Informação Alternativa

Médio Oriente

Janeiro 2006

 

Sismo político em Israel

 

Uri Avnery

Le Monde diplomatique

 

A designação de Amir Peretz para a liderança do Partido Trabalhista, a saída deste último da coligação governamental, a criação por Ariel Sharon de um novo partido perturbaram o cenário política israelita. Os eleitores deverão dividir­‑se aquando da eleição de 28 de Março próximo. O Partido Trabalhista será capaz de apresentar ao mesmo tempo um programa de defesa das camadas populares e de paz com os palestinianos?

 

O sistema político israelita parece tomado de loucura. Um velho partido moribundo desperta de repente para a vida com todo o vigor da juventude. Um partido dirigente, cujo poder parecia assegurado por décadas, desaba também subitamente. Responsáveis políticos inquietos pelo seu futuro procuram desesperadamente aderir ao bom campo.

 

Aos olhos dos observadores superficiais, ou seja, a maioria deles tanto em Israel como no estrangeiro, esta subversão assemelha-se a uma sucessão de acontecimentos fortuitos. Mas, como disse Polonius em Hamlet: «Embora seja loucura, não lhe falta método» [1]. Um sismo político é em si um acontecimento raro. Mas quando dois sismos políticos se produzem um atrás do outro, trata-se de um fenómeno quase sem precedentes.

 

Primeira perturbação: Amir Peretz é eleito, no dia 9 de Novembro de 2005, para a liderança do Partido Trabalhista. Segundo abalo: Ariel Sharon deixa o Likud, no dia 21 de Novembro, para formar um novo partido. E, de repente, a paisagem política torna-se irreconhecível. Três montanhas se erigem actualmente no lugar das duas que conhecíamos até agora, e nenhuma delas ocupa o mesmo lugar que as duas antigas.

 

Ao longo dos últimos vinte e oito anos, o Likud tinha-se transformado num partido de centro­‑direita. O oportunismo e uma corrupção crescente edulcoraram as suas ideias nacionalistas extremistas. Os seus líderes tinham­‑se vinculado inextricavelmente com os mais ricos, que ditavam ao partido a sua política económica, apesar do facto de os seus eleitores se contarem maioritariamente entre os desfavorecidos.

 

O Partido Trabalhista, quanto a ele, tinha cavado a sua própria sepultura, para se transformar numa pálida cópia do Likud, uma espécie de “Likud 2”. O seu principal coveiro, Shimon Peres, foi também o primeiro representante, comportando-se em todo o mundo como o propagandista de Sharon – fará logicamente o mesmo nas próximas eleições. Esta paisagem já não existe. E as três montanhas que formam o novo cenário político estão orientadas em três direcções diferentes.

 

O Likud voltou a ser o que era antes de chegar ao poder em 1977: um partido de direita radical. Como o tradicional Herut, crê no Grande Israel (em hebreu, “o conjunto de Eretz o Israel”), que vai, aos seus olhos, do Mar Mediterrâneo ao Jordão (no mínimo). Opõe-se a qualquer acordo de paz com o povo palestiniano e propõe­‑se manter a ocupação até que as circunstâncias permitam a anexação dos territórios ocupados. E, reclamando este partido também um Estado judaico homogéneo, a sua linha política encobre uma mensagem escondida: é necessário incitar os árabes a deixar o país. Na linguagem da direita, isso chama­‑se «transferência voluntária». Mas o Likud guarda-se de ser explícito a este respeito [2].

 

PERETZ O SOCIAL, SHARON O SECURITÁRIO

 

Para desviar o eleitorado “judeu oriental” (sobretudo norte-africano) de Peretz, o primeiro número um trabalhista de origem marroquina, o Likud mostrou de repente interesse pelas “questões sociais”. Desde a fusão, nos anos 1960, do Herut e do Partido Liberal, doravante defunto, serviu no entanto os interesses dos mais ricos.

 

Intitulado Kadima (o que, em hebreu, significa “em frente”), o novo partido centrista assenta numa mentira. Sharon afirmou que o seu único programa político era o “mapa da paz”. Mas este último estava morto antes de ver o dia. O primeiro­‑ministro não tenciona – e nunca o encarou – pôr em prática a sua primeira fase, no entanto exigida pelo Quarteto (Estados Unidos, Nações Unidas, União Europeia, Rússia): a evacuação da centena de novos colonatos (“postos avançados”) que foram implantados antes de 2000, e o congelamento de qualquer nova colonização. Ele não faz segredo das suas verdadeiras intenções: anexar a Israel 58% da Cisjordânia, incluindo os blocos de colonatos, em constante expansão, as diferentes “zonas de segurança” (o vale do Jordão alargado bem como as estradas que ligam os colonatos entre si) e a Grande Jerusalém, até à colónia de Maaleh Adumim. Como nenhum interlocutor palestiniano pode aceitar tal “solução”, Sharon propõe­‑se proceder a esta anexação com base num diktat unilateral, pela força, sem empreender o mais mínimo diálogo com os palestinianos.

