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24/06/2005 Declaração de abertura em
nome do Júri de Consciência do Tribunal
Mundial sobre o Iraque Arundhati
Roy Esta é a sessão culminante do
Tribunal Mundial sobre o Iraque. É de particular importância que ele esteja a
ser celebrado aqui, na Turquia, país em que os Estados Unidos utilizaram as
bases aéreas para lançar numerosas missões de bombardeamentos com o objectivo
de liquidar as defesas iraquianas, antes que se produzisse a invasão de Março
de 2003; e onde têm buscado e continuam a buscar apoio político do governo
turco, considerado um aliado. Tudo isso foi feito frente à imensa oposição
manifestada pelo povo turco. Como porta‑voz do júri de consciência,
não poderia ficar tranquila se não mencionasse que o governo da Índia também
se posiciona, como o governo da Turquia, como um “aliado” dos Estados Unidos
nas suas políticas económicas e na chamada Guerra contra o Terror. Os testemunhos oferecidos
durante as sessões anteriores do Tribunal Mundial sobre o Iraque, realizadas
em Bruxelas e em Nova York, demonstraram que mesmo aqueles que, entre nós,
tentaram seguir a guerra no Iraque o mais atentamente possível, não pudemos
conhecer nem sequer uma fracção dos horrores que foram cometidos no Iraque. O Júri de Consciência deste
Tribunal não se reuniu aqui para emitir um simples veredicto de culpabilidade
ou não culpabilidade contra os Estados Unidos e seus aliados. Estamos aqui
para examinar um vasto espectro de provas sobre as motivações e as consequências
da invasão e ocupação dos EUA, provas essas que têm sido deliberadamente
marginalizadas ou suprimidas. Cada aspecto da guerra será examinado — a sua
legalidade, o papel das instituições internacionais e das mais importantes
corporações multinacionais na ocupação, o papel dos meios de comunicação, o
impacto das armas usadas, tais como as munições com urânio empobrecido, o
napalm, e as bombas de fragmentação, o uso e a legitimação da tortura, os
impactos ecológicos da guerra, a responsabilidade de governos árabes, o
impacto da ocupação do Iraque sobre a Palestina, e a história das
intervenções militares britânicas e dos EUA no Iraque. Este tribunal é uma
tentativa de corrigir os registros históricos. Para documentar a história da
guerra não do ponto de vista dos vencedores, mas dos temporariamente — e eu
faço questão de repetir temporariamente — vencidos. Antes de começar a reunir os
testemunhos, eu gostaria de responder brevemente tão directamente como possa
a algumas perguntas que têm sido levantadas sobre este tribunal. A primeira é que este
tribunal é uma Corte Canguru. Que representa somente um ponto de vista. Que é
um processo sem uma defesa. Que o veredicto é uma conclusão antecipada. Ora, esse ponto de vista
parece sugerir uma tocante preocupação de que, neste mundo cruel, os pontos
de vista dos governos dos EUA e da chamada Coalizão dos Voluntariosos
encabeçada pelo Presidente George Bush e pelo Primeiro Ministro Tony Blair
ficou, de algum modo, sem representantes. Que o Tribunal Mundial sobre o
Iraque não tem conhecimento dos argumentos em favor da guerra e não está
disposto a considerar o ponto de vista dos invasores. Se na era da mídia corporativa
multinacional e do jornalismo incorporado, alguém puder manter esse ponto de
vista seriamente, então, na verdade, vivemos na Era da Ironia, uma era em que
a sátira perdeu o sentido porque a vida real é mais satírica que tudo o que a
sátira poderia jamais pretender ser. Permitam-me dizer que este
tribunal é a defesa. É um acto de resistência em si mesmo. É uma defesa
montada contra uma das guerras mais covardes jamais empreendidas na História,
uma guerra em que as instituições internacionais foram usadas para forçar um
país a desarmar‑se e, depois, assistiram enquanto era atacado com a
maior gama de armas jamais utilizada em toda a história da guerra. Segundo, este tribunal não é,
de modo algum, uma defesa de Saddam Hussein. Os seus crimes contra os
iraquianos, os curdos, os kwaitianos e outros não podem ser descartados no
processo de lançar luz sobre a tragédia mais recente e ainda em curso no
Iraque. Contudo, não devemos esquecer que enquanto Saddam Hussein cometia os seus
piores crimes, o governo dos EUA o apoiava tanto política quanto
materialmente. Enquanto atacava com gás o povo curdo, o governo dos EUA financiava‑o,
armava‑o e apoiava‑o silenciosamente. Saddam Hussein está a ser
julgado como criminoso de guerra agora mesmo, enquanto falamos. Mas, o que
acontece com aqueles que o ajudaram a instalar‑se no poder, aqueles
que o armaram, aqueles que o apoiaram — e que estão agora a montar um
tribunal para julgá-lo e se absolverem completamente? E quanto aos outros amigos
dos EUA na região que suprimiram os direitos do povo curdo e de outros povos,
incluindo o governo da Turquia? Há pessoas extraordinárias
que reunidas aqui que, em face desta agressão e propaganda incessantes e
brutais, trabalharam arduamente para compilar um amplo espectro de provas e
de informações que possam servir como arma nas mãos daqueles que desejam
participar na resistência contra a ocupação do Iraque. Deveria converter-se
em arma nas mãos dos soldados dos EUA, do Reino Unido, da Itália, da
Austrália, e de todos os outros lugares que não desejam lutar, que não
desejam sacrificar as suas próprias vidas — ou tirar a vida de outros — por
um punhado de mentiras. Deveria tornar‑se uma arma nas mãos dos
jornalistas, escritores, poetas, cantores, professores, encanadores,
motoristas de táxi, mecânicos de automóveis, pintores, advogados — seja quem
for que queira participar na resistência. As provas examinadas neste
tribunal deveriam, por exemplo, ser utilizadas pelo Tribunal Penal
Internacional (cuja jurisdição não é reconhecida pelos Estados Unidos) para
julgar como criminosos de guerra George Bush, Tony Blair, John Howard, Silvio
Berlusconi, e todos aqueles funcionários governamentais, generais do
exército, presidentes e directores executivos de empresas que participaram nesta
guerra e agora lucram com ela. O assalto contra o Iraque é
um assalto contra todos nós: contra a nossa dignidade, a nossa inteligência,
a nossa humanidade, e o nosso futuro. Reconhecemos que a sentença do Tribunal Mundial sobre o Iraque não é uma sentença vinculante para o direito internacional. Contudo, as nossas ambições superam em muito esse facto. O Tribunal Mundial sobre o Iraque coloca a sua confiança nas consciências de milhões de pessoas em todo o mundo que não querem ficar na expectativa e a observar enquanto o povo do Iraque está a ser brutalmente assassinado, subjugado e humilhado. |