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14/06/2006 Maryann
Keady * “Novo vizinho, novo desafio”,
um documento emitido pelo Instituto de Política Estratégica Australiano em
2002, sublinha a importância da Austrália para a segurança de Timor Leste.
Também reflecte a importância de Timor Leste para a segurança da Austrália, e
fornece um prisma para ver os últimos desenvolvimentos: «A Austrália tem muito em
jogo no futuro do nosso novo vizinho. Altruisticamente esperamos que o povo
de Timor Leste possa ter um futuro próspero e pacífico. Considerando mais os
interesses próprios, o seu sucesso ou falhanço afectará directamente as
próprias perspectivas da Austrália sobre a segurança. Sérios problemas em Timor
Leste minarão os interesses estratégicos duradoiros da Austrália na
estabilidade da nossa vizinhança próxima.» No momento, o que preocupa a
Austrália são as rotas marítimas e as reserves marítimas de petróleo e de gás
à volta de Timor Leste, bem como a entrada visível de um jogador regional: a
China. Quando o aliado da Austrália,
os Estados Unidos, fizeram da Ásia‑Pacífico a sua prioridade
estratégica máxima no Quadrennial Defence Review de 2001, ficou claro
para todos os analistas de defesa que o “competidor principal” era a China. O recentemente emitido
relatório anual do Pentágono sobre o poder militar da China diz que o reforço
militar da China «já alterou o equilíbrio militar na Ásia-Pacífico e poderia
constituir uma ameaça para as forças armadas regionais». O porta-voz do
Ministério dos Negócios Estrangeiros Chinês, Liu Jianchao, acusou os EUA de
exagerar a força militar da China dizendo que é baseada numa «mentalidade de
Guerra Fria». E uma “Nova Guerra Fria” é
exactamente o que emergiu. Timor Leste é apenas um dos
países da região apanhados no fogo‑cruzado entre dois competidores
estratégicos poderosos: China e os EUA. Infelizmente para Timor Leste, está
na vizinhança de algumas das rotas marítimas mais cruciais do Pacífico –
principalmente os estreitos de Ombai‑Wetar, uma passagem de águas‑profundas
entre os Oceanos Índico e Pacífico, importante para a passagem submarina, que
será um vital ‘ponto de estrangulamento’ marítimo em qualquer conflito
futuro. Políticos e comentadores de
todo o espectro têm sido cândidos acerca do que vêem como dilemas de Timor
Leste em tentar equilibrar-se entre dois gigantes. Da mudança rápida de
aliança da China para Taiwan em Kiribati, ao alvejamento dos habitantes de
etnia chinesa nos distúrbios de Abril em Honiara, o “factor China” está a causar
caos na região. Os locais receiam que as potências hegemónicas regionais – China,
EUA e Austrália – joguem um papel maior nesta instabilidade do que qualquer
desassossego civil orgânico. A imprensa australiana
escolheu ignorar a maior, contenda estratégica até muito recentemente,
permitindo que o governo australiano se “empenhasse” no Pacífico com muito
pouco criticismo ou análise independente. A Austrália continuará a
afirmar-se no Pacífico — e dum ponto de vista de defesa racional, isto parece
perfeitamente aceitável. O que pode ser contestado é a sabedoria de não
interferir antes do conflito, mas somente depois de os chamados “estados
falhados” caírem no caos. Tanto a missão RAMSI nas Ilhas Solomão como a
Operação Astute em Timor Leste reflectem isso. Muitas dessas comunidades do Pacífico
são pequenas, e é fácil encontrar mãos cheias de testemunhas (ou no meu caso,
ser uma testemunha) de agitação que podia ter sido facilmente contida e
