Informação Alternativa

Ásia

25/05/2004

 

1965: A Indonésia, laboratório da contra­‑insurreição

 

Paul Labarique

Réseau Voltaire

 

Para derrubar o presidente indonésio Sukarno que se tinha aliado aos comunistas, os Estados Unidos experimentaram pela primeira vez em grande escala a estratégia da tensão e a guerra de contra­‑insurreição, em 1965. A CIA subvencionou ao mesmo tempo guerrilheiros [maquis] separatistas e o exército que os combatia. Seguidamente pôs em cena uma falsa conspiração para justificar a eliminação dos apoiantes do presidente por uma junta militar. Tendo desestabilizado o país, Washington provocou uma guerra civil no curso da qual mobilizou a população para assassinar 500.000 a um milhão de simpatizantes comunistas.

 

Antiga colónia holandesa, a Indonésia proclamou a sua independência no dia seguinte à Segunda Guerra Mundial. Ahmed Sukarno, grande líder nacionalista da luta pela independência, e Mohammed Hatta tornaram-se então respectivamente presidente e vice­‑presidente. Mas o país, que possuía a primeira mina de ouro e a terceira mina de cobre do mundo atiçou cobiças. Um mês após a declaração de independência, as forças armadas holandesas e inglesas aliaram-se para tentar retomar o controlo do território. Seguiram-se então quatro anos de guerra colonial, que conduziram, em 1949, a uma retirada dos Países Baixos, que conservaram no entanto uma porção de terra, a Papua Nova Guiné, que só acederá à independência em 1975.

 

Embora amputada de uma parte do seu território, a Indonésia permaneceu um país estratégico nesta região do mundo, ao mesmo tempo pelos seus recursos naturais e pela sua situação geográfica: o país está com efeito no coração do sistema marítimo do sudeste asiático, de importância capital para a Austrália, o Japão e sobretudo os Estados Unidos. Estes interessam-se de perto, desde o começo da Guerra fria, pela situação política indonésia. Num país povoado na época por mais de 150 milhões de habitantes, maioritariamente muçulmanos, as escolhas políticas do presidente Sukarno tinham poucas possibilidades de agradar a Washington: com efeito, escolheu aliar-se com o Partido Comunista Indonésio (PKI) em nome da unidade nacional.

 

Para evitar que o “dominó” indonésio caísse do lado da URSS, a política da CIA visou pôr termo à aliança entre Sukarno e os comunistas, mas também liquidar a oposição comunista, e colocar um militar no poder.

 

A CIA DESESTABILIZA SUKARNO

 

Para isso, os Estados Unidos procuraram primeiro desestabilizar o regime existente. Uma política enquadrada por uma directiva do Conselho de Segurança Nacional de 1953, que apelou a «uma acção adequada, em colaboração com outros países amigos, a fim de impedir um controlo permanente dos comunistas» na Indonésia. A directiva NSC 171/1 previu ao mesmo tempo apoiar guerrilheiros [maquis] separatistas e treinar quadros do exército indonésio a fim de criar uma tensão que permitiria aumentar a influência estado-unidense e fazer recuar os comunistas. No mesmo ano, o director da CIA, John Foster Dulles, declarou ao novo embaixador na Indonésia, Hugh S. Cumming Jr, que ele não devia «unir-se de maneira irrevogável a uma política de preservação da unidade da Indonésia (...). A preservação da unidade de um país pode ter perigos, e faço referência à China» [1]. Além disso, a agência estado-unidense escolheu apoiar partidos políticos que pertenciam ao campo dos «moderados (...) sobre a direita», nomeadamente o Partido Masjumi e o Partido Socialista Indonésio (PSI). Langley devorou assim somas consideráveis no PSI. Este investimento revelou-se rentável: das fileiras deste partido emergiram figuras importantes como Sjam, considerado o cérebro do golpe de Estado de 1965, mas também militares como Sarwo Edhie e Suwarto, que formará o futuro presidente Suharto.

