Informação Alternativa

Médio Oriente

23/07/2005

 

A marcha dos camisas laranja

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

Já há algumas semanas, uma luz vermelha tem estado a piscar na minha mente, alumiando uma palavra em grandes letras góticas: Weimar.

 

Como menino de 9 anos de idade, vi com os meus próprios olhos o desabamento da república alemã que nasceu depois da Primeira Guerra Mundial. Era geralmente referida como a República de Weimar, porque a sua constituição foi escrita na cidade das duas figuras cimeiras da cultura alemã, Goethe e Schiller. Alguns meses depois da sua queda, fugimos da Alemanha e assim as nossas vidas foram salvas.

 

Desde então, as imagens e sons do desabamento da república estão gravadas na minha mente. Li centenas de livros sobre este evento. A grande questão que tem assombrado desde então e que permaneceu sem resposta até hoje é: Como pôde acontecer semelhante coisa? Como pôde uma bando de criminosos com uma ideologia desumana tomar um estado que, no seu tempo, era talvez o país mais culto do mundo?

 

Na véspera do processo a Eichmann, em 1960, escrevi um livro sobre isto, concluindo com a questão: Pode acontecer aqui?

 

Hoje, não há escapatória à terrível resposta: Sim, pode acontecer aqui. Se nos comportamos como o povo de Weimar, sofreremos o mesmo destino que o povo de Weimar.

 

No passado, hesitei com frequência em usar esta analogia. Temos um tabu a respeito da Alemanha Nazi. Já que nada no mundo se pode comparar com o Holocausto, nenhuma comparação deve ser feita com a Alemanha desse tempo.

 

Só raramente este tabu foi quebrado. David Ben-Gurion chamou uma vez a Menachem Begin «um discípulo de Hitler». Begin por sua vez chamou a Yasser Arafat «o Hitler árabe», e antes disso, Gamal Abd-el-Nasser foi referido em Israel como «Hitler no Nilo». O professor Yeshayahu Leibowitz, no seu habitual modo provocativo, falou sobre os «Judeo-Nazis» e comparou as unidades especiais do exército israelita com as SS. Mas estas foram excepções. No general, o tabu foi observado.

 

Não mais. Na sua luta contra a “podre” democracia israelita, os colonos adoptaram os símbolos do Holocausto. Estão a usar ostensivamente a Estrela Amarela que foi imposta pelos nazis aos judeus antes do extermínio, apenas substituindo o amarelo pelo laranja. Inscrevem no antebraço o seu número de identidade, como os números que os nazis tatuaram nos prisioneiros de Auschwitz. Chamam ao governo o “Judenrat”, em referência aos conselhos judeus nomeados pelos nazis nos guetos, e comparam a evacuação dos colonos de Gush Katif com a deportação dos judeus para os campos da morte. Tudo isto ao vivo pela televisão.

 

Por isso, já não há razão para não chamar enxada a uma enxada: um grande campo fascista está agora a ameaçar a democracia israelita.

 

O que se passou na semana passada em Israel não foi um “protesto” legítimo, nem uma tentativa democrática de influenciar a opinião pública para mudar as decisões do governo e do Knesset. Nem sequer foi uma campanha de desobediência civil por uma minoria que tenta forçar a revogação de uma decisão da maioria.

 

É muito mais: o princípio de uma tentativa de derrocar, através da força, o próprio sistema democrático.

 

Confrontando a democracia israelita está agora o núcleo duro dos colonos, que praticamente todos os colonos aceitam como seus porta-vozes. Esta semana vimos dezenas de milhares deles, e não podemos escapar da constatação de que este é um movimento revolucionário com uma ideologia revolucionária que usa meios revolucionários.

 

Qual é esta ideologia? Foi proclamada ruidosamente, uma e outra vez, pelos porta-vozes centrais do movimento: Deus deu­‑nos este país. Toda a terra e seus frutos nos pertencem. Alguém que dê sequer um metro quadrado dela a estrangeiros (querendo dizer os árabes, que vivem aqui há muitas gerações) está a violar os mandamentos da Torah. A Torah é vinculativa. Todas as decisões governamentais, leis do Knesset e sentenças judiciais são nulas e inválidas se contradizem a palavra de Deus, como nos foi transmitido pelos rabinos que estão acima dos ministros do governo, dos membros do Knesset, dos magistrados do Supremo Tribunal e dos comandos militares. Como no Irão fundamentalista de Khomeini.

