Informação Alternativa

Iraque

13/07/2002

 

Um grande Hezbollah

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

OK, quer dizer que vamos matar Saddam Hussein. Assim querem os EUA. E se os EUA querem algo, nós também o queremos. Certo?

 

Afinal de contas, não pode haver dúvida nenhuma. Na última vez, Saddam lançou Scuds contra nós, só para ganhar popularidade no mundo árabe. (Nessa época, alguém inventou a teoria de que «os palestinianos estão a dançar pelas paredes» e Yossi Sarid escreveu os seu artigo “De agora em diante, os palestinianos podem procurar­‑me”.)

 

Agora tudo isso reconquistou actualidade. George Bush Jr. quer começar uma guerra, a mesma guerra que George Bush pai parou a meio. O filho quer terminar o trabalho que o pai começou. Que comovedor.

 

E também urgentemente. Bush Jr. está profundamente implicado no escândalo financeiro que está a excitar o público norte­‑americano, e o seu vice­‑presidente (vice [vício, corrupção – em português] é a palavra correcta) está ainda mais implicado. Em tempos de escândalos governamentais, há sempre uma tendência para começar uma guerrinha. Uma guerra faz com que as pessoas esqueçam tudo o resto e se aglutinem em torno do líder.

 

Assim, vamos para uma guerra. Os EUA dirigindo, nós seguindo os seus passos, escutando o mesmo tambor.

 

Apesar de tudo, sugiro que pensemos sobre isso por um momento. É verdade, Saddam é abominável, assim como o seu regime. Mas matar Saddam e derrubar o seu regime será bom para Israel?

 

Façamos outra pergunta primeiro: Porque é que Bush pai parou essa guerra? O exército iraquiano estava derrotado, o caminho para Bagdade aberto. Então porque é que Bush ordenou ao seu exército que parasse?

 

Para resolver esta charada, é preciso saber um pouco mais sobre o país chamado Iraque.

 

É um estado artificial, criado pelos britânicos para os seus próprios fins. Na prática, é quase um conglomerado acidental de três estados diferentes, fundidos num só por um império distante.

 

Esquematicamente, podemos dividir o Iraque em três componentes: norte, centro e sul.

 

No norte estão os curdos, que são diferentes dos árabes de todos os pontos de vista, com a excepção da religião. Têm o seu próprio idioma e a sua própria cultura. A sua pátria deles é o Curdistão, um país arbitrariamente cortado em pedaços e dividido entre o Irão, o Iraque, a Síria e a Turquia. São oprimidos por todos eles. De tempos em tempos rebelam­‑se, uma vez num Estado, outra vez noutro.

 

No Iraque, os curdos constituem algo como um quarto da população. São muçulmanos sunitas e a religião joga um grande papel nas suas vidas. Um dos maiores guerreiros do Islão, Salah-al-Din (Saladim), que libertou Jerusalém dos cruzados, era curdo.

 

Os curdos iraquianos sonham com a independência e a unificação de todo o Curdistão. Quando se levantaram sob Mustafa al-Barzani, o exército israelita enviou oficiais e equipamento para ajudá-los. De momento gozam de alguma autonomia, sob a protecção da força aérea dos EUA, que impede Saddam de se aproximar deles.

 

Se o estado iraquiano se desmoronar, os curdos do norte declararão a sua independência. Isso poderá também avivar a chama do irredentismo curdo na Turquia. Foi por isso que os turcos pediram a Bush pai que parasse a guerra.

 

No sul estão os xiitas. São árabes, de todos os pontos de vista, porém a religião separa­‑os dos seus irmãos do norte e une‑os ao vizinho não-árabe, o Irão.

 

A versão xiita do Islão nasceu no Iraque, onde tiveram lugar os dramáticos eventos do seu início. É lá que os sítios mais sagrados dos xiitas estão localizados. Ali nasceram gerações de eruditos e revolucionários xiitas – incluindo o Aiatolá Komeini, pai do actual Irão.

 

Os xiitas não constituem uma pequena minoria. Constituem algo como metade da população do Iraque.

 

Entre os curdos no norte e os xiitas no sul, estão os árabes sunitas. Formam uma minoria no seu país, mas controlam praticamente tudo. Bagdade é a sua cidade, o exército é o seu exército. Saddam Hussein, que é, evidentemente, um árabe sunita, ocupou muitas das posições chave com gente da sua própria cidade natal, Takrit. (Já que todos eles, como ele mesmo, têm o sobrenome al-Takriti, Saddam proibiu o uso de sobrenomes no Iraque, com o fundamento de que isso é um costume ocidental.)

 

Mesmo os norte­‑americanos admitem que no Iraque não existe uma oposição local digna desse nome. Ao contrário do Afeganistão, onde utilizaram forças locais em seu benefício, não existem no Iraque tais forças para ajudá-los e para manter um Iraque unificado intacto depois da queda de Saddam.

 

Por isso, depois da eliminação do tirano, acontecerá uma de duas coisas:

 

Ou – O Iraque se dividirá em três componentes. No norte, emergirá um estado curdo, no centro um estadinho sunita, e o sul unir­‑se­‑á ao Irão, abrindo-lhe todo o Médio Oriente. O Irão tornar­‑se­‑á o estado dominante da região, ameaçando directamente os estados do Golfo, a Arábia Saudita, a Jordânia, a Síria e o Líbano.

 

Ou ­– O Iraque continuará a existir como um país unificado, mas tornar­‑se­‑á, na realidade, um protectorado iraniano, com os mesmos resultados.

 

Ambos os casos trarão um perigo existencial aos estados árabes. Um reavivado, fanático, fervor fundamentalista os envolverá. É por esse motivo que os governantes árabes entraram em pânico naquela época e gritaram SOS. Bush Pai, que é uma pessoa inteligente (e um antigo chefe da inteligência, para mais), suspendeu a guerra. Mas Bush filho não é conhecido pela sua excepcional inteligência, e os seus conselheiros têm outras agendas. Na realidade, não lhes importa.

 

Mas a nós deveria importar. Do ponto de vista do nosso interesse nacional, isto é um perigo existencial: toda a região pode converter-se num gigantesco Hezbollah.