o mesmo aconteceu com a Nicarágua. Reagan declarou uma emergência nacional porque o governo da Nicarágua apresentava «uma ameaça inusual e extraordinária» aos EU. De novo, isso nem sequer se aproxima do nível da gargalhada. Ele explicou então que, afinal de contas, eles estavam apenas a «dois dias de condução de Harlingen, Texas». Essas hordas poderiam cá chegar em breve, acenando as suas cópias do Mein Kampf, como o referiu George Shultz, o secretário de estado. Reagan continuou dizendo que, apesar de enfrentarmos esse imenso perigo da Nicarágua, eu vou ser corajoso. Relembro Winston Churchill, que disse que, não importa quão grandes são os contratempos, temos de continuar a lutar. Assim, tal como Churchill contra Hitler, eu vou defender este país contra todos os contratempos, contra as massivas hordas nicaraguanas que estão prestes a esmagar­‑nos. Qualquer pessoa observando isto não sabia se havia de rir ou chorar. Na verdade, acabamos chorando, porque, evidentemente, foi uma maneira de destruir esse país e prejudicar muito seriamente este. Mas o traço de extrema cobardia é bastante profundo.

Após a invasão de Granada, houve o que o New York Times chamou recentemente um grande gesto reaganesco; nomeadamente, Reagan levantou­‑se e disse que nos tínhamos «erguido alto». Seis mil elementos das Forças Especias dos EU receberam, penso, oito mil medalhas por sufocar a resistência de algumas dezenas de trabalhadores de construção cubanos, enquanto morriam dúzias de outros soldados americanos no processo. A imprensa teve de desempenhar um papel, também. Tinham de suprimir, e suprimiram, o facto de que Cuba tinha feito ofertas imediatas para negociar todo o assunto. A alegação foi que os EU estavam a proteger estudantes americanos numa escola médica. Cuba disse, tudo bem, tomem conta da escola médica. Tudo isso teve de ser suprimido pela imprensa. Houve uma espécie de fuga de informação discreta depois de tudo estar terminado e ser demasiado tarde. Mas, sim, esse foi o grande evento.

E, evidentemente, a razão para tudo isso não era muito obscura. Apenas alguns dia antes, tinha havido um bombardeamento no Líbano onde 240 marines americanos tinham sido mortos. E de alguma maneira tiveram de cobrir isto com um grande gesto defendendo­‑nos da destruição por Granada e de novo erguer­‑nos alto. Isto foi típico do que se passava durante os anos Reagan.

E a ideia de que ele estava em sintonia com o povo americano é simplesmente falsa. Ele não foi um presidente popular. Na verdade, a imprensa actualmente até tem de o admitir discretamente. Tomemos as sondagens Gallup. As suas posições nas sondagens durante esses anos eram grosso modo medianas, abaixo de qualquer dos seus sucessores, excepto o actual. Em 1992, dois anos mais tarde, Reagan tinha­‑se tornado o ex­‑presidente vivo mais impopular aparte Nixon.

Então veio a imensa campanha de propaganda, que se tem mantido há cerca de dez anos, para tentar transformá­­­‑lo numa semi­‑divindade. E tem feito sucesso. E, enquanto prossegue a campanha de propaganda e observamos as sondagens, vemos que a reverência pelo líder imperial tem grosso modo aumentado à medida que a campanha de propaganda se incrementa. É verdade, as pessoas são susceptíveis à propaganda imperial. Este acontecimento hoje em Washington é intrigante. Como apontou o Times, está a seguir o guião de um livro de trezentas páginas, que conta em detalhes precisos o que acontece em cada minuto da cerimónia imperial. Nunca houve nada de parecido na história da América. Houve, é claro, uma enorme reacção ao assassinato de Kennedy. Mas isso é completamente diferente: é o assassinato de um presidente vivo.

Comparativamente a este, não há absolutamente nada até que recuamos ao rude culto de George Washington, cultivado no início do século dezanove, quando Washington foi transformado no ser humano perfeito, a criatura mais fantástica que já caminhou sobre a Terra, de modo semelhante ao que podemos encontrar na Coreia do Norte acerca de Kim Il Sung. Mas isso foi durante um período em que se estava a fazer um esforço para criar um país unificado a partir de colónias separadas. De facto, recordemos, mesmo o termo “Estados Unidos” era plural, não singular. Até à Guerra Civil, aproximadamente, eram os Estados Unidos, os estados que estão unidos. E sentiu­‑se que o esforço de forjar uma nação requeria o que, pelos padrões do início do século dezanove, era significativa propaganda. E transformou Washington numa figura de culto divina de um modo que é realmente embaraçante de ler. Mas desde então até à propaganda Reagan – agora, claro, com uma muito sofisticada e imensa indústria de relações públicas – não há nada de comparável.

Alguém que é descrito como o pai da indústria de relações públicas é Edward Bernays. Ele escreveu nas linhas iniciais do seu livro de 1928, Propaganda, «A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões das massas é um elemento importante numa sociedade democrática. Aqueles que manipulam este oculto mecanismo da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder soberano do nosso país».

Ele foi um dos primeiros fundadores, gurus, da indústria de relações públicas. A propósito, temos de o situar no espectro. Ele está bem na esquerda, um liberal como Wilson, Roosevelt e Kennedy, e activo e honrado. Por isso não está a falar da direita extrema. Ele expressa o ponto de vista liberal padrão, de que a democracia é uma coisa extremamente perigosa, e devemos impedi­‑la. No tempo de Bernays foi compreendido, tanto na Grã­‑Bretanha como nos EU, que as pessoas tinham ganho demasiada liberdade para que o Estado pudesse reprimi­‑la pela violência, e consequentemente, tanto na Grã­‑Bretanha como nos EU, os dois países mais democráticos, houve um crescimento da indústria de relações públicas, para tentar controlar atitudes e crenças, uma vez que não se podia controlar as pessoas pela força. E Bernays foi uma figura proeminente.

O seu primeiro grande feito, que o transformou de certo modo numa estrela, foi uma campanha de relações públicas tentando levar as mulheres a fumar. Assim, ele tinha modelos percorrendo a Quinta Avenida fumando cigarros e mostrando como nos tornam belas e esbeltas. Não podemos estimar quantas dezenas de milhares de pessoas ele conseguiu matar dessa maneira, mas foi um número substancial. E isso pô‑lo no mapa.