tratada. É impossível no caso de Timor Leste compreender como um bando de
jovens desempregados desordeiros protestando contra o seu despedimento das
forças armadas puderam emergir como dois bandos rebeldes (com conselheiros da
ONU e australianos presentes durante a confusão) exigindo a remoção do primeiro‑ministro. Muito tem sido dito na
imprensa australiana sobre as divisões étnicas entre o leste e o oeste de Timor
Leste terem inflamado a violência — uma divisão conveniente se se quer usar o
caos civil como um pretexto para mandar forças militares e deixar o país
debaixo da sua esfera de influência. Mas pouco se ouviu acerca desta ter sido
a terceira vez que forças internacionais falharam em evitar que o povo de Timor
Leste fosse aterrorizado por uma terceira parte. Primeiro, houve o ataque indonésio
em 1999. Em segundo lugar, os distúrbios de 4 de Dezembro de 2002 (que
levaram aos primeiros apelos da imprensa australiana para a demissão de
Alkatiri, imediatamente antes das negociações do petróleo e do gás). E agora,
o caos civil em 2006. Imediatamente depois da
agitação de 2002, entrevistei testemunhas locais bem como o líder da ONU e
das forças australianas acerca de queixas de que nada tinham feito para parar
o caos. Depois de muita investigação, foi-me dito que um representante da ONU
foi “não‑oficialmente” ao gabinete do primeiro‑ministro
Alkatiri pedir-lhe para se demitir, uma resposta interessante a distúrbios
civis – e uma que faz uma anedota dos pretensos e apolíticos esforços
humanitários da ONU. Desta vez, a ONU disse que
enviará Ian Martin (que foi o Representante Especial da ONU em 1999 quando o
pessoal internacional foi evacuado, deixando os timorenses orientais nas mãos
dos militares indonésios). A questão que não tem sido respondida é como é que
a situação pôde ter escalado até aqui? Irão os timorenses orientais outra vez
ouvir palavras vazias dos burocratas acerca de “limitações” para “assegurar a
sua segurança”? A grande questão é
evidentemente se a Austrália escolhe permitir que Timor Leste caia na
anarquia ao estilo das ilhas Salomão, possibilitando assim que as suas tropas
sejam depois destacadas para este local estratégico. Richard Woolcott, que foi o embaixador
australiano em Jakarta na altura da invasão de Timor Leste em 1975, disse
recentemente na ABC Radio que um membro sénior da administração Bush lhe
contou em 2000, que “Timor será o vosso Haiti”. Muito tem sido escrito acerca
do Haiti e da demonização pelos media americananos do presidente Jean‑Bertrand
Aristide em 2004. A Austrália embarcou numa campanha similar contra Alkatiri.
A imprensa americana chamou a Aristide e ao seu Partido esquerdistas
não-reconstruídos cujo modelo era a Revolução Cultural Chinesa. Alkatiri é acusado
de ser um “marxista moçambicano” – e o seu partido Fretilin “comunista” –
apesar do seu modelo ser mais o do primeiro‑ministro da Malásia,
Mahathir bin Mohamad do que de outros. No Haiti, a oposição teve o
apoio do International Republican Institute (IRI) apoiado pelo governo dos EUA.
O papel dos EUA em Timor Leste não é menos interessante. O IRI, o National
Endowment for Democracy e o National Democratic Institute, criaram todos eles
programas de “democracia” que financiam a oposição local em Timor Leste – a
mesma oposição que tem boas relações com a Austrália. A Igreja Católica, um corpo
influente em Timor Leste, também tem estado por detrás da campanha anti‑Alkatiri.
