Informação Alternativa

Ásia e Pacífico

Setembro 2005

 

Timor­‑Leste, um sucesso

– Testemunho do presidente José Alexandre (Xanana) Gusmão –

 

Le Monde diplomatique

 

Para os pequenos países como Timor Oriental, que passou a chamar-se Timor­‑Leste, a ONU é algo de muito bom. Ali podemos fazer ouvir a nossa voz e defender os nossos interesses da mesma maneira que as grandes potências. Não quero com isto dizer que tenhamos um verdadeiro poder no seio das Nações Unidas, pois o nosso peso é limitado. Mas existimos como nação, o nosso voto conta, e isso é importante. Contudo, a ONU tem um problema de funcionamento: é uma organização pesada, muitas vezes embaraçada na sua acção por uma burocracia esmagadora. No caso da missão de reconstrução de Timor­‑Leste,, foram necessários meses e meses para formar as equipas destinadas a ajudar-nos. A burocracia da ONU não conseguia encontrar as pessoas competentes para este tipo de missão. O resultado foi que entre os quadros e os técnicos encarregados da reconstrução havia quadros de qualidade, mas a maioria ignorava a nossa cultura e os nossos hábitos. Mais ainda, não se preocupavam minimamente com a nossa sensibilidade. Os timorenses sentiram­‑se muitas vezes agredidos por estes estrangeiros que não respeitavam os valores da nossa sociedade. A meu ver, a ONU não os tinha preparado para a sua missão.

 

Não se verificaram confrontos entre o pessoal da Autoridade Transitória das Nações Unidas para Timor­‑Leste (UNTAET) e o povo de Timor-Leste porque actuámos para que isso não pudesse acontecer. Mas a tensão era permanente. Fui obrigado a ir pessoalmente pedir às autoridades onusianas que partissem imediatamente depois da declaração de independência porque pressentia, no fim da missão, que o pior podia acontecer de um momento para o outro. Havia muita frustração, muitos mal-entendidos, o choque cultural era evidente. Por exemplo, muitos vinham ter comigo para se queixarem de que o pessoal da ONU tinha muitos automóveis, que gastava muito dinheiro nos restaurantes e nos bares de Díli, que ocupavam os melhores cargos administrativos e técnicos. Os timorenses tinham sido postos de parte. Não tinham empregos. Os meus compatriotas eram, de facto, espectadores numa encenação financiada pelo dinheiro que os dadores nos tinham querido dar.

 

Impressionou-me também a mesquinhez destes funcionários da ONU. Quando a UNTAET terminou a missão, eles levaram tudo: os automóveis, as motos, os computadores e os aparelhos de comunicação. Chegaram até a tirar à polícia timorense os walkie-talkies usados nas comunicações entre as províncias, comunicações essas particularmente difíceis devido ao relevo montanhoso da ilha. E no entanto todo este material tinha sido comprado com o dinheiro dos doadores. Na realidade, não tenho grande entusiasmo quando me refiro à acção da ONU em Timor­‑Leste. Fez o que podia, mas nem sempre esteve à altura da sua missão.

 

Declarações recolhidas por Any Bourrier em Janeiro de 2005.

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