 

Nos anos 1957-1958, a CIA forneceu armas e homens aos movimentos rebeldes do PRRI-Permesta que exerceram sevícias em Sulawesi e em Sumatra-Oeste. Embora secretas, estas operações não eram sempre discretas e inofensivas, bem pelo contrário. Em Abril de 1958, um avião largou uma bomba sobre uma embarcação ancorada no porto Ambon, matando todos a bordo. O aparelho atingiu seguidamente uma igreja, destruindo a construção sem deixar sobreviventes. De acordo com o presidente Sukarno, que contou este episódio bem mais tarde, o ataque fez mais de 700 mortos, essencialmente civis. Em 15 de Maio, um avião da CIA bombardeou o mercado Ambon, matando um grande número de civis a caminho da igreja nesta quinta-feira da Ascensão. Três dias mais tarde, no decurso de um novo ataque sobre a cidade, Allen Lawrence Pope, piloto da CIA, foi capturado depois de o seu avião ter sido abatido. Esta falta de discrição não era o efeito de uma inépcia ou do acaso. O objectivo dos serviços de informação estado-unidenses não era, à época, derrubar o governo instaurado por Sukarno, mas antes «manter [os seus] pés perto do fogo», como explicou Frank Wisner em 1956, quando era subdirector das operações secretas em Langley [2]. Tratava-se de manter o presidente indonésio num estado de temor em relação a uma revolta armada pela CIA, e de levá-lo assim a apoiar­‑se sobre o exército, que aparecia como a única defesa. Esta política foi coroada de sucessos: em 14 de Março de 1957, Sukarno proclamou a lei marcial, o que levou o exército ao coração da esfera política. A comissão de inquérito senatorial consagrada à CIA emitiu mesmo a hipótese, em 1975, de a agência ter tido uma parte de responsabilidade na tentativa de assassinato do líder indonésio em Cikini, em Novembro de 1957. Mas o assunto não foi aprofundado.

 

Apoio maciço ao exército

 

Se a «estratégia da tensão» instaurada por Washington funcionou bem a nível político, dado que os militares tomaram gradualmente um lugar preponderante na vida do país, o apoio à guerrilha não permitiu a esta obter os sucessos militares esperados. A partir de 1 Agosto de 1958, a CIA constatou este malogro e iniciou um programa de assistência militar maciça à Indonésia, num montante avaliado em 20 milhões de dólares anuais. O objectivo era sempre o mesmo, de acordo com um memorando do Estado-maior inter­armas de 1958: tratava-se de ajudar o exército indonésio enquanto «única força não­‑comunista (...) que tem a capacidade de estorvar (...) o PKI». A ajuda financeira servia também de «incentivo» ao general Nasution para que pudesse «levar a efeito o seu plano para controlar o comunismo» [3]. O detalhe deste plano não foi dado no memorando. Mas é suficiente recordar o papel de Nasution na repressão de Madiun, em 1948: na sequência de uma provocação do exército, uma revolta de quadros do PKI foi reprimida num banho de sangue pelo general. Em 1965, imediatamente depois do verdadeiro­‑falso golpe de Estado do Gestapu, apelava à exterminação total do PKI, «até às suas últimas raízes para que não haja um terceiro Madiun» [ 4 ].

 

O lugar preponderante do partido comunista na paisagem política indonésia levou gradualmente a CIA a acentuar o seu envolvimento no terreno. Por pequenos toques sucessivos, Washington irá assim aplicar na Indonésia a doutrina de guerra revolucionária elaborada pelos militares franceses de regresso da Indochina ou, mais tarde, da Argélia. Uma prática militar fundada sobre «a deslocação de populações a grande escala, cadastro sistemático, a criação de milícias de autodefesa, a acção psicológica, as operações de controlo de zonas delimitadas e as “hierarquias paralelas”» [5].

 

Um elemento importante do dispositivo era a propaganda ou «acção psicológica» no vocabulário militar. Para preparar a população para a eliminação da oposição política constituída pelos comunistas do PKI, mas também para desviar a atenção da opinião pública internacional, a CIA irá, por intermédio dos think-tanks que financiava, incentivar universitários a publicar trabalhos sobre o perigo vermelho na Indonésia. Um dos principais retransmissores era Guy Pauker, professor na Universidade de Berkeley, na Califórnia, e consultor na RAND. A este título, ele estava, de acordo com as suas próprias palavras, em contacto frequente com «um grupo muito pequeno» de intelectuais do Partido Socialista Indonésio e os «seus amigos no seio do exército» [6].