Os seus protestos em 2005 contra as tentativas de Alkatiri para tornar não‑obrigatória
a instrução religiosa foram uma indicação perigosa de quão poderosas essas
forças se tornaram [1]. O comentário de Richard
Woolcott sobre o Haiti chegou ao mesmo tempo que relatos de testemunhas de
tropas australianas a falharem em assegurar a segurança dos locais e inflamou
acusações de que a Austrália é um actor importante no caos. Fontes locais dizem
que chegaram dois aviões com pessoal australiano em roupas não‑civis antes
do pedido de ajuda à Austrália. Conselheiros australianos foram vistos
encontrando‑se com rebeldes e os seus conselheiros locais. Estas acusações
requerem mais investigação se se quiser dissipar a suspeita do envolvimento australiano. Enquanto que muitos timorenses
orientais compreendem as preocupações de defesa da Austrália na Ásia‑Pacífico,
preocupa-os também que a “defesa da Defesa” permitirá à Austrália dominar
esses pequenos países — no caso de Timor Leste, um país com substanciais
reservas de petróleo e de gás que foram o foco de difíceis e prolongadas
negociações bilaterais. Em 7 de Maio, Mari Alkatiri
chamou ao recente desassossego um «golpe» — dizendo que «os estrangeiros
estavam a vir para controlar e dividir Timor Leste outra vez» com «conselheiros
estrangeiros a reunir‑se com políticos e a irem às montanhas» para se encontrarem
com os rebeldes. Ele acusou os media australianos de espalharem rumores de
que ele já não era primeiro‑ministro. Numa entrevista comigo na semana
passada, ele reiterou outra vez que não havia dúvidas de que forças «no
interior e no exterior» de Timor Leste estavam por detrás da agitação, e que
ninguém o ia forçar a demitir-se com métodos violentos. Ele afirmou que 200.000
pessoas o apoiariam nas ruas. Desde 2002, a retórica de
Alkatiri tem sido “eles que tentem” e “não sem o consentimento da Fretilin”.
Em entrevistas, ministros do seu governo têm declarado abertamente que outros
países “querem levantar uma outra bandeira sobre esta nação”. A implicação
tem sido sempre dirigida à Austrália. Mas quando funcionários dos EUA
começaram a encontrar-se com funcionários judiciários de Timor Leste em 2003,
ficou claro que maiores esforços internacionais estavam a caminho. O primeiro‑ministro
disse na altura que os funcionários judiciários estavam a interferir «politicamente»
no país. Privadamente, funcionários de Alkatiri declararam no mês passado: «eles
tentaram os protestos da Igreja, agora estão a tentar desalojá‑lo via
Fretilin. Não vai resultar. Eles não compreendem este país». Os media australianos não
fizeram segredo do que acreditavam devia acontecer em Timor Leste — em
editoriais e em comentários tanto na imprensa como na rádio e televisão
pediram a demissão de Alkatiri. Contudo pouco se ouviu da imprensa ou dos
apoiantes dos “direitos humanos” de Timor Leste sobre as consequências de
desalojarem Alkatiri inconstitucionalmente. No interior de Timor Leste,
as pessoas estão cientes dos jogos políticas que estão a ser jogados, e o presidente
Xanana Gusmão é visto como “o homem da Austrália”. Se Alkatiri for desalojado
através de meios violentos, Gusmão ficará com a indesejável herança de ter
expulsado inconstitucionalmente o primeiro líder de Timor Leste, com o apoio
tácito da Austrália. Isso seria um desastre para Timor
Leste, porque se poderia seguir uma guerra política do tipo da do Haiti. Timor
Leste então tornar-se-ia verdadeiramente parte do “arco de instabilidade”, um
rótulo conveniente para líderes políticos internacionais que esconde a
devastação do sofrimento local. Se a luta actual de Timor Leste faz parte das políticas da Nova Guerra Fria, então os povos da Ásia‑Pacífico têm muito a recear — e Canberra tem muito para responder. ______ * Maryann Keady é uma jornalista e produtora de rádio australiana que tem feito a cobertura de Timor Leste para a ABC e a SBS e que regressou recentemente de Dili. Ela está actualmente no Instituto Weatherhead da Universidade de Columbia ocupando‑se da política externa dos EUA e da China. O seu primeiro livro de entrevistas, China conversations, será publicado em 2007. [1] Miriam Lyons, Rumour and reality in East Timor. New Matilda, 18/05/2005. |