 

Uma grande parte deste campo adere abertamente aos ensinos de Meir Kahane, cuja cara foi exibida por todo o lado por colonos que marchavam com as suas camisas, bandeiras e cartazes. Kahane pregou publicamente o que muitos dos colonos, e talvez a maioria deles, dizem em privado: que Deus não só nos prometeu este país, mas que também nos ordenou (no livro de Joshua) erradicar os habitantes não-judeus. Eles não têm lugar aqui. Se não puderem ser aterrorizados até sair por si mesmos (“translado voluntário”), devem ser eliminados. Nas palavras de um dos rabinos na televisão esta semana, se eles não saírem, devem «pagar o preço». Isto inclui, claro, também o milhão e um quarto dos próprios cidadãos árabes de Israel.

 

Um dos líderes da marcha, Tsviki Bar-Hai, declarou na televisão: «A luta é sobre o carácter do estado».

 

Noventa e nove por cento dos muitos milhares vistos esta semana na televisão portavam kippas, e muitos deles tinham barbas e tranças. As mulheres portavam saias longas e tinham o seu cabelo coberto. Todos eles são “judeus renascidos” ou pertencem ao campo “nacional-religioso” – uma seita nacionalista-messiânica que acredita estar a pavimentar o caminho para a “redenção”. Deve ser claramente entendido: em Israel, a religião judia sofreu uma mutação que mudou a sua face completamente.

 

Não há nenhum acordo de definição científica do “fascismo”. Eu defino­‑o como tendo os seguintes atributos: a crença num povo superior (master Volk, povo escolhido, raça superior), uma ausência completa de obrigações morais para com os outros, uma ideologia totalitária, a negação do indivíduo excepto como uma parte da nação, desprezo pela democracia e culto da violência. Segundo esta definição, uma proporção grande dos colonos é fascista.

 

Tem­‑se dito que a República de Weimar não foi derrocada pelos “camisas castanhas”, mas que se derrocou por si mesma, porque no momento da verdade quase ninguém estava preparado para se pôr de pé e defendê-la.

 

Na semana passada, milhares de “camisas laranjas” marcharam para Gush Katif, num eco distante da “Marcha sobre Roma” dos “camisas negras” de Benito Mussolini de 1920 que derrocou a democracia italiana. Uns 20 mil soldados e polícias foram mobilizados para detê-los. À primeira vista, o exército e a polícia ganharam, já que as camisas laranjas não chegaram à Faixa de Gaza. Mas durante três dias, sob o sol abrasador, os rebeldes mostraram em público a sua determinação, unidade e disciplina.

 

Houve uma cacofonia de vozes. Os homens e mulheres colonos gritaram, as suas crianças de cérebros lavados gritaram, os bebés a suar, de face avermelhada, choraram nos braços das suas mães, os líderes fizeram discursos, o exército e a polícia gritaram ordens. Só uma voz esteve ausente: a voz do público israelita.

 

Durante estes três dias fatídico, nenhum dos principais intelectuais, nenhum escritor como S. Yishar, Amos Oz, A.B. Yehoshua ou David Grossman, nenhum importante professor, nenhum poeta ou artista levantou a sua voz contra os colonos e seus aliados. As muitas personalidades que no passado tinham caído na armadilha da “conciliação” com os colonos e nos “pactos culturais” com a direita religiosa extremista, não se atreveram a desenredar-se a si mesmos agora e assinalar o grande perigo para o estado democrático. Uma das suas desculpas foi que não desejavam ser vistos como apoiando Ariel Sharon.

 

Nenhuma das grandes organizações públicas – desde a Associação da Advocacia e as Câmaras de Comércio, à Associação dos Jornalistas e corpos académicos – achou necessário levantar a sua voz em defesa da democracia, enquanto os militantes laranjas estavam inundando todos os canais de televisão, que não fizeram nenhum esforço por apresentar outros pontos de vista. O Silêncio dos Cordeiros. O silêncio de Weimar.

 

Espero que tudo isto mude quando a confrontação se aproximar do seu clímax. Espero que a democracia israelita encontre em si mesma a força oculta que tão tragicamente faltou à república de Weimar. Mas isto não acontecerá se as pessoas corajosas não fizerem soar a trombeta, e se a maioria silenciosa não abandonar o seu silêncio e mostrar a sua posição com voz e cor.

 

De outro modo, a “Marcha sobre Gush Katif” será apenas um aperitivo da “Marcha sobre Jerusalém”.