Informação Alternativa

Médio Oriente

05/11/2005

 

Peretz não é Peres

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

“Assim disse o Senhor: Por três transgressões do Partido Trabalhista, e por quatro, não recusarei o castigo delas…” Se o profeta Amos vivesse hoje, um dos capítulos do seu livro provavelmente começaria com estas palavras.

 

Mas as transgressões do partido desde a Guerra dos Seis Dias de 1967 são mais de três ou quatro. Poderiam encher vários capítulos do livro do profeta de Tekoa. Aqui está uma lista parcial:

 

– Imediatamente depois da guerra de 1967, o primeiro ministro trabalhista Levy Eshkol, perdeu a oportunidade histórica de oferecer aos palestinianos a oportunidade de estabelecer o seu estado e fazer a paz para as gerações vindouras (como lhe sugeri na época numa conversa privada e numa carta pública.) O território era mais importante para ele do que a paz.

 

– Em 1974, Shimon Peres estabeleceu o primeiro colonato no coração da Cisjordânia – Kedumim, que tem vindo a aterrorizar os seus vizinhos palestinianos até hoje.

 

– Em princípios dos anos 70, a primeira ministra trabalhista Golda Meir ignorou as aberturas à paz do presidente egípcio Anwat Sadat. 2000 jovens israelenses pagaram por isso com as suas vidas, juntamente com milhares de egípcios. Foi ela quem declarou: «Não existe tal coisa como um povo palestino».

 

– Em 1982, tanto Peres como Yitzhak Rabin apoiaram a investida de Menachem Begin e Ariel Sharon sobre o Líbano, e um ano depois apoiaram a estúpida decisão de preparar a “Zona de Segurança”, que prolongou a guerra durante 27 anos mais. Ao mesmo tempo, a ocupação dos territórios palestinos tornou­‑se mais brutal e o número de colonatos aumentou, levando à erupção da primeira Intifada.

 

– Depois de Rabin e Peres finalmente retirarem conclusões da Intifada, reconhecerem a Organização para a Libertação da Palestina e, em 1993, aceitarem os acordos de Oslo, cedo os violaram ao não abrir as prometidas “passagens seguras” entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, e ao não levarem a cabo a terceira e principal retirada. O estabelecimento de novos colonatos continuou.

 

– Para se assegurar da sua eleição após o assassinato de Rabin, Peres iniciou uma pequena guerra no Líbano em 1996, que acabou com a matança de dúzias de refugiados em Kana. Também, aprovou o assassinato do “engenheiro” Yikhye Ayash. Como poderia prever-se, o resultado foi uma série de ataques suicidas e a derrota eleitoral de Peres.

 

– Depois de Yasser Arafat ter recusado aceitar as ofertas tipo­­‑ultimato do primeiro­‑ministro do Partido Trabalhista Ehud Barak na cimeira de Camp David de 2000, Barak declarou que os palestinianos queriam destruir Israel e que «não há ninguém com quem falar». O resultado foi o desabamento do campo da paz, a derrota do Partido Trabalhista e a ascensão de Sharon ao poder.

 

– Todo este tempo, o partido conduziu uma política económica que alargou o abismo entre ricos e pobres, quase destruiu o Histadrut, a federação de sindicatos trabalhistas, e criou uma bomba de relógio social que pode explodir em qualquer momento.

 

O principal representante desta linha foi Shimon Peres, cujo espírito tem pairado sobre o partido durante décadas. Esta semana, ele quer ser reeleito presidente do partido. O único candidato real que pode impedir isto é o líder do Histadrut, Amir Peretz.

 

Uma das vantagens principais de Peretz é a última carta, de seu nome (em hebreu): Peretz não é Peres.

 

Está a ser dito que o Partido Trabalhista está num estado de estagnação. Isso é um eufemismo. Está numa fase avançada de descomposição.

 

Pode bem perguntar-se: Que tem a ver com isso uma pessoa como eu, que não foi – nem nunca será – membro do Partido Trabalhista? Tem muito a ver comigo. Porque os dois grandes partidos – Trabalhista e Likud – são os pilares do nosso sistema parlamentar de partidos, a base da democracia israelense. O desabar de um deles, para não mencionar a de ambos, sem substitutos viáveis, mina os alicerces da nossa existência democrática. Traz de volta recordações horrendas do colapso da república de Weimar na Alemanha.