 

O EXÉRCITO INDONÉSIO NA VANGUARDA DA “CONTRA­‑INSURREIÇÃO”

 

Washington apoiou igualmente financeiramente todas as iniciativas dos generais indonésios destinadas a converter o exército à doutrina de contra­‑insurreição. Um dos personagens centrais deste dispositivo foi o general Suwarto, que seguiu uma formação militar nos Estados Unidos e estava muito próximo de Guy Pauker. A partir de 1958, lançou-se na transformação do Indonesian Army Staff and Command School de Bandung (SESKOAD) num centro de treino para a conquista do poder político. O SESKOAD era então objecto de todas as atenções do Pentágono, da Rand e da Fundação Ford. Sob a influência de Nasution e Suwarto, a escola desenvolveu uma nova doutrina estratégica intitulada Territorial Warfare (ou “guerra territorial”) de acordo com um documento traduzido por Guy Pauker, que colocou a estratégia contra­­‑insurreccional no cerne das preocupações do exército indonésio. A partir de 1962, a administração Kennedy ajudou o exército indonésio a desenvolver programas de «acção cívica», que lhe permitiram elaborar a sua própria infra-estrutura política, às vezes até ao nível das aldeias. Em 1962, na sequência de uma recomendação do departamento de Estado estado-unidense, uma unidade especial do US MILTAG (Military Training Advisory Group) foi instalada em Jakarta, a fim de ajudar à aplicação deste programa que permitirá, mais tarde, criar milícias locais como o prevê a «guerra revolucionária». De acordo com Peter Dale Scott, «o SESKOAD formou igualmente oficiais do exército em economia e administração, para assim operar quase como um para-Estado, independente do governo de Sukarno» [7]. O que corresponde à «hierarquia paralela» evocada mais acima. Civis, formados no âmbito de um programa de treino financiado pela Fundação Ford, foram envolvidos seguidamente no que o agregado militar estado-unidense Willis G. Ethel chamou a «planificação contingente» visando impedir uma tomada do poder pelo PKI.

 

O Coronel Suharto juntou-se ao SESKOAD em Outubro de 1959, onde se tornou próximo de Suwarto. Durante a Segunda Guerra Mundial, este muçulmano autoritário tinha lutado do lado dos Japoneses, antes de se juntar à Indonésia após a declaração de independência. Na escola militar, envolveu-se na elaboração da doutrina da “guerra territorial”. Embora nunca se tenha deslocado aos Estados Unidos, participou nos programas de “acção cívica” com vários oficiais próximos do PSI, e portanto dos Estados Unidos. A ideologia da contra­‑insurreição tornou-se progressivamente maioritária nas fileiras do exército, como o confirmou um seminário organizado na SESKOAD em Abril de 1965, que «reafirmava as reivindicações do exército a desempenhar um papel político independente».

 

Esta política, que visava em definitivo eliminar os comunistas em proveito de uma ditadura militar, não foi unânime. No Estado-maior, existia um campo composto de fiéis do chefe de Estado-maior Yani, ele mesmo apoiante indefectível do presidente Sukarno, apesar das suas reservas no que diz respeito à aliança com os comunistas. Era este campo que controlava o exército regular. Era pois ele que iria ser visado pelo verdadeiro­‑falso golpe de Estado de Setembro de 1965.

 

FALSO GOLPE DE ESTADO E VERDADEIRA CONSPIRAÇÃO

 

Este golpe de Estado, intitulado Gestapu [8], visava oficialmente eliminar seis generais do exército indonésio que teriam eles mesmos estado a elaborar um golpe de Estado contra o presidente Sukarno. No entanto, a lista dos alvos escolhidos pelo pequeno grupo Gestapu presta­‑se à reflexão. Ela compreendia com efeito Yani e quatro dos seus mais próximos generais, todos reputados bastante próximos de Sukarno. Pelo contrário, nenhum general anti­‑Sukarno era visado, com a excepção de Nasution [9].

 

Pode-se por conseguinte considerar que a “verdadeira-falsa conspiração” é apenas o pretexto necessário aos homens de Suharto para efectuar a sua “conspiração na conspiração”. Em vez de procurar defender o presidente indonésio, os conjurados visavam precisamente a fracção do exército mais leal a Sukarno. O porta­‑voz autoproclamado do Gestapu, o tenente-coronel Untung, declarou em 1 Outubro que Sukarno estava sob a protecção da organização. Afirmou além disso que um Conselho dos generais apoiado pela CIA tencionava realizar um golpe de Estado antes de 5 de Outubro e tinha, nesta óptica, reunido tropas vindas do Leste, do Centro e do Oeste em Jakarta. Na realidade, estas tropas deviam desfilar nas ruas da capital indonésia no desfile das forças armadas de 5 de Outubro, uma manifestação que o próprio Untung tinha preparado, seleccionando as unidades que deviam participar.

 

As declarações públicas de Suharto neste período conturbado são eloquentes: reafirmou a sua lealdade ao presidente Sukarno, acusando jovens e mulheres do PKI, bem como «elementos do exército do ar» de ser os responsáveis pela morte dos seis generais, sem prova tangível. No entanto, os assassinatos tinham sido perpetrados pelos elementos que Untung acusava de querer fomentar um golpe de Estado e que estavam colocados sob o comando de Suharto.