 

Os problemas sociais são a besta negra do líder do Kadima. Naturalmente, arvorará um programa social para fazer concorrência ao Partido trabalhista e ao Likud, mas este domínio não lhe interessa absolutamente. A organização de Peretz vai concentrar-se sobre os problemas sócio­‑­económicos, esperando assim atrair a massa dos eleitores orientais que apoiavam até agora o Likud e o Shass, o partido ortodoxo dos Judeus orientais [3]. É aí que residem, para ele, as possibilidades de vitória. O seu novo líder defende um programa de paz sério, apelando a negociações com os palestinianos e ao estabelecimento do seu Estado com base nas fronteiras de 1967. Mas vai, além disso, colocar esta perspectiva num contexto social: o dinheiro desperdiçado na guerra, na ocupação e nos colonatos é subtraído aos mais necessitados e aumenta o fosso entre ricos e pobres [4].

 

Os conselheiros do líder trabalhista vão tentar convencê-lo a “posicionar-se ao centro” (existe um novo termo em hebreu para designar esta postura) e de limar as asperezas da sua mensagem de paz a fim de atrair os eleitores do “meio”. Se seguir estes conselhos, Peretz aparecerá como um candidato pouco seguro de si, com falta de credibilidade e desprovido de programa claro. Segundo todas as probabilidades, esforçar-se-á por pôr à frente os problemas sociais e relegar para segundo plano aqueles que tocam à paz e à segurança.

 

Em matéria de estratégia militar, é um princípio essencial: o campo que escolhe o campo de batalha tem mais possibilidades de sair vitorioso que o campo adverso, porque esta escolha tem em conta, naturalmente, as suas exigências específicas. Este princípio vale também para uma batalha eleitoral.

 

General vitorioso, M. Sharon tem interesse em fazer da “segurança” a pedra de toque da campanha eleitoral. Tem, neste terreno, uma enorme vantagem em relação ao seu rival trabalhista, que serviu como simples capitão na administração. Quando a segurança de Israel está em perigo, as pessoas voltam­‑se para Sharon, o sabra (nascido no país), originário da aldeia de Malal, do qual irradia a aura de líder militar.

 

Nascido em Marrocos e criado numa pequena cidade povoada de imigrantes pobres, Peretz é um líder sindical: tem por conseguinte interesse em centrar a campanha nos problemas sócio­‑económicos. Aos olhos das centenas de milhares de pessoas que vivem sob o limiar de pobreza e consideram que sofrem antes de mais do fosso social, as questões de segurança podem parecer secundárias.

 

A tarefa de Peretz, que se anuncia difícil, será sensibilizar as massas para a ideia de que “a paz reduzirá o fosso”. Durante os dez anos em que me sentei no Knesset, pronunciei dezenas de discursos sobre este assunto, mas não cheguei a fazer compreender esta equação. A consciência da opinião pública israelita sofre de uma espécie de bloqueio mental: quando se fala de economia, ignora-se o conflito israelo­‑palestiniano, e quando se trata deste conflito, não se quer ouvir falar de economia. É necessário que o novo líder trabalhista suprima as barreiras entre as duas problemáticas e estabeleça uma relação entre elas. Após tanto sacrifícios em vidas humanos e dinheiro, pode ser que a população esteja pronta para aceitar esta supressão de barreiras. As origens marroquinas de Peretz permitir-lhe-ão em todo o caso fazer-se entender por um eleitorado oriental que já não ouvia os trabalhistas, e unicamente Peres...

 

O enfrentamento mais importante dirá pois respeito à própria natureza do campo de batalha: será dominado pelo tema da segurança ou pelo do fosso social? É importante que Peretz não se afaste do seu programa, ainda que todas as espécies de conselheiros e de personalidades que pertencem aos meios de comunicação social o incitem a fazê-lo e a reagir aos assaltos dos seus adversários. Cada atentado fará, evidentemente, o jogo do Likud e de Sharon – os inimigos deste último afirmam que é completamente capaz de os provocar ele próprio levando a cabo acções militares que incitem represálias.

