Informação Alternativa

Iraque

02/04/2003

 

Um espelho distorcido

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

Mais sobre a guerra (4):

 

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# Prensatituição. Na Idade Média, os exércitos eram acompanhados por grandes quantidades de prostitutas. Na guerra do Iraque, os exércitos norte­‑americano e britânico são acompanhados por grandes quantidades de jornalistas.

 

Criei o equivalente hebreu de “prensatituição” quando era editor de uma revista noticiosa israelita, para designar os jornalistas que transformam os mídia em prostitutas. Os médicos estão obrigados pelo juramento de Hipócrates a salvar vidas na medida do possível. Os jornalistas estão obrigados pela honra profissional a dizer verdade, como a vêem.

 

Nunca antes tantos jornalistas traíram o seu dever como nesta guerra. O seu pecado original foi o seu acordo em estar “embutidos” [embedded] em unidades do exército. Este termo norte­‑americano soa como estar na cama [bed], e é a isso que corresponde na prática.

 

Um jornalista que se deita na cama de uma unidade do exército torna­‑se um escravo voluntário. É agregado aos subordinados do comandante, é levado para os lugares que interessam ao comandante, vê aquilo que o comandante deseja que ele ou ela veja, é desviado dos lugares que os comandantes não querem que veja, ouve o que o exército quer que ouça e não ouve o que o exército não quer que ouça. Ele é pior do que um porta­‑voz oficial do exército, porque pretende ser um repórter independente.

 

O problema não é que ele só veja uma pequena fracção do grande mosaico da guerra, mas sim que transmita uma visão falsa daquela pequena fracção.

 

Nas guerras das Malvinas e na primeira do Golfo, o acesso dos jornalistas à área da campanha foi simplesmente vetado. Parece que alguém brilhante no Pentágono teve uma ideia: “Para quê afastá-los? Deixemos que entrem, ser­‑lhes­‑á dito o que escrever e transmitir, e comerão das nossas mãos como cachorrinhos».

 

# Vergonha. Desde os 19 anos, tenho sido jornalista. Sempre tive orgulho disso. Muitas vezes escrevi: “Profissão: Jornalista”.

 

Fico envergonhado quando vejo um grande grupo de jornalistas de todo o mundo sentados diante de um general cheio de estrelas, escutando avidamente o que chamam de “informações” e sem colocar a mais simples e relevante das pergunta. E quando um repórter corajoso se ergue e faz uma verdadeira pergunta, ninguém protesta quando o general responde com slogans de propaganda banais em vez de dar uma verdadeira resposta.

 

Lembram­‑se da rendição virtual da 51ª divisão iraquiana? Da “sublevação” das pessoas de Bassora que nunca ocorreu? Das mil e uma outras mentiras, que foram levadas com o vento? Onde estavam os jornalistas quando tudo isto aconteceu?

 

Quase todos os relatos jornalísticos desta guerra formam um espelho distorcido. Nele vemos uma imagem manipulada, distorcida e falsa. Por isso, devemos louvar os poucos que, como Peter Arnett, estão dispostos a sacrificar a sua carreira no altar da verdade.

 

# O fundo do poço. Estou envergonhado de ser jornalista. Eu estou duplamente envergonhado de ser um jornalista israelita.

 

Nesta guerra, todos os sectores dos meios de comunicação israelitas desceram a profundidades inéditas. Nenhuma crítica é publicada. Os opositores da guerra foram efectivamente silenciados. Mesmo nos meios de comunicação norte­‑americanos, algumas vozes dissidentes estão a ser ouvidas. Em Israel, isto não é possível. Seria pior do que traição.

 

A única excepção que conheço é o repórter de tv San Semama, que se infiltrou no Iraque, foi capturado pelos norte­‑americanos, detido num jipe e mantido com fome durante 48 horas. Ele viu o que realmente estava a acontecer. Partes dos seus relatos foram publicadas aqui e ali, até que a cortina do silêncio foi descida. Todos os demais – jornalistas, punditas, o bando de ex­‑oficiais e por aí fora – aparecem nos nossos ecrãs, hora após hora, e repetem como papagaios a linha da propaganda norte­‑americana, mesmo quando é manifestamente ridícula.

 

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# O teatro de operações. Li algures que a sala de imprensa do general Tommy Franks foi criada por um projectista profissional por 250 mil dólares. O exército norte­‑americano investe de facto muito dinheiro no desenho deste teatro.

 

Suponho que somas muito maiores são pagas aos projectistas profissionais que organizam os aparecimentos públicos de Bush. Devemos prestar atenção ao cenário – muito mais interessante do que as palavras de George W.

 

Há já alguns meses, Bush é quase sempre visto com um fundo de soldados. O projectista do cenário assegura­‑se que os soldados estão todos à volta do presidente, de modo que, de qualquer ângulo fotográfico, as faces cheias de admiração brilham atrás dele.

 

Há alguns dias, os projectistas conseguiram um efeito especial: atrás do presidente aparecia um navio da Guarda Costeira, com marinheiros de uniforme vermelho dispersados nele com bom gosto em grupos fotogénicos. Outros marinheiros estavam à frente e em ambos os lados do presidente. Nenhuma cena da ópera poderia estar mais bem encenada. Não ficaria admirado se o presidente começasse a cantar uma ária. Mas apenas pronunciou as usuais inanidades.

 

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