Informação Alternativa

Médio Oriente

17/09/2005

 

O prego de Joha

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

Um dia Joha, o herói do humor popular árabe, vendeu a sua casa. O preço que exigiu era ridiculamente baixo e ele tinha só uma condição: «numa das paredes há um prego a que sou muito afeiçoado. Não quero vendê­‑lo». O comprador rapidamente aceitou. Quem se preocupa com um prego?

 

Após alguns dias, Joha foi à casa e pendurou o seu casaco no prego. Depois disso trouxe a sua cama e começou a dormir ali. «O prego é­‑me tão querido, que não posso dormir longe dele», explicou. Outra vez, trouxe a sua família para visitar o prego e fazer ali uma festa. No fim, o novo dono não podia aguentar mais e comprou o prego por um preço muitas vezes mais caro do que o que tinha pago pela própria casa.

 

Talvez os líderes de Israel não conheçam a história, mas a sua conduta certamente se lhe assemelha.

 

Começou com o acordo de paz com o Egipto. Israel concordou em sair de todo o Sinai. Entre Menahem Begin e Anwar Sadat começaram a desenvolver­‑se cálidos sentimentos. E então apareceu o prego: Israel negou­‑se a deixar Taba, um pedaço diminuto de terra que orla o Golfo de Aqaba. As relações azedaram, sucedeu uma ronda de amargas disputas e no fim foi necessária a arbitragem internacional para decidir o que estava claro desde o princípio: Taba pertence ao Egipto e, finalmente, foi­‑lhe devolvida. Hoje em dia massas de jogadores israelitas vão ali para deixarem o seu dinheiro.

 

A história repetiu­‑se no Líbano. Primeiro o governo decidiu reter um prego muito grande: a “faixa de segurança”, o que originou uma guerra de guerrilhas longa e sangrenta. No fim, fomos obrigados a abandoná­‑la – numa manobra que pareceu um voo – e ficamos só com um pequeno prego: “as quintas de Shebaa”. Isto dá uma razão ao Hezbollah para não se desarmar e para aquecer a fronteira de vez em quando, a seu prazer.

 

Se preferirmos uma história polaca a uma árabe, podemos mencionar a senhora que pediu ao seu dentista que lhe tirasse todos os seus dentes estragados, excepto um – só para recordar-lhe quanto doía.

 

Agora retirámos da Faixa de Gaza. Deixamos todo o território, retirámos todos os colonos, demolimos todos os colonatos. Deixámos apenas um prego na parede: as sinagogas.

 

Estas não eram, Deus não o permita, santificados edifícios da antiguidade, remanescentes preciosos do passado. Eram nada mais que edifícios erguidos bastante recentemente para rezar e celebrar reuniões, dos quais todos os acessórios religiosos já tinham sido removidos. O exército propôs destruí-los juntamente com todas as outras casas ali, e isso foi o que o governo decidiu.

 

Mas depois de a farsa do “desenraizamento dos colonos” chegar ao fim, depois de o último carpidor derramar as suas lágrimas na camisa de um polícia em frente de uma câmara de televisão, depois de o último oficial do exército abraçar um brigão nacionalista de acordo com as ordens recebidas, os rabinos do colonato lembraram­‑se de repente que os edifícios das sinagogas são sagrados. Usaram Deus como um instrumento político, como tinham feito antes com os bebés.

 

Os ministros do Likud, que não temem Deus da maneira que temem o Comité Central do seu partido, mudaram de opinião com a velocidade do relâmpago e decidiram que é proibido destruir as sinagogas. O governo mudou a sua posição no último momento, sem informar a liderança palestina e sem consulta prévia com a mesma. Não se molestaram sequer em informar o Supremo Tribunal, que já tinha sentenciado que as sinagogas podiam ser destruídas.

 

Foi um acto ruim, pura e simplesmente. Deixou os palestinianos ante os cornos de um dilema: destinar milhares de soldados a guardar edifícios vazios daqui à eternidade ou deixar as massas excitadas assaltar estes odiados símbolos da ocupação que tinha transformado as suas vidas num inferno.