O seu feito seguinte foi a Guatemala. Ele tomou conta, a pedido da United Fruit Company, das actividades de relações públicas para tentar estabelecer as bases para o apoio a uma invasão dos EU, que destruiu uma experiência de democracia guatemalteca e abriu caminho a quarenta anos de extremo terror e violência. E ele é bastante louvado por isso. Mas, recordemos, tudo isto está no extremo esquerdo, liberal do espectro. Os seus antecedentes situam­­‑se no Comité de Informação Pública de Woodrow Wilson, que é a primeira agência oficial de propaganda nos EU. O seu objectivo era conduzir uma população relativamente pacifista até se tornar­­em em fanáticos anti-germânicos histéricos. Resultou. E esse sucesso impressionou muita gente.

Bernays tomou esse sucesso – e, na verdade, menciona­‑o no mesmo livro – como a base do seu reconhecimento de que podemos controlar e manipular atitudes e, desse modo, minar a democracia, o que ele chama “construir a democracia”, mas que significa miná‑la. O deão do jornalismo americano, Walter Lippmann, veio do mesmo comité, tirou as mesmas conclusões. O mundo dos negócios, evidentemente, tirou­‑as. Adolph Hitler ficou muito impressionado com a propaganda e sugeriu, provavelmente com acerto, que os alemães perderam a Primeira Grande Guerra porque não puderam igualar os feitos de propaganda anglo­‑americana, e fez votos que da próxima vez a Alemanha estivesse preparada. Teve um grande impacto em futuros desenvolvimentos.

O seu escritório no novo edifício do MIT está oposto, na verdade, a outro novo que é, curiosamente, chamado o Centro para Aprendizagem e Memória. Podemos apenas especular sobre o que se passa lá. Mas gostaria que falasse acerca de memória e conhecimento da história como um instrumento de resistência à propaganda.

Foi bem compreendido, muito antes de Orwell, que a memória deve ser reprimida. Não apenas a memória, mas também a consciência do que se está a passar à nossa frente devem ser reprimidas, porque se o público chega a entender o que está a ser feito em seu nome, provavelmente não o permitiria. Essa é a principal razão para a propaganda. De outro modo, não teria qualquer razão de ser. Porque não dizer simplesmente a verdade? É mais fácil dizer a verdade do que mentir. Não somos apanhados. Não precisamos de fazer nenhum esforço para isso. Mas os sistemas de poder raramente dizem a verdade, se o puderem evitar, porque simplesmente não confiam no público. E isto acontece em cada minuto. Aquilo de que estávamos a falar é um exemplo; a nomeação de Negroponte é um perfeito exemplo. E os exemplos continuam.

Em 27 de Maio, o New York Times publicou uma das mais incríveis sentenças que já vi. Eles publicaram um artigo acerca dos intercâmbios Nixon­‑Kissinger. Kissinger lutou com bastante dureza nos tribunais para tentar evitá­‑lo, mas os tribunais permitiram­­‑no. Lemos o artigo, e encontramos a seguinte declaração nele inserida. Nixon a certa altura informa Kissinger, o seu Eichmann braço‑direito, que queria um bombardeamento do Camboja. E Kissinger lealmente transmite a ordem ao Pentágono para levar a cabo «uma maciça campanha de bombardeamentos no Camboja. Qualquer coisa que voe sobre qualquer coisa que mexa». Esse é o mais explícito chamamento para o que chamamos genocídio quando outras pessoas o fazem que alguma vez vi num registro histórico.

Neste preciso momento, há uma acusação contra Milosevic em andamento no tribunal internacional, e os acusadores estão algo encalhados porque não conseguem encontrar ordens directas, ou mesmo uma ligação directa, relacionando Milosevic com quaisquer atrocidades no terreno. Suponha que encontram uma declaração como esta. Suponha que aparece um documento sobre Milosevic dizendo, “Reduzam Kosovo a entulho. Qualquer coisa que voe sobre qualquer coisa que mexa”. Ficariam muito contentes. O julgamento estaria terminado. Seria mandado embora com múltiplas condenações perpétuas – se fosse um julgamento nos EU, imediatamente a cadeira eléctrica. Mas não conseguem encontrar um tal documento. Na verdade, ninguém ainda sequer encontrou um documento como esse ligando Hitler ao Holocausto. Os estudiosos vêm trabalhando nisso há anos. Não me lembro de um exemplo de uma ordem directa como essa para levar a cabo o que montou a um enorme massacre, muito para lá do nível de qualquer coisa que chamamos genocídio quando outras pessoas o fazem.

Houve alguma reacção à transcrição de Nixon‑Kissinger? Alguém reparou? Alguém comentou? Na verdade, levantei o assunto em palestras algumas vezes, e reparei que as pessoas não o entendem. Entendem­­‑no no momento em que o digo, mas não cinco minutos mais tarde, porque é simplesmente demasiado inaceitável. Não podemos ser pessoas que abertamente e publicamente apelamos ao genocídio e o levamos a cabo. Isso não pode ser. Consequentemente, não aconteceu. E portanto, nem sequer precisa de ser apagado da história, porque nunca entrará na história, não mais do que numa audiência do Tribunal Mundial.

Suspeito que, se for à Faculdade de Direito de Harvard e perguntar aos estudantes ou, já agora, à faculdade se sabem acerca do juízo do Tribunal Mundial, provavelmente muitos deles não saberão. E se de facto sabem, não terão conhecimento do seu conteúdo principal e da sua importância (é algumas vezes citado na literatura de direito internacional, mas quase sempre em referência a assuntos fora do seu âmbito principal) apesar de a equipa da Nicarágua ser chefiada por um distinguido professor de direito de Harvard com uma longa folha de serviço governamental, o qual construiu um caso extremamente apertado porque queria ater­‑se a facto incontroversos de modo que o caso pudesse ser ganho, como foi. Por sinal, quando o julgamento do Tribunal é trazido ao de cima, esse facto é algumas vezes usado por apólogos da violência e das atrocidades de Estado para argumentar que o Tribunal não condenou realmente todo o leque de actividades terroristas internacionais dos EU, apenas o caso específico que foi trazido até ele, o que é de algum modo exacto até lermos a decisão do Tribunal, que foi muito mais abrangente do que o pequeno ponto que foi trazido. Mas tente uma experiência: Pergunte na Universidade de Direito de Harvard quantos sabem disso. Pergunte a R. W. Apple se ele sabe disso. Se de algum modo agitar a sua memória, talvez se lembre de que algo como isso aconteceu. Mas isto não é insignificante. No final de contas, aqui está Ronald Reagan, o líder mundial que rejeitou as ordens do Tribunal Mundial a respeito de um assunto tampouco insignificante, numa campanha terrorista internacional que praticamente destruiu um país. E lembre­‑se que em 1981 – não em 2001, mas em 1981 – os EU declararam que essa guerra contra o terror iria ser a peça central da política externa dos EU. E veio a ser uma guerra terrorista massiva. Passou. Passou. Não aconteceu, não se pode falar acerca disso, não existe.