 

O objectivo do putsch do Gestapu é pois falacioso: como escreveu Peter Dale Scott, «o seu discurso e antes de mais todas as suas acções não eram simplesmente ineptas»; eram organizadas com cuidado para preparar uma reacção de Suharto igualmente falaciosa». Assim como os únicos generais assassinados foram os que podiam impedir Suharto de aceder ao poder, as suas instalações foram as únicas a não ser guardadas pelos homens do Gestapu. Além disso, o anúncio pelo Gestapu da transferência do poder para um “Conselho revolucionário” imaginário, do qual era excluído Sukarno, permitiu a Suharto pavonear­‑se em defensor de Sukarno, no próprio momento em que se assegurava precisamente de que ele não poderia retomar o controlo do país. Por fim, o assassinato dos generais, que se desenrolou não longe de uma base do exército do ar onde jovens membros do PKI estavam em cursos de formação, permitiu a Suharto, «numa manobra digna de Goebbels», imputar a responsabilidade as este bodes expiatórios.

 

MASSACRES PREMEDITADOS

 

Começou então uma gigantesca vaga de repressão dirigida contra os membros do PKI. Homens, mulheres e crianças suspeitos de estar próximos dos comunistas foram massacrados um pouco por todo o país. Numerosos responsáveis estado-unidenses, e mesmo jornalistas e universitários, apresentaram estes massacres como uma simples reacção popular e espontânea ao que o embaixador estado-unidense Jones chamará mais tarde a «carnificina» cometida pelo PKI. A carnificina não é no entanto o feito dos comunistas, mas antes das milícias paramilitares instauradas desde 1958 pelos programas contra­­­‑insurreccionais do SESKOAD. O exército encarregou­‑se nomeadamente de fornecer armas aos estudantes e sindicalistas muçulmanos. Os Estados Unidos, pelo seu lado, forneceram listas de nomes de líderes comunistas aos militares indonésios, riscando progressivamente os nomes daqueles que foram executados. O embaixador britânico em Jakarta, Sir Andrew Gilchrist, comunicou o seu entusiasmo, numa mensagem dirigida ao Foreign Office: «nunca vos escondi a minha crença no facto de que algumas execuções na Indonésia poderiam ser um preliminar essencial para uma mudança efectiva» [10]. Em alguns meses, entre 500.000 e um milhão de Indonésios foram massacrados, segundo Ralph McGehee, antigo responsável da CIA [11].

 

Estes massacres nada tinham de espontâneo. Necessitavam pelo contrário de uma preparação minuciosa, e de uma importante logística. Exigiam igualmente um acondicionamento da população civil a fim de poder transformá­‑la, no momento oportuno, em milícia exterminadora. Vários elementos permitem apoiar esta hipótese. O investigador Neville Maxwell, membro do Institute of Commonwealth Studies, contou assim como tinha tido acesso a uma carta dirigida ao ministro dos Negócios estrangeiros paquistanês da época, o Sr. Bhutto. Este correio, enviado por um dos seus embaixadores na Europa, relatava uma conversação entre um responsável dos serviços de informação holandeses e um membro da NATO. Segundo a missiva, o oficial teria indicado que «a Indonésia vai cair na escarcela do Ocidente como uma maçã podre. (...) Os serviços de informação ocidentais, disse, vão organizar um “golpe de Estado comunista prematuro” [que estará] destinado a encalhar, oferecendo uma oportunidade legítima e bem­‑vinda ao exército para esmagar os comunistas e fazer de Sukarno um prisioneiro à mercê do exército» [12].

 

A carta datava de Dezembro de 1964. A partir de 1950-1952, William Kintner, oficial superior da CIA que trabalha para o think­‑tank Foreign Policy Research Institute (FPRI), financiado pela CIA, escrevia, em referência ao PKI, que, «com a ajuda do Ocidente, os líderes políticos asiáticos – aliados aos militares – não deverão simplesmente conservar e sobreviver, mas reformar e avançar liquidando ao mesmo tempo as forças políticas e de guerrilha do inimigo».