 

Em quê esta nova paisagem política difere da antiga? Estranhamente, o aspecto mais manifesto e mais decisivo desta transformação escapa à maioria dos comentaristas: todo o sistema se deslocou para a esquerda. O núcleo do Likud está imobilizado à direita, onde sempre esteve, mas todos os outros partidos mudaram de lugar. O Kadima renunciou ao primeiro artigo de fé do Likud, com o qual rompeu – o Grande Israel –, e preconiza a repartição da terra. O próprio primeiro­‑ministro criou um precedente evacuando, este Verão, implantações judaicas. Por muito mau que seja o seu programa político, parece muito menos à direita que a posição que compartilhou com o Likud no passado. O seu novo partido nada tem de um “Partido Trabalhista número dois”, como afirmam os seus adversários do Likud, mas situar-se-á mais à esquerda que antes.

 

A eleição de Peretz para a liderança do Partido trabalhista representa também uma deslocação importante deste partido para a verdadeira esquerda. Atestam­‑no a solução que propõe para o conflito israelo­‑palestiniano e a importância que atribui aos problemas sociais. Não somente o novo líder fixa, deste ponto de vista, uma ordem de trabalhos social-democrata, mas obriga todos os partidos a girar na mesma direcção, ou pelo menos a fingir fazê­‑lo.

 

Mesmo o partido Shass se lembrou de repente que era, no final de contas, o partido dos judeus orientais desfavorecidos. Após uma ancoragem de vários anos à extrema­‑direita, o Shass lembra-se agora que o seu único líder, o rabino Ovadia Yossef, se tinha declarado favorável, há vários anos, à restituição de territórios para chegar à paz.

 

Desde há anos, a situação anormal que predomina em Israel enlouquece os investigadores em ciências sociais. De acordo com todas as sondagens, a maioria da população quer a paz e está pronta, para esse efeito, a aceitar quase todas as concessões necessárias. Mas esta vontade praticamente não foi representada no Parlamento. Durante todos estes anos, o meu optimismo e o do movimento Gush Shalom irritaram muitos: dizia a todos e a cada um que aquilo não ia durar. Que um dia, de uma maneira impossível de prever, esta situação anormal se regularizaria. Que, de uma maneira ou outra, os actores políticos escutariam a opinião pública.

 

Um sismo acarreta mudanças à superfície do globo, mas é ele próprio provocado por forças situadas no mais profundo da Terra. A mesma análise vale para a vida política. As perturbações escondidas nas profundidades da consciência pública acabam por provocar mudanças visíveis. O resultado é brusco e rápido, mas resulta de um longo processo subterrâneo.

 

E agora? Como diz um provérbio hebreu: «Desde a destruição do Templo [há 1935 anos], só os imbecis receberam o dom de profecia». É actualmente impossível adivinhar o resultado das eleições. Pode­‑se unicamente calcular que os três principais partidos partilharão o grosso dos cento e vinte assentos do Knesset, ganhando cada um entre vinte e cinco e trinta. Se Peretz obtiver mais sufrágios que Sharon, será candidato ao posto de primeiro­‑ministro. Ou será Sharon, se ganhar um voto mais que o seu adversário. Tanto um como o outro deverá formar uma coligação. Ora, os pequenos partidos de esquerda e de direita não permitirão provavelmente por si sós construir uma maioria.

 

Se Peretz for vencedor, formar um governo será para ele difícil. Se recusar criar uma coligação com Sharon, ou se este último recusar uma posição subordinada ao seu rival, o candidato trabalhista deverá tentar formar uma maioria com o Meretz (situado à esquerda do seu partido), os partidos árabes, o Shass e os outros partidos religiosos ortodoxos. Com alguma sorte, isso deverá ser suficiente à justa.

 

Se Sharon sair vencedor, a sua tarefa será mais fácil. Quando três pessoas dormem na mesma cama, a da direita e a da esquerda tiram a cobertura uma à outra, mas a do meio continua sempre coberta. O líder do Kadima ocupará o lugar do meio. Se estivesse pronto a negociar seriamente com os palestinianos e a alterar a política económica, poderia formar uma coligação com o novo dirigente trabalhista. Mas esta hipótese é altamente improvável. Há grandes probabilidades de que prefira constituir uma coligação de direita com o Likud e, talvez, alguns dos partidos religiosos e da direita radical. Se for o caso, todos os eleitores de esquerda que idolatram actualmente Sharon e se aprestam a votar nele acabarão como as crianças que seguiam o lendário tocador de flauta de Hamelin: no rio.

 

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[1] William Shakespeare, Hamlet, acto II, cena 2.

[2] Amira Hass, Ces Israéliens qui rêvent de “transfert”, Le Monde diplomatique, Fevereiro 2003. [edição brasileira]

[3] Marius Schattner, En Israël, l’enjeu séfarade, Le Monde diplomatique, Março 1999.

[4] Joseph Algazy, Ces Israéliens qui ont faim, Le Monde diplomatique, Outubro 2003. [edição brasileira]

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