Informação Alternativa

Ásia

29/04/2005

 

Triste espectáculo em Timor Leste

 

Padre Mário de Oliveira

 

Timor. Não me tenho pronunciado sobre o triste espectáculo que os dois bispos da Igreja católica que está em Timor Leste persistem em dar ao seu povo e ao mundo. Sempre pensei que rapidamente imperasse o bom senso e que o diferendo que ambos mantêm com o Governo legítimo do país, formado, como se sabe, a partir de eleições livres, fosse ultrapassado. Mas não. Com o correr dos dias, o caso tem-se agravado e o escândalo acabou por adquirir contornos impensáveis. O Governo decidiu, e muito bem, que, a partir de agora, as aulas de Religião e Moral nas escolas públicas do país passassem da situação de inscrição obrigatória, como até aqui, à situação de inscrição facultativa. Nem sequer se atreveu a acabar de vez com as aulas de Religião e Moral. Apenas que essas aulas passem a ser frequentadas por aqueles alunos, raparigas e rapazes, que se mostrem interessados em frequentá-las, mediante inscrição nesse sentido, no início de cada ano. O Governo poderia ter acabado de vez com essas aulas, enquanto aulas de Religião e Moral católicas. Como Governo de um Estado não confessional que é, estava no seu pleno direito. Mas não foi isso que deliberou. Limitou-se a retirar o carácter de obrigatoriedade àquela disciplina. E os dois Bispos católicos, perante esta decisão constitucional, parece terem ficado possessos e passaram a dizer cobras e lagartos contra o Governo, particularmente, contra o primeiro ministro. Será que não toleram que Mário Alkatiri seja muçulmano, isto é, não seja católico romano como eles? Mas os dois bispos não fazem a coisa por menos: exigem a cabeça do primeiro ministro! Fazem lembrar a concubina de Herodes, no tempo e país de Jesus, que também exigiu do rei a cabeça de João Baptista. Num prato, pois então. Como quem o quer devorar numa mesa de ódio. Aqui, ódio episcopal, católico, romano.

 

O pior é que os dois bispos são como dois generais poderosos, na sua relação com as populações timorenses, de formação católica romana (que colonialismo ocidental mais rançoso!...), mas de um tipo de catolicismo católico romano, o mais sinistro, como é o nosso bem conhecido catolicismo da senhora de Fátima (vejam só! Senhora de Fátima em Timor Leste, a tantos milhares de quilómetros!...). E não é que muitas das populações timorenses, arregimentadas pelos seus dois poderosos bispos, deixaram as suas casas, passaram pelos templos das suas paróquias, arrancaram as imagens dos respectivos altares e avançaram com elas para uma concentração na cidade de Dilli, até que o Governo recue na sua decisão, mais, se demita em bloco, ou, pelo menos, faça rolar a cabeça do primeiro ministro que não tem vergonha de ser muçulmano num país de esmagadora maioria católica romana? E ali estão elas, dia e noite, na companhia das toscas imagens da sua devoção. Ao que dizem, não arredam pé, enquanto não levarem a delas avante! Ao mesmo tempo, nas suas respectivas casas episcopais, os dois bispos não só não cedem um milímetro nas suas reivindicações, junto do Governo, como até fazem subir a parada, cada dia que passa. Têm as populações como escudo e como exército. E as imagens da mítica senhora de Fátima e quejandas como amuleto. E não é que até o presidente da República de Timor Leste, o querido Xanana Gusmão, quando, ao fim de alguns dias deste degradante espectáculo, decidiu aparecer junto dos manifestantes, para apelar ao bom senso, começou, ele próprio, por prestar vassalagem pública às imagens, como se elas fossem mais do que as pessoas de carne e osso que carregaram com elas para aquele loca!?

 

Eu vejo estas cenas e oiço os relatos da comunicação social e pasmo. Afinal, em que século estamos? Em que milénio? Dois mil anos depois de Jesus, o ser humano mais ilustrado e mais lúcido e mais ser humano da História, ainda há populações no mundo que se comportam assim, nos seus antípodas, que têm manifestações de humanidade tão rascas como estas? Que tipo de Missão é que promoveram outrora por aquelas paragens os missionários católicos? Quando era suposto que tivessem ido promover culturalmente as pessoas, foram arrastá-las para o obscurantismo mais rasca? Quando até Xanana Gusmão se presta publicamente a gestos como os que as televisões nos mostraram, o que andámos a fazer no passado e continuamos a fazer no presente, por aquelas paragens, em nome do Evangelho de Jesus? Um catolicismo que degrada assim as populações e as faz protagonizar manifestações deste jaez, não é uma instituição lesa-humanidade? Não tem que ser denunciado e combatido? Não é mais do que um simples caso de polícia? E podemos ficar indiferentes e encolher os ombros, como se não fosse crime o que um catolicismo assim está a fazer às populações de Timor Leste?

