Informação Alternativa

Médio Oriente

22/10/2005

 

A guerra é um estado de espírito

– Palestra em Berlim, 20/10/2005. Conferência sobre “Criar crianças sem violência” –

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

Há alguns anos falei com uma jovem escritora israelense. Chocou-me o facto de que, apesar de ter muito sucesso e ser aclamada pelos críticos, e isso numa idade relativamente temporã, de algum modo exsudava um ar de insegurança.

 

Quando lhe perguntei sobre isso, veio-se abaixo. «Nunca disse isto a ninguém. Toda a minha infância foi um inferno. Não sabia que ambos os meus pais tinham estado em Auschwitz. Nunca falaram sobre isso. Só sabia que havia um terrível segredo pendendo sobre a minha família, um segredo tão horrível que fui proibida inclusive de perguntar por ele. Vivi num medo constante, sob uma ameaça constante. Nunca tive uma sensação de segurança».

 

Isto é violência – não violência física, mas violência não obstante. Muitas crianças israelenses a experimentaram, mesmo quando o Estado de Israel se tornou cada vez mais poderoso, e a Segurança – com um S maiúsculo – se tornou no seu fetiche.

 

Nós, israelenses e palestinianos, estamos a viver numa guerra permanente. Durou mais de 120 anos até agora. Uma quinta geração de israelenses e palestinianos nasceu na guerra, bem como os seus pais e professores. Toda a sua perspectiva mental foi formada pela guerra desde a infância mais temporã. Todos os dias das suas vidas, a violência dominou as notícias diárias.

 

Em muitos sentidos, o conflito israelo-palestino é único. Pondo um processo histórico complexo nos seus termos mais simples, é assim:

 

Há 120 anos, muitos judeus na Europa compreenderam que o crescente nacionalismo de vários povos, quase sempre acompanhado por um anti-semitismo virulento, estava a levar a uma catástrofe. Decidiram tornar-se numa nação eles mesmos e instaurar um estado para os judeus. Escolheram a Palestina, a antiga pátria do seu povo, como o lugar para realizar o seu sonho. A sua palavra de ordem era: «Uma terra sem povo para um povo sem terra».

 

Mas a Palestina não estava vazia. O povo que ali estava opôs­‑se, é claro, a outro povo que vinha de nenhures e que reclamava o seu país.

 

O historiador Isaac Deutscher descreveu o conflito desta maneira: Uma pessoa vive no andar de cima de um edifício que apanhou fogo. Para se salvar, salta pela janela e aterra sobre um transeunte que está embaixo, ferindo­‑a gravemente. Entre os dois, gera­‑se uma inimizade mortal. Quem tem razão?

 

Cada guerra cria medo, ódio, desconfiança, preconceitos, demonização. Tanto mais numa guerra que se perpetua por gerações. Cada um dos dois povos criou uma narrativa própria. Entre as duas narrativas – a israelense e a palestina – não há a mais leve semelhança. O que uma criança israelense e uma criança palestiniana aprendem sobre o conflito desde os seus primeiros anos – em casa, no jardim de infância, na escola, dos meios de comunicação – é totalmente diferente.

 

Tomemos a uma criança israelense. Mesmo que os seus pais ou avôs não fossem sobreviventes do Holocausto, aprende que os judeus foram perseguidos ao longo da história – de facto, ele aprende que a história não é mais do que uma história interminável de perseguição, inquisição e pogromos, conduzindo à terrível Shoah.

 

Li uma vez os relatórios de uma classe de estudantes israelenses a quem tinha sido pedido para apontarem as suas conclusões depois de visitarem Auschwitz. Cerca de um quarto deles disseram: A minha conclusão é que depois do que os alemães nos fizeram, devemos tratar as minorias e os estrangeiros melhor do que todos os outros. Mas três quartos disseram: Depois do que os alemães nos fizeram, o nosso dever mais alto é salvaguardar a existência do povo judeu, por todos os meios possíveis, sem quaisquer limitações.

 

Este sentimento de ser a vítima eterna ainda persiste, mesmo depois de nos termos tornado uma nação poderosa no Estado de Israel. Está profundamente impregnado na nossa consciência.

 

Já no jardim de infância, e depois todos os anos de escola, uma criança judia em Israel experimenta uma série anual de festas nacionais e religiosas (não há nenhuma diferença real entre ambas) comemorando eventos nos quais os judeus eram vítimas e tinham que lutar pelas suas vidas:

 

– Hannuka, que comemora a luta dos macabeus contra os opressores gregos;

 

– Purim, a vitória sobre os persas que tentaram exterminar todos os judeus;

 

– Páscoa, a fuga dos israelenses da escravatura no Egipto;

 

– Dia da Recordação, consagrado aos soldados israelenses mortos nas nossas muitas guerras contra os árabes;

 

– Dia da Independência, a nossa luta desesperada pela sobrevivência na guerra de 1948, na qual o nosso estado foi fundado;

 

– Dia do Holocausto;

 

– O 9 do mês Av, quando o templo judeu foi destruído duas vezes, uma vez pelos babilónicos e cinco séculos mais tarde pelos romanos;

 

– Dia de Jerusalém, quando conquistamos a parte oriental da cidade, e muito mais, na guerra dos Seis Dias;

 

– Somente o Yom Kippur é uma festa puramente religiosa, mas na nossa mente vinculada irrevogavelmente com a terrível guerra de 1973.