No seu ensaio “Sobre Crimes de Guerra” de Em Guerra com a Ásia, que saiu em 1970, citou Bertrand Russel do tribunal internacional de crimes de guerra para o Vietname. Russel diz, «Está na natureza do imperialismo que os cidadãos do poder imperial sejam sempre entre os últimos a saber – ou preocupar­‑se – sobre as circunstâncias nas colónias».

Discordo com ele sobre a preocupação. Eu penso que eles se preocupam, e penso que é por isso que são os últimos a saber. São os últimos a saber por causa de campanhas massivas de propaganda que os impedem de saber. A propaganda pode ser explícita ou silenciosa. O silêncio é uma espécie de propaganda. Por isso, quando se é silencioso acerca dos seus próprios crimes, isso é propaganda também. E penso que a razão para a propaganda, de ambos os tipos, é que as pessoas de facto se preocupam e, se descobrem, não vão deixar que isso aconteça.

Na verdade, vemos isso agora mesmo à nossa frente. Não se lê nas manchetes. Mas tomemos, digamos, os eventos recentes em Fallujah, no Iraque. Houve uma invasão de Fallujah por marines. Mataram não se sabe quantas pessoas, digamos, centenas. Nós não investigamos os nossos próprios crimes, por isso não sabemos os números. Os EU tiveram de recuar e, não o dirão, mas efectivamente concederam a derrota e entregaram a cidade ao que se parece bastante com o antigo exército de Saddam. Porque é que isso aconteceu? Suponha que tinha havido um evento do tipo de Fallujah nos anos 60. Teria sido resolvido muito simplesmente com B52s, operações massivas em terra para limpar o lugar. Porque não desta vez? Porque o público não o toleraria agora.

Nos anos 60, o poder executivo era tão extremo, que podia escapar com qualquer coisa. O público não sabia, talvez nem mesmo se importasse, pois era simplesmente dado como adquirido que é nosso direito massacrar e destruir à vontade. Por isso, não houve virtualmente nenhum protesto contra a guerra do Vietname durante anos, e operações como esta ocorriam constantemente. Agora já não. Agora o público não o toleraria. Portanto, essa é uma razão importante por que os EU não podem levar a cabo o tipo de operações assassinas que foram capazes de levar a cabo. Penso que é porque o público de facto se preocupa.

Passei muito tempo a olhar para documentos desclassificados. Olhamos para documentos secretos dos EU ou, tanto quanto sei, outros países. Estão eles a proteger segredos? Em certo sentido, sim. Mas, estão a protegê-los de quem? Principalmente da população doméstica. Apenas uma pequena porção deles têm alguma coisa a ver com segurança, por muito ampla que seja a interpretação. Eles têm principalmente a ver com assegurar que o maior inimigo, nomeadamente, a população doméstica, não descubra o que os sistemas de poder estão a fazer. E isso é porque as pessoas no poder, seja o poder dos negócios ou o poder governamental ou o poder doutrinal, seja qual for, manipulam conscientemente as suas atitudes e crenças – para o seu próprio bem, claro, sempre para o seu próprio bem.

A dedicação dos EU à democracia é um agrafo de discurso entre as elites e nos mídia corporativos. Aqui e ali há o reconhecimento de que há erros ocasionais, mas a doutrina é a das constantes boas intenções. Junho de 2004 marca o quinquagésimo aniversário do que você mencionou antes, a Operação Sucesso na Nicarágua, o golpe dos EU que derrubou o governo democraticamente eleito de Jacobo Arbenz na Nicarágua. Eisenhower, depois do golpe, disse na reunião de chefes da CIA, «Obrigado a todos vocês. Evitaram uma maré soviética no nosso hemisfério». De novo fazendo a conexão entre marés em Granada e marés na Guatemala. Stephen Schlesinger e Stephen Kinzer escreveram um livro sobre o golpe chamado Bitter Fruit [Fruto Amargo]. Schlesinger, num artigo no Nation, chamou­‑lhe «um dos mais negros episódios da história da CIA». Podia comentar isso? Não foi um dos mais negros episódios na história dos EU; era esta agência pária fora de controle.

Esse é um bom livro. Foi escrito antes de muitas coisas serem conhecidas, mas atinge basicamente o alvo. Contudo, esta não era a história da CIA. Era a história da Casa Branca. A CIA agiu, como o faz regularmente, como uma agência da Casa Branca para levar a cabo acções onde se pode ter o que se chama refutabilidade plausível. Ordens ao estilo de Kissinger são raras. Elas são usualmente dadas discretamente. Na verdade, esta, também, foi dada discretamente, mas foi exposta. À CIA é transferida a responsabilidade de levar a cabo os crimes e as atrocidades. E depois, se alguma coisa corre mal, pode­‑se culpar a CIA, com algo do tipo elementos maus fora de controle.

Mas isso é uma anedota. É bastante difícil encontrar um caso onde a CIA tenha agido fora da autoridade presidencial. E este é um caso claro. Eisenhower deu as ordens. A história da maré não menciona o facto de que Eisenhower sabia perfeitamente que a sua administração tinha vindo a tentar com muita força que a Guatemala aceitasse armas da Europa de Leste. A Guatemala tinha um governo democrático. Na verdade, foi um breve interlúdio. Um poeta guatemalteco chamou­‑lhe anos de primavera numa história de tirania, ou algo parecido. Houve um breve interlúdio de democracia, ao qual se opunha fortemente os EU.

Após a ditadura ter sido derrubada em 1944, a Guatemala obteve gradualmente um autêntico governo democrático, o qual tinha um enorme apoio popular. Schlesinger e Kinzer não sabiam no momento em que escreveram o seu livro, mas desde então documentos da CIA e outros foram libertados. Tornam claro que o maior receio na administração dos EU era o enorme apoio popular que o governo democrático tinha por causa das suas políticas sociais progressistas. Estava a mobilizar os camponeses pela primeira vez para participar no sistema político. E isso foi simplesmente considerado um crime terrível, porque uma verdadeira democracia estava a desenvolver­‑se, a qual poderia até influenciar outros. Assim, Dulles e Eisenhower, em conversações secretas, estavam profundamente preocupados. A maior ameaça que conseguiram ver na Guatemala foi que poderia apoiar greves na vizinha Honduras ou poderia apoiar José Figueres, a figura principal da democracia da América Central, que estava a tentar derrubar uma ditadura na Costa Rica, e poderia ser que a Guatemala o estivesse a apoiar. Deste modo, estas eram ameaças.

