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19/02/2005 Uri
Avnery Não é muito lisonjeiro ser exibido como um rottweiler numa trela, cujo dono ameaça soltá‑lo sobre os seus inimigos. Mas esta é a nossa situação agora. O vice‑presidente Dick
Cheney ameaçou há algumas semanas atrás que se o Irão continuar a desenvolver
as suas capacidades nucleares, Israel pode atacá-lo. Esta semana, o presidente George Bush repetiu esta ameaça. Se fosse o dirigente de Israel, declarou, ter‑se‑ia sentido ameaçado pelo Irão. Relembrou àqueles que são um pouco lentos que os Estados Unidos se incumbiram de defender Israel se houver uma ameaça à sua segurança. Tudo isto se soma a um aviso
claro: se o Irão não se submeter às ordens dos EUA (e, talvez, mesmo se o
fizer) Israel irá atacá‑lo com ajuda norte‑americana, tal como
atacou o reactor nuclear iraquiano há uns 24 anos atrás. Na mesma semana, algo
bastante inesperado aconteceu: Ariel Sharon mandou o Chefe de Estado Maior, Moshe
Ya’alon, fazer as malas. O seu sucessor será muito provavelmente o general Dan
Halutz. Halutz é, claro, um piloto, e
um que desempenhou o seu papel no ataque de 1981 ao reactor iraquiano. Se suceder
a Ya’alon, será a primeira vez nos anais das Forças de Defesa de Israel que
um aviador é nomeado Chefe de Estado Maior. Isso é um tanto curioso. No ano
que aí vem, o exército será chamado a levar a cabo uma operação muito difícil
em terra: a evacuação dos colonatos da Faixa de Gaza. A nomeação de um
general da Força Aérea como Chefe de Estado Maior pode insinuar que a IDF
está a planear algo ainda mais importante no ar. (Entreacto: Ninguém verterá
uma lágrima pelo afastamento de Ya’alon. Como Chefe de Estado Maior, arca
com a responsabilidade de todas as coisas terríveis que aconteceram no exército
durante os últimos três anos, desde a “verificação da morte” de uma rapariga
de 13 anos à “prática vizinha” – obrigar um civil palestiniano a caminhar em
frente de soldados a caminho de matar um militante. Mas se Ya’alon for
sucedido por Halutz, confirmará o ditado pessimista de que por cada homem mau
que é removido há um ainda pior para lhe suceder. Para aqueles que esqueceram:
Halutz (“pioneiro”, em hebreu) levantou uma tempestade pública após a Força Aérea
ter largado uma bomba de uma tonelada na casa de um dirigente do Hamas e o
matou juntamente com 15 civis, incluindo nove crianças. Interrogado sobre o
que sente quando larga tal bomba, respondeu «uma ligeira batida»,
acrescentando que dorme bem depois. Na mesma oportunidade vilificou o Gush
Shalom pelas suas acções contra crimes de guerra e exigiu que fossemos
levados a julgamento por traição.) De volta a Bush-Cheney e ao Rottweiler. Quando Bush chegou ao poder
pela primeira vez, os neocons colocaram diante dele um plano coerente para a
extensão do Império Americano no Médio Oriente. Continha três capítulos: Um, conquistar o Iraque para
tomar o controlo das suas imensas reservas de petróleo e colocar uma guarnição
norte‑americana na junção crítica entre o petróleo do Mar Cáspio e os
recursos sauditas. Dois, quebrar o regime
iraniano e fazer voltar o Irão ao bloco norte‑americano. Três, fazer o mesmo à Síria e
ao Líbano. Ainda não estava decidido se o Irão viria antes da Síria, ou ao
contrário. Pode ter‑se assumido
que a experiência da aventura norte‑americana no Iraque cancelaria os
capítulos seguintes. O povo iraquiano não recebeu o exército de ocupação com
flores. O pretexto para a invasão – as armas de destruição maciça de Saddam –
foi exposto como uma mentira flagrante. A insurreição armada continua. O
futuro do estado iraquiano jaz sobre uma balança, mesmo após as recentes
eleições. O país pode bem dividir‑se em três partes, originando ondas
de choque em todo o Médio Oriente. As pessoas ingénuas acreditam
que depois de tudo isto, Bush não arriscaria mais aventuras deste tipo. Estão
enganadas. Primeiro, porque uma pessoa primitiva
e vaidosa como ele nunca admite falhar. Quando uma das suas aventuras falha,
isso apenas o conduz a outras ainda mais ambiciosas. Segundo, o falhanço custa de
facto um grande número de vidas e destrói a infra‑estrutura da vida no