 

Em cada uma destas ocasiões, ano após ano, há classes especiais que explicam o seu significado, gravando a sua importância. O clímax é o Seder na véspera de Páscoa, que comemora o êxodo do Egipto, quando em cada casa judia de todo o mundo uma cerimónia idêntica tem lugar. Cada membro da família, do mais velho ao mais novo, tem um papel e cada sentido – vista, ouvido, gosto, olfacto e tacto – está envolvido. Nenhum judeu, por muito secular que possa ser, está jamais livre da memória deste evento hipnotizante da sua infância, experimentado no calor da família reunida.

 

Na mente da criança, todos estes eventos se mesclam. A minha esposa Rachel, que durante muitos anos foi professora de primeiro e de segundo grau na escola básica, diz que as crianças não entendem realmente quem veio antes de quem – os romanos ou os britânicos, os babilónicos ou os árabes.

 

O efeito acumulativo disto é uma visão do mundo em que os judeus, em cada período e em cada país, foram ameaçados com a aniquilação e tiveram de lutar pelas suas vidas. O mundo inteiro está, sempre esteve e sempre estará, “contra nós”. Deus – quer exista ou não – prometeu­‑nos o nosso país, e ninguém mais tem direito algum sobre ele. Isto inclui os árabes palestinos que viveram ali durante pelo menos 13 séculos.

 

Com semelhante atitude, é difícil fazer a paz.

 

Agora tomemos uma criança palestina. O que aprende ela?

 

– Que pertence ao povo árabe, que tinha um império glorioso e uma civilização florescente na idade média, quando os europeus ainda eram bárbaros, e que ensinou a ciência à Europa e lhe trouxe a ilustração.

 

– Que os bárbaros cruzados perpetraram um horrendo banho de sangue em Jerusalém e arrebataram a Palestina, até que foram expulsos pelo grande herói muçulmano, o Salah-al-Din (Saladino).

 

– Que os palestinianos foram humilhados e oprimidos durante muitos séculos por estrangeiros rapaces, primeiro os turcos e depois os colonialistas europeus, que lhe trouxeram os sionistas para a Palestina para suprimir toda a esperança de os árabes alcançarem a liberdade nos seus próprios países.

 

– Que na grande Nakba (calamidade) de 1948, metade do povo palestino foi expulso dos seus lares e do seu país pelos sionistas, e que desde 1967 todos os palestinianos têm estado a vegetar seja como refugiados seja como vítimas de uma ocupação interminável, cruel.

 

Cada criança palestina cresce com um sentimento profundo de ressentimento e humilhação, o sentimento de ser a vítima de uma terrível injustiça, capaz de redimir o seu povo só pela luta violenta, o heroísmo e o auto­‑sacrifício.

 

Como fazer a paz entre dois povos nas garras de duas narrativas contraditórias, aparentemente irreconciliáveis?

 

Certamente não com manobras diplomáticas. Estas podem aliviar a situação temporariamente, mas não podem em si pôr um fim ao conflito. A história dos acordos de Oslo mostra que sem tratar as causas de raiz do conflito impregnadas nas mentes dos povos, um acordo não é nada mais do que um cessar­‑fogo efémero.

 

A Paz é um estado de espírito. A principal tarefa da construção da paz é mental: conseguir que os dois povos, e cada indivíduo, vejam a sua própria narrativa a uma nova luz, e – ainda mais importante – entendam a narrativa do outro lado. Interiorizar o facto de que as duas narrativas são duas faces da mesma moeda.

 

Esta é principalmente uma tarefa educativa. Como tal, é incrivelmente difícil, porque tem primeiro que ser absorvida pelos professores, que por sua vez estão imbuídos de uma ou outra visão do mundo.

 

Permitam-me contar-lhes uma pequena história. A Rachel estava a ensinar à sua turma a história bíblica de como Abraão comprou uma parcela em Hebron de Efron, seu dono, para enterrar a sua esposa, Sara. Primeiro Efron ofereceu a parcela grátis, e só depois de muitas súplicas determinaram um preço, 400 shekels de prata, dizendo «O que é isso é entre eu e vós?» (Génese 23.)

 

Rachel explicou às suas crianças que essa é a forma de fazer negócios que ainda hoje se usa entre os beduínos no deserto. É grosseiro aparecer imediatamente com o preço, é preciso oferecer primeiro como um presente. Assim a transação torna­‑se cortês e a vida mais civilizada.

 

No intervalo, Rachel perguntou à professora da turma ao lado como é que ela tinha explicado o capítulo aos seus alunos. «Simples», respondeu, «disse­‑lhes que este é um exemplo típico da hipocrisia árabe. Não se pode acreditar numa palavra do que eles dizem. Oferecem­‑te um presente e depois exigem um alto preço!»

 

Para que a paz se torne possível, é preciso mudar toda uma mentalidade. Isso é o que os meus amigos e eu, no Bloco da Paz israelense, Gush Shalom, estamos a tentar fazer.

 

É isto, de todo, possível?

 

Falando aqui, no centro do que era a capital da Prússia, recordo-me da minha infância, quando eu era um aluno do que era então a Prússia, que era então ainda governada pelos social-democratas.

 

Uma vez, quando eu tinha 9 anos, na Hannover pré-hitleriana, a professora estava a falar sobre a estátua de Hermann, o querusco, no bosque de Teutoburger. «Hermann está de pé com a sua cara virada para o arqui­‑inimigo (Erzfeind)», disse. «Meninos, quem é o arqui-inimigo?» Todos as crianças responderam em uníssono: «França! França!»

 

Hoje, depois de séculos de guerra, a Alemanha e a França não só são aliados, mas parceiros na gloriosa empresa de uma Europa unida.

 

Se isto pôde acontecer aqui, a paz é possível em qualquer parte.