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31/05/2006 Maryann Keady * Há três anos, escrevi uma
peça sobre as tentativas de correr com o PM Mari Alkatiri em Timor Leste, então
uma nova nação independente que porfiava. Escrevi que acreditava que os USA e
a Austrália estavam determinados a correr com o líder timorense, devido à sua
posição dura sobre o petróleo e o gás, a sua determinação em não aceitar
empréstimos internacionais, e o desejo deles de verem tomar o poder o
Presidente Xanana Gusmão, amigo da Austrália. Três anos mais tarde, infelizmente
tenho que dizer que os eventos que previ estão actualmente a tomar forma. Os
media patrióticos da Austrália, que sem se interrogarem tomam o partido de
qualquer parte da agenda do Pacífico de John Howard – incluindo a excursão às
Ilhas Solomon – apregoam agora a queda de Alkatiri, um homem que
corajosamente desafiou as reivindicações da Austrália sobre o seu petróleo e
gás, [com] muitos dos editores de questões internacionais dos jornais
claramente mais em sintonia com as exortações do Departamento de Negócios
Estrangeiros e Comércio da Austrália do que com os sentimentos dos timorenses. Cheguei a Dili precisamente quando
rebentaram os primeiros distúrbios em 28 de Abril deste ano – e como
testemunhei da frente do desassossego, os muito jovens soldados pareciam ter
ajuda do exterior – crendo‑se serem políticos locais e “do exterior”.
A maioria dos observadores citaram a capacidade dos soldados dissidentes de
passar de grupo vocal desarmado a um com centenas brandindo paus e armas, o
que levantou a locais suspeitas de que isto não era um protesto “orgânico”. Entrevistei
muita gente – desde fontes internas da Fretlin, a políticos da oposição e jornalistas
locais – e nem um único descartou o facto que os distúrbios tinham sido
feitos reféns de “outros” propósitos. O próprio primeiro-ministro o afirmou.
Num discurso em 7 de Maio, chamou-lhe um golpe – e disse que “estrangeiros e pessoas
do exterior” estavam a tentar mais uma vez dividir a nação. Eu relatei isso
para a ABC Radio – e perguntaram-se se tinha a tradução errada. Expliquei
pacientemente que não – tínhamos revisto com cuidado o discurso palavra por
palavra, e qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento da política timorense
perceberia que era isso precisamente o que o primeiro‑ministro queria
dizer. Mais nenhum media se preocupou em ir ao evento – os media australianos
preferindo ir ter com os soldados rebeldes ou com os diplomatas australianos
que querem Alkatiri “fora”. Desde a sua eleição, Alkatiri
tinha deixado de lado a figura mais importante na política timorense – o presidente
Xanana Gusmão – e a tensão entre os dois tornou-se imediatamente evidente.
Alkatiri tem uma visão diferente de Gusmão sobre como deve ocorrer o
desenvolvimento do país – devagar, sem “os ricos a encherem‑se à porta
fechada” foi o modo como mo descreveu, com uma estrutura sólida de
desenvolvimento para desenvolver uma nação verdadeiramente independente. A
sua habilidade em defender os interesses de Timor no petróleo e no gás,
contra os interesses agressivos da Austrália e de negociantes poderosos, e a
sua criação de um Fundo do Petróleo para proteger o dinheiro do petróleo de
Timor de uma futura corrupção, nunca estiveram de acordo com a caricatura de
um “ditador corrupto” criada pelos seus detractores australianos e americanos. A campanha para expulsar Alkatiri
começou no mínimo há quatro anos – lembro-me da data depois de um oficial americano
ter começado a deixar escapar boatos sobre a corrupção de Alkatiri, quando eu
trabalhava como freelancer para a ABC Radio. Investiguei essas alegações
– e não encontrei nada – mas fiquei mais preocupada com o tom das críticas
feitas por responsáveis americanos e australianos que sugeriam claramente que
queriam ver‑se livres deste primeiro-ministro “criador de problemas”. Como
Somare, ele não estava a fazer as coisas à maneira deles. Depois de ter
entrevistado os principais líderes políticos, era claro que muitos não
parariam diante de nada para se livrarem do primeiro-ministro de Timor Leste.
O presidente Xanana Gusmão, há três anos atrás, não descartou a possibilidade
de dissolver o parlamento e de formar um “governo de unidade nacional”. Gusmão e os seus apoiantes
(incluindo José Ramos-Horta) chamaram em privado a Alkatiri “comunista
angolano” com a sua ideia de desenvolvimento em ritmo lento com o qual nem Gusmão
nem os seus apoiantes australianos concordam. Para além disso, é difícil
compreender porque é que o presidente Gusmão autorizaria forças a removerem
inconstitucionalmente este primeiro-ministro. Em Timor, muitos criticam Gusmão,
por discordar do primeiro-ministro sobre o despedimento dos soldados (devia
ter sido resolvido em privado) enquanto outros o vêem como o arquitecto de
todo o fiasco, [tendo] a sua frustração com os limites políticos do seu cargo
permitido ser convencido pelos seus conselheiros australianos a embarcar num
desnecessário golpe sangrento. Nos últimos dias temos ouvido jovens escritores timorenses que estão actualmente no Festival de Escritores em Sydney. Eles têm uma visão diferente da dos media australianos sobre o que está a acontecer em Timor. Considere esta citação de um jovem escritor: «… é suspeito e questionável. É difícil analisar porque é que a Austrália quer ir para lá. Penso que é guiada mais por preocupações sobre a segurança económica da Austrália, incluindo o petróleo debaixo do mar, do que por preocupações com o povo de Timor Leste. Receio que tem menos a ver com a segurança de Timor Leste do que com os interesses e segurança da Austrália». Gil Gutteres, o líder da Associação de Jornalistas de Timor, TILJA, disse igualmente no mês passado que medos do comunismo, ao velho estilo, e os interesses económicos da Austrália moviam a campanha anti-Alkatiri e estavam por detrás da violência. De facto, não há ninguém em Timor que não entenda que isto é sobre grandes políticas – ajudadas por figuras internas que querem controlar o bolo do petróleo e do gás. E contudo a imprensa australiana está cheias dos “nossos rapazes” que nos trazem orgulho. Isto não condiz com o sentimento no terreno, nem responde à questão de onde é que as forças rebeldes podiam receber apoio para esta mal amanhada campanha que levou a que tantos timorenses estejam assustados, inquietos e sem casa. Ainda esta noite, testemunhas falavam de tropas australianas presentes enquanto a milícia disparava contra uma igreja em Belide. Durante a violência inicial, nem um soldado da ONU interveio para parar os pequenos bandos de desordeiros, e as recentes acções das tropas australianas juntam petróleo à especulação de que estão a deixar Timor arder. Alkatiri, pela sua parte
recusa-se a sair, dizendo que somente a Fretilin, o seu partido, lhe pode
pedir para se demitir. Se ele sair, os timorenses têm que agradecer aos media
australianos pelo seu inquestionável apoio a este golpe. Talvez possam
explicar aos esfomeados cidadãos (que já foram ignorados pela Austrália
durante 25 anos) porque é que a Austrália agora controla o seu petróleo e o
seu gás. Mais importante ainda, os políticos de Timor que são parte da
violência terão que explicar ao povo o seu envolvimento neste último capítulo
da sua história traumática. ______ * Maryann Keady é uma jornalista e produtora de rádio australiana que tem informado de Dili desde 2002. Ela é actualmente uma associada profissional do Instituto Weatherhead da Universidade de Columbia ocupando‑se da política externa dos EUA e da China. |