Eles ameaçaram muito claramente atacar a Guatemala. A Guatemala tentou obter ajuda militar da Europa. Os EU bloquearam isso. Finalmente, a Guatemala cometeu o erro táctico de aceitar a ajuda militar do único país que a daria. Aconteceu ser a Checoslováquia. E os EU descobriram triunfalmente que armas checas estavam a ser enviadas para a Guatemala, para se defender de um ataque da superpotência hemisférica, e isso foi divulgado como uma ameaça para os EU. Como podem os EU sobreviver se a Guatemala obtiver uma espingarda da Checoslováquia? E foi usado como pretexto para a invasão, o que foi evidentemente encoberto. Não foi classificada como uma invasão apoiada pelos EU, apesar de ser isso de facto o que foi.

A propósito, apesar de termos uma enorme quantidade de informação acerca da Guatemala, é ainda assim limitada. Parte da razão é que os reaganistas, que não eram conservadores, eram reaccionários estatistas extremistas, acreditavam num estado interventor poderoso, que interviesse massivamente na economia doméstica e nos assuntos internacionais. Também tinham de impedir o público de saber o que estavam a fazer. Assim, um dos feitos da administração Reagan foi bloquear a libertação regular de registros de arquivo. Existem leis dos EU que exigem que o Departamento de Estado desclassifique e liberte documentos após um período de trinta anos. Há algumas restrições, mas essencialmente que os liberte. A administração Reagan pela primeira vez bloqueou isso porque não queria que o público soubesse o que tinha acontecido na Guatemala e no Irão. Assim, ou os destruíram ou os esconderam, mas não os libertaram. Isso foi considerado tão ultrajante que os historiadores do Departamento de Estado, que são um grupo bastante conservador, se demitiram em protesto e fizeram um protesto público acerca disso.

Isto é uma espécie de traço fascista na administração Reagan e nos seus herdeiros actuais, e demonstra o seu enorme medo do público. Ao público simplesmente não lhe deve ser permitido saber o que se passou há trinta anos. Isso diz-nos mais acerca da sua alegada popularidade junto do público. Eles odiavam e temiam o público. E com razão, por causa das consequências se o público odiado chegasse a saber o que se tinha passado na Guatemala e no Irão. E esses não eram, de modo nenhum, os casos mais extremos, posso dizer. O povo aprenderia algo acerca da verdade e acerca do que o estado está a aprontar e não o aceitaria.

O golpe no Irão ocorreu no ano anterior à Operação Ajax, em 1953. O jornal da história também teve um papel no golpe da Guatemala de 1954. O New York Times foi contactado pela administração Eisenhower e manteve o seu correspondente, Sydney Gruson, longe da história. E os editores da rua quarenta e três concordaram com isso.

O Times também aplaudiu o golpe do Irão e foi um animador do da Guatemala. Thomas McCann, o funcionário de relações públicas da United Fruits Company escreveu um livro interessante (An american company [Uma companhia americana]) sobre isto, onde descreve os esforços de propaganda conduzidos por Bernays para levar o público e a imprensa a apoiar o golpe. E então diz, bem, fomos acusados de manipular a imprensa, mas não é de todo justo, diz, porque ela estava «tão ansiosa pela experiência». Não podem realmente acusar­‑nos por simplesmente termos deixado que fizessem o que realmente queriam fazer, nomeadamente, suportar a violência de estado, o terror, o derrube da democracia, e instituir uma ditadura violenta e brutal. Eles queriam­‑no, logo nós ajudamo­‑los. Mas isso não é nossa culpa. E é essencialmente correcto.

Antes, mencionou Bernays como sendo um liberal de Cambridge. Ele disse que na Guatemala «os liberais devem desempenhar um papel decisivo». Há um fulano interessante que aparece na Guatemala por volta dessa altura. Um jovem doutor da Argentina, Che Guevara, que é radicalizado pela sua experiência na Guatemala.

Foi. E, de facto, isso é um pouco como a pintura na parede que mencionou antes quando começamos. Talvez as pessoas na América do Norte sejam impedidas de conhecer os factos, mas as pessoas na América Latina conhecem­‑nos. E, sim, a Guatemala teve um grande efeito. Teve um efeito em Cuba. E os factos vão até à Nicarágua.

Assim, voltemos a Reagan. A administração Reagan tentou duplicar o que Kennedy tinha feito no Vietname do Sul, mas também o que Eisenhower tinha feito na Guatemala. Deste modo, tentaram com muita gana forçar a Nicarágua a receber armas soviéticas. Queriam ser capazes de a retratar como uma ameaça, esta história acerca da emergência nacional. A Nicarágua estava sob ataque. Temos de nos lembrar do que se estava a passar. A CIA, o que quer dizer a Casa Branca, tinha controlo total do espaço aéreo nicaraguano, e estava a usar esse controlo para enviar comunicações ao exército terrorista, que era um exército de guerrilha estranho. Tinha computadores e helicópteros. A cobertura aérea dos EU foi capaz de dirigir as forças mercenárias para longe do exército nicaraguano de modo que pudessem atacar alvos indefesos e sem dar de caras com os sandinistas. Tal como o pôs o chefe do Comando Sul, apenas atacar “alvos suaves”. Não «dêem de caras com os sandinistas», querendo dizer com o exército nicaraguano. E foram capazes de fazer isso, graças ao controlo aéreo dos EU.

Claro, a Nicarágua queria de alguma maneira defender o seu próprio espaço aéreo. Tentaram obter aviões da França e outras potências europeias. Os reaganistas fizeram bastante pressão sobre os europeus para não lhes enviarem armas, porque queriam que eles obtivessem armas dos russos. Queriam que eles fizessem o que a Guatemala tinha feito, de modo que pudessem então retratá­‑los como uma ameaça existente para os EU. Bem, não o fizeram; não caíram na armadilha. Portanto, a administração Reagan teve de inventar constantemente histórias sobre MIGs a ser detectados em contentores no porto. Uma dessas ameaças fabricadas surgiu num momento muito importante.

Em 1984, a Nicarágua levou a cabo uma eleição democrática, a única eleição democrática na sua história. Foi muito intensamente observada. A profissional Sociedade da América Latina tinha uma grande delegação. Esteve lá durante semanas. Um grupo parlamentar de direitos humanos britânico estava lá, assim como um grupo muito hostil do governo holandês, e outros. Todos reconheceram que foi, pelos standards da América Latina, uma eleição livre. Nos EU, a eleição não aconteceu. Não pode ter acontecido, porque ganharam as pessoas erradas. Portanto, não aconteceu. A propósito, nenhum destes relatórios apareceu, incluindo mesmo aqueles dos eruditos latino­‑americanos, da associação profissional. Mas o que os reaganistas fizeram foi invocar um pânico MIG, de modo que qualquer possibilidade de que alguém pudesse acidentalmente ter relatado a inaceitável eleição fosse bloqueada por um pânico MIG. Contentores chegaram contendo MIGs. A reacção a isso foi bastante interessante. Os falcões, é claro, exultaram. Por um lado, todos exultaram, porque podiam suprimir a eleição. Os falcões exultaram porque provava que os EU estavam em perigo de destruição pela Nicarágua. As pombas foram de certa forma cautelosas. Disseram, pode ser apenas um estratagema, e não sabemos realmente que tenham estado lá MIGs. Claro, era uma mentira. Mas eles disseram, por exemplo o liberal do Massachussetts Paul Tsongas, que se realmente houvesse MIGs, teríamos de bombardear a Nicarágua, porque aqueles aviões podiam ser usados para nos atacar.

