Informação Alternativa

Médio Oriente

20/04/2002

 

Algo cheira mal

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

Existe plena concordância entre todos aqueles que se encontravam no campo de refugiados de Jenin em  relação a apenas uma coisa. Uma semana depois do fim da luta, os jornalistas estrangeiros e os soldados da IDF, os representantes da ONU e os hacks contratados pela mídia israelita, os membros das organizações de assistência social e os propagandistas do governo, todos eles reportam que um fedor terrível de corpos em decomposição paira em todo o lado.

 

Fora disso, não existe concordância em nada. Os palestinianos falam acerca de um massacre, como os de Sabra e Shatila. A IDF fala de luta árdua, na qual «o exército mais humano do mundo» não causou danos intencionais a um só civil. Os palestinianos falam de centenas de mortos, o Ministro da Defesa afirma categoricamente que exactamente 43 pessoas foram mortas.

 

Então, qual é a verdade? A resposta pura e simples é: ninguém sabe. Ninguém pode saber com certeza.

 

A verdade está enterrada sob os escombros, e exala um cheiro atroz.

 

Mas alguns fatos são incontestáveis. Eles são suficientes para chegarmos a certas conclusões.

 

Primeiro: Durante duas semanas de confrontos, a IDF não permitiu a presença de qualquer jornalista, israelita ou estrangeiro, dentro do campo. Mesmo depois de o confronto diminuir de intensidade, nenhum jornalista teve permissão de entrar. O pretexto foi que a vida dos jornalistas estaria em perigo. Mas esses jornalistas não pediram ao exército os salvassem. Eles estavam preparados para arriscar as suas vidas, que é o que os jornalistas e fotógrafos fazem a cada guerra.

 

O simples senso comum levaria a concluir que se alguém nega forçosamente o acesso a jornalistas, é porque tem algo a esconder.

 

Segundo: Durante os confrontos e depois dos mesmos, as ambulâncias e as equipes de salvamento não tiveram permissão de chegar perto. Os que tentaram aproximar­‑se foram baleados. O resultado foi que os feridos sangraram até morrer nas ruas, mesmo os que tiveram ferimentos relativamente leves. Isto é um crime de guerra, uma “ordem manifestamente ilegal», sobre a qual esvoaça «a bandeira negra da ilegalidade». De acordo com a lei israelita, e mais ainda de acordo com a lei e as convenções internacionais das quais Israel faz parte, os soldados estão proibidos de obedecer a tal ordem.

 

Não faz diferença se civis ou «homens armados», uma pessoa ou centenas delas, tenham morrido nessas circunstâncias. Como método de guerra, é desumano.

 

Alguns jornalistas justificaram este método antecipadamente quando alegaram ter visto «com os seus próprios olhos» ambulâncias palestinas transportando armas. Mesmo que esse incidente tenha ocorrido, ele não justificaria o uso de tais métodos, sob nenhuma circunstância. (Até agora, somente uma ocorrência foi comprovada: esta semana, jornalistas israelitas reportaram, com orgulho, que soldados disfarçados utilizaram uma ambulância para se aproximarem de uma casa onde estava escondida uma «pessoa procurada».)

 

Terceiro: Mesmo depois do fim do confronto, e até agora, não se permitiu que equipamento pesado e equipas de salvamento entrassem para remover os destroços e os cadáveres, ou, talvez, salvar pessoas ainda vivas sob as ruínas.

 

O pretexto foi novamente que os cadáveres poderiam estar minados. E daí? Se as equipas locais e estrangeiras querem arriscar as suas vidas para este nobre propósito, porque é que o exército deveria impedi-los de fazer isso?

 

Quarto: Durante todos os dias do confronto, ninguém teve permissão de trazer medicamentos, água e comida. Eu mesmo participei de uma marcha de activistas da paz israelitas que tentaram, depois do fim da luta, acompanhar um comboio de camiões que transportava esses suprimentos ao campo. Foi permitido aos caminhões, pelo que parece, passar pela barricada que impedia a nossa entrada — mas mais tarde ficou evidente que os suprimentos foram descarregados num campo do exército e que somente quatro deles puderam alcançar o seu destino.