 

Os dois bispos católicos deveriam ter sido os primeiros a sugerir e até a exigir do Governo de Timor Leste que retirasse do currículo das escolas públicas o ensino da Religião e da Moral católicas. As escolas públicas não têm que ser um prolongamento das igrejas paroquiais e das suas catequeses. Escolas públicas são escolas públicas. Igrejas paroquiais são igrejas paroquiais. Assim é que deve ser entre seres humanos lúcidos e ilustrados e evangelizados. E para que sejam assim as coisas é que existem Igrejas que se arrogam do nome de Jesus, o de Nazaré. As Igrejas de Jesus não são para sacralizar, confessionalizar as sociedades, mas para as des-sacralizar, secularizar e desconfessionalizar cada vez mais.

 

Pelos vistos, em Timor Leste, quem está a comportar-se mais ao jeito de Jesus não é a Igreja católica que se reivindica do seu nome, mas o Governo de Mário Alkatiri. O muçulmano que preside ao Governo está a revelar-se mais jesuânico, do que os dois bispos católicos romanos. Aonde levam os fanatismos católicos! Aonde leva o obscurantismo! Em lugar de serem o sal da terra e a luz do mundo entre as populações de Timor Leste, os dois bispos católicos romanos de Timor Leste estão a revelar-se mais obscurantistas que as próprias populações. Tivessem eles saudado com alegria a decisão do Governo de retirar o carácter de obrigatoriedade à disciplina de Religião e Moral nas escolas públicas (a única decisão que respeita a liberdade das pessoas) e as populações de Timor Leste certamente nunca teriam avançado para este tipo de manifestação. Nunca se teriam sujeitado a esta vergonha internacional.

 

Infelizmente, os dois bispos católicos romanos de Timor Leste não passam de outros tantos guias cegos, que as populações, na sua cegueira, continuam a olhar como guias lúcidos. Felizmente, este equívoco não se prolongará por muito mais tempo. As novas gerações de Timor Leste nunca mais esquecerão este episódio e o que ele revelou de caciquismo por parte da Igreja católica romana, no seu país. Por isso, nem que por agora a decisão do Governo venha a ficar congelada – oxalá não seja este o desfecho, porque será desastroso sobretudo para a Igreja católica que está em Timor – o dia de amanhã naquele país da Ásia nunca mais será como o de ontem e o de hoje.

 

Basta de imperialismo católico romano em Timor Leste e em qualquer nação do mundo. Eu sempre disse, na altura, da independência, que não bastava às timorenses, aos timorenses terem combatido o imperialismo e o colonialismo da Indonésia. Havia que libertar-se também do colonialismo e do imperialismo católico romano. Mas a verdade é que o colonialismo e o imperialismo católico romano ficaram incólumes até hoje. Na altura da luta pela autonomia e independência da Indonésia, o catolicismo católico romano até pareceu ser um forte aliado do povo de Timor. Mas era inimigo. Interessava-lhe expulsar o imperialismo da Indonésia para ficar ele a reinar sozinho. Com o seu moralismo e o seu obscurantismo rascas. Se dúvidas houvesse, ainda hoje, este incidente veio dissipá-las por completo. Constitui, por isso, uma impressionante revelação, um verdadeiro apocalipse.

 

Abram, pois, os olhos, populações de Timor Leste! Quando vos dão imagens de senhoras de Fátima e quejandas, em lugar de vos darem Jesus e o seu Evangelho de libertação para a liberdade, que “puxarão” por vós para que sejais protagonistas da vossa própria vida e da vida do vosso país, estão a matar-vos, a roubar-vos e a destruir-vos, mesmo que se disfarcem de vossos amigos e de vossos benfeitores. Não se deixem iludir. Está visto que os dois bispos católicos romanos que estão aí no meio de vocês, vestem de cordeiro, mas são lobos rapaces. Resistam-lhes. Para garantirem futuro ao vosso presente e ao vosso passado. Cuidem das vossas vidas e do vosso país. Deixem as imagens entregues a elas próprias. Se elas não são capazes de cuidar delas próprias, como é que poderão cuidar de vocês? Procedam assim, ou acabareis numa opressão pior do que a que o regime indonésio vos impôs no passado e contra a qual lutastes com tanta determinação e tanto sangue derramado.

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