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28/01/2006 Uri Avnery Se Ariel Sharon não estivesse
em coma profundo, teria saltado da sua cama de contente. A vitória de Hamas corresponde
às suas esperanças mais ardentes. Desde há agora um ano, fez todo o possível para minar
Mahmoud Abbas. A sua lógica era bastante óbvia: os americanos queriam que ele
negociasse com Abbas. Tais negociações teriam inevitavelmente levado a uma
situação que o teria obrigado a abandonar quase toda a Cisjordânia. Sharon
não tinha intenção de o fazer. Queria anexar cerca de metade do território. Por
isso tinha que se livrar de Abbas e da sua imagem moderada. Durante o último ano, a situação dos palestinianos foi piorando de dia para dia. As acções da ocupação tornaram impossível a vida normal e o comércio. Os assentamentos da Cisjordânia foram continuamente ampliados. O Muro que corta 10% da Cisjordânia estava quase a completar-se. Nenhum prisioneiro importante foi libertado. O objectivo era dar a impressão aos palestinianos de que Abbas era débil («um frango sem penas», como lhe chamou Sharon), que não podia conseguir nada, que oferecer a paz e manter um cessar‑fogo não leva a nenhum lado. A mensagem aos palestinianos era clara: “Israel só entende a linguagem da força”. Agora os palestinianos
puseram no poder um partido que fala esta linguagem. Por que ganhou o Hamas? As eleições palestinianas,
como as alemãs, consistem de duas partes. Metade dos membros do parlamento
são eleitos por listas directamente designadas pelos partidos (como em
Israel), a outra metade são eleitos individualmente nos seus distritos. Isto deu
ao Hamas uma enorme vantagem. Nas listas eleitorais de
partido, o Hamas ganhou por apenas uma ligeira maioria. Isto sugeriria que no
que concerne à linha política general, a maioria não está longe da Fatah – dois
estados, paz com Israel. Muitos dos votos dados ao
Hamas não tinham nada a ver com paz, religião e fundamentalismo, mas com
protesto. A administração palestiniana, dirigida quase exclusivamente por
Fatah, está manchada de corrupção. O “homem da rua” sente que as pessoas de
cima não se preocupam com ele. Fatah também foi responsabilizada pela terrível
situação criada pela ocupação. Também, a glória dos mártires
e a luta indomável contra o imensamente superior exército israelita se somou
à popularidade do Hamas. Nas eleições pessoal‑regionais,
a situação do Hamas era ainda melhor. Hamas tinha candidatos mais credíveis,
impolutos relativamente à corrupção. O seu aparelho de partido era muito
superior, os seus membros bem mais disciplinados. Em cada distrito, havia
vários candidatos da Fatah competindo entre si. Depois da morte de Yasser Arafat,
não há nenhum líder forte capaz de impor a unidade. Marwan Barghouti, que
talvez pudesse ter feito o trabalho está, é mantido numa prisão israelita – outro
grande presente israelita para o Hamas. As pessoas que acreditam em
teorias da conspiração podem afirmar que tudo é parte de um tortuoso plano israelita. Algumas pessoas até acreditam
que o Hamas foi uma invenção israelita desde o princípio. Isso é,
evidentemente, um insensato exagero. Mas é certamente um facto que nos anos
anteriores à primeira intifada, a organização islâmica era o único grupo
palestiniano que tinha praticamente liberdade de movimentos nos territórios
ocupados. A lógica era esta: o nosso
inimigo é a OLP. Os islamistas odeiam a laica OLP e Yasser Arafat. Por isso,
podemos usá‑los contra a OLP. Mais, enquanto todas as
instituições políticas estavam proibidas, e mesmo os palestinianos que
trabalhavam pela paz eram presos por levarem a cabo actividade política
ilegal, ninguém podia controlar o que estava a acontecer nas mesquitas. «Enquanto
estiverem a rezar, não estão a disparar”, era a opinião inocente no governo
militar israelita. Quando estourou a primeira
intifada, no final de 1987, provou‑se que isto estava errado. O Hamas
foi formado, em parte para competir com os combatentes da Jihad Islâmica. Em
pouco tempo, o Hamas tornou‑se o núcleo do levantamento armado. Mas
durante quase um ano, o Serviço de Segurança israelita não actuou contra
eles. Depois a política mudou e o Xeque Ahmed Yassin, o líder espiritual, foi
preso. Tudo isto se passou mais por
estupidez do que por planeamento. Agora o governo israelita está em face de uma
liderança do Hamas que foi eleita democraticamente pelo povo. E agora? Bem, um forte
sentimento de déjà vu. Nos anos 70 e 80, o governo israelita
declarou que nunca na vida negociaria com a OLP. São terroristas. Têm um
programa que exige a destruição de Israel. Arafat é um monstro, um segundo
Hitler. Por isso, nunca, nunca, nunca... No final, depois de muito
derramamento de sangue, Israel e a OLP reconheceram‑se mutuamente e o
acordo de Oslo foi assinado. Agora estamos a ouvir
novamente a mesma melodia. Terroristas. Assassinos. Os estatutos do Hamas defendem
a destruição de Israel. Nunca, nunca, nunca negociaremos com eles. Tudo isto é muito bem-vindo
para o partido Kadima de Sharon, que abertamente defende a anexação
unilateral do território («Fixar as fronteiras de Israel unilateralmente»).
Ajudará os falcões do Likud e do Partido Trabalhista cujo mantra é “não temos
parceiro para a paz”, o que significa – para o inferno com a paz. Gradualmente, o tom mudará.
Ambos os lados, e os americanos também, baixarão da alto árvore. O Hamas declarará
que está pronto para negociações e encontrará algum fundamento religioso para
isso. O governo israelita (provavelmente encabeçado por Ehud Olmert) inclinar‑se‑á
perante a realidade e a pressão americana. A Europa esquecerá as suas
ridículas palavras de ordem. No final, todos concordarão
que uma paz, em que o Hamas seja um parceiro, é melhor do que uma paz só com a
Fatah. Rezemos para que não se
derrame demasiado sangue antes de esse ponto ser alcançado. |