Informação Alternativa

Médio Oriente

10/04/2005

 

Não matem o croupier!

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

Como pessoa decente, sou suposto sentir compaixão pelos colonos de Gush Katif. Abraçá­‑los. Verter uma lágrima pelo sua difícil situação. E, de facto, há motivos para compaixão. Seres humanos desarraigados da terra onde têm vivido há décadas. Pessoas de meia idade compelidas a recomeçar as suas vidas. Crianças aí nascidas obrigadas a mudar para escolas noutros lugares. Pessoas que têm negócios florescentes tendo que construir novos meios de vida, sob quem sabe que condições.

 

Mas, por muito que tente, não consigo verdadeiramente sentir muita penas deles.

 

Em primeiro lugar, uma questão de proporção. Eu próprio experimentei esse trauma. E como eu, milhões de outros imigrantes que vieram para este país nos últimos cem anos – imigrantes da Rússia, da Polónia, da Alemanha, dos países árabes, da antiga União Soviética. Todos eles passaram por esta experiência, e quase todos eles em muito, muito mais duras circunstâncias.

 

O meu pai tinha 45 anos de idade quando fugiu da Alemanha, juntamente com a sua esposa de 39 anos e os seus quatro filhos. Foram separados de família e amigos, instalados num país longínquo e tiveram de se habituar a outra língua, a uma paisagem estrangeira, a um clima muito diferente, a uma cultura diferente, a uma sociedade diferente, a diferentes costumes. Ninguém lhes deu um cêntimo, nem como compensação nem como assistência. Ambos, pai e mãe, pessoas prósperas na sua terra natal, tiveram de nos sustentar a todos com trabalho manual duro, ao qual não estavam nada acostumados. Vivemos em pobreza abjecta.

 

Comparado com isso, o “sofrimento” dos colonos é um piquenique.

 

Ouvimos lamentos comoventes sobre o «desarraigamento de judeus da Terra de Israel». Essa é uma palavra de ordem bastante mentirosa. Assumindo que Gush Katif seja de facto parte de Eretz Israel (e isso é discutível) – os lugares para onde se pede que mudem também ficam em Israel. Ashkelon é uma cidade israelita, assim como Ashdod e Telavive. As extensões da Galileia e de Negev chamam por eles, e não há paisagens mais israelitas do que estas.

 

Pelo som dos seus clamores comoventes, poderíamos ficar com a impressão de que estão a ser exilados para terras desoladas para lá das Montanhas das Trevas. Mas a distância entre o colonato Ganim da Cisjordânia, que em breve será evacuado, e a cidade israelita de Affule é como entre os distritos de Manhattan e Queens em Nova Iorque. A distância entre Berlim e Hamburgo é muito maior, assim como entre Londres e Liverpool. Quantas pessoas fazem uma mudança semelhante em cada ano?

 

Devemos lembrar­‑nos que já fizeram isto uma vez, com alegria e entusiasmo, quando deixaram Hertzlia, Jerusalém, Beth-Alpha e outros lugares para ir para os colonatos.

 

«Judeus despejam judeus!», choramingam os colonos. «Num país democrático, os cidadãos não são forçados a sair das suas casas». Será realmente assim?

 

Quantas aldeias foram deslocadas no Egipto para construir a barragem de Aswan? Muito bem, o Egipto não é uma democracia. Mas, nos democráticos Estados Unidos, quantas dezenas de cidades e aldeias tiveram de dar lugar à barragem do Tennessee? Qualquer governo desloca povoados se o interesse público o exige.

 

Mas não é por estas razões que é difícil para mim activar os meus canais de compaixão. A principal razão é diversa.

 

Todo o colono sem excepção sabia que ele ou ela estava a mudar para uma zona conquistada na guerra, onde outras pessoas viviam, a qual, além do mais, nunca foi anexada a Israel (ao contrário da área de Jerusalém e dos Montes Golan). Por outras palavras, apostou no seu futuro.

 

Esta semana, advogados do governo apontaram no Supremo Tribunal que todos os contratos de venda ou aluguer de terra nos territórios ocupados incluíram uma cláusula declarando explicitamente a sua natureza temporária. Nem é preciso dizer isso: de acordo com a lei internacional, Israel mantém estes territórios por «ocupação beligerante», a qual é temporária por natureza e existe só enquanto o governo militar existir. Quando vem a paz, o governo militar desaparece juntamente com as suas leis e decisões.

 

No que aos colonos diz respeito, toda a Faixa de Gaza e a Cisjordânia são uma imensa Las Vegas. Nem sequer podem dizer que não foram prevenidos: os meus amigos e eu dissemo­‑lhes isso desde o começo da ocupação, tanto no Knesset como nos meios de comunicação social.

 

Para muitos que vieram, os chamados “colonos da qualidade de vida”, foi uma aposta muito atractiva. Jovens casais, sem os meios para comprar uma casa em Israel, puderam construir uma vivenda de sonho no seu próprio lote nos “territórios”, quase sem qualquer investimento, ou com uma soma que mal seria suficiente para dois quartos em algum bairro de lata israelita. Tudo era quase de graça: generosas infra­‑estruturas, jardins espaçosos para as crianças, bela paisagem (com uma vista de pitorescas aldeias árabes). Qualidade de vida.

 

Empresários, que não tinham dinheiro para começar um negócio em Israel, puderam fazê­­­‑lo em Gush Katif. Terra em abundância para estufas. Trabalhadores palestinianos que tinham de trabalhar por uma ninharia, pois a ocupação bloqueou todas as outras possibilidades de ganhar a vida para as suas famílias. Ou trabalhadores tailandeses importados do estrangeiro, que estavam dispostos a trabalhar 12 horas por dia por salários muito baixos. Como a lei israelita não se aplicava a Gush Katif, não havia disparates como um salário mínimo, férias anuais, subsídio de doença ou indemnizações por despedimento.