 

No que a Sharon diz respeito, o exercício foi um grande sucesso: o mundo viu a “louca chusma palestina” queimando “as casas de culto”, numa espécie de Kristallnacht, made in Israel. O presidente Bush condenou a «queima das sinagogas», o presidente Moshe Katzav de Israel estava perturbado pela «profanação de Lugares Sagrados Judeus», o público israelita fortaleceu ainda mais a sua crença de que os árabes são bárbaros sub-humanos, provando de novo que não temos ninguém com quem falar.

 

Esse não foi o único prego que o Joha israelita deixou na parede.

 

Outro prego foi a demolição da passagem fronteiriça de Rafah. Isso também chegou de surpresa, sem diálogo prévio com os palestinianos. Como o governo israelita alega que a ocupação da Faixa de Gaza chegou ao fim e está relevado da sua responsabilidade para com o milhão e meio de habitantes aí, isso significa que fechámos uma fronteira entre dois territórios estrangeiros: a Faixa de Gaza e o Egipto.

 

Isto, evidentemente, não foi efectivo nem por um só momento. O que aconteceu assemelhou­‑se aos acontecimentos depois da queda do muro de Berlim que tinha separado, uma da outra, as duas partes da cidade, tal como o muro que Israel construiu em Rafah: parentes que não viam há décadas correram e abraçaram­‑se e as multidões foram em torrente para o outro lado para ver, comprar barato e dar escape à sua excitação. Israel ganhou de novo: os egípcios demonstraram a sua ineficiência, as autoridades palestinas mostraram que não se pode confiar nelas e as massas demonstraram que são selvagens e desordenadas.

 

Se os egípcios tivessem intervindo violentamente, teriam mostrado ser inimigos do povo palestino. Se os polícias palestinos tivessem disparado à sua própria gente, teriam perdido qualquer autoridade moral. Está claro que nenhuma cortina de ferro israelita pode separar Gaza do Sinai. O assunto pode arrumar-se unicamente com acordos sensatos.

 

E há mais pregos: o porto de Gaza, cuja construção Israel está a tentar impedir, e o aeroporto de Gaza, a operatividade do qual Israel está a tentar obstruir. Tudo isto para prevenir o “contrabando de armas para a Faixa de Gaza” – um claro pretexto para deixar a Faixa isolada do mundo e continuar a ocupação por outros meios.

 

Agora que a “desconexão” acabou, como parece, podemos aprovar um juízo inequívoco: toda a operação foi incrivelmente estúpida.

 

Foi tonta porque foi unilateral. Não tornou possível a cooperação, excepto ao mais baixo nível de um cessar­‑fogo enquanto a retirada se levava a cabo. A retirada podia ter sido utilizada para a construção de pontes psicológicas e políticas entre os dois povos. Poderia ter convencido a população de Gaza que agora vale a pena viver em paz connosco. Isto teria isolado as organizações radicais, ajudado a liderança palestina e aumentado a segurança de cidades e aldeias israelitas adjacentes à Faixa.

 

Se toda a operação tivesse sido levada a cabo desde o princípio com o espírito de um diálogo entre iguais, poderia ter-se chegado a acordos vinculativos sobre a passagem fronteiriça entre a Faixa e Egipto, a vigilância internacional para impedir o tráfico ilícito de armas, o estatuto das sinagogas, as conexões por mar e por ar, e tudo o demais. Mas Sharon não quis um diálogo com os palestinianos que poderia tornar-se, Deus não o permita, no precedente para um diálogo sobre o futuro da Cisjordânia.

 

Em vez disso, tudo se fez numa atmosfera de desconfiança e inimizade. Funcionários e políticos israelitas – sem excepção – continuaram a comportar-se e a falar como governadores militares, usando a linguagem das ameaças e a arrogância. A sua conduta demonstrou que a ocupação não terminou realmente – nem em Gaza, nem muito menos na Cisjordânia.

 

O Joha palestino é um tipo astuto. O Joha israelita é simplesmente tosco.