Em outras palavras, se a Nicarágua obtém aviões para defender o seu espaço aéreo de um ataque dos EU, o qual estava em andamento, isso é inaceitável. Temos de os bombardear porque podem ser usados contra nós. Essa é a esquerda no nosso sentido, a esquerda institucional. A ideia de que a Nicarágua pudesse ter o direito de se defender era literalmente inexprimível. Uma vez perguntei ao meu amigo, Ry Ryan, que desde então faleceu, e que era editor do Boston Globe e um dos jornalistas que realmente tentou arduamente escrever acerca da Nicarágua – esse é provavelmente parte do motivo por que foi expulso como editor – para verificar os ficheiros do Globe – e este é o jornal mais liberal do país – e ver se podia encontrar algum sítio onde alguém alguma vez tenha sugerido que a Nicarágua tem o direito de se defender. Ele consultou os ficheiros. Encontrou o rascunho de um editorial, que penso não deve ter sido publicado, o qual mencionava que talvez a Nicarágua tivesse o direito de se defender. Mas não podemos simplesmente encontrar isso expresso. Nenhum país tem o direito de se defender contra um ataque dos EU. Se o faz, é um crime. Eisenhower foi capaz de manipular os guatemaltecos de modo a que tentassem defender­‑se a si próprios, e isso foi a justificação para os destruir.

Reagan teve de inventar a base aérea em Granada como outra ameaça existente que poderíamos vencer, porque então pudemos atacar. A Nicarágua é um caso muito pior. Mas mesmo a ideia de que um país possa ter o direito de se defender contra um ataque dos EU é inaceitável. Vemos isso a acontecer agora mesmo em Guantánamo. Assim, por exemplo, esta manhã disseram que um cidadão australiano retido em Guantánamo – houve um pequeno incidente internacional sobre isto – será acusado de lutar com os taliban. Isso é um crime de guerra, dizem. O que quer que pensemos acerca dos taliban, o que significa os taliban lutarem? Significa que estão a resistir a um ataque dos EU. Os EU estão a invadir o Afeganistão, estão a bombardeá­‑los até aos esconderijos nas montanhas. E se alguém é lá encontrado que de alguma maneira tenha sobrevivido aos bombardeamentos, é culpado de um crime de guerra porque participou na defesa de um país contra a invasão dos EU. É capaz de encontrar uma palavra em algum lado sugerindo que há algo um pouquinho estranho acerca disto? Eu não sou.

Voltando a Eisenhower, ocasionalmente vemos o seu discurso de despedida citado, onde ele diz, «Devemos prevenir­‑nos contra a aquisição de influência não autorizada... pelo complexo militar­‑industrial». Mais de quarenta anos passaram desde esse aviso de Eisenhower. O sistema militar dos EU aumentou exponencialmente. Tem agora o que Chalmers Johnson chama um império de bases [1]. Qual é a sua opinião sobre o complexo militar­‑industrial?

Penso que o aviso de Eisenhower foi apropriado, mas ou ele não entendeu ou então os comentadores não entendem, mas o complexo militar­‑industrial, como ele o chamou, é na verdade o cerne da economia moderna. Não é especificamente militar. A razão por que temos computadores, a Internet, telecomunicações, lasers, satélites, uma indústria aeronáutica, turismo, percorra a lista, é por causa de uma técnica para assegurar que os EU não são uma economia de livre empresa. Alguns são mais extremistas do que outros a este respeito.

Assim, os reaganistas foram extremistas na oposição à livre empresa, exactamente o contrário do que tem sido dito. Eles virtualmente duplicaram as restrições às importações, mais do que todos os presidentes combinados da era do pós­‑guerra. Injectaram dinheiro governamental na economia num esforço para concretizar o projecto que então foi designado por “re­industrializando a América”. É preciso lembrar que no início dos anos 80 havia muito medo de que a indústria dos EU estivesse a ser minada pela muito mais eficiente produção japonesa. Os gestores corporativos americanos tinham falhado em adoptar as técnicas modernas, tais como a produção lean, que os japoneses tinham aperfeiçoado. E eles estavam, de facto, a minar a indústria americana. Bem, não se pode permitir isso. Então os Reaganistas injectaram dinheiro governamental para reindustrializar a América.

E é assim que a economia funciona. O cerne disso é o sector estatal. Exactamente onde estamos sentados é um bom exemplo. O que é o MIT? Quando Eisenhower estava a fazer o seu discurso, o MIT estava a trabalhar no duro, tal como Harvard, com fundos de pesquisa governamentais para reduzir os computadores de criaturas maciças que ocupavam todos estes espaços de escritórios para algo suficientemente pequeno de modo que pudesse ser vendido a uma companhia como um computador de grande capacidade. Entretanto, a IBM estava aí a aprender, com fundos públicos, como passar de cartões perfurados para computadores. No início dos anos 60, foram capazes de produzir computadores mais avançados por si próprios, mas não para o público. Não há escolha do consumidor nisto. Estavam a fazê-lo para a Agência de Segurança Nacional e outras agências governamentais. Na verdade, passaram anos, foram literalmente décadas, antes de as tiranias privadas, o que é chamado de livre empresa, serem capazes de pegar nos resultados do financiamento público e entrar no mercado. Quando Alan Greenspan [2] fala acerca disso, são as maravilhas da iniciativa empresarial e da escolha dos consumidores, a qual foi aproximadamente zero ao longo do dispendioso e arriscado período de desenvolvimento.

O mesmo é verdade da Internet. Esteve no sistema público por trinta anos. É suposto estarmos excitados acerca do comércio e de como é maravilhoso. Talvez seja e talvez não, mas o comércio está baseado em contentores, os quais foram desenvolvidos a expensas públicas na Marinha dos EU. Dave Noble fez um bom trabalho numa parte importante da economia, essencialmente, ferramentas controladas por computador, as quais foram desenhadas – não como um imperativo tecnológico, mas por razões doutrinais, como ele demonstra – como um modo de desespecializar maquinistas e colocar maior autoridade nas mãos dos gestores. A tecnologia não tinha de ser utilizada dessa forma. Poderia ter sido usada no sentido oposto, como ele aponta. Mas foi usada dessa forma, e foi desenvolvida no interior do sistema militar, onde quase tudo o que era inovador foi desenvolvido na economia de alta tecnologia, sob capa militar.