Iraque, mas isso não importa para os planificadores da operação. O principal
objectivo – estabelecer uma guarnição permanente no país – foi atingido. Fora
do Iraque, ninguém está a exigir que os soldados norte‑americanos
saiam. E, quaisquer que sejam os actos de sabotagem, o petróleo iraquiano é
controlado pelos EUA. Os barões do petróleo, que são os patronos da família
Bush, podem estar bem satisfeitos. Os europeus e os russos estão
a tentar bloquear a trajectória de Bush. Ele vai agora prestar uma visita de
estado à UE e à NATO, tentando convencê‑los com conversa suave e
ameaças a cooperar nas suas aventuras. Portanto, devemos levar a sério
as ameaças de Bush e Cheney de soltar o rottweiler. No momento em que sintam
que o caminho está livre, darão o sinal a Sharon. Sharon cumprirá o seu dever,
em troca de uma concordância norte‑americana que lhe permita devorar
mais alguns pedaços dos territórios palestinos. Irá a acção militar causar o
colapso do regime dos ayatollás? Duvido. É, de facto, um regime detestável,
mas enfrentado com um ataque do exterior, especialmente dos “cruzados e
sionistas”, o povo iraniano unir‑se‑á atrás dele. Um povo
orgulhoso, com uma gloriosa história como os iranianos, não quebrará
facilmente. A Síria é um alvo diferente. Ao
contrário do Iraque e do Irão, não tem reservas de petróleo. Mas sem ela o
Império Americano não será contíguo e é um obstáculo para Israel. Na guerra de 1967, Israel
conquistou os montes Golan, que até então eram conhecidos em Israel como “os
montes sírios”. No lugar de muitas dúzias de aldeias sírias, que foram limpas
da face da terra, os colonatos de Israel despontaram. Os sírios nunca
desistiram da sua resolução de recuperar o seu território. Em 1973, tentaram
fazer isso pela guerra, mas foram derrotados, apesar de uma assinalável vitória
inicial. Desde então, a balança do poder militar inclinou‑se ainda
mais a favor de Israel. Portanto, a Síria está a usar outro método: importunando
Israel por procuração, dando apoio ao Hezbollá e a organizações radicais
palestinas, cujos líderes residem em Damasco. Em ordem a tornar permanente o
seu domínio sobre os montes Golan, o governo israelita deve quebrar a Síria.
Os neocons em Washington – surpresa, surpresa – têm o mesmo objectivo. O
pretexto: o facto de soldados sírios estarem estacionados no Líbano. Historicamente, o Líbano é
parte da Síria. Damasco nunca se resignou ao estabelecimento de um estado
libanês separado, pelos colonialistas franceses na primeira metade do século
XX. No máximo, aceita o Líbano como um estado cliente. O exército sírio entrou no Líbano
em 1976, no auge de uma guerra civil terrível. Os muçulmanos e os drusos, com
ajuda da OLP, posicionaram‑se para conquistar as áreas cristãs. Foram
os cristãos (por favor, lembrem‑se!) que apelaram aos sírios para os
vir salvar. Desde então, os sírios permaneceram lá. Muitos libaneses
acreditam que a sua partida causaria o deflagrar da guerra civil de novo. Em 1982, Israel tentou
desalojá‑los. Esse era o principal objectivo do estado maior do exército
(em oposição ao então ministro da Defesa Ariel Sharon, cujo objectivo
principal foi expulsar os palestinianos). Mas a invasão não atingiu o seu
objectivo: no final, os israelitas foram expulsos e os sírios ficaram. Esta semana, o líder
muçulmano Fariq al-Hariri, que ultimamente se juntou à oposição, foi
assassinado em Beirute. Ainda não é conhecido quem o fez. A enorme máquina de
propaganda norte‑americana, que inclui os media israelitas, apontou
para os sírios. Se são de facto culpados, foi um acto de suprema loucura,
pois era óbvio que iria ajudar os norte‑americanos a aumentar a oposição
libanesa e levantar uma tempestade de sentimento anti‑sírio. Aconteceu
exactamente no momento certo para alguém interessado em começar uma campanha
contra a síria, sob o slogan “Fim à ocupação síria!” Há algo risível acerca desta
exigência, vinda como vem de duas potências ocupantes: os norte‑americanos
no Iraque e os israelitas na Palestina. Mas os rottweilers não são conhecidos
pelo seu sentido de humor, mais do que aqueles que os conduzem pela trela. |