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15/03/2007 A outra América Acabo de participar em Nova
Iorque no Fórum da Esquerda, uma organização com uma longa tradição nos EUA
que anualmente reúne centenas de intelectuais e activistas progressistas para
discutir temas e problemas da actualidade política do país e do mundo. O que
se discute em dois dias de intensos debates dá-nos uma imagem dos EUA muito
diferente daquela que é veiculada pelos média internacionais. Em vez da América arrogante e
belicista, a América solidária e pacifista, apostada em pôr termo à guerra no
Iraque e a todas as outras que os falcões de Washington estão já a preparar
(incluindo a guerra nuclear). Em vez da América que dá lições de democracia
ao mundo, a América ansiosa por aprender com as lutas que, noutras regiões do
mundo, sobretudo na Europa, vão resistindo contra o aumento da desigualdade,
a degradação e a privatização dos serviços públicos de saúde, educação e
segurança social. Daí a forte presença de uma delegação dos sindicatos
italianos, confiantes na vitória contra as alterações da idade de reforma e
do regime de pensões propostas pelo Governo Prodi. Em vez da América rica e
viciada no consumo ostentatório, a América de mais de 40 milhões de pobres, a
maior parte deles trabalhadores cujos salários de miséria não lhes permite
viver acima da linha da pobreza, nem dispor de um seguro médico. E a América
de muitos outros milhões para quem um acidente, uma doença ou a ameaça de
desemprego os põe em risco permanente de deixar de poder pagar as hipotecas
das casas e suportar os custos elevadíssimos dos seguros médicos privados
(uma vez que a maioria dos novos empregos não incluem seguro médico). Em vez
da América opulenta da 5ª Avenida, as cidades devastadas pelo encerramento
das fábricas, um furacão tão devastador em Flint, Michigan, quanto o Katrina
em Nova Orleães. Em vez da América da igualdade de oportunidades, a América
onde um quarto da população negra jovem está encarcerada e onde a discriminação
racial continua a marcar a vida de milhões de negros e latinos. Dada a hegemonia que, embora
em declínio, os EUA ainda detêm no mundo contemporâneo, o Fórum da Esquerda é
um sinal de esperança. Em primeiro lugar, porque, ao revelar-nos uma América
plena de contradições, nos previne contra leituras simplistas, positivas ou
negativas, deste grande país. Em segundo lugar, porque nos dá conta do
fermento das lutas que estão a ser travadas para pôr termo à vertigem
imperialista e belicista que tem dominado a Casa Branca nos últimos anos e
aumentado a insegurança no mundo. E é animador verificar que essas lutas têm
agora melhores condições de êxito do que antes. É hoje evidente que a aliança
entre o partido republicano e a direita radical religiosa (evangélica) está a
colapsar, com o que se abrem novos espaços para as forças democráticas.
Enquanto muitos não desistem de pressionar o partido democrático a abandonar
o centrismo paralizante, outros continuam a lutar pela criação de um novo
partido que represente os muitos milhões de cidadãos que se não revêem em
qualquer dos dois partidos. Outros ainda preferem centrar as suas energias
nas lutas locais, nas cidades e nos bairros onde é possível construir formas
mais transparentes e participativas da democracia e onde o orçamento participativo
das cidades latino‑americanas e europeias vai ganhando adeptos. O Fórum da Esquerda é a manifestação eloquente de uma América que deixou de ter confiança nas suas soluções e no seu excepcionalismo e procura agora, e a muito custo, aprender com o resto do mundo. |