Informação Alternativa

Ásia

10/03/2005

 

Denunciar a fome é crime em Timor Leste

 

Sonny Inbaraj

IPS/Envolverde

 

A liberdade de imprensa está sob fogo no país mais novo do mundo, Timor Leste, cujo governo persegue um jornal que denunciou mortes por causa da fome. O jornal, Suara Timor Lorosae, informou este mês sobre uma crise alimentar que afecta milhares de pessoas nos distritos de Los Palos, Suai, Ainaro e Manufahi, e afirmou que somente em uma aldeia de Ainaro morreram de fome pelo menos 50 pessoas. O governo respondeu proibindo a presença dos jornalistas do diário nas conferências de imprensa oficiais, retirando a sua publicidade do jornal e ordenando o despejo da sua redacção. Isso poucos meses depois de ter deportado um jornalista australiano, o qual acusou de “subversivo”.

 

Embora a escassez de alimentos não seja incomum neste país sudoeste da Ásia, especialmente em períodos de seca, este ano o governo de Mari Alkatiri foi acusado de deixar à própria sorte aldeias situadas em zonas mais distantes dos centros urbanos. A notícia sobre a fome publicada pelo Suara Timor Lorosae, conhecido popularmente pelas suas siglas STL, apareceu no meio de fortes críticas à gestão do primeiro­‑ministro. O bispo de Dili, Alberto Ricardo da Silva, afirmou que o país sofre devido à corrupção e falta de transparência do governo, e o prémio Nobel da Paz Carlos Ximenes Belo expressou publicamente a sua preocupação pelos problemas de alimentação.

 

Alkatiri reagiu na semana passada ordenando a todos os organismos governamentais que boicotassem o Suara Timor Lorosae. Também retirou toda a publicidade estatal do jornal e proibiu a presença dos seus jornalistas nas conferências de imprensa oficiais. Além disso, o presidente incitou a população a deixar de comprar o diário. «Temos direito a manter relações com a imprensa séria e independente e não com propagandistas sem objectividade alguma», afirmou Alkatiri, citado pela agência de notícias portuguesa Lusa. Mais de 50 jornalistas assinaram na quarta-feira uma petição na qual afirmam que o primeiro-ministro violou normas constitucionais que garantem a liberdade de imprensa.

 

«Estamos decepcionados pelas acções do primeiro-ministro. O que se faz contra o STL é contrário à Constituição», disse à IPS o jornalista José Antonio Belo em conversa por telefone. «Devemos estar unidos e não fazer concessões quando se trata de dizer a verdade. Oferecemos a nossa solidariedade aos nossos colegas nestes tempos difíceis», acrescentou. Timor Leste foi colónia de Portugal durante quatro séculos, depois da retirada dos portugueses, o exército indonésio invadiu o seu território em Dezembro de 1975, tendo início uma cruenta ocupação que deixou 220 mil mortos, equivalentes a um terço da população daquele ano. Em Agosto de 1999, a esmagadora maioria dos timorenses pronunciou­‑se a favor da sua independência da Indonésia, através de um referendo.

 

No dia 30 de Agosto de 2001, Timor Leste realizou as suas primeiras eleições livres e democráticas, e no dia 20 de Maio de 2002 iniciou o seu caminho independente, como o país mais pobre da Ásia e o sexto mais pobre do mundo. A renda per capita, o analfabetismo e os indicadores de saúde situam-se entre os piores do mundo. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) indicou que a renda anual por habitante nesse país de 800 mil pessoas chega a apenas 478 dólares. As informações publicadas pelo STL que motivaram o descontentamento do governo foram verificadas por organizações não­‑governamentais. Manuela Pereira, do Fórum de Comunicação das Mulheres de Timor Leste (Fokupers), assegurou que a fome é um assunto candente nesse país.

 

Em Suai, distrito que fica cerca de 300 quilómetros a sudeste de Dili, Manuela viu sinais evidentes de crise alimentar, segundo informou à IPS. «Estão tão desesperados por comida que são obrigados a vender as suas casas a preços irrisórios, às vezes por 120 dólares, para comprar arroz», afirmou. A hostilidade do governo contra o STL também chamou a atenção da organização internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que advertiu Alkatiri da sua sede em Paris que «o boicote e as ameaças contra publicações privadas são métodos indignos de um governo democrático. Pedimos urgência ao governo para pôr fim a todas as restrições impostas contra o Suara Timor Lorosae», acrescentou a RSF.

 

Enquanto isso, a Aliança da Imprensa do Sudeste Asiático (Seapa) informou que o primeiro­‑ministro Alkatiri também tenta tirar o jornal de onde está instalado. O governamental Departamento de Terras e Propriedades ordenou ao STL abandonar a sua redacção em Dili no prazo de 60 dias, informou o órgão. O presidente da Associação de Jornalistas de Timor Leste, Virgilio da Silva Guterres, disse à Seapa que a sua organização investigará se a ordem de despejo constituir, na realidade, uma manobra encoberta para reprimir a liberdade de imprensa. O desdém em relação aos meios de comunicação por parte de Alkatiri ficou evidente em Maio, quando expulsou do país o jornalista free­lance australiano Julian King, que foi detido por dois dias na delegacia central de Dili. As autoridades afirmaram que King tinha armas em sua casa.

 

Na revista da sua casa, a polícia apreendeu diversos arquivos, incluído um relatório da ONU sobre corrupção em Timor Leste. Depois, as autoridades disseram a King que os seus documentos não estavam em ordem e ameaçaram processá-lo por «posse de armas» e «subversão». Alkatiri também o acusou publicamente de participar de uma tentativa de incendiar a residência do chefe de governo em Dezembro de 2002. «Ele não é um jornalista», afirmou. Porém, um tribunal de Dili absolveu­‑o das acusações policiais e determinou a devolução do seu passaporte. Pouco depois, foi deportado para a Austrália.

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