Informação Alternativa

Ásia

22/09/2005

 

Neoliberais avançam no Japão

 

Carlos Katayama

Brasil de Fato

 

O que parecia ser uma vitória fácil do principal partido de oposição – o Partido Democrático (PD) – acabou revertendo­‑se numa das mais extraordinárias vitórias do Partido Liberal Democrático (PLD) nos últimos 15 anos da política japonesa.

 

No dia 11, o PLD, partido do primeiro-ministro, Junichiro Koizumi – pronuncia-se Junitiro –, conquistou 296 das 480 cadeiras da Câmara Baixa (algo como a nossa Câmara dos Deputados). Segundo os analistas, o resultado deu­‑se mais pela incompetência da oposição em politizar a campanha do que pela aceitação da proposta de reformas apresentadas por Koizumi.

 

O PLD centrou todos os debates pré-eleitorais na proposta da privatização dos Correios, uma das principais bandeiras das reformas neoliberais do seu governo. A medida envolve a cifra de 3,3 biliões de dólares em fundos e ofuscou da pauta eleitoral questões essenciais para o país, como a presença das tropas japonesas no Iraque em apoio aos Estados Unidos.

 

CORREIOS

 

Mesmo com avisos espalhados em estações de combóio, nas paragens de autocarro e em alerta vermelho antiterrorista, o tema não recebeu a atenção que devia da grande imprensa japonesa. O barões da mídia preferiram ressaltar o carisma do primeiro-ministro, ignorando por exemplo o debate sobre a redução do número dos sem­‑tecto que estão cada vez em maior quantidade nos parques e nas margens dos rios da capital japonesa, Tóquio.

 

Com o argumento de que a medida reverteria os pífios resultados da economia – o índice de desemprego está na casa dos 4,4% –, Koizumi resolveu apresentar o projecto de privatização dos Correios à Câmara Alta – instância política equivalente ao Senado brasileiro, mas com menos poderes que a Câmara dos Deputados ou a Câmara Baixa. Os senadores, no entanto, rejeitaram o pedido. O primeiro-ministro, então, fez uso de um dispositivo constitucional e resolveu convocar eleições na Câmara Baixa antes de passar o projecto para a aprovação na Casa.

 

A proposta de privatizar os Correios e dissolver a Câmara Baixa levou duas facções do partido do primeiro­‑ministro a abandonarem a legenda, criando o Novo Partido Popular às vésperas das eleições. De nada adiantou. As demais facções renderam­‑se à facção Mori à qual pertence Koizumi e os principais caciques do PLD. O partido permaneceu unido perdendo somente três deputados para as novas facções.

 

Na televisão, o governo apostou na despolitização dos mais jovens, colocando o goleador da selecção japonesa de futebol e uma famosa e jovem actriz como garoto e garota propaganda do voto no PLD. Cerca de 24% dos votos recebidos pela coalizão governamenta saíram dos eleitores na faixa dos 20 anos de idade. A maioria apoiava uma privatização da qual não sabe o significado.

 

Mas foi na oposição que o PLD teve o seu maior aliado. Sem conseguir contrapor­‑se no debate público à privatização dos Correios, o PD não soube aproveitar a oportunidade da crise para mostrar à população que as reformas de Koizumi não eram solução para a tímida recuperação económica.

 

A proposta que os democratas apresentavam como alternativa era a privatização de apenas parte dos 3,3 biliões de dólares de fundos dos Correios, principalmente as grandes contas, mantendo as pequenas agências espalhadas pelo país – onde os pequenos lavradores depositam as suas aposentadorias e ganhos – nas mãos do Estado. Já o Partido Comunista Japonês (PCJ) e o Partido Democrático Social (PDS) não perderam cadeiras, mas não obtiveram nenhum crescimento significativo.

 

QUESTÕES CENTRAIS FICARAM FORA DO DEBATE

 

O argumento usado pelo primeiro-ministro, Junichiro Koizumi, para defender a privatização dos Correios é de que essa medida resolverá os problemas económicos do país. Só para refrescar a memória dos brasileiros, esse mesmo expediente foi usado pelo governo de Fernando Henrique Cardoso para vender as estatais brasileiras. As empresas foram transferidas para os empresários e grupos estrangeiros, mas ocorre que a prometida época da bonança acabou não surgindo. Pelo menos para o povo. Uma das questões centrais da sociedade japonesa é a profunda crise da Previdência que ameaça paralisar a economia nos próximos 25 anos. Por volta do ano 2025, 25% da população estará com mais de 65 anos – facto que vai impactar o sistema previdenciário do país, reduzindo a população economicamente activa. Os dois factores combinados significam mais gente recebendo os benefícios e menos gente no mercado de trabalho contribuindo. Mesmo sabendo disso, o governo não toma nenhuma medida para reanimar os índices de natalidade, que há anos estão negativos. Com impostos cada vez mais pesados, longas jornadas de trabalho e custo de vida cada vez mais alto, os jovens japoneses evitam ter filhos, temendo mais compromissos num futuro próximo que promete ser de grandes dificuldades. Durante a campanha, Koizumi insistiu na tese de que a privatização dos Correios injectaria 3,3 biliões de dólares na economia. Assim, conseguiu desviar as atenções da crise da Previdência, da presença japonesa no Iraque, da crescente queda da taxa de nascimento, dos escândalos de corrupção envolvendo parte da cúpula do Partido Liberal Democrático (PLD) e dos tímidos resultados da economia japonesa, a segunda maior economia do planeta.

 

INDICADORES

 

Enquanto o governo aponta para os pequenos resultados da economia, os índices sociais estão a ser encobertos, como o crescimento do número de suicídios por problemas económicos e da violência entre os jovens, sem falar no crescimento da população sem-tecto. Agora, nessa fase pós-eleições, Koizumi começa a reunir o Comité que vai dirigir a privatização dos Correios e decidir para onde vão os 3,3 biliões de dólares arrecadados. Provavelmente, esses recursos vão parar às mãos das empreteiras, aquecendo o mercado da construção civil, já que o montante não é suficiente para aquecer definitivamente a economia japonesa.

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