Isto tem pouco a ver com indústria militar. Na verdade, é de algum modo interessante consultar os registros da DARPA, a agência de desenvolvimento avançado do Pentágono (antes ARPA). Em, penso que foi 1971, no contexto de muita pressão anti­‑guerra, Mike Mansfield introduziu legislação chamada Emenda Mansfield, que exigia que o financiamento militar pelo Congresso fosse usado para propósitos militares. Olhamos para os relatórios da ARPA e da DARPA antes e depois. São interessantes. Eu fiz isso uma vez. Antes disso, eles simplesmente relatavam o que estavam a fazer, nomeadamente, criar a economia do futuro. Depois disso, os relatórios são divididos em duas partes. A primeira parte fala acerca das possíveis aplicações militares, que são na maior parte imaginárias, e a segunda parte é como os velhos relatórios: Aqui está o que estamos a fazer. É a economia do futuro.

Acontece neste momento. O MIT tem projectos neste momento sobre esforços para controlar os movimentos dos animais por computadores, e talvez mesmo para recolher sinais do cérebro humano e traduzi­‑los em comandos para controlar o que outros organismos fazem. Isto é apresentado – e talvez as pessoas acreditem nisso – como a grande nova fronteira em combate nas guerras. Será capaz de ter um comandante a dizer a um piloto, apenas pelo pensamento, «Qualquer coisa que voe em qualquer coisa que mexa», ou algo como isso. Isso é bastante improvável. Mas o ponto é que está a contribuir directamente para o que pode ser o próximo nível avançado de tecnologia e lucros. Se passear pelo MIT hoje em dia, em torno da praça Kendall, vê pequenas companhias de biotecnologia, subprodutos da investigação financiada pelo governo no que será a ponta avançada da economia, nomeadamente, indústrias baseadas na biologia. Se desse uma volta há quarenta anos (depois para a nova via 128), teria visto pequenas firmas de electrónica, subprodutos do que era então a ponta mais avançada da economia, a electrónica, sob capa militar.

Assim, o complexo militar­‑industrial de Eisenhower não é o que é geralmente considerado. Em parte, sim, é militar. Mas uma função principal dos militares, ou dos Institutos Nacionais de Saúde, ou do resto do sistema federal, é providenciar algum dispositivo para socializar os custos, pôr o público a pagar os custos, a sofrer os riscos. No final, se alguma coisa resulta daí, é colocada nos bolsos privados. E, de novo, isto tem de ser feito de modo que proteja o poder do estado e o poder privado do inimigo doméstico. É preciso dizer que é para nos defendermos de Granada ou da Rússia ou da Guatemala ou de alguém. Se se conseguir assustar suficientemente as pessoas, elas não notarão que os seus impostos estão a ser usados para criar os lucros da IBM e da Merck daqui a vinte anos. Porque não dizer a verdade? Porque então não poderiam tomar estas decisões.

Poderemos argumentar que estas eram boas decisões, como por exemplo dizer que é bom termos computadores. Mas esse não é o ponto essencial. O ponto é, quem deveria tomar estas decisões? Suponha que perguntava às pessoas nos anos 50. Suponha que havia alguma pretensão entre as classes educadas ou o sistema de poder, alguma crença que deveríamos ter algo como uma democracia. Então perguntaríamos às pessoas, tentaríamos ter um público informado para decidir, querem computadores daqui a vinte e cinco anos, ou querem serviços de saúde agora e escolas hoje e empregos hoje e um ambiente habitável para as nossas crianças? Qual é a sua escolha?

Posso fazer conjecturas. Mas o ponto é que alguém no poder teve medo dessa escolha. Têm um medo de morte da democracia, e portanto não se pode fazer uma escolha, é preciso manipular as atitudes da forma que Bernays descreveu. É preciso fingir que estamos sob ameaça de ataque pela Guatemala ou pela Nicarágua, se elas obtêm um MIG para auto­‑defesa contra um ataque dos EU, em ordem a assustar o público para que aceite o que realmente está a acontecer. Esse é o complexo militar­‑industrial real.

Voltando de novo a Ronald Reagan, estou a olhar para um livro de Eqbal Ahmad chamado Terrorismo: o deles e o nosso. A capa mostra o grande comunicador sentado na Casa Branca com mujahedin afegãos. Esta não é uma fotografia que tenha circulado amplamente em qualquer dos grandes mídia. A administração Reagan foi instrumental em apoiar os mujahedin, elementos que mais tarde se metamorfosearam nos Taliban e na al-Qaeda.

Foram além de os apoiar. Organizaram­‑nos. Recolheram radicais islâmicos de todo o mundo, os mais violentos, os elementos mais dementes que puderam encontrar, e tentaram transformá-los numa força militar no Afeganistão. Poderíamos argumentar que isso tinha sido legítimo se tivesse sido com o propósito de defender o Afeganistão. Mas não foi. Na verdade, provavelmente prolongou a guerra no Afeganistão. Parece que, segundo os arquivos, os russos estavam prontos para retirar no início dos anos 80, e isto prolongou a guerra. Mas esse não era o objectivo. O objectivo era causar dano aos russos, não defender os afegãos. Assim, os mujahedin estavam a levar a cabo actividades terroristas no interior da Rússia, a partir do Afeganistão. A propósito, essas actividades terroristas pararam após os russos terem retirado do Afeganistão, porque o que estavam a tentar fazer era apenas o que eles chamam, na sua terminologia, proteger terras muçulmanas dos infiéis. Quando os infiéis retiraram, eles deixaram de conduzir ataques terroristas na Rússia do Afeganistão. Estão agora a conduzi­‑los da Chechénia, onde a Rússia está a levar a cabo uma mortífera, devastadora repressão com o apoio dos EU. E, sim, islamitas foram levados para o Afeganistão. Foram armados, treinados, dirigidos pelos serviços de inteligência paquistaneses, mas sob supervisão e controlo da CIA, com o apoio da Grã­‑Bretanha e de outras potências, com o propósito de tentar causar tanto dano quanto possível aos russos nessa altura. E, sim, metamorfosearam­‑se no que se tornou a al-Qaeda. Eqbal Ahmad reconheceu imediatamente, e avisou – uma voz solitária – que os EU e os seus aliados estavam a criar um monstro terrorista, a reavivar conceitos de “jihad” como a “guerra santa” que tinham estado adormecidos durante séculos no mundo islâmico.