 

Durante quase cinco anos agora, o Partido Trabalhista foi refém de Shimon Peres. Sob a sua liderança, perdeu qualquer resquício de uma visão independente do mundo, nacional ou social. Quando Sharon chegou ao poder, Peres transformou­‑se no seu porta­‑voz e relações públicas. Até então, o mundo associava Sharon com o massacre de Kibia de 1953, o ataque ao Líbano de 1982 e as matanças de Sabra e Shatila. Foi Shimon Peres, o laureado com o Prémio Nobel da Paz, quem ganhou para ele a aceitação mundial como um estadista respeitável.

 

Depois do intermezzo meio cómico de deixar o governo por motivos eleitorais, Peres entregou de novo o seu partido ao segundo governo de Sharon, onde se tornou no apoiante principal da “desconexão”. Não pôs condição alguma: nem que a retirada devia ser levada a cabo em acordo com os palestinianos, nem que o território devia ser realmente libertado, nem que a retirada devia levar a negociações para a retirada da Cisjordânia.

 

Agora vemos o resultado: a Faixa de Gaza transformou­‑se numa grande prisão, a ocupação continua lá através de outros meios (isolamento da Cisjordânia e do mundo inteiro), as condições de vida lá tornaram­­­‑se ainda piores (quem pensou que isto era possível?) O resultado: o derramamento de sangue prossegue, e tornar­‑se­‑á provavelmente mais terrível.

 

Vemos e lemos todos os dias como o Partido Trabalhista permite a Sharon levar a cabo o seu plano – anexar a Israel 58% da Cisjordânia, transformar o resto em enclaves desconexos uns dos outros, e construir o Muro de Separação que, à partida, foi uma ideia do Partido Trabalhista e que anexa grandes trechos da Cisjordânia a Israel. Os bloqueios de estrada. A ampliação dos colonatos a um passo frenético. O desmantelamento dos “postos avançados” nem sequer é posto à discussão. Os assassinatos e detenções continuam mesmo depois de os palestinianos terem declarado um cessar­‑fogo, ao qual Sharon recusou juntar-se. Não há nenhuma negociação de paz, e o Ministro de Defesa afirmou que a paz deve esperar «pela próxima geração». Sem qualquer ganho político, a posição de Mahmoud Abbas é minada, criando novamente a situação desejada de «não há ninguém com quem falar».

 

Ao nível social, o governo, com o apoio do Partido Trabalhista, está a aumentar a diferença de rendimentos e a aprofundar a pobreza. A respeito desta política thatcheriana, não há nenhuma diferença real entre Sharon, Netanyahu e Peres, apesar das palavras de ordem vazias.

 

Não surpreende que nesta situação, o próprio partido esteja a degenerar. A pessoas estão fartas, não só de Peres, mas de todo o ramalhete de políticos que o rodeiam – de facto, de todo o sistema democrático. Não há vida no partido, nenhum debate, nenhuma actividade.

 

A democracia israelense precisa de um partido de oposição, com uma visão do mundo alternativa e políticas correspondentes. O Partido Trabalhista não será tal, enquanto Peres & Cia. o estejam a sufocar. Portanto, a saída de Peres da direcção do partido é uma condição prévia necessária a qualquer renovação. Parece que nas presentes circunstâncias, só Amir Peretz pode consegui-lo.

 

Não conheço Peretz de perto e não posso julgar se tem a capacidade de dirigir o partido e a nação, mas tem várias vantagens políticas que nenhum outro líder do partido possui: tem uma agenda social clara, foi consistente no seu apoio à paz com os palestinianos, é um autêntico representante do público judeu oriental, sem ser um político “étnico”. Irradia activismo, tem contacto directo com o público e demonstrou a sua capacidade como líder do Histadrut. Agora deve ter a oportunidade de resistir à prova como líder partidário e nacional. Espero que tenha sucesso.

 

Mas ainda que resulte ser desapontador como líder trabalhista, uma vitória para ele nas primárias do partido, esta semana, seria uma bênção. Um período interino sob Peretz limparia o terreno dos velhos políticos fracassados, abriria as portas para novas e jovens forças e devolveria ao partido a capacidade de actuar como uma oposição lutadora.

 

Em hebreu, acontece que Peretz significa “avanço”.