 

Como era maravilhoso ser um patriota israelita num lugar onde as leis israelitas não se aplicavam!

 

Muitos exploradores envolvem­‑se agora com a bandeira nacional numa tentativa de salvar os seus privilégios. Mas há também, claro, um núcleo duro de verdadeiros ideólogos nacionalistas­­‑messiânicos. Estabeleceram­‑se ali para tomar posse da “Grande Eretz­‑Israel” (ou antes, em hebreu, “A Totalidade de Eretz Israel”) e impedir o povo palestiniano de alguma vez alcançar a sua liberdade num Estado próprio. Estes colonos nunca esconderam o seu objectivo de desarraigar a população palestiniana e substituí­‑la por uma judaica.

 

«Isto não é uma evacuação, isto é uma transferência!» gritam agora sem qualquer vergonha, usando a palavra de código tácita para a limpeza étnica. «Transferência»? Mas o seu próprio objectivo desde o início era transferir os palestinianos! «Desarraigamento»? Mas eles queriam desarraigar os palestinianos, e trabalharam incansavelmente para conseguir isso. Para muitos deles, isso é mesmo visto como um mandamento religioso.

 

«O governo mandou­‑nos para lá, e agora quer expulsar­‑nos!»

 

Bem, em primeiro lugar, nunca ouvimos falar de alguém ter sido forçado a mudar para os territórios ocupados. Governos sucessivos encorajaram­‑nos, violaram a lei com um piscar de olhos, roubaram o público para verter o dinheiro nos colonatos. Verdadeiro. Mas ninguém foi forçado a ir para lá. Os soldados recebem ordens e não têm alternativa a não ser obedecer. Todos os colonos tinham uma alternativa.

 

Em segundo lugar, aquele que nomeia tem o direito de dispensar. Aquele que envia tem o direito de chamar de volta. Se os colonos são apenas emissários, podem ser enviados aqui e ali.

 

E, no que à simples compaixão humana diz respeito – os colonos exigem­‑na de nós, mas nunca parecem senti­‑la pelos demais. Existe algo de repugnante na sua incapacidade para ver o Outro. É uma espécie de insanidade emocional: a expulsão em massa de árabes está bem. A expulsão de uns milhares de judeus no país é um “segundo Holocausto”. O «desarraigamento de judeus» de colonatos com 20­‑30 anos é uma crime horrendo. O desarraigamento de 750 mil palestinianos, que vivem na sua terra há centenas ou milhares de anos, foi apenas um acto do «exército mais moral do mundo». Devemos compadecer­‑nos de uma criança judia que será obrigada, juntamente com os seus companheiros, a habituar­‑se a uma nova escola, mas por quê desperdiçar piedade numa criança árabe que nasceu e cresceu num campo de refugiados sórdido e atingido pela pobreza?

 

Para não mencionar os actos dos colonos em Hebron, Yitzhar, Tapukh e muitos outros lugares: matar habitantes a tiro, levar a cabo pogroms nas aldeias, tomando posse da terra à força, destruindo poços, pulverizando campos com veneno, arrancando oliveiras e roubando a sua fruta, e por aí fora.

 

Por todas estas razões, é muito difícil sentir pena deles. Os colonos da “qualidade de vida” e da “visão messiânica” – ambos puseram grandes apostas. Apostaram pelo seu futuro. Apostaram e perderam.

 

Como fez o milhão de franceses na Argélia, que foram expulsos e voltaram a França, tudo em algumas semanas, quando o país alcançou a sua independência.

 

Apesar de tudo isto, não tenho nada contra pagar­‑lhes generosas compensações. Pelo contrário, imediatamente após o acordo de Oslo tomei parte em endereçar um apelo público do Gush Shalom ao então primeiro­‑ministro Yitzhak Rabin, instando­‑o a começar a pagar imediatamente generosas compensações aos colonos que estavam dispostos a partir voluntariamente.

 

Rabin recusou. Pior, continuou a alargar os colonatos a uma velocidade furiosa, como fizeram todos os seus sucessores. Mesmo aqueles colonos que estavam preparados para partir não o puderam fazer e foram praticamente aprisionados nos seus colonatos, pois não podiam vender as suas casas e começar uma nova vida noutro sítio qualquer. Na realidade, esta continua a ser a sua situação até hoje.

 

Dissemos generosa compensação. Mas o que lhes é “devido”?

 

Um apostador que perdeu o seu dinheiro na roleta não pode esperar compensação. Como uma medida de generosidade, e para suavizar o seu regresso a casa, seria sensato pagar aos colonos o dinheiro que investiram à partida, e isso é muito pouco. E de novo, por generosidade, sou a favor de pagar para os ajudar a começar uma nova vida em Israel. Como um gesto humanitário, e também como um sinal aos colonos da Cisjordânia que valerá a pena voltar a casa o mais cedo possível.

 

Para Ariel Sharon, que empurrou os colonos, os estragou com mimos e preparou o seu caminho, deve ser difícil proferir as palavras. Mas nós, os cidadãos de Israel, podemos dizer: camaradas, vocês apostaram muito e perderam.

 

É humano que berrem e arranquem os vossos cabelos. Mas não vale a pena tentar matar o croupier. Devem desistir da vossa compulsão para apostar.

 

E se nós, os cidadãos de Israel, estamos prontos a pagar­‑lhes do nosso bolso uma generosa compensação pelas fichas que vocês perderam, poderiam ao menos ter a elegância de dizer “obrigado”.