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10/11/2001 Uri
Avnery «Como uma baleia que perdeu o seu sentido de orientação, vocês estão a investir contra a praia, atacando-a uma e outra vez, querendo cometer suicídio!», gritou Haim Ramon nervosamente, da tribuna do Partido Trabalhista, para os seus colegas de partido, num dos grandes momentos da sua vida. Isso foi em janeiro de 1994. Ramon era à época Ministro da Saúde. Ele queria aprovar uma lei de seguros de Saúde Nacional, contrária à vontade dos seus colegas. «Eu, com o meu poder limitado, estou a empurrá‑los de volta ao mar. E vocês não querem ir, e vocês não querem ir. Insistem em cometer suicídio». Agora Ramon está pressionar no sentido oposto. Está puxando a baleia para a praia. Está a fazer isto ao promover um plano político que ostenta o grandioso título de “Separação unilateral”. Israel não conduzirá nenhuma negociação com os palestinianos e não fará qualquer esforço para chegar a um acordo com eles. Retirará o exército unilateralmente da maior parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, decidindo por si própria onde será a fronteira entre o seu próprio território e o território palestino. Os assentamentos, onde a maioria dos colonos vive, serão anexados a Israel, os demais serão evacuadas. Entre Israel e os territórios palestinos será erguida uma barreira que será defendida pelo exército. Todas as outras questões serão adiadas indefinidamente, até que os palestinianos estejam prontos a aceitar os termos de Israel. Isso soa lógico e parece simples. É exactamente o que provavelmente convencerá aqueles que não querem ir ao âmago do conflito israelo-palestino. Mas está longe de ser simples. Evidentemente, os palestinianos não aceitarão qualquer plano israelita que seja executado sem acordo e sem negociações. Se houvesse alguma chance de os palestinianos aceitarem esse plano, haveria negociações sobre ele. O simples facto de que a ideia de negociações está a ser rejeitada mostra que não há chance de que ele seja aceite pela outra parte. Por falta de qualquer alternativa, os palestinianos resistirão, é evidente, pela força das armas a um plano que arranca extensas áreas da terra na qual eles querem construir o seu estado (o que compreende, deve‑se lembrar, somente 22% daquilo que era a Palestina antes de 1947). O jogo de percentagens (“somente 10%”, “somente 8%”) é ridículo – não são só as percentagens que contam, mas a sua localização. Os “blocos de assentamentos” cortam, e não por acaso, profundamente o território palestino e o despedaçam. Nem é por acaso, também, que Ramon não apresentou um mapa – nem o fez nenhum dos outros proponentes desse plano. Todo palestino entende que a linha “temporária” transformar-se-á numa fronteira permanente, ao longo da qual surgirão novos assentamentos. Será impossível remover essa fronteira no futuro sem guerra. Portanto, predominará um estado permanente de guerra. A “Linha Ramon” não impedirá atentados suicidas, morteiros e Katyushas. Por outro lado – a ideia de que os colonos evacuarão dezenas de assentamentos sem resistência armada é uma ilusão. No momento, não há governo em Israel – nem do Likud, nem dos Trabalhistas, nem de ambos – que ouse remover um único assentamento para tal plano. Este é um plano sem esperança. Então, porque é que Ramon o apresenta? Ele não pretende seriamente que seja executado. O plano serve um propósito completamente diferente: ajudá-lo a voltar a uma questão central do seu partido, entre cujas ruínas pessoas como Burg, Ben-Eliezer, para não mencionar Peres, estão a correr como loucos. Ramon quase ficou esquecido. Ele espera voltar com a ajuda de um plano grandioso e um “movimento público”. A mesma esperança vive no coração do verdadeiro autor desse plano, Shlomo Ben‑Ami. A história dele é triste. O menino de uma cidade portuária de Marrocos tornou‑se um professor brilhante da história moderna de Espanha, um amigo de reis e nobres, e parecia uma estrela ascendente no firmamento do partido. Infelizmente, sucumbiu à tentação de unir‑se ao desastroso governo Barak. Permaneceu ao lado de Barak quando o ex-chefe do Estado-Maior, com uma mistura de arrogância infundada e ignorância irreparável provocou o colapso das negociações com os palestinianos. Com o fim de se exonerar a si próprio e ao seu patrão, Bem‑Ami espalhou as lendas mentirosas das “generosas ofertas de Barak”, e a de que “Arafat não quer a paz”. O novo plano é baseado sobre essa representação distorcida. Mas – se este é o i da questão – se não há parceiros para a paz, se uma guerra eterna é esperada – quem precisa de Ramon e de Ben-Ami? Quem precisa do mesquinho Partido Trabalhista? Se é assim, o povo elegerá Sharon, ou pior – Netaniahu, ou ainda pior – um dos profetas da “transferência”. Como é que Ramon colocou isso
quando falou sobre o Partido Trabalhista, há sete anos atrás? «Como uma
baleia que perdeu o seu sentido de orientação, vocês querem cometer suicídio!». |