Na verdade, a al-Qaeda, se fizermos uma retrospectiva, mal foi mencionada nos relatórios de inteligência dos EU até 1998. Clinton colocou­‑a no mapa. O bombardeamento do Sudão e do Afeganistão em 1998 por Clinton efectivamente criou a al­‑Qaeda como uma entidade conhecida simultaneamente no mundo da inteligência e no mundo islâmico. Foi um enorme estímulo para eles. Também pôs bin Laden no mapa. Antes disso, ele era visto como uma espécie de financiador menor de alguma espécie. Mas isso criou­‑o como um grande símbolo, levou a um crescimento no recrutamento, financiamento e apoio geral para as redes ao estilo da al­‑Qaeda, e também estreitou as relações entre bin Laden e os Taliban, as quais tinham sido bastante hostis antes de se aproximarem após o bombardeamento.

O bombardeamento do Sudão, em particular, enfureceu as pessoas por todo o mundo árabe. É outra daquelas coisas que não aconteceram porque nós a fizemos. A administração Clinton sabia perfeitamente que o alvo era o maior produtor de abastecimentos farmacêuticos e veterinários para um país africano pobre. Podem ter acreditado que estava a produzir armas químicas ou talvez não – isso é o que as pessoas discutem – mas não importa. Eles sabiam que estavam a bombardear o coração de uma indústria farmacêutica. É claro que isso iria ter efeitos devastadores. Foi conhecido instantaneamente. Não sabemos até que ponto porque, de novo, não investigamos ou nos importamos acerca dos resultados dos nossos crimes, os quais não existiram. Mas nas poucas estimativas credíveis que estão disponíveis do embaixador alemão – num artigo publicado na ultra­‑esquerdista Harvard International Review – e outro no Boston Globe pelo director regional da Fundação do Próximo Oriente, que tinha experiência no terreno no Sudão – ambos estimam várias dezenas de milhares de mortes, o que é, mais ou menos, plausível.

Cá, isto não é um assunto. Podemos ler no New Yorker um distinguido crítico literário dizer, porque é que alguém se preocupa com isto? Morreu uma pessoa. Não, não morreu uma pessoa. Pode ter morrido uma pessoa no ataque do míssil, mas talvez tenham morrido dezenas de milhares como resultado. Se a al-Qaeda explodisse metade dos fornecimentos farmacêuticos em algum país que importasse, como, digamos, os EU, ou a Inglaterra ou Israel, não diríamos, oh, bem, uma coisa menor. Mas quando nós o fizemos, não aconteceu, e as consequências não ocorreram. E se alguém se atreve sequer a mencioná­‑lo, isso só leva a invectivas, porque nem sequer nos é permitido mencionar o facto de que os EU podem irreflectidamente – nem sequer o planearam – levar a cabo crimes importantes. E isso pôs de facto a al-Qaeda no mapa.

Osama bin Laden não era ele próprio anti­‑americano até cerca de 1991, quando mudou, por várias razões. Os EU e a Arábia Saudita recusaram permitir­‑lhe levar a cabo uma jihad contra Saddam Hussein. Ele queria conduzir um ataque contra Saddam Hussein durante a primeira Guerra do Golfo. Os sauditas e os EU não quiseram que ele o fizesse. Ele ficou irritado com isso. Mas a principal razão, pelo que ele diz e pelo que especialistas ocidentais acreditam, é a mesma do Afeganistão. Os infiéis estavam a ocupar terra muçulmana, nomeadamente, a Arábia Saudita. Ele estava a falar acerca das bases dos EU lá. E, claro, a Arábia Saudita é imensamente mais importante na sua teologia do que o Afeganistão. É o local das duas cidades sagradas. Paul Wolfowitz finalmente concordou que isto é correcto quando decidiram retirar as bases americanas da Arábia saudita. Ele disse, bem, temos de retirar este elemento que está a sustentar a propaganda da al­‑Qaeda. É mais do que propaganda; é provavelmente crença. Portanto, sim, ele tornou­‑se então anti­‑americano, tal como tinha sido anti­‑russo.

A propósito, esses ataques terroristas na Rússia não eram piada. Quase conduziram a uma confrontação Paquistão­‑Rússia. E essas são duas potências nucleares. Outro feito de Ronald Reagan foi fingir que os paquistaneses não estavam a desenvolver armas nucleares. Evidentemente, estavam. Os EU estavam a apoiar fortemente o ditadura corrupta de Zia ul Haq no Paquistão. Entre outras coisas, estava a desenvolver armas nucleares. E em ordem a manter­‑lhe o apoio e a manter o seu apoio aos jihadis no Afeganistão, tinham de fingir que não sabiam nada acerca disso – o que era, claro, uma mentira. Sabiam tudo acerca disso. Além disso, Zia ul Haq estava a transformar o Paquistão numa espécie de país de estilo Taliban. Ele estava a minar o sistema educativo, que era razoavelmente avançado, ao permitir a tipos de estilo Taliban tomar conta duma boa parte dele. A administração Reagan olhou para o outro lado. Não quiseram saber. Enquanto estivessem a apoiar os objectivos dos EU, óptimo. O seu legado? Não precisamos de esperar pela história para saber qual foi. Vá onde quiser, Sul da Ásia, América Central, África, Sudeste da Ásia, Médio Oriente. É atroz.

Entrevistei Eqbal Ahmad em Agosto de 1998, um par de semanas após os ataques de míssil de cruzeiro ao Afeganistão e ao Sudão, os quais foram, de acordo com os EU, uma resposta aos bombardeamentos das embaixadas dos EU na Tanzânia e no Quénia. E ele disse, «Osama bin Laden é um sinal das coisas que aí vêm». Pedi­‑lhe que explicasse. E ele respondeu, «Os EU semearam no Médio Oriente e no Sul da Ásia sementes muito venenosas. Estas sementes estão agora a crescer. Algumas amadureceram e outras estão a amadurecer. Um exame do porquê que foram semeadas, o que cresceu, e como devem ser ceifadas é necessário. Os mísseis não resolverão o problema».

Essa é uma declaração muito perspicaz, expandindo o que ele tinha apontado muito antes. Agora há bastante boa literatura analítica sobre como se desenvolveram. O melhor livro sobre isso é do investigador britânico Jason Burke, intitulado Al-Qaeda. Ele confirma em detalhe o que Eqbal previu. Ele faz revisão de uma série de actos no desenvolvimento da al-Qaeda. A al-Qaeda não é um organização; é uma rede solta de filiações muito soltas, na maioria organizações independentes que têm uma espécie de ideologia similar. Ele chama­‑lhe uma rede de redes. E, tal como Eqbal previu, tornou­­‑se um grande símbolo e o próprio bin Laden tornou­‑se um grande símbolo como resultado destes bombardeamentos. Antes, não o tinha sido.