 

O golpe de Estado e os massacres que se seguiram permitiram aos Estados Unidos tirar partido do país, e nomeadamente dos seus recursos petrolíferos e minerais. A indústria do petróleo foi nacionalizada e confiada à sociedade pública Pertamina, dirigida pelo exército. Esta alugará nomeadamente os serviços de George Benson, antigo membro do MILTAG de Jakarta, enquanto lobbista em Washington. A sociedade estado-unidense Freeport Sulphur, que já tinha realizado um arranjo preliminar em Abril de 1965, foi autorizada a lançar um investimento de 500 milhões de dólares pelo cobre da Papua Nova Guiné. Um dos directores da sociedade era então Robert A. Lovett, um parceiro de investimento de Averell Harriman, que tinha obrado, quando estava no Departamento de Estado, de modo que os Estados Unidos apoiassem a conquista deste território pela Indonésia. No que diz respeito ao ouro preto, a pequena companhia petrolífera Asamera realizou uma joint-venture com a Pertamina no dia do desencadeamento do Gestapu. Encontrava­‑se, no conselho de administração da empresa, a sociedade Allied Chemical, dirigida por John J. McCloy. Este, antigo secretário adjunto para a Guerra de Roosevelt, depois membro da Fundação Ford, e em tempos presidente do Banco internacional para a reconstrução e o desenvolvimento, predecessor do Banco Mundial, tinha sido nomeado, em Agosto de 1965, na equipa de Lyndon Johnson encarregada elaborar a política vietnamita da administração estado-unidense.

 

Mas para lá deste sucesso “económico”, a chegada ao poder de Suharto estabeleceu sobretudo um modelo estratégico a seguir pelos Estados Unidos, que o vão aplicar de seguida em numerosas outras zonas geográficas. Será o caso no Vietname, com a operação Phoenix, depois no Chile e na América Latina com a Operação Condor. A analogia com a chegada ao poder de Pinochet é perturbante: tal como na Indonésia, o general chileno pretextou a existência de uma conspiração dos comunistas – o famoso “plano Z” – para organizar em reacção um golpe de Estado preventivo e tomar o controlo do país, apoiando-se no exército. Nos dois casos, a existência de uma conspiração inicial é posta fortemente em dúvida pelos elementos materiais recolhidos pelos historiadores. A Indonésia terá pois servido de ponto de referência para os teóricos da «guerra revolucionária», envolvendo pela primeira vez populações civis manipuladas numa série de massacres de grande amplitude, aqui manipulando critérios político­‑religiosos, noutro lugar utilizando clivagens étnicas. Ninguém duvida que o exemplo foi retido pelos diferentes exércitos do mundo, e nomeadamente os generais franceses que fizeram a aplicação no Biafra, seguidamente no Ruanda.

 

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[1] Leonard Mosley, Dulles, The Dial Press / James Wade, 1978, p.437.

 

[2] Joseph Burkholder Smith, Portrait of a Cold Warrior, G.P. Putnam's Sons, 1976 (p. 205).

 

[3] JCS Memo for SecDef, 22 Setembro 1958. Publicado em Declassified Documents Quaterly Catalogue, 1982, 002386.

 

[4] Citado em Julie Southwood e Patrick Flanagan, Indonesia: Law, Propaganda, and Terror, Zed Press, 1983, p. 68.

 

[5] Patrick de Saint-Exupéry, L’inavouable. La France au Rwanda, Les Arènes, Março 2004. Ver igualmente a tese de Gabriel Périès sobrea guerra revolucionária: De l’action militaire à l’action politique, impulsion, codification et application de la doctrine de la guerre révolutionnaire (1944-1960), Université de Paris I.

 

[6] David Ransom, Ford Country: Building an Elite for Indonesia”, in The Trojan Horse, de Steve Weissman (ed.), Ramparts Press, 1974.

 

[7] Peter Dale Scott, “The United States and the overthrow of Sukarno, 1965-67”, Lobster, n.° 20, Novembro 1990.

 

[8] Na versão oficial, este termo designa o “30 de Setembro” (“Gerakan September Tigapuluh”) em indonésio. Contudo, parece que esta denominação não é correcta nesta língua, mas corresponde à maneira anglófona de fixação de datas, que faz seguir o mês, depois o dia e por fim o ano.

 

[9] Este, próximo da CIA até ao início dos anos 1960, tinha caído em desgraça depois pelas suas adesões episódicas a Sukarno. Considerado doravante pouco fiável, verá por conseguinte a sua filha e o seu ajudante de campo ser assassinados, antes de poder escapar. Seguidamente apoiará as “purgas” anti­comunistas.

 

[10] Citado em Mark Curtis, Web of Deceit – Britain’s Real Role in the World, Vintage, 2003.

 

[11] Ralph McGehee, “The C.I.A. and the White Paper on El Salvador”, Nation, 11 Abril 1981.

 

[12] Citado em Julie Southwood e Patrick Flanagan, Indonesia: Law, Propaganda, and Terror, Zed Press, 1983, p. 13.

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