 

O que indica tudo isto? Uma pessoa objectiva poderia apenas concluir que o exército queria prevenir a entrada de testemunhas oculares no campo a qualquer preço. O exército sabia que isso daria lugar a rumores sobre um massacre terrível, mas preferiu isso a revelar a verdade. Se alguém toma medidas tão extremas para esconder algo, depois não se pode queixar sobre os rumores.

 

Qual é o grau de cinismo, quando se bloqueia o livre acesso a um lugar, e depois se argumenta que ninguém tem o direito de dizer o que aconteceu naquele lugar, por não o ter visto com os seus próprios olhos?

 

A evidência mais pungente sobre o que ocorreu é o facto de que imediatamente após o fim da luta, oficias superiores do governo e do exército começaram a discutir sobre os modos de prevenir uma reacção de choque em Israel e no estrangeiro, depois que os factos se tornassem conhecidos. Não se tratou de uma discussão secreta, mas pública, nos talk shows dos mídia. E todos nós ouvimos.

 

As decisões tomadas foram extremamente eficazes em Israel, e extremamente ineficazes no estrangeiro. Eu estava em Inglaterra, quando as notícias finalmente chegaram. Elas encheram as primeiras páginas de todos os mais importantes jornais britânicos. O título da primeira página do Times era “Dentro do Campo da Morte”. Logo abaixo, encontrava-se uma foto gigante e uma reportagem de uma famosa correspondente, a qual escreveu que em todas as guerras que cobriu, como na Bósnia, no Kosovo, na Chechénia e outras, nunca tinha visto um cenário tão terrível como este. Em quase todos os países europeus, a reacção foi a mesma.

 

Em Israel, contudo, a máquina de propaganda do governo, na qual toda a mídia está agora voluntariamente integrada, fez todo o possível para preparar o público com antecedência. De antemão, foi dito que os palestinianos estavam prestes a espalhar uma mentira horrível, que estavam prontos para empilhar corpos mortos (de onde?) nas ruas. Chegou-se quase ao ponto de dizer que os palestinianos tinham rebentado as suas casas com as próprias famílias dentro com o objectivo de criar uma calúnia sangrenta.

 

A IDF efectivamente “limpou” parte do campo, removendo os cadáveres e pondo de algum modo ordem nas ruínas, e foi para lá que jornalistas condescendentes e inocentes visitantes estrangeiros foram levados. Encontraram­‑se com oficiais humanos que lhes asseguraram que não tinha havido nenhum massacre. Afinal, somente uma pequena parte do campo tinha sido destruída, tantas por tantas jardas, nada na realidade. Tudo isso nos faz lembrar dos métodos de certos regimes.

 

O resultado é que, novamente, um grande abismo foi criado entre os israelitas e o resto do mundo. Em todo o mundo, muitas pessoas ficaram horrorizadas que justamente os judeus fossem capazes de fazer coisas como essas. Os judeus confirmaram novamente a sua crença de que todos os goyim são anti­‑semitas.

 

Eu espero que haja uma investigação internacional séria, e que a verdade — seja ela qual for — possa emergir. Mas se mesmo só uma parte dos rumores sobre as atrocidades forem confirmados, uma pergunta será feita: Qual foi a intenção? Porque é que a liderança civil e militar decidiu lidar com o campo de Jenin deste modo?

 

A única resposta que posso avançar é a seguinte: em Jenin, os palestinos decidiram resistir e lutar. A violação de Jenin teve como intenção enviar uma mensagem aos palestinianos. Essa será a sorte de todos aqueles que resistam à IDF. Também, poderia causar uma fuga em massa no estilo de Deir Yassin.

 

Somente um louco acreditaria que isto acabará com a resistência à ocupação.