Deitemos uma olhadela no livro de Richard Clarke. Ele diz a mesma coisa acerca da inteligência dos EU. Até 1998, não houve especial atenção à al-Qaeda ou a bin Laden. Eram algo como factores marginais. Na verdade, nem sequer usavam a palavra al­‑Qaeda. Mas, sim, Eqbal está correcto. O que Burke aponta é que cada acto singular de violência dos EU tem sido um presente muito bem vindo a bin Laden. Ele diz, cada uso da violência é uma pequena vitória para bin Laden. Ajuda­‑o a mobilizar os apoiantes que irão, espera, juntar­‑se a ele em ver o Ocidente como cruzados que estão a tentar destruir o mundo muçulmano, dizendo, devemos defender­‑nos a nós próprios.

Tal como os ataques de 1998 ao Sudão e ao Afeganistão, a invasão do Afeganistão em 2001 de novo levou a um grande aumento do recrutamento e financiamento de redes ao estilo al-Qaeda. A guerra no Iraque teve o mesmo efeito. Ainda esta manhã, o departamento de estado admitiu que, como delicadamente o puseram, estavam errados, em outras palavras, a mentir completamente, no seu relatório há um par de meses quando clamavam que o terrorismo tinha sido reduzido graças a Bush. Na verdade, tinha aumentado drasticamente, admitem agora discretamente, o que era sabido antes. E uma das razões para o aumento foi a guerra no Iraque. Além disso, foi previsto com antecedência que isso ia acontecer. Não foi nenhuma surpresa. As agências de inteligência e os analistas estavam a prevê­‑lo, se invadíssemos o Iraque, iríamos aumentar o terrorismo, por razões bastante óbvias.

Há uma espécie de estranha charada em andamento neste momento no mundo intelectual e em Washington, baseada em revelações de Clarke e O’Neill e outros, de que os neoconservadores na administração valorizaram mais a invasão do Iraque do que a guerra contra o terrorismo. A única coisa surpreendente nestas revelações é que ninguém está surpreendido. Como podemos estar surpreendidos? Eles invadiram o Iraque, afinal de contas, sabendo que era muito provável que aumentasse a ameaça do terror. Fim da história. Isso demonstra quais são as suas prioridades. Mais, são prioridades perfeitamente razoáveis. Não se importam assim tanto com o terrorismo. Do que se importam muito – vou voltar a Chalmers Johnson – é de ter bases militares num estado cliente dependente bem no coração da região produtora de petróleo. Isso é importante. Não porque os EU queiram o petróleo – iriam obtê-lo de uma maneira ou outra no mercado – mas porque querem controlar o petróleo. Um assunto completamente diferente. Estas coisas são constantemente ocultadas. O controlo do petróleo, é sabido desde os anos 40, é uma grande alavanca do controlo mundial contra os nossos inimigos. E os inimigos dos EU são a Europa e a Ásia. Estas são as regiões do mundo que podem mover­‑se no sentido da independência. Uma das maneiras de evitar isso é manter a mão na torneira. Foi compreendido há muito.

Cada quatro anos os americanos, aqueles que votam, encaram o que é frequentemente chamado o menor de dois males como as suas opções presidenciais. David Dellinger, que faleceu em Maio, costumava chamar­‑lhes «o mal de dois menores». Você diz que há «uma fracção» de diferença entre George Bush e John Kerry. E isto fez levantar alguns sobrolhos. Ouvi, «Parece que Chomsky está a apoiar Kerry». Pode discorrer sobre a sua posição?

Há diferenças. Têm diferentes eleitorados. Há grupos diferentes de pessoas à volta deles. Em assuntos internacionais, não esperaria nenhuma grande mudança de políticas. Será provavelmente mais como voltar aos anos de Clinton, onde temos de algum modo as mesmas políticas, mas mais moduladas, não tão descaradas e agressivas, menos violentas. E eu esperaria uma espécie de retorno a isso.

Em assuntos domésticos poderia haver uma diferença razoavelmente significativa – não é enorme – mas diferente nos seus resultados. O grupo em volta de Bush são verdadeiros fanáticos. São bastante abertos. Não o estão a esconder; não os podemos acusar disso. Eles querem destruir todo o leque de realizações progressistas do século passado. Já se livraram mais ou menos dos impostos progressivos sobre os rendimentos. Estão a tentar destruir o limitado sistema de cuidados médicos. A nova lei farmacêutica é um passo em frente nesse sentido. Vão atrás da segurança social. Provavelmente irão atrás das escolas. Não querem um governo pequeno, mais do que Reagan queria. Querem um enorme governo, e massivamente intruso. Odeiam livres mercados. Mas querem que funcione para os ricos. O pessoal de Kerry fará algo não fantasticamente diferente, mas menos. Têm um eleitorado diferente a quem apelar, e é muito mais provável que protejam algumas formas limitadas de benefícios para a população em geral.

Há outras diferenças. O eleitorado popular do pessoal de Bush, uma grande parte dele, é o sector religioso fundamentalista extremista do país, que é enorme. Não há nada de parecido em qualquer outro país industrializado. E eles têm de continuar a atirar­‑lhes carne vermelha para os manter na linha. Enquanto os estão a afundar com as suas políticas económicas e sociais, precisam de os fazer pensar que estão a fazer alguma coisa por eles. E atirar carne vermelha a esse eleitorado é muito perigoso para o mundo, porque significa violência e agressão, mas também para o país, porque significa prejudicar as liberdades civis de uma forma séria. O pessoal de Kerry não tem esse eleitorado. Gostariam de o ter, mas nunca vão apelar a ele muito. De algum modo têm de apelar aos trabalhadores, mulheres, minorias, e outros, e isso faz a diferença.

Estas podem não parecer grandes diferenças, mas traduzem­‑se em grande efeitos para as vidas das pessoas. Qualquer um que diga “Não quero saber se Bush é eleito” está basicamente a dizer às pessoas pobres e aos trabalhadores no país, “Não quero saber se as vossas vidas são destruídas. Não quero saber se vais ter algum dinheiro para cuidar da tua mãe deficiente. Simplesmente não quero saber, porque do meu elevado ponto de vista não vejo muita diferença entre eles”. Essa é uma maneira de dizer, “Não me prestes atenção, porque não quero saber de ti”. Para além de estar errado, é uma receita para o desastre se se espera alguma vez desenvolver um movimento popular e uma alternativa política.

 

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[1] Ver Marc Cooper, Conversação com Chalmers Johnson (n. do t.).

 

[2] Presidente da Reserva Federal (n. do t.).